IMPRESSÕES DE FÁTIMA

Quando Nossa Senhora de Fátima apareceu aos três pastorinhos, a minha mãe nem sequer era nascida. Nos finais dos Anos 40 comecei a tomar conhecimento de uma grande devoção a Nossa Senhora de Fátima e nos Anos 50, de 1 a 31 de Maio comecei a ir todas as noites à Igreja onde se realizava o mês de Maria. Bons tempos que recordo com infinitas saudades. Nessa fase da minha vida, tudo para mim era puro, considerava que todas as pessoas eram maravilhosas. Rezava o terço, cantava e chegava a casa muito feliz.

 

A vida dá as voltas necessárias para cumprirmos o que nos está destinado e quando chegou a fase de estudar o que já não havia no Algarve lá vim eu para as aulas e para um Lar de Freiras onde também se celebrava o mês de Maria.

 

Nesse tempo já sabia o que tinha sucedido em Fátima e interessei-me por ouvir depoimentos de pessoas que estiveram lá a 13 de Outubro de 1917.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Baronesa de Resende 

Depoimento

 

Em jovem, escutei três relatos de três senhoras credíveis que tiveram a generosidade de me contar como viveram esse dia e o momento em que cada uma descreveu como ficou com as mãos em direcção ao céu.

 

A primeira que me fez o relato foi a Baronesa de Resende, minha familiar, de quem fui herdeira, que amei como uma filha ama a sua mãe, de quem fui amiga e presente até ao dia em que Deus a levou, deixando-me mais pobre e com menos luz. Ela foi durante muitos anos a pessoa com quem contava em todos os momentos, uma espécie de continuidade da minha avó que tinha deixado no Algarve. Em Lisboa, passei a ter por guia condutora a Maria de Resende, primeira locutora oficial portuguesa, (entrou na E.N. em 1938) uma mulher cultíssima que falava fluentemente francês, inglês e alemão. Começou por editar poemas, tinha 24 anos de idade, seguindo-se-lhe livros em prosa, adaptações de peças de teatro, em suma era uma verdadeira intelectual e uma grande senhora. Saiu da E.N. para estar perto da sua mãe - a tia Dores - que entretanto necessitava de cuidados que só uma filha pode dar, tal como eu lhe dei a ela. Mas, mesmo assim, manteve durante nove anos, um programa diário, de sua autoria, no Rádio Clube Português. É obra!

 

A Maria nasceu em 1900 e tinha 17 anos quando foi com a mãe a Fátima. Ambas sentiram uma grande comoção quando depois de tanta chuva, terem visto surgir um grande clarão, redondo, com um halo que girava, fenómeno que nunca mais viu. Era devota de Nossa Senhora de Fátima.

 

A segunda senhora que ouvi descrever a sua ida a Fátima foi a Baronesa de Salvaterra, Senhora Dona Graça Vianna Roquette, que à época era apenas uma menina rica, filha do banqueiro e comerciante Sr. Vianna, o personagem que mandou construir o palácio Vianna, situado no Largo da Biblioteca Pública, nº. 2, em Lisboa, para casar com a Dona Rita Yglesias, ainda aparentada com a família Pérez de Guzmán, razão pela qual os Duques de Medina Sidónia se refugiaram na Casa do Estoril, propriedade dos Vianna, desde sempre, e onde em 1936 nasceu a filha Luísa Isabel, XXI duquesa de Medina Sidónia a quem a minha família da Andaluzia chamava: louca.

 

Quando ouço chamar Palácio Yglésias ao Palácio Vianna, tenho mesmo que sorrir. A Dona Rita habituada a viver em grandes espaços só aceitava casar com o Sr. Vianna se este mandasse construir um palácio em zona nobre de Lisboa. E foi o que aconteceu, em 1859. Assim que o palácio acabou de se construir, realizou-se o casamento e o casal teve um filho (que faleceu em criança) e duas filhas: a Helena e a Graça. O Sr. Vianna abastado como era, chamou um pintor que fez o “croquis” da criança antes do funeral e o retratou tal como foi para o jazigo. O quadro tem grandes dimensões e porque na hora da debandada da família Vianna /Roquette para a casa na Rua de Olivença, no Estoril, ninguém quis o retrato do menino, encarreguei-me de o preservar.

 

Eu sempre lhes chamei tias, mas em boa verdade eram tias do João, e dos gémeos Luís e José Roquette. Os gémeos fazem parte da última geração de estroinas lisboetas e daí que o Palácio tenha sido vendido de mão beijada ao estado português.

 

Contudo, o que interessa para as Impressões de Fátima, foi o depoimento da tia Graça Vianna Roquette que também lá esteve no dia 13 de Outubro de 1917. Contou-me que era devota de Nossa Senhora e tinha ido com a prima Maria Camila Vianna que veio a ser mulher do Ministro Carneiro Pacheco. Foram num grupo de amigas e regressaram muito emocionadas e ainda mais devotas. Em toda a sua vida nunca viram nada igual. Depois de um céu nublado, o Sol explodiu com uma força enorme e à sua volta viram uma luz azulada. A tia Camila disse-me que para ela não era uma luz azulada, mas meio rosa arroxeada. Sentiam-se abençoadas por terem recebido essa graça de Nossa Senhora.

 

Três grandes senhoras: A Maria que era a luz que iluminava a minha estrada, a tia Graça e a tia Camilla, ambas minhas amigas que me mimavam, no dia do meu aniversário, com presentes antigos de pouco valor mas curiosos, relacionados com a minha paixão pela história do traje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transcrição de um texto do livro "Impressões da Arte e da Tristeza"

 

Da autoria de Maria Magdalena de Martel Patrício (editado em 1918)

 

 

Impressões de Fátima

 

“Despovoaram-se os lugares, as aldeias, as cidades próximas.

 

Pelas estradas, já nas vésperas, seguiam grupos de romeiros a caminho de Fátima.

 

Pescadores da Vieira deixaram as casas de madeira negra assentes sobre o mar, as lides da arrumação da pescaria. Pelos pinhais, onde as camarinhas parecem gotas de orvalho na verdura, pelos areais onde giram as velas dos moinhos, vieram a pé, os “coturnos” de lã nas pernas musculosas, saias de agasalho sobre as costas, à cabeça o saco com o farnel, no passo miúdo e meneado, que lhes fazia voltear a rodaria das saias, e agitar os lenços alaranjados onde assentavam os chapéus pretos. Operários da Marinha, lavradores de Monte Real, das Córtes, dos Marrazes, serranas de longe – das serras do Soubio, de Minde, do Louriçal, gentes de toda a parte onde chegasse a voz do milagre, deixavam as casas e os campos, e vinham por aí fora a cavalo, de carro ou a pé, cruzando as estradas, atravessando montes e pinhais, de longada pelos caminhos, que durante dois dias se animaram do rodar dos jumentos, do vozear dos grupos dos romeiros.

 

O Outono avermelhava as vinhas vindimadas. O vento do nordeste, frio e cortante, anunciando o inverno, fazia tremer os choupos transparentes das bordas dos rios, que desmaiavam saudosos do Sol, em tons amarelos de rendas antigas.

 

Nos areais giravam as velas brancas dos moinhos. Nos pinhais curvavam-se ao vento os cimos verdes dos pinheiros.

 

As nuvens iam cobrindo o céu. Amontoava-se o nevoeiro em flocos leves e macios.

 

O mar, na vastidão da praia da Vieira, espumava, bramia, enrolava-se em ondas altas, e pelos campos ia-se ouvindo, num clamor sinistro, a sua voz!

 

Toda a noite, toda a madrugada choveu, uma chuva miudinha, persistente, que encharcava os campos, que entristecia a terra, que ia trespassando até aos ossos, de uma humidade fria, as mulheres, as crianças, os homens e os animais, que cruzavam as estradas lamacentas, no caminhar apressado para a Serra do Milagre!

 

A chuva caía, caía, caía, macia e teimosa.

 

As saias grossas de estamenha e riscadilho, pingavam, pesavam como chumbo, nas fitas das cinturas. Os barretes e os chapéus largos, escorriam água sobre as jaquetas novas dos fatos de ver a Deus. Os pés descalços das mulheres, as botas ferradas dos homens, chapinhavam nas poças largas do lodaçal das estradas.

 

Mas a chuva parecia que não molhava, parecia que não sentiam a chuva!

 

Caminhavam sempre, subindo a serra, iluminados de fé, na ânsia do milagre que Nossa Senhora prometera, no dia 13, pela uma hora, da hora do Sol; às almas simples e puras de três crianças que apascentavam gados!

 

Iam ficando para trás, perdidos na névoa, esfumados na transparência da chuva, pinheiros, choupos, carvalheiras, manchas vermelhas de vinhas, casais, campos lavrados de terra escura… Os campos eram desertos! As casas eram fechadas!

 

Havia um silêncio estranho nos campos desertos, de gentes e de gados, havia um ar de espera e de emoção, na atitude das coisas, das casas pobres como adormecidas no silêncio, janelas e portas fechadas à luz!

 

A serra era alta, mas parecia aos caminheiros que os não cansava a subida da serra!

 

A serra era triste, cada vez mais triste, as pedras escalvadas e negras sem a alegria da verdura de uma árvore, mas os caminheiros não sentiam a tortura impressionante e trágica da paisagem de dor!

 

A chuva começou a rarear. Era agora só um véu de névoa muito leve, que se ia desfazendo a pouco e pouco, e pouco e pouco se ia aclarando.

 

Aproximava-se um murmúrio que vinha descendo do monte. Murmúrio que parecia uma voz longínqua do mar, que se tinha calado no silêncio dos campos…

 

Eram cânticos que se definiam, entoados por milhares de bocas.No planalto da serra, cobrindo o monte, enchendo um vale, via-se uma mancha enorme e movediça de milhares e milhares de criaturas de Deus, milhares e milhares de almas em prece!

 

Mãos erguidas, olhos em êxtase, vinham na fé ardente da crença. Vinham pedir o milagre a Nossa Senhora, pedir a redenção dos pecados para as amarguras da vida!Há uma hora da tarde, hora do Sol, parou a chuva.

 

O céu tinha um tom acinzentado de pérola e uma claridade estranha iluminava a vastidão bíblica e trágica da paisagem triste, cada vez mais triste…

 

O Sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudessem olhar. O tom cinzento de madrepérola transformava-se como numa chapa de prata luzidia, que se ia rompendo, até que as nuvens se rasgaram e o Sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, se viu rodar, a girar em volta do círculo das nuvens afastadas!

 

Foi um grito só em todas as bocas; caíram de joelhos na terra encharcada, os milhares e milhares de criaturas de Deus, que a fé levantava até ao céu!

 

A luz azulava-se num azul esquisito, como se viesse, através dos vitrais de uma catedral imensa, espalhar-se naquela nave gigantesca, ogivada pelas mãos que se ergueram no ar…

 

O azul extinguiu-se lentamente para a luz parecer coada por vitrais amarelos.Manchas amarelas caíam agora sobre as caras, sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a serra.

 

Tudo chorava, tudo rezava, de chapéu na mão, na impressão grandiosa e única do milagre esperado!Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram!

 

Passaram nuvens sobre a claridade vaga e cinzenta que velava o Sol!

 

As almas em prece, que tiveram por instantes a vida supensa, à vida voltaram.Esfarraparam-se as nuvens, apareceram bocados azuis do céu. O Sol, na serenidade impassível de todo o sempre, iluminou vagamente a serra escalvada, onde Nossa Senhora fez juntar, pela boca de três crianças que apascentavam gado, milhares e milhares de criaturas de Deus!”Outubro, 1917(Quinta do Amparo, no dia 13, à volta do milagre)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

 

Neste momento em que a chuva nos tem incomodado mais do que aquilo que é normal nesta época do ano, acudiu-nos à memória o incómodo que é para todos os romeiros que vão a pé até Fátima, ao encontro de Nossa Senhora, quer para cumprir uma promessa, quer para pedir um milagre.

 

Não vou porque tenho uma sensibilidade muito à flor da pele e nunca mesmo em jovem senti coragem para lá ir num dia em que o recinto por mais que o aumentem é sempre pequeno para tantos devotos. Mas, rezo. E este ano, sinto em mim alguma inquietação porque tenho uma afilhada que partiu do Estoril, a pé, num grupo de romeiros, e receio pelo seu bem-estar. O tempo está péssimo. Oxalá ela tenha a bênção de Nossa Senhora e viva momentos de tanta elevação como a minha saudosa e sempre amada Maria de Resende, as tias Graça e Camilla e obviamente a melhor escritora, alma devota, exemplo de amor à sua pátria que é a Senhora Dona Maria Magdalena de Martel Patrício.

 

A todos os peregrinos desejo uma caminhada sem sobressaltos, com muita união com Deus e um regresso com a alma cheia e fortalecida para suportar os reveses do quotidiano. Venham com Deus e a sua Santíssima Mãe que tem vários nomes: Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, a Mãe de todos nós, aquela a quem nos momentos de aflição pedimos auxílio. Aquela a quem oferecemos o nosso amor e as nossas orações. 

 

                                         Marionela Gusmão

Maria Magdalena de Martel Patrício 

Maria de Resende 

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