Bênçãos do Menino Jesus

Ora deitado em palhinhas, ora envolto em brocados, ora bebé, ora crescidinho, ora seráfico, ora rebelde, Cristo recém-nascido tem motivado nas artes plásticas portuguesas, imagens e interpretações diversificadas.

 

Figura muito afectuosa no nosso imaginário, a personagem de Jesus recém-nascido, cativou sempre os grandes autores, desde os religiosos aos pagãos, dos eruditos aos populares.

Através dos tempos, das culturas, das geografias, o Menino Jesus tornou-se numa presença permanente em todas as expressões da arte sacra. Inclusive nas do Oriente, levado pelos missionários, seduziu os criadores locais, sendo a arte indo-portuguesa e a cíngalo-portuguesa, um exemplo marcante desses factos.

Com efeito, o Menino foi, ao longo dos tempos, adaptado a quase todas as realidades emergentes. Ele surge, por exemplo, de olhos rasgados, de pele escura, de roupas e gestos característicos das divindades das regiões por onde os portugueses levaram novos mundos ao mundo.

 

Menino rebelde

Os textos apócrifos (palavra que significa escrito escondido) apresentam-nos um Menino muito turbulento e rebelde, uma espécie de “Calvin da sua época”, como escreveu António Marujo, na senda de Moisés Espírito Santo.

Essa versão, não reconhecida pela igreja, revela-nos dados surpreendentes: Jesus adorava brincar e pregar partidas a quem o rodeava. Aos 5 anos, moldava pardais em barro, batia as palmas e mandava-os voar. A uma criança que o magoou disse-lhe furibundo: “Tu não prosseguirás o teu caminho”. E no minuto seguinte ela caiu desmaiada no chão.

Os pais foram queixar-se a São José dizendo-lhe: “Com um filho como o teu, não podes ficar na aldeia, ou então ensina-lhe a abençoar em vez de amaldiçoar”. Jesus foi asperamente admoestado pelo pai. No final replicou-lhe: “Por respeito para com a tua pessoa, eu me calarei. Mas eles receberão um castigo.” Pouco depois os queixosos cegaram temporariamente.

 

Gentil e carinhoso

Aqueles textos também nos apresentam um Menino gentil e carinhoso, a ajudar o pai no conserto de móveis, a ordenar a uma palmeira que se incline para a mãe comer os seus frutos, a fazer brotar água das rochas, etc.

Semelhantes passagens teriam sido transmitidas oralmente durante os primeiros tempos do cristianismo. A imagem de Jesus foi-se alterando depois, até surgir como a de um ser divino e imaculado.

As versões posteriores dos apóstolos Marcos e Lucas dão-lhe, no entanto, uma infância calma e bondosa. O Menino parte cântaros, é certo, mas cola-os novamente; mata outros petizes, é igualmente certo, mas ressuscita-os de imediato.

 

Travesso e gorducho

Na arte, o Menino Jesus raramente é representado como um bebé frágil e desprotegido. Pelo contrário, surge-nos como uma criança saudável, travessa e irreverente. Há uma permanente transfiguração para o valorizar e o realçar. Jesus é a figura central, quer no presépio, quer na Sagrada Família, quer ao colo da mãe e dos santos.

O Menino tem uma forte ligação a Nossa Senhora, o que advém da importância da mãe na religião judaica, onde representa o eixo familiar. Na Cristandade, a mulher apenas se realiza, como se sabe, ao ter um filho.

Jesus é representado conforme as classes sociais. As pessoas transferem para a sua imagem a maneira como vivem e se comportam.

Ao longo dos tempos foi desenhado, pintado, modelado, esculpido de inúmeras e diferentes formas. Inicialmente era rude e popular. O requinte advém-lhe, a partir da Idade-Média, de mestres como Pero, João Afonso, Hodarte e Diogo Pires (o Velho e o Moço).

No período seiscentista destacam-se as telas sobre ele de Josefa de Óbidos – de uma certa ingenuidade religiosa mas de uma grande força afectiva. A centúria seguinte é marcada por óleos de Pedro Alexandrino de Carvalho, Joaquim Manuel da Rocha e Vieira Lusitano, bem como por sumptuosas obras escultóricas de Machado de Castro, Barros Laborão e António Ferreira. Elas exprimem todo o brilho e riqueza do chamado século das luzes.

Muitos outros autores vêem no pequeno Deus um ser fora de série, no aspecto, na cor, na expressão, nos gestos. Uns representam-no como um ente para além das proporções humanas. Inclusive na idade-física. É frequente em muitas obras parecer mais velho, mais crescido, mais malicioso, mais irónico, mais sobredotado que as crianças da sua idade. Poucas vezes corresponde, aliás, à imagem do bebé comum. Trata-se, frequentemente, de um recém-nascido, acima do meio que o gerou e envolveu – essa terá sido a maneira que os artistas encontraram para lhe darem a sua excepcionalidade.

A expressão é a de um ser superior que entra em contacto connosco. Jesus é o príncipe vestido de esplendor desde o seu nascimento. Por isso existe sempre a preocupação de o exaltar, o que explica as alterações por ele sofridas.

Quando mais tarde surge de pé, com o globo terrestre encimado com a cruz (Salvador do mundo) e com o ceptro, é já um símbolo do poder, da realeza, da justiça.

 

Ao colo de Santo António

O Menino Jesus populariza-se entre nós ao colo de Santo António, assumindo aspectos de irrecusável ternura e brejeirice. Isso acontece, sobretudo, na região de Lisboa.

O presépio tradicional sobrepõe, no entanto, e simbolicamente, vários momentos do nascimento de Cristo. Os Reis Magos, por exemplo, aparecem na gruta de Belém no sétimo dia, quando o Menino era apenas um ser humano não individualizado – chama-se Jesus por não ter nome.

Os nossos museus, igrejas e colecções particulares encontram-se repletos de imagens suas. Imagens cada vez mais procuradas e disputadas no mercado. Há poucos anos, um óleo de Josefa de Óbidos, “Jesus Cristo Salvador do Mundo”, atingiu 150 mil euros, e uma escultura indo-portuguesa em marfim, “Menino Jesus Bom Pastor”, chegou a 250 mil euros.

Praticamente todas as unidades museológicas nacionais de arte antiga têm núcleos dedicados ao Cristo Menino. O Museu de Arte Antiga expõe o mais completo, com exemplares escultóricos desde os séculos XIII ao XIX. Essa colecção pertenceu, em grande parte, ao comandante Ernesto Vilhena, que passou a vida a recolhe-la pelo país. Após a sua morte a família entregou ao Estado 1509 esculturas portuguesas e de Malines.

Ainda no Museu de Arte Antiga, destacam-se, especialmente, a Sala dos Presépios, com obras de António Ferreira, Dionísio Ferreira, Silvestre Faria Lobo, Faustino Rodrigues e de outros anónimos que nos permitem uma retrospectiva sobre a diversificada interpretação da figura do Menino.

Nas salas dedicadas às artes orientais, realçam-se as esculturas indo e cíngalo portuguesas que incarnam o “Menino Jesus Bom Pastor” e o “Menino Jesus Salvador do Mundo”. Podem observar-se magnificas imagens de um Cristo meditativo que associa diversos temas da mensagem cristã com simbologias indianas.

Ao nível pictórico, o museu preserva notáveis pinturas de Menino com Nossa Senhora da autoria de Hans Memling, Gerard David, Jan Van Scorel, Cornells Van Cleef, Jan Provoost, Luís de Morales, Alessandro Bonzino e Gregório Lopes.

O Museu de Arte Popular, hoje desmontado e cujo acervo transitou para as reservas do Museu de Etnologia, possuí, por sua vez, um sugestivo conjunto popular proveniente de Estremoz e Barcelos.

O Museu Soares dos Reis, no Porto, conta com uma preciosíssima série de Virgens com o Menino, destacando-se obras de Frei Carlos e Gaspar Vaz.

Inúmeros colecionadores têm peças de grande raridade.

A Fundação Medeiros e Almeida expõe óleos da escola flamenga, destacando-se uma “Virgem do Leite” atribuída a Robert Campin, e a “A Virgem e o Menino com Santa Isabel”, da oficina de Rubens.

Em Alfama, no Palácio do Salvador, hoje de Marcus Noronha da Costa, guarda-se uma imagem barroca do Menino Jesus (como minas e topázios) que acompanhou o último vice-rei do Brasil; no espólio de José Lico destaca-se um desenho de Domingos Sequeira representando uma notável “Sagrada Família”, e na colecção do engº Joaquim Correia um raro “Menino Jesus Bom Pastor”, imagem indo-portuguesa com a árvore da vida e iconografia cristã.

Nos locais de culto preservam-se, ainda, obras de valor incalculável. Sobressaem, por exemplo, na Basílica da Estrela, um presépio de Machado de Castro (recentemente restaurado) e, na Igreja do Menino Jesus, em Alfama, telas de Vieira Lusitano.

As exposições patentes nos museus de São Roque, de Arte Sacra e Arqueologia do Porto, da Fundação Dionísio Pinheiro de Águeda, Machado de Castro de Coimbra, do Paço Ducal de Vila Viçosa revelam-nos magníficas imagens em marfim indo e cíngalo portuguesas de Cristo em criança.

 

 

O século da discriminação

A partir da revolução francesa de 1789, a representação do Menino Jesus foi escasseando nas artes plásticas. A nacionalização dos conventos em 1833 acentuou definitivamente, entre nós, esse fenómeno. A arte religiosa foi mesmo relegada para segundo plano.

Alguns autores, caso de Rafael Bordalo Pinheiro (“Menino Jesus”, Casa-Museu Amália Rodrigues), Canto da Maya (“Sagrada Família”, Escola de Belas Artes de Lisboa), Eduardo Viana (óleo “Aparecimento do Menino Jesus a Santo António”, Museu Antoniano), Veloso Salgado (“Virgem e o Menino”, Capela do Palácio da Ajuda), António Duarte (“Santo António”, Praça de Alvalade), Dorita Castel-Branco (Museu Antoniano), Soares Branco (Largo de Santo António) dedicaram-se esporadicamente a satisfazer algumas encomendas para capelas, palácios e praças públicas.

No século XX chegou a haver um movimento de renovação da arte religiosa, mas a crise da igreja interrompeu-o.

Contudo, no Algarve do Barlavento e Sotavento, da serra ao barrocal e litoral, ainda não se perdeu o costume de fazer o presépio. E que beleza dele emana em cada lar, rico ou pobre. A única imagem é a do Menino Jesus, de pé, abençoando, quem lá mora ou quem lá entra, com os dedos indicador e médio da mão direito todos quantos o contemplam, no pequeno altar com um pano branco com rendas, onde assentam laranjas ou tangerinas com pés e folhagem alternadas por pequenos pratinhos com as chamadas “searinhas”, as quais são afinal trigo germinado em água. Esta tradição também passou à Ilha da Madeira.

No início deste milénio, as representações do Menino Jesus, tornaram-se raras. A religião e a sociedade seguiram caminhos separados.

Na arte popular, a figura de Cristo continuou, no entanto, viva e em evolução. Em Mafra, José Franco, e em Lisboa Maria Sidónio dedicaram-se até ao fim das suas vidas a modelar singulares Meninos. Em Barcelos, Rosa Ramalho (e actualmente a sua neta Júlia), e em Estremoz, inúmeros artesãos não deixam morrer esta devota, secular e fascinante tradição artística.

De salientar os trabalhos do barrista nortenho, um mestre de enorme talento cujas obras fascinam a directora desta revista, o Sr. Delfim Manuel que este ano, na zona norte do país, organizou uma feira de presépios nos dias 25 e 26 de Novembro, a qual contou com muitos barristas de grande relevo. Valha-nos personalidades com o talento e a boa vontade de Delfim Manuel para que Portugal continue a ser um país que vê no Menino Jesus – o Salvador.

 

 

António Brás

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