Rainha Dona Maria Pia     

Memorável Carnaval no Palácio da Ajuda        

Na noite de 15 de Fevereiro de 1865, dia de Entrudo, o Paço da Ajuda foi palco de um grandioso baile.

 

Durante semanas decorreram longos preparativos.

 

A corte competia pela originalidade e riqueza dos trajes de fantasia.

 

A Casa-Real pelo arranjo dos salões do paço, a monarca pela diversidade do vestuário.

Nessa noite, a rainha Senhora Dona Maria Pia envergou, inicialmente, um sumptuoso vestido baseado numa pintura setecentista. Inesperadamente, Sua Majestade a Rainha resolveu trocar o vestido por um disfarce de mulher do povo, despindo a figura régia e pensando conviver, sem ser reconhecida, pela corte.

Vestiu-se de varina, não faltando sequer as tamancas e argolas de ouro de Viana do Castelo, e ocultando o rosto com uma mascarilha.

De repente, a monarca entra nos salões, mas é reconhecida, notando a cerimónia do tratamento.

A noite longa e festiva, decorre entre bailes, conversas e ceias.

As centenas de convidados fantasiavam-se com vestes de séculos idos, desde guerreiros medievais, mosqueteiros, nobres venezianos, artistas e figuras populares.

Dona Maria Pia resolve mudar novamente de vestuário. Desaparece e enverga um traje de escocesa, mas novamente é reconhecida.

No entanto, nada perturba a alegria dessa noite de Carnaval. Havia muitas décadas que a casa-real não organizava uma cerimónia tão deslumbrante.

Durante semanas foram comentados a riqueza do vestuário, a ceia, o baile.

Os gastos, porém, foram enormes. A Casa-Real não conseguiu repetir um baile dessa grandeza. O Carnaval de 1865 foi o último entre nós, relata a marquesa de Rio Maior nas suas memórias ditadas a Branca de Gonta Colaço.

Posteriormente, as festas de Carnaval  eram intimistas e familiares. D. Carlos e o irmão, D. Afonso, conviviam com outras crianças da corte, decorrendo as festividades na Sala do Despacho ou no Jardim de Inverno da Ajuda, escreveu o Conde de Mafra nas suas memórias.         

                               

A monarca ficou imortalizada, em dois retratos, de Layraud, nele aparece-nos vestida como uma simples peixeira, mas o porte aristocrático sobressai.

O acontecimento fora organizado pela rainha D. Maria Pia. Autoritária e caritativa, magnânima e despótica, ganhou grande popularidade junto do povo e grandes reticências junto dos grupos mais radicais. Notável apreciadora de Artes Decorativas, de Artes Plásticas, bem como de música, teatro e literatura, a monarca era uma viajante e coleccionadora incansável.

Percorria com frequência Portugal, França, especialmente Paris onde habitava a sua madrinha de casamento a Imperatriz Eugénia de Guzmán y Montijo, assim como a Itália e Áustria onde habitavam os Habsburgos, seus familiares maternos. Nessas viagens detinha-se em museus, teatros, lojas e convívios. Os gastos que fazia eram considerados exagerados pela oposição. A própria corte portuguesa sentia, frequentemente, dificuldades em pagar as numerosas encomendas. Encomendas que iam da Europa aos Estados Unidos. Esse património fez da Ajuda um dos palácios mais requintados da época. Nas dezenas de salas preservam-se pinturas e esculturas de mestres, muitos contemporâneos de D. Maria Pia, mobiliário italiano e francês, tapetes persas e de Aubusson, cerâmicas e ourivesaria diversificadas e na caixa-forte uma colecção de jóias.

Maria Pia de Sabóia nasceu em Turim, no palácio-real, a 16 de Outubro de 1847. Filha de Victor Emanuel II, o rei-unificador de Itália, e da arquiduquesa Maria Adelaide da Áustria. Aos sete anos perdeu a mãe. A sua infância e adolescência decorreram na região de Piemonte, junto dos cinco irmãos.

D. Luís, que virá a ser o seu marido, sobe ao trono aos 23 anos, devido à morte prematura do irmão D. Pedro V.

As espectativas da corte de Lisboa são grandes. A diplomacia portuguesa interessa-se, desde logo, pelo casamento e descendência do monarca.

D. Luís chegará, por sua vez, a pedir à rainha Victória de Inglaterra a mão de uma das suas filhas. Tratava-se da princesa Alice. O pedido foi recusado, devido à diferença de religiões – como se sabe a Grã-Bretanha professa o Anglicanismo. A princesa Alice virá a consorciar-se com o grão-duque Luís de Hesse. Desta união nasceu a princesa Alexandra, derradeira imperatriz da Rússia.

A escolha de D. Maria Pia, filha do rei liberal, teve o melhor acolhimento nos meios sociais e políticos portugueses. No ano anterior, 1861, o nosso País fora dos primeiros a reconhecer a unificação italiana.

 

Aliança

 

D. Luís e D. Maria Pia casam-se por procuração na capela do Palácio Real de Turim, a 27 de Setembro de 1862. Dias depois, a noiva embarca, com a sua comitiva, rumo a Lisboa onde chega a 5 de Outubro. A ratificação do enlace teve lugar na Igreja de São Domingos. Consolidava-se oficialmente a aliança entre os dois países.

No ano seguinte -  1863 - , D. Maria Pia dá à luz o primeiro filho, D. Carlos.

O segundo filho, D. Afonso anima, em 1865, a corte portuguesa. Os projectos absolutistas de D. Miguel (tio-avô de D. Luís), exilado após a vitória de D. Pedro IV, na Áustria, caíam por terra.

A soberana centrou-se com grande empenho na educação dos filhos, nas inúmeras obras de caridade e no acompanhamento do trabalho de D. Luís, por quem nutria profundo carinho.

A morte deste, ocorrida a 17 de Outubro de 1889, afectou para sempre a existência da rainha. A formação dos netos, nascidos da união de D. Carlos e D. Amélia de Orleãns, tornou-se um lenitivo.

A sumptuosidade dos Paços da Ajuda, Sintra e da moradia do Monte Estoril, atenuou-se.

As próprias deslocações de D. Maria Pia a Itália foram rareando.

E com grande discrição decorreria a sua viagem a Roma, em Junho de 1900, para assistir ao funeral do seu irmão, o rei Humberto I, assassinado por anarquistas.

Oito anos depois dá- se o Regicídio de D. Carlos e do príncipe-herdeiro D. Luís Filipe.

D. Maria Pia fica profundamente abalada. A tragédia que a envolveu tornou-a uma heroína para muitos autores, entre os quais Raul Brandão. Nas “Memórias”, este escritor reteve para sempre as figuras de D. Maria Pia e D. Amélia imobilizadas defronte dos corpos sem vida.

Durante o breve reinado do seu neto. D. Maria Pia, mantêm-se afastada de quase todas as cerimónias. Desiste definitivamente de sair para o estrangeiro. Os paços da Ajuda, Sintra e Monte Estoril são os únicos locais para onde se deixa conduzir. Apática, lembra uma sonâmbula, cada vez mais distanciada da realidade que a envolve.

Passa as noites a vaguear pelos salões, falando com os fantasmas dos desaparecidos. Frequentemente, o pessoal surpreendem-na, de regador na mão, a espalhar água sobre as flores das alcatifas. O implacável e devastador mundo da loucura separava-a, como um nevoeiro, da triste realidade.

Abandona o quarto-real, dormindo no anexo guarda-roupa, divisão ampla e espaçosa, onde em tempos provava as suas requintadas roupas.

A revolução republicana apanha-a no Paço de Sintra, onde tinha um requintado apartamento, espaço que ainda existe.

Na manhã de 5 de Outubro parte com a nora, em direcção a Mafra, onde as espera o Rei D. Manuel II.

Dai descem, numa caminhada de sombras e sobressaltos, para a Ericeira.

O povo aclama-a, provavelmente não esquecera a oferta de um andor à igreja local.

Barcos de pescadores levam, entre vagas fortes, os membros da Casa-Real para o iate Amélia IV que os aguardava ao largo.

Mas D. Maria Pia dizia que uma rainha não abandona o seu país e foi levada de rastos com a companhia da sua dama, a Marquesa de Unhão.

Eram 15 horas. Completavam-se, nesse momento, 48 anos da chegada de D. Maria Pia a Portugal.

Após breve estadia em Gibraltar, D. Maria Pia regressa a Itália, acolhida pelo sobrinho neto, rei Vitor Emanuel II.

A república devolve-lhe algum património pessoal; as jóias e alguma prataria, que se encontravam hipotecadas, acabam por ser leiloadas.

D. Maria Pia morre a 5 de Julho de 1911, aos 63 anos, num palácio da Casa-Real italiana.

Expira envolvida na saudade da terra onde viveu os momentos mais extasiantes e pungentes da sua vida.

Em Portugal os requintados interiores do Palácio da Ajuda lembram o gosto e o requinte de D. Maria Pia. O imóvel é um importante palácio nacional, preservando um acervo de 100 mil peças. Durante 30 anos, 1982 a 2012, uma dezena de salas foram recuperadas, outras repostas na decoração original, inúmeras peças dispersas adquiridas ou doadas, um trabalho desenvolvido pela directora Drª. Isabel da Silveira Godinho.

Os visitantes podem contemplar salões que conheceram os faustos de D. Maria Pia e certamente o mais importante baile de máscaras realizado entre nós.

 

 

António Brás

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