Páscoa tempo de Ressurreição

Católica por convicção, desde muito nova assisti às várias festividades da Quaresma (palavra que vem do latim e significa quadragésima, utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do Cristianismo: a Ressurreição de Jesus Cristo) e, por cantar no Coro da Igreja, vivia mais intensamente cada um dos dias, com ensaios e algumas procissões dominicais, acrescida da Procissão do Enterro do Senhor, impressionantemente triste para a minha híper sensibilidade.

 

Quis Deus que a minha vida tenha sido, até hoje, uma roda-viva, sem parar, sempre com objectivos bastante diferenciados.

 

Há muitos anos, escrevi o guião do filme sobre o quadro “PANORAMA DE JERUSALÉM, realizado por José Manuel Tudela. O quadro, que se encontra no Museu Nacional do Azulejo narra os Passos da Paixão de Cristo, numa pintura da Escola Flamenga oferecido à Rainha D. Leonor por seu primo, o Imperador Maximiliano. Esse filme era exibido todos os anos na RTP, em cada Sexta-feira Santa, pois nesse tempo aquela estação televisiva não tinha concorrência nem as populações portuguesas eram tão hereges como agora. Em todas as 5ªs. feiras santas  à tarde, e durante todo o dia de sexta-feira santa, assim como na manhã de sábado, a RTP tinha na sua programação a melhor música sacra e, transmitia, em directo, as cerimónias de Roma, incluindo a Via Sacra encabeçada pelo Papa que estivesse no Vaticano.

 

Quando me transferiram para trabalhar na TV Guia, passado algum tempo, propus-me escrever um texto sobre a Via-Sacra para que os leitores tivessem oportunidade de melhor acompanhar aquela cerimónia. Quando deixei de escrever para a programação, os que continuaram essa  tarefa que havia trocado por outra, não foram de meças e passaram todos os anos a meter o mesmo texto que eu havia escrito. Realmente copiar é muito mais fácil, mas não faz parte da minha regra profissional. Nunca protestei. Sempre era melhor copiarem do que escreverem errado.

 

Eu tinha a fama (e o proveito) de conhecer as cerimónias e os seus momentos mais altos de tudo o que fosse religioso dentro do catolicismo.

 

E, por isso, nunca deixava passar nenhuma época importante, assinalando sempre nos textos, as devidas referencias ao Dia de Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, entre outros…

 

Como já, atrás ficou escrito, cantei num Coro dirigido por um exigente maestro e cabia-me sempre o grato papel de ser solista na Missa da Aleluia. A última vez que cantei na igreja algarvia, que frequentava assiduamente, a Missa da Ressurreição do Senhor, quando desci fiquei atónita, havia muita gente à minha espera, com lágrimas nos olhos e muitas felicitações. Também me comovi. Sabia que o maestro, tinha ficado muito contente. Ele disse-me: “oitavas como as suas, ninguém dá”. Encolhi os ombros e entrei em casa toda contente a contar à minha avó. Mas, ela não deu grande importância. No ano seguinte, já estava em Lisboa e nem fui ao Algarve na Páscoa. Era necessário estudar muito.

 

Foi assim, que deixei o lugar que tinha conquistado no Coro. Em Lisboa, no Lar das Doroteias, também cantava, mas era totalmente diferente. O entusiasmo era outro.

 

Entretanto, sempre que havia um pouco de tempo na minha vida de casada, lá ia até ao Algarve, acompanhada do meu marido, assistir especialmente à procissão do Enterro do Senhor, apesar de ser a cerimónia religiosa que mais aperta o meu coração, mas era a possível porque aproveitava os feriados. Quando, eventualmente, lá vou, o meu caminho é no Sotavento e tanto posso assistir à procissão em Faro, como em Olhão ou Tavira. No entanto, esta procissão tem em Tavira uma carga religiosa mais forte e comovente que em qualquer outro lugar. Não há amêndoas que me adocem a boca, nem vez nenhuma que não necessite de um pequeno lenço para limpar as minhas lágrimas.

 

Em Sevilha, onde fui poucas vezes, sinto um aperto no coração de cada vez que Nossa Senhora se encontra com o Filho carregando a cruz às costas. Por isso, apesar de poder usufruir dos melhores espaços, das casas mais famosas, nunca lá vou.

 

Fico em Lisboa, visitando algumas igrejas, cumprindo os rituais possíveis.

 

Na minha casa tenho um Oratório onde, diariamente, rezo pela paz no mundo, para que o pão não falte em nenhuma mesa, qualquer que seja o credo religioso de cada um. Não me esqueço dos meus amigos que estão doentes, nem dos que dão provas de me estimarem. Graças a Deus, até sei perdoar os que nem sempre se portaram como deveria ser.

 

Nesse Oratório tenho um pequeno tríptico que representa os Passos da Paixão de Cristo, começando pela figura de Pilatos a lavar as suas mães e, portanto, a permitir a crucificação do Senhor. Todos esses Passos são terríveis, humilhantes e dolorosos. A sua crucificação é um tormento. A Mãe agarrada aos seus pés e o momento em que o recebe já morto nos seus braços devem ter sido de uma dor inconsolável para a Nossa Senhora. Curiosamente, vejo na sua imagem a mãe de todos nós. São João Evangelista, primo de Jesus e Maria Madalena sua amiga, são o amparo de Maria. Depois de sepultado, ressuscitou para salvação dos Homens, um dogma de Fé que me dá forças para suportar a minha cruz. Também tenho uma cruz, às vezes, duas ou três, a que chamo a minha penitência. A penitência que ninguém vê porque faz, exclusivamente, parte da minha vida. Ainda sei sorrir, especialmente quando consigo alguma vitória e me apetece cantar: Aleluia,Aleluia, Aleluiiiiiaaaaaaaaaaa!

Medalhão da Subida ao Céu

Trata-se de uma Miniatura redonda, pintada sobre marfim, com 7,5 cm. de diâmetro, em forma de medalhão com argola em ouro.

A pintura, de altíssima qualidade, representa Jesus ao ser retirado do túmulo, por um Anjo, vendo-se outro anjo, a aguardar a sua subida ao céu.

Consideramos que esta pintura é um deslumbramento, pelo seu notável traço de pincel e todos os pormenores, levando-nos a acreditar que teria pertencido a alguma religiosa de elevada condição social. Como nota final, não podemos deixar de citar que a moldura é em ouro e que a argola denuncia que a sua data se pode inscrever no séc. XVII.

 

Com este medalhão, depois de todos os sofrimentos de Jesus Cristo, encontramos uma certa Paz. Ele ressuscitará no dia mais santo do ano – Dia de Corpo de Deus ou Corpus Christi que Lisboa festejou com grande pompa com a participação da Casa dos 24. Haverá algum Presidente capaz de devolver à cidade o fulgor de outrora? Será que alguma das candidatas à presidência ainda me dá a alegria de assistir a essa festa como consta nos anais da História?

Esperamos que sim! A esperança é o último sentimento a morrer. Sou totalmente contra eutanásia. Sou totalmente contra o aborto.

Sou pela vida. Em tudo!

 

Marionela Gusmão

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