Balmain I A Melhor colecção Outono/Inverno 2017/18

A casa fundada por Pierre Balmain, na mesma rua François Ier, onde durante vários anos tive a minha casa, em Paris, recuperou os brilhos do passado, graças a Olivier Rousteing, director criativo da marca e um fenómeno da moda da actualidade.

De recordar que Pierre Balmain fundou a sua casa em 1945, após ter trabalhado nos “ateliers” de Lucien Lelong e de Molyneuax, dedicando-se a uma clientela que apenas vestia os modelos mais luxuosos, sofisticados, em excelentes tecidos, com cortes de rara maestria e elegância.

Arquitecto de formação, Balmain foi o costureiro exclusivo da Rainha Sirikit da Tailândia, de numerosas personalidades do Cinema e da Alta Aristocracia, assim como da fabulosa dama da moda, de seu nome Diana Vreeland.

Por sua morte, Pierre Balmain legou a sua casa a Erik Mortensen, que tivemos o gosto de conhecer e de contactar pessoalmente durante os anos que esteve na direcção da marca, mas havia nele qualquer coisa que travava o sucesso.

Entretanto, a marca Pierre Balmain passou por várias mãos até chegar a Óscar de la Renta, uma personalidade que nesta casa merecia todos os elogios. Mas, Óscar de la Renta, confessou-nos que não aguentava tantas viagens e que mais tarde ou mais cedo iria desistir, pois tinha de acudir ao seu “atelier” de Nova Iorque. E assim foi…

Hoje, Pierre Balmain dá cartas ao mundo inteiro, graças a Olivier Rousteing, uma força criativa imparável que nos deslumbra.

Olivier Rousteing – um fenómeno da moda actual

Mas, afinal quem é este jovem? Personalidade de quem se fala elogiosamente?

 Rousteing nasceu em Bordeaux, é mestiço e foi adoptado por um casal caucasiano, terminou o curso da ESMOD em 2003, iniciando a sua carreira como assistente de “designer” na marca fundada por Roberto Cavalli, um pouco na esteira da linha inicial de Versace.

Contudo, o que Cavalli pretendia realizar não era exactamente o que o jovem Olivier Rousteing apreciava.

Numa entrevista recente, durante o evento “The Atelier” no Metropolitan Museum of Art, em New York, Olivier Rousteing revelou ter sofrido um certo preconceito racial durante a sua infância pelo facto de pertencer a uma família de brancos que o adoptou quando era bébé.

Desconhecemos a sua nacionalidade de origem, mas é francês.

Desde 2009 na Balmain, tinha então 25 anos de idade, que assume o cargo de director artístico, trabalhando para o Grupo Mayhoola do Qatar que também comanda os destinos da marca Valentino.

Próximo de figuras mediáticas com Kim Kardashian e Kanie West, assim como das super modelos Gigi, Bella Hadid, Kilie, entre outras de grande relevo no panorama internacional, o “status” de Rousteing, de pele escura, rebentou as escalas de todas as tabelas.

Com todas estas amizades a influenciarem o reconhecimento do seu enorme talento, a Balmain conta com quase 3 milhões de seguidores no Instagram.

Pessoalmente, Rousteing tem o condão de realizar um marketing pessoal, absolutamente invulgar enquanto a Balmain, consequentemente, beneficia de um marketing gigantesco.

A última novidade deste talento consolidado é a sua colaboração com a marca L’ Oréal para uma colecção de batons.

De sublinhar que Olivier Rousteing, o menino de raça africana mais famoso da moda actual, também cria grande parte das colecções da H&M, onde o seu estilo, seja inspirado na Ásia ou em África, tem o mesmo toque sexy e rock que trouxe de Cavalli, mas… mais criativo.

 

A colecção Out./Inv. 2017/18 de Balmain e a linguagem africana

Nesta revista não conhecemos toda a África que foi portuguesa, mas andámos por Moçambique, África do Sul, Rodésia, Guiné, Angola…

Conhecer Marrocos, aqui tão perto, não constitui grande notícia…

Porém, toda a África tem um misticismo muito profundo que não é de fácil entendimento para aqueles que são 100% europeus.

Olivier Rousteing pode não ter aprendido grande coisa de moda com Roberto Cavalli, mas … o sentido comercial não lhe escapou.

Sabendo todos nós, que a grande clientela da moda francesa dos últimos anos foram as mulheres angolanas, é natural que Rousteing tinha ido à procura das suas raízes para melhor lhes agradar. E conseguiu. Esta colecção Outo/Inverno é um espanto e uma lição. Bravo! Nem os penteados entrançados escaparam…

Sabemos que Angola está, neste momento, a viver numa fase de muitas mudanças e que já não é o que era.

Com efeito, o novo Presidente João Lourenço está a desmembrar as relações da família de Eduardo dos Santos, retirando-lhes o tapete em lugares chave, mas para quem já tem muito isso não faz diferença…

As populações angolanas que atraíram as grandes marcas para a Avenida da Liberdade, em Lisboa, começaram a fazer de Paris a sua cidade de eleição. Não lhes podemos levar a mal. Paris é uma cidade com muito mais atractivos do que Lisboa. Paris é uma festa! Bem dizia Hemingway!

As mulheres angolanas são vaidosas, como aliás quase todas do continente africano.

Seja qual for a raça, etnia, religião, e até o grau de conhecimentos, as mulheres africanas não descuram os seus visuais.

Em Angola, os penteados e as tranças variam de região para região.

Olivier Rousteing observou esta realidade e socorreu-se das tranças que em Angola são valores culturais para criar uma colecção de vestuário que terá agradado, em especial, à sua clientela angolana.

Despertámos para os penteados angolanos quando começámos a ver pequenas esculturas em marfim onde o principal trabalho era a beleza dos penteados com tranças.

As tranças angolanas têm evoluído e desde os famosos carapitos, as bailundas, as viradas, entre outras (que se podem contemplar nas pequenas escultura em marfim que anteriormente citámos), desceram do norte do país, abarcando todo o território angolano.

As tranças de linhas, semelhantes aos carapitos conferem à mulher uma graça infinita, representando chifres de animais que habitam nas florestas de Angola, com maior destaque para a Palanca Negra (símbolo de Angola e única no mundo) que habita no Parque de Kangadale, na província de Malange (centro norte de Angola).

Porém, aparte as tranças, o nosso maior relevo vai para as matérias-primas que Rousteing utilizou para realizar as peças do vestuário e até o calçado, onde avultam peles de animais selvagens, obviamente, criados em cativeiro.

Bravo, Olivier Rousteing!

 

Marionela Gusmão

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