Karl Lagerfeld I Morreu Um Dos Meus Heróis da Moda

A morte de Karl Lagerfeld envolveu-me hoje, de manhã, numa profunda tristeza, semelhante à mesma que senti quando Versace foi “assassinado” à porta da Casuarina e, também, quando o o meu muito amado Yves Saint Laurent partiu para a eternidade. Três grandes costureiros que acompanhei de perto durante muitos anos. O mais amigo e doce foi o Versace, Saint Laurent dependia do massacre que o Pierre Bergé lhe infligia com as suas atitudes impróprias, Karl Lagerfeld era alemão, mais distante e mais frio, mas sempre lhe mereci o crédito de, por odem sua me darem um bom lugar para assistir aos seus desfiles.

Versace, Yves Saint Laurent e agora, Karl Lagerld foram três estrelas muito brilhantes que acendiam o céu de Paris e se apagaram.

Mas, é em Lagerfeld que agora nos focamos. Ele aparentava ser uma personagem misteriosa, com os olhos escondidos debaixo de óculos escuros, os colarinhos brancos altos a rodearem-lhe o pescoço, uma gravata tipo Lavallière com grandes alfinetes dos séc. XVIII e XIX, um par de mitenes a cobrir-lhe as mãos – aquelas mãos que utilizava como ninguém para disparar a sua máquina fotográfica com tiros certeiros de caçador da beleza feminina, dos pormenores que o marcaram.

Ao contrário do que por aí se tem escrito, Lagerfeld não faleceu com 85 anos. Nasceu em 1939, em Hamburgo, no ano em que começou a 2ª. Guerra Mundial. O seu pai era um escandinavo e a sua mãe uma alemã.

Ainda muito jovem veio residir para Paris com a sua família e Karl adorava acompanhar a mãe às provas do vestuário das casas de costura.

Tinha ainda pouca idade quando, em 1954, foi premiado “ex-aequo” com Yves Saint Laurent pelo Secretariado Internacional da Lã.

Pierre Balmain solicitou a Karl Lagerfeld que executasse o casaco que desenhou e foi premiado e a seguir admitiu-o na sua equipa. Volvidos três anos e meio entrou na casa Jean Patou como estilista principal.

Nesta fase já se adivinhava que Lagerfeld seria um génio da Costura. E foi!

Mas, Lagerfeld não se fixava muito em nenhuma casa e decidiu então ser estilista de Krizia uma marca italiana que teve pontuação muito alta no Pronto a Vestir Italiano. Entretanto, começoi a colaborar com uma casa recentemente fundada, denominada Chloé e é dessa fase que eu tenho uma saia de noite que não me canso de vestir, feita por Lagerfeld e que tem uma beleza intemporal. Em paralelo com a sua actividade na Chloé, o mestre da costura, sempre sisudo, amigo dos seus amigos, inicia uma colaboração com a Fendi, empresa para a qual desenhou os casacos de peles e com outras empresas na área do vestuário para Alma e para a Ballantyne e na do calçado para Valentino que apreciava muito os seus sapatos.

Em 1983, vi Karl Lagerfeld aceitar a criação da colecção Chanel e o mais curioso é que ele conseguiu valorizar as peças que Coco Chanel tinha lançado com a preciosa ajuda do Duque de Verdura, o italiano que criou os tecidos para os seus “tailleurs” assim como os respectivos botões rodeados por uma corrente metálica de malha batida e uma imitação de meia pérola.

Fulco di Verdura foi o grande apoio da “Mademoiselle”, assim chamada por exigência sua. O Duque italiano partiu para os E.U.A. e nunca suportaria a mesquinhice e baixeza de uma mulher que se colocou do lado dos alemães para exterminar os judeus. O tempo da ocupação foi uma vergonha. Ela vivia no Hotel Ritz e a sua vida decorria entre o Hotel Meurice, onde era o quartel-general dos ocupantes nazis, e o Palácio do Luxemburgo, onde o chefe máximo estava instalado e recebia com agrado a sua visita para informações e… sabe-se lá mais o quê…!

Para corresponder ao convite da empresa que detinha a Chanel, Karl Lagerfeld estudou a vida da duvidosa personagem e transformou-a dando uma “allure” que jamais teria, uma qualidade insuperável. Lagerfeld foi, sem sombra de dúvidas, um mestre da Costura que arrastou os costureiros a fazerem mais e melhor e que posicionou a Chanel num universo entre a fábula e a fantasia a que o vestuário se presta.

Vi desfiles dele, em vários locais de Paris, alguns mostravam uma criatividade emocionante.

Não era por acaso que eu e as minhas colegas de imprensa aguardávamos o desfile da Chanel com a maior impaciência.

A partir do momento em que o Valentino vendeu a sua casa, que a Madame Carven faleceu, que Ungaro partiu para a sua região natal e Louis Feraud foi acometido da doença de Alzeihmer, senão fosse a presença dos libaneses, eu diria que a Alta-Costura já tinha morrido.

Porque considero que a perda de Lagerfeld deixa a moda de luto, só espero que surja algum talento de arromba e que Deus vá dando muita saúde a Jean Paul Gaultier, porque vi desaparecer muita GENTE que fez o meu encanto, entre os quais cito Paco Rabanne e André Courrèges. E onde está Pierre Cardin? Nunca mais o vi.

Estou registada na Chambre Syndicale de la Haute Couture desde 1979, há cerca de 40 anos.

É muito tempo! Assisti a grandes desfiles de Pronto a Vestir e de Alta Costura. Quando comecei as minhas idas a Paris, Roma, Milão e Florença, ainda a Moda & Moda não existia, pois, o primeiro número, saiu para as bancas em Junho de 1984.

Hoje, telefonaram para mim de televisões e da TV Guia. Desconheço o que pretendiam porque não estava na redacção. Se era para saberem alguma coisa sobre Karl Lagerfeld têm aqui uns apontamentos biográficos que mostram um pouco o carácter do homem cuja obra admirava, o amigo da família Grimaldi do Mónaco, o Mestre da Costura que se zangou com a Ines de la Fressange por ela aceitar o papel de Marianne da Republica Francesa. Assisti a esse desfile em que ele a humilhou com a sua substituição pela Claudia Schiffer, uma sem sal, sem alma que já não a vejo em lado nenhum.

Depois de tantos anos, é natural que tenha alguns episódios para contar sobre mim e o Sr. Karl Lagerfeld, o costureiro que se admirou que uma portuguesa soubesse o que eram móveis “Boule”, ou ainda que fosse capaz de identificar uma jóia Cartier. Mas, em abono da verdade, ele passou a acreditar que Portugal é um país com séculos de História…

Fiél à minha vocação de apresentar o “nec plus ultra” da criação e do luxo, escrevo estas palavras de despedida com algumas lágrimas a escorrerem-me pela minha face, já cansada de desgostos, na esperança que não seja desta vez que o agoiro do declínio tenha lugar na Alta Costura francesa.

Com a morte de Karl Lagerfeld partem as demonstrações “éclatantes” de magnificência e de fantasia, de exigência e da virtuosidade que nos deu. Que Deus o receba nos seus braços.

Marionela Gusmão

 

 

 

 

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