Um Olhar sobre o Oriente

“Um Olhar sobre o Oriente: As Artes Decorativas da Era Estética, Arte Nova e o Orientalismo 1870-1920” é o título da exposição patente ao público no Museum of Fine Arts, em Houston, até 23 de Outubro de 2016, a qual inclui mobiliário, vidro, cerâmica, têxteis, papéis pintados e outros objectos de todas as áreas das Artes Decorativas com influência no Oriente.

O Movimento Estético que nasceu em Inglaterra no ano de 1860, como parte de um grande esforço reformador, teve em John Ruskin e William Morris os seus principais responsáveis. A Ruskin coube o papel de rejeitar a distinção entre as Artes Maiores e as Artes Menores.

 

Volvida uma década (1870), o referido movimento espalha-se por outros países, incluindo a América, com uma acção igualmente importante pois evidência o papel do decorador profissional, promove a participação activa da mulher na Arte, estimula a educação artística e prepara o terreno para a moderna progressão de todas as Artes Decorativas.

De facto, à falta de iniciativas capazes de procurar novas formas, o mundo europeu tinha-se refugiado no passado e procurava reencontrar as tradições. O gótico inglês do século XV tinha tomado um tal carácter sublime para os homens vitorianos que o “gothic revival” apareceu como um fenómeno de legitimidade incontestável. Reinava por toda a Europa a paixão pelos objectos antigos. Os Bancos, os Mercados e as Gares, davam a sensação de não terem sido realizados para industriais ou comerciantes, mas sim para cavaleiros e monges da Idade Média.

Era urgente reagir e ter espírito de aventura. Contra alguns homens como William Morris, Ruskin, Owen Jones, James Whistler e Walter Crane desencadeava-se um duplo poder: o dinheiro ligado ao conservadorismo rotineiro e a fortaleza da arte dita oficial, prestigiada pelas autoridades de uma sociedade fechada a qualquer novidade.

Sem apoio e com arrojo, estes homens decidem desembaraçar as casas burguesas dos adornos anacrónicos e dar-lhes um estilo novo adaptado aos usos da época.

A concepção do novo movimento não era apenas uma revolução estética, mas uma poesia, uma filosofia e um movimento do pensamento humanístico, além também de um conceito aberto que abrangia múltiplas implicações no domínio das relações do homem com a Arte e das relações da Arte com a sociedade.

No princípio da denominada “Era Estética”, como alternativa, os ideólogos deste movimento propunham defender os saberes tradicionais e requalificar o artesanato britânico, passado para segundo plano com a chegada da industrialização.

Imediatamente surgiram grupos de arquitectos e artistas, defensores de um papel social a ser desempenhado pela arte na educação da sensibilidade e do gosto. Simultaneamente, procuravam encontrar meios adequados à produção manual de objectos originais. Surgiu então a preocupação, por parte dos coleccionadores, da composição dos espaços de modo a valorizar os objectos preciosos, nascendo assim um sentido de unidade na decoração de interiores. De repente, surgiram decoradores como Edward Godwin, Aitchison George, Philip Webb, Thomas Jeckyll, William Morris e Louis Comfort Tiffany.

A eles se deve a concepção de que a residência do homem comum, tenha voltado a ter a criação valiosa do pensamento do arquitecto e, que uma cadeira, um papel de parede ou uma jarra tivessem, de novo, as criações valiosas da imaginação do artista.

Alguns conceitos visuais do “Movimento Estético” continuaram a desenvolver-se a partir dos movimentos da Arte Nova e da “Arts & Crafts”, tendo os seus princípios influenciado artistas, “designers” e artesãos do século XX. Estes novos conceitos, tiveram tal impacto que foram capazes de quebrar as divisões arbitrárias que existiam nas Artes.

A partir de 1890, o “Movimento Estético” liga-se ao estilo internacional da “Arte Nova” espalhando-se por toda a Europa: Alemanha, Países Baixos, Áustria e Escandinávia. Ainda que sucessora do movimento inglês, a Arte Nova possui uma filosofia um pouco distinta. Menos que uma atitude de recusa à indústria, a produção Arte Nova coloca-se no seu interior, valendo-se dos novos materiais do mundo moderno (ferro, vidro e cimento), assim como da racionalidade das ciências e da engenharia. Trata-se de integrar arte, lógica industrial e sociedade de massas, desafiando alguns princípios básicos da produção em série, por exemplo, o emprego de materiais baratos e o “design” inferior. Como indicam a arquitectura, o mobiliário, os objectos e ilustrações realizados sob o signo da Arte Nova - as cerâmicas e os objectos de vidro de Émile Gallé (1846 - 1904), os vidros de Louis Comfort Tiffany (1848 - 1933), a mobília de influência indiana de Lockwood de Forest (1850 - 1932) e outros -, o estilo visa revalorizar a beleza, colocando-a ao alcance de todos. A articulação estreita entre arte e indústria, função e forma, utilidade e ornamento parece ser o principal objectivo dos artistas.

Além das questões relativas, a contextualização da Arte Nova também resgatava as discussões do “Arts and Crafts” acerca do papel do artista, bem como da qualidade artística das obras frente às imposições da indústria. Sob tal conjuntura, segundo a França (1987), o estilo Arte Nova busca, sob influência as ideias de Morris, dos impressionistas e dos simbolistas, conciliando a arte e a técnica. De acordo com Sembach (2007), a Arte Nova pode ser interpretada como uma tentativa de conciliar as aspirações artísticas herdadas do passado e os fenómenos da era técnica, um contacto, que até então, historicamente, tinha-se processado de forma efémera e defensiva. Outra influência notável na Arte Nova é a arte oriental que sob a forma do Japonismo, que instituiu padrões estéticos totalmente diferentes da tradição ocidental, contribuindo de forma veemente para a criação de um estilo original e inovador. Segundo Colquhoun (2005), elementos que remetem aos estilos medieval e rococó também se fazem presentes neste novo movimento, evidenciando o resgate histórico como fonte de inspiração para a criação de algo totalmente novo.

Quando a Arte Nova incorporava elementos do passado, utilizava-se de estilos tão distanciados - no tempo (medievais) ou no espaço (chineses, japoneses) – da tradição renascentista clássica que o resultado ainda assim parecia original e moderno.

 

A Exposição

A mostra representa o primeiro evento internacional neste museu a apresentar o movimento estético na América (1860-1900). O renascer dos movimentos da “nova arte” no final do século XIX - o esteticismo - é agora reconhecido pela sua revolucionária renegociação das relações entre o artista e a sociedade, entre a Arte em geral e as Artes Decorativas, bem como entre arte  e a ética da arte e da crítica. As sensibilidades estéticas produziram algumas das obras mais notáveis de sofisticação e de sensualidade da tradição ocidental e oriental.

A exposição apresenta objectos magníficos da arte tradicional, até às tendências da época no “design” de interiores, mobiliário e artes decorativas. A mostra destaca a evolução do “Movimento Estético” a partir das preocupações artísticas de um pequeno círculo de vanguarda e autores até ao fenómeno de grande amplitude cultural.

De evidenciar os motivos decorativos de inspiração oriental, que eram desenvolvidos neste movimento artístico, como as peónias, as flores de cerejeira e ainda elementos da Índia, da arte grega antiga e do Japão do período a seguir à entrada dos americanos a quebrar com aquele mundo fechado durante séculos.

Paralelamente a estes trabalhos, estão expostos objectos de uma selecção de peças, incluindo trabalhos em metal, cerâmicas, vidros e mobílias, realizadas por artistas como Lockwood de Forest, Louis Comfort Tiffany, Clara Driscoll, Joseph-Théodore Deck e Émile Gallé.

O mobiliário está representado, através das obras de Ahmedabad Wood Carving Company e Herter Brothers, entre outros, assim como o vidro e a cerâmica criados por Louis Comfort Tiffany, Clara Driscoll, Joseph-Théodore Deck e Émile Gallé e outros “designers” e fabricantes que trabalharam nessa época.

Muitos destes “designers” foram figuras destacadas do “Movimento Estético” e da Arte Nova, essenciais no desenvolvimento destas acções através do seu incentivo aos artistas. As empresas tornaram-se sinónimo deste novo estilo.

Uma exposição excelente, que nos mostra como o chamado “Movimento Estético” e a Arte Nova redescobriram a poesia dos objectos, a magia das cores e a influência do Oriente, a reacção contra a vida ritmada pela máquina, o desejo de evasão de um passado suficientemente afastado para se cobrir de sonhos e demasiado próximo para ser esquecido e, finalmente, que em Arte os verbos se conjugam numa linguagem universal.

 

Artistas da Época Lockwood de Forest

Lockwood de Forest (1850 - 1932) foi pintor, decorador de interiores e “designer” de móveis. Nasceu em Nova Iorque, em 1850. Forest foi uma figura chave no movimento estético, já que introduziu o renascimento do artesanato indiano na América.

Por volta de 1874, Forest começou por interessar-se pela decoração e pela arquitectura depois de consultar a biblioteca da casa do pintor Frederic Edwin Church, em estilo persa, em Olana, Nova Iorque. O primeiro grande projecto de “design” de interiores de Forest foi a remodelação da casa do seu pai em Nova Iorque, em 1876. Três anos depois, o decorador começou a sua carreira nas Artes Decorativas trabalhando com artistas associados, juntamente com Louis Comfort Tiffany, que criou o negócio da decoração de interiores, que durou trinta anos. Em 1879, Forest tornou-se sócio da empresa de design Associated Artists, com Louis Comfort Tiffany (1848-1933), Samuel Colman (1832-1920), e Candace Wheeler (1827-1923), onde dirigiu a produção de madeira para arquitectura. A Associated Artists durou apenas quatro anos, no entanto esta firma foi uma das empresas de decoração mais influentes do século XIX e na vanguarda do movimento estético americano, que valorizava o trabalho manual, a cor e a textura, o bom gosto e temas exóticos do “design”.

No mesmo ano em que se juntou à Associated Artists, ​​Forest visitou a Índia durante dois anos, recolheu móveis, jóias e têxteis através das cidades, como Bombaim, Surat, Baroda, Ahmadabad, Agra, Delhi, Amritsar, Lahore e Srinagar. Em Ahmadabad, Forest conheceu Muggunbhai Hutheesing, um filantropo interessado nas artes, e os dois criaram a Ahmadabad Woodcarving Company.

A Associated Artists encerrou a sua actividade em 1882. Entretanto, Forest abriu a sua própria empresa de “design”, em Nova Iorque, onde se dedicava à produção e importação de produtos da Índia projectando os seus próprios móveis e ornamentos arquitectónicos. Finalmente, em 1908, transferiu a Ahmedabad Woodcarving Company para a Tiffany.

 

A empresa Herter Brothers

A empresa Herter Brothers, Nova Iorque, (1864/1906), fundada por Gustave (1830-1898) e Christian Herter (1839-1883), começou como um armazém de tapeçarias e tornou-se numa das primeiras empresas fabricante de móveis e decoradores de interiores nos Estados Unidos, após a Guerra Civil. Com o seu próprio escritório de “design”, marcenaria e oficinas de estofador, a empresa Herter Brothers estava preparada para realizar todos os detalhes da decoração de interiores, incluindo painéis decorativos e cornijas, decoração de paredes e de tectos, papéis de parede, tapetes e cortinados.

 

Vidro Tiffany

O Vidro Tiffany refere-se aos muitos e variados tipos de vidro desenvolvidos e produzidos entre 1878 e 1933 nos estúdios da Tiffany, em Nova Iorque, por Louis Comfort Tiffany e uma equipa de outros “designers”, incluindo Clara Driscoll.

Em 1865, Tiffany viajou para a Europa e, em Londres, visitou o Victoria and Albert Museum, cuja colecção de vidros romanos e vidro sírio, causou-lhe uma profunda impressão. Tiffany admirava a coloração do vidro medieval e estava convencido que a qualidade do vidro contemporâneo poderia ser melhorada. Tiffany foi também um “designer” de interiores e, em 1878, começou a interessar-se pela criação de vitrais, quando abriu o seu próprio estúdio e a fundição de vidro, porque era incapaz de encontrar os tipos de vidro que desejava para a decoração de interiores. Tiffany queria que o vidro transmitisse texturas e cores fortes e, por isso, desenvolveu um género de vidro a que chamou Favrile .

 

Joseph-Théodore Deck

Joseph-Théodore Deck (1823 - 1891) ceramista francês do século XIX. Nasceu em Guebwiller, Haut-Rhin e começou a aprender o seu ofício em 1843. Volvidos quatro anos, foi viver para Paris. Em 1856, Joseph-Théodore criou a sua própria oficina de faiança, Joseph-Théodore Deck Ceramique Française. Logo começou a experimentar o estilo islâmico na fabricação de cerâmica, e em particular o estilo Iznik. Em 1880 Joseph-Théodore também trabalhou na tradição chinesa, colaborando com Raphaël Collin e outros artistas da época. O ceramista, em 1887, publicou um tratado com o título “La Faïence”, que alcançou grande sucesso.

 

Émile Gallé

Émile Gallé (1846 —1904), vitralista e ebanista (a partir de 1880) francês, foi um dos maiores expoentes da Arte Nova. Trabalhou com vidros opacos e semitransparentes, ganhando sucesso internacional graças à estilização dos seus motivos florais. Em termos de mobiliário, reinaugurou a tradição da “marqueterie”. A principal temática dos seus trabalhos são flores e folhagens, realizadas em camadas sobrepostas de vidro, uma técnica, que ele desenvolveu com mestria, através da opacidade e translucidez do material. Em 1862 mudou-se para Weimar, não para estudar vidraria, mas filosofia, botânica, mineralogia e zoologia - o que mostra a sua paixão pela flora e pela fauna. A sua ligação à mineralogia tornou-o especialista na técnica do fabrico do vidro, o que lhe permitiu realizar numerosas invenções nesse âmbito.

 

Eis uma exposição de grande mérito, que abre muitas janelas para um tema pouco estudado, posto que quase todos se centram no estilo Arte Nova e muito pouco mais para além desse movimento que valoriza a mulher e as flores, as curvas e as contra-curvas. Que tal uma ida a Houston para receber uma excepcional lição?

Theresa Bêco do Lobo

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