O Tesouro de Colmar I Uma Herança Judaica Medieval

O Tesouro de Colmar, uma colecção notável de peças de joalharia e manuscritos antigos, escondidos numa residência judaica medieval, expostos no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, até 12 Janeiro de 2020, atraem todas as atenções, especialmente entre os amantes da história da joalharia.

Efectivamente, durante mais de 500 anos, existiu um pequeno esconderijo de jóias e moedas dentro das paredes de uma casa em Colmar, França. Ali guardado desde o século XIV e descoberto em 1863, o Tesouro de Colmar pertence, actualmente, à colecção do Musée de Cluny, Musée de Moyen Âge, em Paris.

O acervo é constituído por anéis, pregadeiras, moedas e manuscritos, agora em exibição no Museu de Nova Iorque, ofereceuma visão fascinante da vida da comunidade judaica de Colmar, Alsácia, durante a Idade Média.

A história reza que em Maio de 1863, os trabalhadores que estavam a reabilitar uma casa encontraram um depósito de moedas, jóias e outros objectos na cidade de Colmar. Estas descobertas têm despertado, naturalmente, o interesse de investigadores e historiadores, para novas pesquisas. A localização da casa situava-se no antigo bairro judaico da cidade e a maioria das peças datam do século XIV.

Da colecção apresentada faz parte uma aliança de casamento judaico, que liga esta peça a uma comunidade judaica que viveu em Colmar mais de cinco séculos antes, quando Alsácia fazia parte do Sacro Império Romano. Essa comunidade, como muitas outras na Europa, foi destruída quando os judeus foram acusados por espalhar a peste no início de 1349 o que levou a que os judeus de Colmar fossem queimados vivos. Triste feito para um povo sempre invejado pelos inúteis.

A história dos judeus na Alsácia é uma das mais antigas da Europa. Foi documentado, pela primeira vez, em 1165, por Benjamin de Tudela  que escreveu sobre um "grande número de homens instruídos" em " Astransbourg " presumindo-se que remonta a cerca do ano 1000, embora a vida judaica, na Alsácia, fosse muitas vezes perturbada por surtos de malvadez, pelo menos durante a Idade Média. No entanto, em 1870, a comunidade judaica da Alsácia era aproximadamente de 35.000 pessoas.

 

O tesouro inclui um dos poucos exemplares sobreviventes de um anel de casamento judaico, com a forma de um pequeno edifício em vez de uma pedra preciosa, o que está de acordo com a exigência na lei judaica dos anéis de casamento serem realizados, como uma peça única.

A colecção inclui ainda moedas de prata, utensílios de mesa em prata e ouro e jóias de prata, incluindo fivelas de cinto elaboradas e quinze anéis de prata.

 

O Tesouro de Colmar

O Tesouro de Colmar faz parte do acervo do Musée Cluny e foi cedido para a mostra do Metropolitan Museum of Art, enquanto o Museu de Paris está em obras de remodelação. O acervo é exposto com peças de outras colecções públicas e privadas. A curadora Barbara Drake Boehm, acerca deste acontecimento disse: “Queria expor este conjunto para destacar quanto era importante a comunidade judaica no mundo da Europa medieval. É uma história que não foi contada facilmente, devido aos perigos que esta comunidade sempre enfrentou.

A exposição torna a história muito mais atraente, emprestando-lhe um rosto pessoal. Embora a identidade do dono original do tesouro permaneça incógnito”, Boehm considera que fosse uma família. O tamanho relativamente modesto do tesouro, que conta com cerca de 300 moedas e 50 jóias, apoia essa hipótese. Depois, há as características específicas do seu conteúdo. Boehm disse o seguinte: “Uma das melhores pistas, a considerar, é a existência de anéis que datam da 2ª. metade do século XIII e anéis do século XIV. Não apenas, pela diferença das datas, mas pela diversidade dos materiais. As peças anteriores são de prata dourada e granadas, e as peças posteriores são em ouro e pedras preciosas. Avalio também que estes objectos deviam pertencer à mesma família. Visto através desta óptica, os itens assumem uma familiaridade comovente. Há um fragmento de um alfinete, disse Boehm. “Isso lembra-me a parte de trás de um brinco, que alguém queria levá-lo para um joalheiro a fim de o soldar em redor, mas não consegui fazer isso.

Estes diversos tipos de toques permitem que se percorra os séculos e se relacione com essas pessoas que viveram mais de meio milénio atrás, mas na verdade não eram assim tão diferentes de nós”.

A Exposição

A peça central da exposição é a aliança cerimonial de casamento judaico, realizada em ouro e esmalte e com inscrição de saudação e felicitações. Destinada a ser usada apenas no dia da cerimónia, tem a forma de um pequeno edifício hexagonal que simboliza tanto a casa conjugal como o Templo de Salomão. "Esses anéis são muito raros ", observa Boehm. "Mas acontece que existe outro que se aproxima da mesma data numa colecção particular em Nova Iorque e esta peça, está exposta lado a lado à aliança cerimonial de casamento judaico”.

Outro objecto, que complementa a colecção de jóias é um livro do século XV sobre a teologia cristã, corresponde a uma publicação, que apresenta um pássaro iluminado num pergaminho reciclado a partir de um manuscrito hebraico do século XIV. Embora fosse uma prática comum reforçar as ligações dos primeiros livros impressos com folhas de volumes manuscritos, estudos recentes produziram alguns resultados surpreendentes. Boehm explica: “ Pensamos que o único vestígio da comunidade judaica medieval de Colmar era esse tesouro”. E então a investigadora Judith Kogel, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris, percebeu que na biblioteca municipal de Colmar, havia vários livros que dentro das suas encadernações incorporam páginas de manuscritos hebraicos de Colmar. Judith descobriu ainda, que foi através dessas páginas, que conseguiu reconstruir a biblioteca dos judeus medievais em Colmar.

Como o tesouro, os manuscritos foram retirados da mesma parede da casa de Colmar e podem agora completar a história da cultura e da comunidade que os criou.

O tesouro de Colmar, agora na colecção do Musée de Cluny, Paris - inclui anéis de safiras, rúbis, granadas e turquesas; pregadeiras; um delicado cinto esmaltado; botões dourados; e mais de 300 moedas. A posse preciosa de um anel, que deve ter pertencido a uma única família, apresenta a inscrição hebraica Mazal, que liga a peça à comunidade judaica de Colmar, a qual foi brutalmente acusada e condenada à morte quando a Peste atingiu a região com ferocidade devastadora em 1348/49. A mostra destaca a herança deste património, ressaltando a relevância e os perigos enfrentados pela comunidade minoritária judaica no tumultuoso século XIV.

Tratando-se de objectos que são pequenos em escala e relativamente poucos em número, o Tesouro de Colmar é exibido ao lado de obras relacionadas com a Colecção do Metropolitan Museum of Art, The Jewish Theological Seminary, Bibliothèque Municipale em Colmar, e as colecções particulares distintas nos Estados Unidos.

A exposição foi organizada por Barbara Drake Boehm, a curadora sénior do Paul and Jill Ruddock, o Departamento de Arte Medieval e do Cloisters do Metropolitan Museum of Art.

"Enquanto a peste negra dizimava a população da Europa no século XIV, os judeus foram transformados em bodes expiatórios. Acusados de envenenar os poços, muitos conseguiram escapar, deixando para trás tudo o que possuíam. Antes de fugir, porém, enterravam os seus bens com mais valor, na esperança de os recuperar no regresso.

No entanto, a maioria, jamais voltou. Foram vítimas da peste negra, que matou um terço da população europeia e violentos ataques contra as comunidades judaicas do Leste europeu”, contou Barbara Boehm.

“Os tesouros encontrados no bairro judeu de Colmar e perto da sinagoga do século XI em Erfurt, a mais antiga da Europa, foram certamente enterrados por judeus. A exposição lembra a cada passo a devastação causada pela peste - que, acredita-se, entrou na Europa pela Sicília em 1347, vinda de Constantinopla. Entre os seus itens mais interessantes, há um par de alianças de noivado ocas, com uma pequena bola de metal dentro, que faz o barulho de um guizo quando agitada. Os anéis possuem ainda a inscrição "mazal Tov", que em hebraico significa boa Sorte. Provavelmente [são] bens de família escondidos por seus proprietários no momento das perseguições aos judeus durante a epidemia da peste.

Em Setembro de 1347, barcos genoveses procedentes de Constantinopla chegaram à Sicília trazendo a peste, que depois se propagou para Marselha e se espalhou por toda a Europa, da Escandinávia à Espanha, até 1352. Um terço da população europeia, estimada em 60 milhões de pessoas, morreram", acrescentou Descatoire. "Para as pessoas da época, foi um castigo divino", lembra ela. "Os judeus foram acusados de envenenar poços e fontes e corria o boato de que eles morriam menos de peste que os demais."


Em Colmar, as vítimas foram centenas. Os mais abastados enterraram os seus tesouros, mas nunca puderam recuperá-los, pois acabaram morrendo vítimas da epidemia ou nas mãos dos seus perseguidores.


As colecções puderam ser datadas graças às moedas. O tesouro foi encontrado em 1863 na na rue des Juifs, em Colmar, Alsácia. Acredita-se que alguns dos itens foram vendidos pelos descobridores antes da extensão do tesouro poderia ser gravado. Os tesouros que sobrevivem são na sua maioria da colecção do Musée de Cluny. Foi totalmente publicada apenas em 1999, quando expostas em Colmar.

No cenário evocativo do Metropolitan Museum of Art, na Galeria Cloisters - um museu cujo nome parece proclamar um mundo exclusivamente cristão - esta exposição oferece um tributo à herança artística judaica e ao seu papel na arte e na sociedade na Europa medieval.

O que torna notável este acontecimento não é só a extraordinária colecção de peças de joalharia dos Judeus, mas também a história que envolve o tesouro, que foi a paixão desta comunidade, através do seu bom gosto e requinte.

 

Theresa Bêco de Lobo

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