Manuel Reys Santos I O Grande Restaurador

Manuel Reys dos Santos foi o maior restaurador de pintura portuguesa da segunda metade do século XX, destacando-se ainda como pintor – cuja obra oscila entre o figurativo, o modernismo e o abstracionismo.

 Nascido em 1921, o pintor e restaurador demonstrou desde criança um precoce talento; aos 10 anos já desenhava e aguarelava com um traço de grande sentido cromático. 

Manuel Guimarães Reys Santos estuda na Escola António Arroio e termina com 20 valores. De seguida, frequenta os cursos de pintura e escultura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Nessa época participa em inúmeras exposições, onde se destacam as suas sublimes vistas de Lisboa. 

A actividade de restaurador inicia-se no atelier de Abel de Moura, oficina anexa ao Museu de Arte Antiga, mais tarde Instituto José de Figueiredo. Reys Santos faz estágios em Roma e Bruxelas. Em 1969 torna-se chefe de divisão de pintura, funções que desempenha até reformar-se em 1984. 

Durante essas décadas, mestre Reys Santos desenvolve uma intensa actividade e impõe-se como o maior restaurador de pintura em Portugal, com trabalhos inúmeras vezes elogiados na Europa e Estados Unidos.

Destacamos o restauro do tríptico “Tentações de Santo Antão de Bosch”, a principal obra-pictórica estrangeira das colecções do Estado;  do  “São Pedro” de Gaspar Vaz, da Igreja do Mosteiro de Tarouca;  do Retábulo de Santa Auta,  de mestre desconhecido quinhentista, do Museu de Arte Antiga.

Durante anos, Reys Santos dirige inúmeras equipas de brigadas móveis de restauro que fazem intervenções ao longo de Portugal.  Destacamos as pinturas quinhentistas de Jorge Afonso no Convento de Tomar, os frescos góticos e as telas barrocas da Igreja de Nossa Senhora de Oliveira, em Guimarães;  os frescos de Almada Negreiros  dos vestíbulos das gares marítimas  de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos; as pinturas das paredes e tectos de João Vaz na antiga Escola Médica, em Lisboa.

O tratamento, conservação e restauro de mais de uma centena de pinturas europeias do Museu de Arte Antiga decorrem entre 1975/76,  seguindo-se, em 1981, o tratamento de parte das pinturas do Museu Machado de Castro. 

Aquando da XVII Exposição de Arte Ciência e Cultura, Reys Santos assume a responsabilidade, entre 1982/83, de liderar o restauro e tratamento de 130 pinturas sobre óleo e madeira.

Aos 64 anos, Reys Santos reforma-se. No atelier de restauro, próximo da Estrela, desenvolve trabalhos para particulares, museus e fundações.  

Sommer Ribeiro convida-o a tratar o vasto acervo de arte moderna e contemporânea do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

“Durante meses, um tempo muito escasso, o meu marido não descansa, por ser necessário tratar de inúmeras obras”, destacou-nos Maria de Lourdes Guedes da Mota, viúva do artista.  “Pouco depois tem de restaurar obras de Amadeo de Souza-Cardoso para a retrospectiva da Gulbenkian, o tempo era reduzido”.

Os restauros para particulares sucedem-se, obras cimeiras das colecções Jorge de Brito, Champalimaud, Palmela, Amaral Cabral, entre outras, passam pelo seu atelier.

“Às vezes tenho de recusar trabalhos, pois outras pessoas estão à espera”, destacou o restaurador. “Aqui não há bons nem maus clientes, todos são bons, as peças às vezes é que são más e não merecem sequer o tempo e o dinheiro de um restauro”, sublinhou.

Durante anos, o mestre teve a colaboração da mulher. Esta, formada em germânicas, tratava das limpeza dos quadros.  Passaram pelo atelier notáveis obras de arte, caso de “Santo António” de Crivelli, da “Sagrada Família e Doadores” de Carpaccio, de um Retrato de Van Dcky, entre centenas obras dos séculos XIV a XX.

 

INUNDAÇÃO CATASTRÓFICA

 

Quando das inundações de 1967, na área de Lisboa, o património artístico de Calouste Guklbenkian, guardado no Palácio Pombal, em Oeiras, foi duramente atingido. Obras de valor incalculável ficaram cheias de lama e profundamente danificadas. Manuel Reys Santos foi o responsável pelo seu restauro. Durante meses, trabalhou na limpeza, recuperação e restauro de obras cimeiras de Van Dyck (refez a mão esquerda do retrato) e de Guardi, um dos maiores mestres da pintura veneziana.

Reys Santos torna-se um dos maiores especialistas portugueses em artes plásticas. Nos anos 80 e 90 detecta oboomde falsificações que inunda o mercado português. “Há pouco trouxeram-me para analisar dois quadros assinados por Carlos Botelho e Mário Eloy. Eram cópias”, contou-nos em 1999. “Um quadro pintado por mim apareceu-me mais tarde como se fosse de Eduardo Viana. Era uma paisagem onde colocaram uma figura feminina e a assinatura daquele artista. Há cada vez mais pessoas a comprar quadros apenas pela assinatura, dado conhecerem pouco de pintura. São, claro, facilmente enganadas. Lembro-me que há anos surgiram dez quadros de Viana, Amadeo, Botelho, Marques de Oliveira, Smith e Vieira da Silva todos falsos. Pouco depois chegaram à Gulbenkian para Sommer Ribeiro os autenticar. Ele chamou-me e eu descobri  a falcatrua. Um dos casos mais curiosos deu-se numa retrospectiva de Carlos Botelho, onde apareceram, com o seu nome, duas vistas de Lisboa idênticas, uma era falsa”.

 

ANOS FINAIS

 

Aos 80 anos, Manuel Reys Santos resolve dedicar-se à sua obra pictórica. A convite de Raquel Henriques da Silva restaura e conserva, entretanto, dezenas de obras de Eduardo Viana que figuraram na grande retrospectiva realizada na Europália, em Bruxelas.

“O Manuel gostava muito de pintar, nos últimos anos manteve o atelier para pintar paisagens e naturezas  mortas, muitas vezes através de fotografia”, disse-nos Maria de Lourdes. “Ele pintou muito no Alentejo, no Algarve, na Costa de Caparica”, realça.

A obra pictórica, muito vasta e diversificada, divide-se pelo modernismo, figuração e abstracionismo. 

 

“Os retratos são produto de encomendas, ele não gostava muito mas aceitava-os. Recordo inúmeras encomendas particulares, caso da família Palmela,  e do Estado, especialmente parte da galeria dos Reitores da Universidade de Coimbra.”,  confidenciou a viúva.

O pintor tem um domínio pleno do cromatismo, de forte e expressiva pincelada. Durante 56 anos participa em dezenas de exposições colectivas e individuais nos mais importantes museus e galerias portugueses. Os prémios sucedem-se. 

A obra de Manuel Reys Santos encontra-se representada na Fundação Calouste Gulbenkian,  nos museus de Marinha, em Lisboa, no Diogo Gonçalves, em Portimão, no João Mário em Alenquer, no Municipal de Portalegre, no de Setúbal, na Academia Nacional de Belas Artes e na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, na Universidade de Coimbra e na Administração do Porto de Lisboa.

Recentemente, a viúva do pintor doou duas paisagens de Lisboa ao Museu da Cidade, outras duas sobre cenas de costumes das Caldas ao Museu José Malhoa, bem como uma vista de Sintra ao Museu Municipal daquela vila, e um auto-retrato ao antigo Instituto José de Figueiredo.

Nos últimos anos, Manuel Reys Santos desempenhou as funções de vice-presidente da Académia de Belas Artes, dedicando-se a conservar e a restaurar graciosamente o acervo pictórico dessa instituição. O seu trabalho permitiu mostrar o acervo na Galeria Dom Luís, em 2016 e, presentemente, no Centro Cultural de Cascais.

O pintor desapareceu a 14 de Maio de 2012, em Lisboa, cidade onde nascera a 9 de Dezembro de 1921.

 

 

CRONOLOGIA DE MANUEL REYS SANTOS

1921 – Nasce em Lisboa Manuel Guimarães dos Reys Santos

1941 – Termina o curso da Escola Industrial António Arroio, Arte Aplicada, com a classificação de 20 valores

1942/3 – Frequenta a Escola Superior de Belas Artes, cursos de escultura e pintura, tendo sido discípulo de  Leopoldo de Almeida. Estuda desenho e pintura na Sociedade de Belas Artes, com Domingos Rebello, Emmérico Nunes e Manuel Bentes

1945 – Ingressa como restaurador no atelier do pintor Abel Moura que dará origem ao Instituto José de Figueiredo

1967 – Grandes restauros de pinturas da Fundação Gulbenkian

1969 – Torna-se chefe de divisão do Instituto José de Figueiredo

1970 – Restauro da “Virgem com o Menino e Doador”, pintura do século XV do mestre de Santa Clara, MNMC

1971 – Restauro do retábulo de Santa Auta, MNAA,

1972 – Restauro das “Tentações de Santo Antão”, de Bosch, MNAA 

1975 – Intervenção nos frescos góticos da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães

1975-1976 – Intervenção em cerca de 100 pinturas europeias do MNAA

1978 – Restauro das pinturas de Gregório Lopes do Convento de Tomar

1981 – Restauro de  parte do acervo pictórico do Museu Machado de Castro

1982/3 – Conservação e restauro de 130 pinturas patentes na XVII Exposição de Arte Ciência e Cultura

1983 – Reforma-se do Instituto José de Figueiredo, continuando a trabalhar no seu atelier. Conservação e restauro  do acervo do Centro de  Arte da Gulbenkian, colaboração que mantém aquando da grande exposição dedicada a Amadeo de Souza - Cardoso

1988 – Restauro da pintura “Santo António com o Menino” de Crivelli

1991 – Intervenção, conservação e restauro, de pinturas de Eduardo Viana expostas na Europália. A nível privado restaura pinturas para as colecções Palmela, Chapallimaud, Horta Osório e Amaral Cabral, entre muitas outras

1992 – Passa a dedicar-se, praticamente em exclusivo, à sua própria obra, que oscila entre o figurativo e o abstracionismo

2009/10 - Restaura o acervo pictórico da Academia de Belas–Artes, da qual era vice-presidente

2011 – Homenageado pela ANBA no dia do seu 90º aniversário

2012  - Morre a 14 de Maio no Hospital da CUF, em Lisboa

2012/3 – A viúva, Maria de Lourdes Guedes da Mota, doa pinturas de Manuel Reys Santos aos museus José Malhoa, Cidade de Lisboa, Municipal de Sintra e Instituto José de Figueiredo. O espólio é entregue à Biblioteca de Arte da FCG

2019 – Exposição privada de parte do espólio de  Reys Santos na Inventiva, esse acervo fora preservado pela viúva falecida em Novembro de 2018 aos 90 anos. 

 

Um escultor romântico quase esquecido

Pedro Carlos dos Reis, bisavó de Manuel Reys Santos, é um artista mal estudado na arte portuguesa do romantismo. Filho e neto de escultores, teve uma carreira longa, incompreendida e complexa. A sua obra integra-se nas linhas do romantismo, que nunca pretendeu abandonar. A sua produção foi vasta. Segundo relatos familiares, ele tentou o ensino mas foi preterido em sucessivos concursos, vivendo somente da sua actividade de escultor e ilustrador.  As obras que nos chegaram revelam-nos um inegável talento, ao nível do trabalho na pedra e na madeira bem como no desenho – estudos e ilustrações para importantes publicações.

A estátua de Bocage, em Setúbal, inaugurada a 21 de Dezembro de 1871, emblemático monumento da cidade do Sado, é a obra sua cimeira. A escultura foi executada por Germano José de Sales, conhecido canteiro de Lisboa. Até meados do século XX a peanha tinha somente o nome do canteiro, a autoria era desconhecida. A neta, Maria da Conceição Reis Gomes de Souza, conseguiu que o município setubalense inscrevesse o nome de Pedro Carlos dos Reis na base da peanha.

A estátua de Setúbal foi integralmente repetida no monumento ao poeta brasileiro romântico Gonçalo Dias, em São Domingos do Maranhão,  encomendada a Germano José de Salles. O nome do escultor está ausente dessa escultora.

Segundo a família, o aludido canteiro de Lisboa usou abusivamente inúmeras vezes os desenhos de Pedro Carlos dos Reis para executar dezenas de esculturas espalhadas por Portugal. 

O espólio de Pedro Carlos dos Reis preserva centenas de esboços e estudos. Destacamos os feitos para o monumento a Bocage, de inúmeras estátuas (figuras femininas ou masculinas sobre peanhas) e de baixos-relevos. A maioria é de simples apontamentos, de esboços rápidos, com indicações pormenorizadas e indicações técnicas. Os apontamentos gráficos incluem elementos estruturais como colunas e capiteis. Um estudo permitiu identificar algumas destas esculturas, não assinadas, nos cemitérios dos Prazeres e do Alto de São João. Muitos destes desenhos não se encontram assinados. Entre os 154 desenhos sublinhamos os encomendados para “O Jacaré”, importante revista de sátira caricaturista, bem como estudos para cabeças  e relevos para jazigos. 

O traço destes desenhos é sempre leve, expressivo e rápido, com forte modelação da luz.

Pedro Carlos dos Reis manda edificar um jazigo no Cemitério dos Prazeres, construção onde se destaca um alto-relevo da sua autoria. Trata-se de uma das suas melhores obras. O monumento viria a ser legado ao município de Setúbal, em 1978, pela bisneta Maria da Conceição Reis Gomes de Souza, encontrando-se em precário estado de conservação.

Obra identificada

Nos seus escassos apontamentos, preservados pelos bisnetos Maria da Conceição Reis Gomes, Maria de Lourdes e Manuel Reys Santos, observam-se as seguintes encomendas;

1 – Busto de João José P. Calhau, Porto 

2 – Busto de Alexandre de Campos, Braga

3 – Quatro estátuas sacras para o Bucchardo, Lisboa, Cemitérios dos Prazeres

4 – Estátua de São Pedro Ápostolo para o túmulo de Francisco Antonio de Andrade, Cemitério do Alto de São João. Nos apontamentos pormenoriza-se que o “tamanho é de seis palmos”

5 – Grupo representando a Caridade executado para a Igreja Matriz do Pernambuco, Brasil

6 – Baixo-relevo do Santíssimo Sacramento para a fachada da Igreja Matriz do Pernambuco 

7 – Quatro Evangelistas para a igreja anterior 

8 – Esculturas da Tabacaria Mónaco, em Lisboa, hoje classificada de interesse público 

9 – Bustos para o Teatro da Trindade, em Lisboa, muito danificados pelo tempo

No últimos anos, o acervo de Carlos Pedro dos Reis foi entregue  ao Museu de Setúbal. A bisneta Maria da Conceição Reis Gomes de Souza legou, em 1978, um pequeno núcleo. Mais recentemente, em 2012, Maria de Lourdes Mota Guedes, viúva de Manuel Reys Santos, efectua a doação de um vasto conjunto de desenhos e esculturas, permitindo conhecer e estudar a obra deste relevante artista. 

 

CRONOLOGIA DE PEDRO CARLOS DOS REIS

1819 – Nasce em Lisboa Pedro Quádrio Carlos dos Reis, filho do escultor Constantino José Quádrio dos Reis, professor da Academia Real de Belas Artes, discípulo de Faustino José Rodrigues e colaborador de Machado de Castro

1841 – Casa com Maria Júlia,  nascem três filhos. O primogénito. Hemogenes Carlos dos Reis estuda arquitectura e emigra para o Brasil, onde deixa ampla obra.

1859 – Grande polémica quando perde o concurso para professor na Academia Real de Belas Artes. Lugar ganho por Victor Bastos

1860 – Encomendas das esculturas São Marcos, São Mateus, São Lucas e São João para a fachada da Igreja Matriz de Pernambuco

1861 – Eleito académico de mérito da Academia Real de Belas Artes. Perde o concurso para a estátua equestre de D. Pedro IV no Brasil, que acaba por ser executada por Calmels

1867 – Executa os baixos-relevos representando Gil Vicente, António Ferreira, Damião de Gois, Sá de Miranda, Clio, Euterpe e Terpsichore, para as fachadas do Teatro da Trindade

1868 – Expõe na Academia Real de Belas Artes o baixo-relevo “Combate das Amazonas”, escultura em mármore baseada numa gravura de Rubens, hoje no Museu de Setúbal 

1870 – Passa a residir em Paio Pires, onde adquire diversas propriedades agrícolas

Inauguração da estátua de Bocage, em Setúbal. O monumento é pago por uma subscrição da comunidade portuguesa no Brasil, ideia de António Feliciano de Castilho e José de Castilho. A escultura custa 162 mil reis, sendo dos primeiros edificados no liberalismo

1880 – Executa três esculturas para a Tabacaria Mónaco, localizada no Rossio em Lisboa, dois candeeiros em bronze representando mosqueteiros e um busto do príncipe Alberto do Mónaco, obra em gesso patinado.

1893 – Morre em Paio Pires ficando sepultando no jazigo que mandara edificar no Cemitério dos Prazeres, onde sobressai um alto-relevo de sua autoria

1978 – A bisneta, Maria da Conceição Reis Gomes, lega ao município de Setúbal parte do espólio de Pedro Carlos dos Reis, bem como o jazigo de Lisboa

2011 – Maria de Lourdes Mota Guedes, viúva do bisneto Manuel Reys Santos, doa ao Museu de Setúbal um vasto conjunto de desenhos e esculturas de Pedro Carlos dos Reis 

2011  - A Câmara Municipal de Setúbal inaugura, no antigo edifício do Banco de Portugal, um polo do museu da cidadede com a estátua, assinada por ele, de Bocage.

António Brás

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