Ricardo Espírito Santo I Um excepcional mecenas português 

Há 70 anos, Ricardo Espírito Santo instituía em Lisboa uma fundação com o seu nome. O objectivo era o de preservar e apoiar as artes decorativas portuguesas de que era um apaixonado. 

Admirador de Salazar, íntimo de Amália, amigo de Humberto de Itália, Ricardo Espírito Santo foi uma figura marcante na cultura do nosso  país. 

Era um homem afável e elegante, sensível e rigoroso, displicente e ousado - e, sobretudo, milionário. 

Uma amizade profunda ligou-o a Amália Rodrigues, então em início de carreira e de ascensão social. Paciente, ensinou-a a afirmar o bom gosto, a assumir o talento. Emprestou-lhe dinheiro para comprar o seu palacete de São Bento e ofereceu-lhe móveis do século XVIII para o decorar. 

Outra mulher a quem iniciou na etiqueta protocolar (e a quem incitou a comprar um andar em Benfica) foi D. Maria de Jesus Caetano Freire, a célebre governanta de Salazar.

Visita afectuosa de São Bento, Ricardo Espírito Santo exerceu influência na decoração da residência oficial do próprio Presidente do Conselho. Salazar dedicava-lhe, aliás, simpatia e confiança.

“Todas as noites, Salazar chamava o nosso amigo Ricardo. A conversa era sempre longa e insólita; versava principalmente problemas de saúde dos dois”, anota a propósito a Condessa de Paris, nas suas memórias. 

 

Horror aos aviões

Detestando viajar (tinha horror aos aviões), Ricardo Espírito Santo estabeleceu redes de agentes no Ocidente que o mantinham informado dos movimentos do mercado da arte em Londres, Paris, Genève e Nova Iorque.

Os negócios de família, nomeadamente a banca, eram outra paixão sua. Empresário de sucesso foi uma pedra fundamental no alargamento do império Espírito Santo. 

Uma das suas mais ambiciosas realizações foi a Escola-Museu de Artes Decorativas. O seu propósito era mostrar a nossa cultura e preservar os ofícios tradicionais, formando especialistas de restauro, reprodução e decoração.

No museu expõem-se hoje cerca de duas mil obras que reflectem os interiores das casas nobres portuguesas dos séculos XVII a XIX. 

 

Tapete deteriorado

A primeira peça que adquiriu foi um tapete do século XVII de Arraiolos, muito deteriorado. Tinha 16 anos. Como na família não havia tradições de coleccionismo, os irmãos ficaram escandalizados com o trapo que ele levou para casa. 

Aos 18 anos casou com Mary Sarmento Cohen que se tornou uma presença assídua na sociedade portuguesa. Ao longo da vida, o banqueiro ajudou inúmeros pintores, escritores, actores. Eduardo Malta, António Botto (pagou-lhe a ida para o Brasil) e Beatriz Costa foram alguns dos beneficiados. Financiou o “Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses” de Fernando Pamplona e “Obras-Primas da Pintura Flamenga dos Séculos XV e XVI em Portugal”, de Luís Reis Santos. Foi co-autor dos livros “Tesouros da Ourivesaria Francesa em Portugal” e “Porcelana Chinesa ao Gosto Europeu”.

Os primeiros parques infantis para crianças pobres, surgidos nos Anos 30, em Lisboa, tiveram nele um apoiante incansável. Ofereceu um cheque de 30 contos, quantia substancial na época, a Fernanda de Castro, criadora dos referidos parques, dizendo-lhe: "Foi muita bonita a sua ideia. Acho-a poética, e eu gosto de poetas", contará a escritora nas suas memórias.

A vivenda que reconstruiu em Cascais, na Boca do Inferno, foi um capricho de coleccionador - e de inovador. Nos Anos 30 aquela zona era inóspita e desabitada. De estilo tipicamente português, por ela passaram a família real espanhola, os Condes de Paris, o Rei de Itália, a Princesa Helena da Roménia, os arquiduques Francisco José e Ana de Áustria e os Duques de Windsor.

Ricardo Espírito Santo morreu inesperadamente a 2 de Fevereiro de 1955, aos 54 anos, na sequência duma intervenção cirúrgica. Ficou sepultado numa capela anexa ao seu palacete de Cascais, perto da mulher, falecida em 1979.

 

Móveis em Versailles

A fundação que lançou tem dezenas de artífices espalhados por inúmeras oficinas. Delas sobressaem as de marcenaria, embutidos, talha, pintura decorativa, cinzelagem, tapeçaria de Arraiolos, encadernação e restauro de porcelana e faiança.

Os palácios de Versailles e Fontainebleau foram, por exemplo, clientes assíduos. A família Rockfeller, assim como a casa-real inglesa, testemunham igualmente a capacidade da fundação.

Salazar chamou um dia Ricardo Espírito Santo e Manuel Queiroz Pereira dizendo-lhes: "É preciso um hotel de luxo em Lisboa". Eles contactaram arquitectos, artistas, decoradores e surgiu o Hotel Ritz. O mobiliário das suites e dos salões principais foi feito na fundação.

Os palácios de Seteais, Palmela, Belém, Ajuda, Queluz, Casa dos Cónegos e São Marcos ostentam, entre outros, recheios nela executados. O mesmo sucede com edifícios de várias embaixadas portuguesas no mundo.

Com meio século de antecedência, Ricardo Espírito Santo percebeu que se não preservássemos a arte mais genuína, ela perder-se-ia. O esforço que fez nesse sentido tornou-o o maior mecenas nacional do século XX. 

 

Museu único

O edifício-sede da fundação, um palácio seiscentista no Largo das Portas do Sol, em Lisboa, acolhe a mais relevante colecção de artes decorativas portuguesas. Em 22 salas podemos contemplar ambientes dos séculos XVII e XVIII, onde sobressaem moveis, têxteis, porcelanas, faianças e pratas de grande qualidade e raridade. Todo esse acervo tem vindo a ser objecto de aprofundados estudos, destacando-se o publicado no livro-álbum “Móveis de Conter, Pousar e de Aparato, dos séculos XVI a XIX”. O seu conteúdo baseia-se no espólio da fundação realizado por Fernanda Castro Freire.

 

Obras-primas

A colecção de Ricardo Espírito Santo foi realizada com paixão e resiliência. “Sempre gostei”, palavas do banqueiro, “do século XVIII, e de artes decorativas portuguesas e francesas,  dos primitivos flamengos, da porcelana alemã e das pinturas de Pillement”.

Da colecção faziam parte um excelente conjunto de móveis franceses setecentistas (leiloados em 1955), de caixas de Saxe, de cinco baixelas da Companhia das Indias, além de um par de serpentinas de Thomas Germain, obras hoje em paradeiro incerto. Nos mercados surgem frequentemente peças do empresário.

Entre as antigas obras-primas do banqueiro destacam-se os óleos “São Bernardino de Siena” de Quentin Metsys,  legado por ele a Salazar – que o doaria ao Museu do Caramulo. 

Pouco antes de falecer, Ricardo Espirito Santo ofereceu àquele museu a pintura a óleo “Maria de Medicis” de Franz Pourbus, uma das referências da instituição.

Entre as obras cimeiras preservadas no museu da FRESS destaca-se a Mesa dos Três Tampos   (jogo, chá e toucador) móvel executado no terceiro quartel de 1700 considerado um dos mais requintados trabalhos da marcenaria portuguesa, com ferragens “rocaille” em prata. Nos últimos anos surgiu uma mesa idêntica no mercado leiloeiro de Lisboa, classificada como obra setecentista, que atingiu o valor de 250 mil euros. Outra mesa integra o acervo da colecção Medeiros e Almeida e uma quarta pertence à família Teixeira da Mota, todas consideradas da época.

 

De salientar que a Fundação não atravessa um momento muito próspero pois há quem, injustamente, ligue o nome Espírito Santo ao desastre económico de muitas pessoas que acreditavam no Banco do mesmo apelido, quando na realidade nem todos os familiares podem ou devem ser envolvidos num caso de corrupção a que são alheios e tem os seus autores. Mas, não se mancha uma família inteira e uma instituição tão rigorosa. E, talvez por esta fatalidade, acreditamos que a Fundação que tanto tem feito pela cultura portuguesa deve ser mais acarinhada. Numa pequena visita aos seus espaços há muito para aprender. Nessa casa ,a nossa directora já lá fez uma exposição de leques da sua colecção e sabemos que outras poderá vir a apresentar. A Fundação precisa da ajuda de todos os coleccionadores de boa vontade que respeitem o espírito elevado do grande português que foi o Dr. Ricardo Espírito Santo Silva e acima de tudo que os visitantes aumentem em função da alta qualidade das peças expostas.

 

António Brás 

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