O Movimento Arts and Crafts em Boston

O Movimento Arts and Crafts em Boston é o título da exposição no Museum Fine Arts em Boston, de 17 de Novembro de 2018 a 29 de Março de 2020, que compreende pintura, joalharia, ourivesaria, vitral, têxteis e outros objectos em metal.

No início do século XX, Boston ostentava uma das mais activas e influentes comunidades de artes decorativas e joalharia do país.

 A mostra em Boston é o primeiro evento dedicado ao trabalho exemplar desse grupo de artesãos, muitos deles mulheres, a quem foram dadas oportunidades sem precedentes, na educação, na formação e no patrocínio. Compartilhando o Movimento Arts and Crafts, os seus ideais da filosofia internacional, a comunidade unida desta cidade favoreceu uma estética notável por unir design e artesanato, assim como pelo uso de diversos materiais, esmaltes e metais preciosos.

A exposição apresenta mais de 70 obras de 14 artistas, incluindo jóias, utensílios de mesa, acessórios decorativos e desenhos das peças. Expostos reunidos, como teriam sido na época da sua criação, os objectos convidam os visitantes a explorar a filosofia e a arte do Movimento Arts and Crafts em Boston, assim como as histórias dos seus criadores e proprietários.

O Arts and Crafts foi um movimento estético, que nasceu em Inglaterra no ano de 1860, como parte de um grande esforço reformador, que teve em John Ruskin e William Morris os seus principais responsáveis. A Ruskin coube o papel de rejeitar a distinção entre as Artes Maiores e Artes Menores.

 

Volvida uma década (1870), o referido movimento Arts and Crafts espalhou-se por outros países incluindo a América com uma acção igualmente importante pois evidência o papel do decorador profissional, promoveu a participação activa da mulher na Arte, estimulou a educação artística e preparou o terreno para a moderna progressão de todas as Artes Decorativas.

De facto, à falta de iniciativas capazes de procurar novas formas, o mundo europeu tinha-se refugiado no passado e procurava reencontrar as tradições. O gótico inglês do século XV tinha tomado um tal carácter sublime para os homens vitorianos que o “gothic revival” apareceu como um fenómeno de legitimidade incontestável. Reinava por toda a Europa a paixão pelos objectos antigos. Os bancos, os mercados e as gares dir-se-ia não terem sido realizados para industriais ou comerciantes, mas sim para cavaleiros e monges da Idade Média.

Era urgente reagir e ter espírito de aventura. Contra alguns homens como William Morris, Ruskin, Owen Jones, James Whistler e Walter Crane desencadeava-se um duplo poder: o dinheiro ligado ao conservadorismo rotineiro e a fortaleza da arte dita oficial, prestigiada pelas autoridades de uma sociedade fechada a qualquer novidade.

Sem apoio e com arrojo, estes homens decidem desembaraçar as casas burguesas dos adornos anacrónicos e dar-lhes um estilo novo adaptado aos usos da época.

A concepção do novo movimento não era apenas uma revolução estética, uma poesia, uma filosofia e um movimento do pensamento humanístico, mas também um conceito aberto que abrangia múltiplas implicações no domínio das relações do homem com a Arte e das relações da Arte com a sociedade.

No princípio da denominada “Era Estética” como alternativa, os ideólogos deste movimento propunham defender os saberes tradicionais e requalificar o artesanato americano, passado para segundo plano com a chegada da industrialização. Imediatamente surgiram grupos de arquitectos e artistas, apologistas de um papel social a ser desempenhado pela arte na educação da sensibilidade e do gosto. Ao mesmo tempo, procuravam encontrar meios adequados à produção manual de objectos originais.  Surgiu então a preocupação, por parte dos coleccionadores, da composição dos espaços de modo a valorizar os objectos preciosos, assim nascendo um sentido de unidade na decoração de interiores.

A eles se deve a concepção de que a residência do homem comum tenha voltado a ser a criação valiosa do pensamento do arquitecto e que uma cadeira, um papel de parede ou um vaso sejam de novo as criações valiosas da imaginação do artista.

Tendo os princípios do “Movimento Arts and Crafts influenciado artistas, designers e artesãos do século XX tiveram tal impacto que foram capazes de quebrar as divisões arbitrárias que existiam nas Artes.

O estilo visou revalorizar a beleza, colocando-a ao alcance de todos. A articulação estreita entre arte e indústria, função e forma, utilidade e ornamento parece ser o primeiro objectivo dos artistas.

O Arts and Crafts foi tanto um movimento artístico quanto cultural, que encorajou um segmento mais amplo da sociedade a abraçar este estilo ao tornar-se consumidor e promotor de artigos artísticos. Quando essas ideias se espalharam pelo Atlântico, encontraram uma plateia pronta nos círculos intelectuais e artesanais de Boston, que se tornou o centro intelectual do movimento Arts and Crafts nos Estados Unidos. A Sociedade de Boston foi oficialmente incorporada em 1897, incentivando o desenvolvimento de artistas-artesãos, organizando exposições, vendendo obras e oferecendo cursos, palestras e literatura. Além disso, membros da Sociedade de Arts and Crafts desfrutavam da entrada gratuita no Museum Fine Arts, onde puderam procurar inspiração nas colecções.

"Muitos valores do movimento Arts and Crafts voltaram a ganhar popularidade na sociedade actual. Numa reação ao nosso mundo virtual cada vez mais high-tech, muitos adoptaram um regresso à simplicidade e ao artesanato, como se pode observar em vários movimentos artesanais. Esperamos traçar paralelos entre as duas épocas, entre o passado e o presente e encorajar os visitantes a contemplar como a sua própria filosofia de estilo de vida, que pode ser expressa através das suas escolhas de moda e de artigos para o lar ”, disse Nonie Gadsden, curadora senior das Artes Decorativas e Esculturas Americanas do museu de Boston.

A natureza inclusiva do movimento Arts and Crafts ofereceu novas oportunidades para as mulheres, particularmente aquelas interessadas na joalharia e ourivesaria.

A exposição apresenta o trabalho de nove mulheres artistas, incluindo as pioneiras Josephine Hartwell Shaw (1865–1941), Elizabeth Copeland (1866–1957) e Margaret Rogers (1868–1949), que se tornaram nas mais relevantes artesãs do Arts and Crafts da região. Cada uma tirou rendimento dos novos programas educacionais em Boston para desenvolver as suas técnicas, participar em exposições e competições locais e nacionais, vender o seu trabalho através da Sociedade de Arts and Crafts e outras galerias, e ganhar a vida com seu trabalho.

Em 1913, o Museum Fine Arts adquiriu um alfinete em ouro e com pérolas e um anel em ouro, com uma esmeralda e pérola (cerca de 1913) realizados por Shaw, fazendo dela a primeira joalheira contemporânea representada na colecção do Museu. O trabalho de Shaw, Copeland e Rogers é reunido com o de outras artesãs, incluindo Lucretia McMurtrie Bush (1867-1953), Gertrude S. Twichell (1889 - depois de 1947), Katherine Pratt (cerca de 1891-1978), Mary Catherine Knight (1876–1956), Hazel Blake French (1890–1972) e Jessie Ames Dunbar (1876–1957), todas foram bem sucedidas na sua época, mas actualmente eram pouco conhecidas. O trabalho de cada uma dessas mulheres era criativo e podem-se admirar algumas das suas peças na exposição, como o alfinete de turquesa e ouro de Bush (1911-27,e a a colecção de Aram Berberian e Rosalie Berberian), é exposta pela primeira vez no museu.

“As joias de Boston podem apresentar desenhos muito simples, mas os designers do Arts and Crafts da cidade, realmente favoreciam gemas coloridas, esmalte e uma mistura de metais. Os visitantes podem ser surpreendidos ao ver uma mistura de metais muito elaborada - de peças com vidro, ouro e diamantes. Estudando com os mesmos professores, trabalhando numa estreita proximidade e exibindo juntos os seus trabalhos, os artistas apresentados na exposição influenciaram-se mutuamente e com o tempo codificaram Boston, como a cidade da joalharia ”, disse Emily Stoehrer, curadora de jóias do Museum Fine Arts.

A exposição destaca ainda o trabalho do joalheiro e esmaltador Frank Gardner Hale (1876-1945) e do ourives Arthur Stone (1847-1938), ambos se evidenciaram nos seus respectivos campos, como nos desenhos de projectos dos arquivos de Hale e de Stone no Museum Fine Arts. Estas imagens são apresentadas ao lado das suas jóias e dos trabalhos em metal, os desenhos mostram os processos de trabalho dos artistas e demonstram a importância do design em cada etapa da sua arte.

Hale estudou em Inglaterra e na Escola do Museum Fine Arts (SMFA) em Boston e  foi reconhecido localmente e nacionalmente como um dos principais criadores e defensor do Arts and Crafts. O seu trabalho era diverso em estilo e forma, mas a sua estética era quase sempre colorida, como se pode observar nos desenhos de pingentes de um de seus álbuns de recortes.

Stone foi sem dúvida o mais importante ourives dos Arts and Crafts que trabalhava nos EUA, as suas peças elegantes em prata eram valorizadas pelo seu excelente talento e muitas vezes eram ornamentadas com decorações florais.

"Os arquivos dos artistas apresentam todo o processo criativo de cada um, muitas vezes clarificando aspectos do trabalho perdidos no tempo. Para muitos artesãos, projectar em papel era uma componente vital da sua prática, que atendia os múltiplos propósitos de documentação, instrução e relação com o cliente, “ disse Meghan Melvin, curadora do Design do Museum Fine Arts.

Organizados tematicamente, os vários casos na exposição exploram as características definidoras das joias e trabalhos em metal do Arts and Crafts em Boston, incluindo cor, materiais e influência de estilos históricos. Além disso, as pinturas, como O Vestido de uma Mulher (cerca de 1906) e O Novo Colar (1910) de William McGregor Paxton (1869-1941) ilustravam como as jóias teriam sido associadas com roupas no século XX.

A intalação correspondente na Ala Art of the Americas do MFA, localizada na Galeria Lorraine e Alan Bressler, expõe ainda mais o trabalho em metal do Arts and Crafts Metalwork em Boston, com foco especial na Loja de Artesanato - uma oficina experimental colaborativa de fabricantes independentes, em prata, cobre e esmaltes. A instalação correspondente, "Boston Arts and Crafts Metalwork", é possível graças a Dyann e Peter Wirth.

A exposição foi co-organizada por Nonie Gadsden, curadora senior das Artes Decorativas e Esculturas Americanas; Meghan Melvin, curadora do Design; e Emily Stoehrer, curadora de jóias do Museum Fine Arts.

Excelente exposição, que nos mostra à saciedade como estes artesãos ligados ao chamado “Movimento Arts and Crafts” redescobriram a poesia dos objectos e a magia das cores, a reacção contra a vida ritmada pela máquina, o desejo de evasão de um passado suficientemente afastado para se cobrir de sonhos e demasiado próximo para ser esquecido e finalmente, que em Arte os verbos se conjugam numa linguagem universal.

 

Theresa Bêco de Lobo

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