Grande Efeméride I 200 Anos do nascimento de D. Fernando II

 

D. Fernando, rei artista, foi um homem culto e ousado, afável e elegante, sensível e rigoroso. E, sobretudo, um dos maiores defensores do nosso património. Morreu cedo, rodeado de obras-primas e da mulher que amava – a Condessa de Edla - um dos grandes romances da nossa história.

D. Fernando nasceu na Alemanha, na Casa de Saxe Coburgo Gotha, primo do príncipe Alberto da Inglaterra e sobrinho do rei Leopoldo da Bélgica, veio para Portugal para casar com a Rainha D. Maria II. Entre o casal cimentou-se uma forte amizade.

A Rainha D. Maria II concedeu ao marido o título de rei-consorte. D. Maria II gostava da política, D. Fernando de obras de arte, palácios, mosteiros, igrejas, museus, era,enfim um grande cultor das artes plásticas, decorativas, arquitectónicas e paisagísticas. Portugal deve-lhe muito pela salvaguarda do património que andava delapidado e em decadência, já que foi este Rei a personalidade que se apercebeu que importantes monumentos e obras de arte corriam o perigo de se perderem, para sempre.

Os Mosteiros da Batalha e dos Jerónimos foram sujeitos a grandes restauros por sua intervenção - o primeiro estava quase a entrar em ruína.

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Um dia, ao visitar a Casa da Moeda, deparou-se com o Sacrário de Belém prestes a ser derretido. Salva-o imediatamente, bem como outras peças de ourivesaria.

No Palácio da Bemposta, uma das residências reais, encontrava-se, em abandono, as “Tentações de Santo Antão” de Bosch, e a “ Fonte da Vida” de Hans Holbein, que recolheu, mandando-os restaurar na Alemanha.

No Convento da Madre de Deus observou medalhões dos Della Robbia em risco de se perderem, acabando por salvaguardá-los no Palácio das Necessidades.

A própria residência-real sofreu obras vultuosas, dada a degradação e o abandono que evidenciava.

O pavimento do Palácio das Necessidades foi revestido a “parquets”, as paredes foram forradas a seda, os tectos foram estuques e a frescos. A par das inúmeras preciosidades, foi encomendando mobiliário que aliava o conforto ao requinte.

 

A tapada anexa transformou-se num dos melhores parques privados de Lisboa.

O casal-real e os seus 9 filhos tiveram uma habitação confortável.

D. Fernando II depara com as outras residências reais em grande declínio. Os paços de Vila Viçosa, Sintra, Mafra e Queluz estavam privados de conforto, possuindo paupérrimos recheios. O monarca mandou executar obras, conferindo-lhes um cariz de um certo gosto burguês, apesar de confortáveis. É preciso salientar que o Rei não tinha possibilidades económicas de reunir colecções como os seus primos nas grandes cortes europeias.

O rei sonha, imediatamente, em edificar um Paço-Real de raiz. Sintra fascinou-o, lembrava-lhe a Alemanha onde nascera. Acabou por adquirir, em hasta pública, o arruinado convento da Pena e os 85 hectares anexos, na época serras ventosas e com pouca vegetação.

O marido de D. Maria II vê, porém, o potencial do espaço. O velho convento era o local excelente para o novo Paço-Real de veraneio, e os terrenos anexos, local privilegiado para a plantação de um parque, único entre nós.

Rapidamente, iniciam-se as obras da edificação do paço sob a responsabilidade do engenheiro alemão Eschwege. A plantação do parque é dirigida por D. Fernando apoiado pelo barão de Kessler. Através dos contactos com casas reais europeias e, em especial dos Estados Unidos, da Ásia, da Nova Zelândia e da Austrália resultou a cedência de centenas de plantas até aí desconhecidas entre nós.

A alta aristocracia e a alta burguesia acabam por comprar terrenos, inicialmente da desmembrada quinta dos marqueses de Pombal, e edificar casas com parques nas proximidades da Pena.

Desenlaces fatais abater-se-iam, entretanto, sobre D. Fernando: em poucos anos morrem a mulher ao dar à luz, os filhos D. Pedro V, D. João e a nora D. Estefânia.

O ex-monarca abandona o Paço das Necessidades, passando a viver no antigo convento anexo, onde preserva a sua extensa colecção de arte.

 

Condessa d´Edla - A paixão de D. Fernando

 

Ao ficar viúvo, uma forte paixão liga-o a Elisa Hensler, uma cantora de ópera então em início de fulgurante carreira artística, que conheceu no Teatro de São Carlos na ópera “O Profeta” de Meyerbeer.

O romance, rapidamente, ficou conhecido nos meios sociais portugueses.

Os dois apreciavam as artes, tinham gostos requintados, assumiam o seu talento na fechada e pouco culta sociedade da época. Acabaram por casar, em Junho de 1869, numa cerimónia discreta, realizada na capela-privativa da infanta D. Isabel Maria, a única filha viva de D. João VI, que morava retirada em Benfica.

A corte ficou surpreendida. O rei D. Luís teve dificuldade em compreender e aceitar o enlace do pai. A rainha Senhora Dona Maria Pia, preferiu ignorar, a filha D. Antónia opôs-se. Apenas o filho D. Augusto, apoiou o casal.

Elisa Hensler foi agraciada com o título de condessa d`Edla pelo Duque Ernesto de Saxe Coburgo-Gotha, primo do Rei D. Fernando.

O casal refez a sua vida, longe da corte do Palácio da Ajuda, dedicando-se a coleccionar obras de arte, a apoiar jovens artistas, a terminar a edificação do Palácio da Pena e à plantação do parque envolvente.

A condessa gosta especialmente de floricultura, escultura, pintura, leitura e música. Foi um casamento feliz.

Os dois terminaram a edificação da Pena. Quer o palácio, quer o parque, reflectem a Alemanha natal de D. Fernando, e a Suíça onde nascera a condessa d´Edla.

Provavelmente para ter maior intimidade, o casal edifica, em 1870, o chamado Chalet da Condessa, pequena edificação exteriormente pintada a imitar madeira com interiores decorados a frescos muitos deles reproduzindo rendas, o que dá bem a ideia do romantismo que ali habitava.

Em Lisboa, no Convento das Necessidades onde habitavam regularmente, o casal apreciava dar concertos. Ambos cantavam. D. Fernando tinha uma razoável voz de barítono. Apoiavam, com bolsas de estudo, inúmeros artistas tais como, Columbano Bordalo Pinheiro, Cristino da Silva e o músico Viana da Mota.

As colecções de D. Fernando foram expostas, numa sala especial, na célebre Exposição de Arte Ornamental realizada em 1882, génese do Museu de Arte Antiga, a quem o monarca ofereceu notáveis obras de arte – especialmente pinturas de Sequeira, David Teniers, Schalcken, Ostade, Steen, Bomboccio, Moro, Poussin, Rigaud, Rafael e Da Vinci.

O casamento do neto D. Carlos com a princesa D. Amélia marcou a reaproximação da família-real.

A rainha D. Amélia e os filhos não esconderam o carinho e afecto por D. Fernando e pela condessa d´Edla.

O rei adoeceu e, durante meses, a mulher tratou-o com uma dedicação sem limites.

Em 1886, D. Fernando faleceu no antigo Convento das Necessidades, rodeado por obras de arte, parte delas hoje espalhadas por museus e palácios. A sua morte acabou por ser muito sentida entre as diversas classes sociais. Porém, o testamento foi uma surpresa. Nele, D. Fernando lega os seus bens privados à mulher, onde se incluíam a colecção de arte, o parque e o Paço da Pena.

A viúva, alvo de fortes ataques, nunca respondeu. Preferiu a discrição e o silêncio.

O falecido monarca pedira para ela viver no antigo Convento das Necessidades, mas o governo não autorizou.

Elisa Hensler muda-se para um austero palacete em Santa Marta, nas proximidades da Avenida da Liberdade, hoje demolido, onde viveu até morrer.

Os bens do rei, considerados da coroa, foram entregues à casa-real. O espólio pessoal acabou por ser parcialmente leiloado por ordem da Condessa d’Edla e dos filhos deste. Durante largos dias foram arrematadas milhares de peças que decoravam a residência de Lisboa do casal D. Fernando e sua mulher.

O Paço da Pena foi encerrado, pois a condessa não dispunha de meios para o manter.

Com a subida ao trono de D. Carlos iniciam-se as negociações para a aquisição do Paço da Pena e respectivo parque. O Estado adquire a propriedade, em 1891, pelo equivalente a 337 contos, um preço abaixo do valor.

A condessa d´Edla reserva para seu usufruto o denominado Chalet, onde passa os Verões.

A sua vida passa pela discrição total, apenas deslocando-se entre as suas residência e as da filha Alice. Jamais comparece a cerimónias mundanas. Ocupa o tempo a tocar piano, a cantar, a desenhar, a esculpir e a apoiar os mais necessitados.

D. Amélia e os filhos visitam-na frequentemente. Fotos com dedicatórias e correspondência são reveladoras desse afecto.

Em 1905, a condessa resolve edificar uma casa de férias na Parede, provavelmente devido aos seus problemas ósseos, por ser uma localidade indicada para essa enfermidade. Paralelamente, a filha e o genro, comandante Azevedo Gomes estavam a construir a chamada Casa das Pedras, hoje um ex-libris da Parede, na marginal.

Sintra deixa, em 1905, de ser zona de veraneio da condessa, vendendo o Chalet por 43 contos ao Estado.

Na nova casa de férias a vegetação vem de Sintra, e a própria arquitectura da moradia lembra o Chalet daquela localidade.

A maior paixão da condessa foi D. Fernando, tendo passado quase 50 anos viúva. A saudade era colmatada pela presença da filha Alice e seus netos.

A antiga cantora de ópera viveu em ambientes, onde a presença de D. Fernando era constante. Preserva um acervo único - as inúmeras jóias oferecidas pelo monarca, a prataria (peças marcadas com as iniciais), o mobiliário (destacava-se um contador com embutidos em marfim desenhados pelo rei), as faianças de Sacavém pintadas por D. Fernando (os pratos são embutidos em elegantes apainelados nas salas de jantar), os retratos do casal por Layraud (o dela está em paradeiro incerto nos Estados Unidos, o do rei encontra-se exposto na Pena), entre muitas outras peças.

Os derradeiros anos são cautelosos. A monarquia cai em 1910. A condessa não é incomodada pelas novas autoridades.

“Era uma senhora muito culta, isso notava-se, por exemplo, no seu diário hoje perdido”, revela-nos a sua trineta Magui Oom.“ A condessa vivia e respirava arte”, diz-nos, por sua vez, a sua trineta Maria de Jesus Oom.

A família da filha herda a sua veia artística: um neto Mário de Azevedo Gomes estuda o arvoredo da Pena e publica um livro, hoje fundamental; a bisneta Manuela Oom dedica-se até morrer, meses antes de completar 100 anos, a pintar retratos, paisagens e naturezas-mortas com mestria.

Elisa Hensler morreu, aos 93 anos, em 1929, em Lisboa, rodeada da filha e do pessoal que lhe era muito dedicado. A imprensa destacou o seu desaparecimento, afirmando que “soube viver e morrer com a dignidade de uma rainha”.

Segundo o Diário de Notícias de 1929, o funeral da Condessa “despertou o sentimento de muita gente, não baixou ao túmulo abandonada”. Com efeito a família-real esteve representada no enterro, membros da sociedade, os antigos protegidos, Columbano e Viana da Mota e “muitas mulheres do povo que levaram flores”…

No seu testamento, legou quantias a instituições de caridade, partituras ao Conservatório, objectos às suas primas Elisabeth Burgess e Anna Maclcan (que a ajudaram financeiramente no fim da vida), obras de arte a D. Manuel II e a D. Amélia que, segundo a condessa, “tem sido o meu anjo consolador em todas as amarguras da vida. As atenções que lhe devo são tantas e tão superiores, que não podem sair da minha lembrança senão quando de todo se apagar a vida”.

A trineta, por afinidade, Nina Oom destaca que “outra surpresa foi o legado de notáveis esculturas, gravuras, cerâmicas e livros raros de D. Fernando, desenhos de Sequeira, pratas e pinturas de Josefa de Óbidos, Matsys, Nicolas Taunay e Layraud ao Museu de Arte Antiga, com o objectivo de fazer uma sala D. Fernando, desejo nunca concretizado”, apesar de ser de toda a justiça.

No testamento, a condessa destacou que o legado era uma “homenagem ao rei-artista a quem tanto devo, para prova da minha eterna saudade”.

Na morte, mais uma vez, o protocolo atraiçoou a condessa d´Edla. Ela sabia que dificilmente podia entrar no Panteão da Casa de Bragança. Resolveu, por isso, ficar sepultada num jazigo, encimado por uma réplica da cruz-alta de Sintra, no Cemitério dos Prazeres, com uma singela inscrição.

Durante quase um século a figura da segunda mulher de D. Fernando II foi praticamente esquecida.

O ano de 1999 revela-se triste, a moradia da Parede é demolida por um construtor civil, e o Chalet de Sintra foi destruído por um incêndio.

O Chalet acabou por ser reconstruído pela empresa Montes da Lua, que administra os principais monumentos de Sintra.

Na actualidade, os visitantes podem observar vitrinas com objectos que pertenceram à condessa d´Edla - madeixas de cabelo, manuscrito da concessão do título, uma salva e um serviço de chá e café em prata com as iniciais da condessa, entre outras peças.

Os interiores do Palácio da Pena estão, por sua vez, a ser objecto de grandes restauros e uma pormenorizada reconstituição histórica, retirando-se os acrescentos posteriores a 1910.

Os milhares de visitantes podem observar quartos e salas íntimas, bem como zonas sociais, tal como D. Fernando, a condessa d´Edla, D. Carlos, D. Amélia e os filhos as habitaram. As tabelas museológicas, finalmente, dão relevância a Elisa Hensler, como antes nunca acontecera. Haja Deus!

Finalmente tenta fazer-se justiça à memória da condessa d´Edla.

 

CONCLUSÃO

 

O presente ano, prestes a terminar, marcou a Comemoração dos 200 Anos do nascimento do Rei D. Fernando II. O Palácio da Pena inaugurou recentemente a exposição “Fernando Coburgo fecit: a actividade artística do rei-consorte” dedicada à faceta criativa do marido de D. Maria II.

A Exposição dividida por quatro núcleos destaca especialmente as gravuras de D. Fernando II, a sua pintura sobre cerâmica, as suas aguarelas e um raro móvel cujas placas de marfim são baseadas em gravuras deste monarca que passou à História com o nome de Rei Artista.

Esta reveladora exposição apresenta peças nunca antes vistas pelo público, algumas anteriormente na posse de descendentes da condessa d’Edla, outras doadas e também vendidas pelos mesmos ao Palácio da Pena, além das seguintes entidades: Museu Nacional de Arte Antiga, Palácio Nacional da Ajuda, Palácio Nacional de Queluz e Fundação da Casa de Bragança.

De salientar que esta exposição apenas se encontra patente ao público até 30 de Abril de 2017.

 

António Brás

Nota da Redacção: 

PEÇAS INÉDITAS QUE FIZERAM PARTE DA COLECÇÃO D.FERNANDO II/CONDESSA DE EDLA

 

Os jornalistas têm a fama e o proveito de contribuir para a História, em todos os quadrantes.

Nesta editora estamos muito mais virados para a História de Arte, nas vertentes de Artes Plásticas e Artes Decorativas. Não somos dados a politiquices. Achamos isso, uma arte muito menor.

António Brás e o José Luís Teixeira, quais detectives, tanto na escrita como na fotografia, conseguiram o feito de acrescentar algum valor à Exposição “Fernando Coburgo fecit: a actividade artística do rei-consorte” sob a curadoria de Hugo Xavier, conservador do Palácio Nacional da Pena, pois descobriram algumas peças inéditas, sob custódia de familiares da Condessa d’Edla. Estas obras, ninguém viu. Trata-se de um exclusivo da revista Moda & Moda.

 

M.G.

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