Maria Callas em Lisboa            

Maria Callas guardou Portugal na sua memória e sensibilidade. O nosso país ofereceu-lhe uma das maiores ovaçoes da sua carreira. Aconteceu a 30 de Março de 1958, no segundo dos dois espectáculos realizados no Teatro de São Carlos, em que Callas interpretou a “Dama das Camélias”. Discretamente, haveria de chorar no camarim, primeiro, na Quinta da Piedade, em Sintra, propriedade da Marquesa Olga de Cadaval, depois. Esta acabara de proporcionar-lhe a concretização de um dos grandes sonhos da cantora: conhecer o ex-Rei Humberto de Itália, exilado em Cascais desde 1946. Foi, aliás, para o conseguir que aceitou, a troco de um cachet simbólico, actuar em Lisboa.

Cecília Maria Calogeropoulous, seu verdadeiro nome, nasceu em Nova Iorque, filha de emigrantes gregos, a 2 de Dezembro de 1923, durante uma forte tempestade. “O estado do tempo afecto-lhe para sempre a maneira de ser”, segundo a mãe.

Aos 10 anos, Maria cantava árias de “Carmen”. Os pais separam-se e ela fixa-se na Grécia. Entra no Conservatório de Atenas e estreia-se, em 1942, na Tosca.

A II Guerra Mundial lança-a na miséria. Para sobreviver, dá recitais a militares em troca de alimentos. No fim do conflito regressa a Nova Iorque, onde será contactada por um empresário que ao ouvi-la cantar, a convida para o Teatro de Verona, em Itália. Apresenta-se, com extraordinário êxito, em “La Gioconda”. No final, conhece dois homens que a irão influenciar profundamente: o maestro Túlio Serafin, seu future mentor artístico, e o industrial Giovanni Meneghini, com quem acabará por casar.

Callas transforma-se fisicamente; emagrece 30 quilos, valorize o corpo, altera o penteado, dissimula a miopia e esconde, sob largas saias, a gordura das pernas. Actua no Teatro La Fenice de Milão, com “Aida”.

Um timbre de voz único permite-lhe alternar pápeis líricos e dramáticos.

Conhece Luchino Visconti que a dirige em cinco espectáculos, entre eles “La Sonâmbula”, um dos seus maiores êxitos.

Torna-se uma vedeta. As tourneés sucedem-se pelos principais teatros da Europa e da América.

 

Chega a Lisboa

Ao fim da tarde de 25 de Março de 1958 a cantora, acompanhada pelo marido, chega à Portela. Apresenta-se elegantemente vestida, casaco vermelho com gola de pele cinzenta e chapéu a condizer. Não era, porém, a primeira vez que estava entre nós, pois no início da sua internacionalização, o barco onde viajava para a Argentina escalara em Lisboa – que não lhe deixou boas recordações.

“Parámos algumas horas na cidade, mas não gostei dela. Era tudo caro, caríssimo”, anota numa carta enviada de bordo ao marido.

Uma multidão aguarda-a no aeroporto. Ao colo traz, por precaução, um caniche preto fora avisada que jornalistas iriam tentar-lhe confiscar-lhe o animal para a enfurecer, provocando excelentes fotografias das suas lendárias cóleras. Instala-se no Hotel Aviz, o mais sumptuoso da capital.

A hipótese da sua viagem surgiu durante uma festa em Veneza, quando a cantora confidenciou à Marquesa Olga de Cadaval o desejo de conhecer o derradeiro monarca italiano. As duas trocaram, então, o seguinte dialogo;

  • “Mas a Senhora é muita cara e a ópera de Lisboa não pode pagar”, disse-lhe Olga de Cadaval.

  • “Sou muito cara? Como sabe”?

  • “Sabe-se!”

  • “Olhe, digo-lhe com franqueza que eu própria não faço ideia de quanto é o meu cachet actual: é o meu marido que trata tudo isso. Mas se é para cantar em Portugal, até posso ir gratuitamente, com uma única condição: poder conhecer pessoalmente o Rei de Itália – que estava exilado em Cascais.”

  • “Oh minha senhora, isso posso garantir-lhe. Mas também não quero que não leve nada, apenas que reduza o seu cachet.”

  • “Então fale com o meu marido. Eu dou-lhe um papel escrito e assinado por mim dizendo-lhe que aceito um contrato com a ópera de Lisboa. Mas mantenho a minha condição: poder conhecer o Rei de Itália.”

 

A Marquesa entra em contacto com o dr. José de Figueiredo, director do Teatro de São Carlos, para lhe perguntar quanto podia pagar a Maria Callas.

Viúva de um português, a Marquesa Olga de Cadaval , descendentes dos doges de Veneza e aparentada com diversas reais da Europa, fixara-se em Sintra ao casar com D. António, Marquês de Cadaval, sendo responsável por importantes festivais de música clássica no nosso pais e pela administração da Herdade de Muge.

Encontro entre Rei Humberto e Maria Callas

Callas deu no São Carlos duas récitas com a “Traviata de Verdi”, onde interpretava o papel da “Dama das Camélias”. A primeira ocorreu a 27, a segunda a 30. Foi-lhe preparado um camarim forrado a seda, mobiliário de estilo e garrafa de champanhe em balde de prata. O teatro aumentou a sua lotação em 50%: camarotes e frisas, camarotes destinados a cinco pessoas, foram ocupados dez. Os bilhetes da plateia, vendidos a 200 escudos, custavam no Mercado negro cinco contos.

“No ensaio-geral ela deixou cair o leque, pouco antes de eu começar a cantar. No final pediu-me desculpa por, eventualmente, ter perturbado a minha actuação”, revelou o tenor Álvaro Malta, que desempenhou o papel de “Barão”.

Ao aperceber-se da chegando ao teatro de Craveiro Lopes, presidente da República, Callas exclamou: “Ai meu Deus, se adoeço subitamente, como me tem acontecido nos últimos tempos, e não posso actuar, vão enforcar-me!”. Meses antes provocara, com efeito, escândalo em Roma ao abandoner a “Norma”, no fim do I acto, na presença do president Gronchi.

Acompanhada pelo tenor espanhol Alfredo Krauss, que se estreou a seu lado, Callas seduziu como soprano e actriz toda a assistência. No I acto, envergou um conjunto de tule cinzento, realçado por diamantes e, no II acto, um de veludo escuro. Ela levou o público ao delírio, quando, numa enorme cama dourada, soluçava por os deuses a deixarem morrer jovem e bela.

“A sua voz descorporizada não parecia deste mundo”, escreveu a crítica Francine Benoit no Diário de Lisboa.

“Era de um grande profissionalismo, que exigia a todos que actuassem com ela”, recoudou Maria Cristina de Carvalho, que interpretou na récita o papel de “Aía”.

“Simpática e atenciosa, não deu nunca mostras do seu tão falado temperamento”, observou, por sua vez, Serra Formigal, ex-director do São Carlos.

“A Editora Emi-Valentim de Carvalho lançou em 1980 a “Traviata de Lisboa”, mas a sua qualidade é deficiente", sublinhou o musicólogo João Pereira Bastos. ”Obteve-a, provavelmente, através de Alfredo Krauss”. A gravação original, pertencente aos arquivos da RTP, apenas seria achada em 1997, encontrando-se em bom estado Foi lançada, em 2001, uma tiragem restrita de dois mil exemplars.

 

Segundo espectáculo

Np segundo espectáculo, Maria Callas arranca a maior ovação da sua carreira. É chamado ao palco 42 vezes, registando-se os aplausos mais prolongados de sempre no São Carlos. “Foi a maior actriz que jamais vi”, evocou Vítor Pavão dos Santos, historiador e fundador do Museu do Teatro.

Após a estreia, a diva desloca-se, em segredo, à Quinta Piedade, em Colares, residência da Marquesa Olga de Cadaval, onde a aguarda o ex-Rei Humberto de Itália. Os dois conversam longamente, emocionadamente, num salão dominado por uma tapeçaria flamenga quinhentista, diverso mobiliário Império, um retrato de Dom Nuno Álvares Pereira, “considerado o primeiro antepassado dos Cadaval”, azulejaria seiscentista e um imponente cravo assinado por Marcal Taskin com chinoiseries (hoje no Museu da Música), outrora pertencente a Luís XVI de França.

No jantar estavam as duas filhas da Marquesa, e escolhidos convidados -melómanos e alguns membros da uma associação musical. A recepção decorre na sala oval, aberta para o amplo jardim da casa, entre retratos a óleo de antepassados, pratos de Sévres e da Companhia das Índias em forma de grinalda, e um centro de mesa com figuras de Saxe e uma terrina com prata francesa do século XVIII. Foi uma noite memorável, a Marquesa Olga de Cadaval era uma anfitriã que tocava o zenite.

Callas abandona Portugal, onde não voltará, em glória.

 

Ulisses Moderno

Pouco anos depois, Callas e Onassis apaixonam-se, em 1959, no decorrer de um cruzeiro no Mediterrâneo. Em Islambul, ele homenageia-a, apelindando-a de “a mais famosa cantora e marinheira do mundo”, um “Ulisses moderno”.

No fim da viagem, a cantora confessa ao marido que está apaixonada pelo armador. Divorciam-se. Os novos amantes tornam-se então, presenças assíduas no jet set. Como Onassis não aprecia ópera, Callas começa, com indisfarçavel desgosto, a rarear as actuações. O golpe final da sua relação acontece quando o multimilionário casa com Jacqueline Kennedy.

Deprimida, Maria Callas refugia-se no seu apartamento da Avenida Georges Mandel, em Paris, tentando recompor a carreira. Protagoniza, a convite de Pasolini, o filme Medeia. Sem coragem para retomar aos palcos, a voz enfranquezera, ela aceita dar aulas no Curtis Institut of Music de Filadélfia e na Julian Scholl of Music de Nova Iorque.

Conhece o tenor Giuseppe di Stefano e durante o ano de 1975 os dois dão recitais na América e Europa. O resultado é decepcionante. Há plateias que nem sequer os aplaudem. A carreira esvai-se-lhe. Em Julho de 1977, Maria Callas canta, sem glória, “Força do Destino”.

A depressão submerge-a por completo, isola-se em Paris no seu confortável apartamento, perto dos de Marle Dietrich e da princesa Soraya. Aliás as três tiveram em comum o isolamento, o fausto, a doença e a solidão. Maria Callas desaparece a 16 de Setembro de 1977. Pouco antes, a diva confidenciou  à governanta Bruna e ao motorist Ferruccio: “A felicidade não é o meu mundo”.

Para a história Maria Callas ficou como a maior cantora lírica de todos os tempos, tendo entre nós o maior ovação da sua carreira.

António Brás

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