GIANNI VERSACE 20 ANOS DEPOIS                  

       A MORTE DESPIU O MUNDO              

A morte saíu à rua, andou à solta e trazia dentes em fogo. Não saias, não morras Gianni, que ires é despires o mundo inteiro. Mas a morte saíu e levou-o. Ceifou-o. E “Casuarina”, a casa/réplica do Alcazar de Cristovão Colombo, de Santo Domingo, erigida em Miami, assistiu impávida.

Ah!, Versace!, que circum-navegação fizeste meu Capitão-General, Almirante de mil rotas”!

A morte saíu à rua e Versace apareceu-lhe. A morte, de inveja, levou-o; a morte é absurda e sem mensagens. Não distingue flores de espinhos.

Para o Outono/Inverno 97/98, Versace disse: “nesta moda regressei às minhas raízes”. Tê-lo-á feito. Vamos julgar, pois, que renasceu. E das raízes a que voltou saíu de pronto a flor hasteada de uma memória inesquecível.

Texto publicado na Moda & Moda a seguir à morte de Gianni Versace em Julho de 1997.

Gianni Versace morreu em Miami baleado por um desconhecido. Foi a primeira notícia do dia 15 de Julho de 1997. Aquele que mais dor e luto lançou no mundo da moda. Depois, os telejornais de todas as televisões divulgaram no nome de um suspeito –Andrew Cunanan. Começou a “caça ao homem” que acabou por morrer sem confessar a sua culpa ou a sua inocência. Para o caso o autor do crime é irrelevante. A morte de Versace não tem retrocesso. Fiquei profundamente triste. Dos costureiros do seu tempo há-de ser ele o primeiro por mim lembrado. O forno crematório que consumiu o seu corpo apagou o sorriso lindo que tantas vezes lhe vi e enegreceu aquele coração que tanto amou e sofreu, transformando-se para sempre em cinzas brancas.

 

Ah! Versace, ai Gianni, meu herói da moda!

 

A primeira vez que tive a oportunidade de assistir a um desfile de Gianni Versace foi em 1982, e fiquei rendida à genialidade daquele homem de 35 anos de idade que acabava de apresentar uma colecção super criativa. Nas suas propostas tudo era original, “sexy”, elegante e tecnicamente avançado. Até a malha de metal, da sua invenção, já era cosida a “laser”…

 

Sempre que me foi possível assisti aos seus desfiles. Em Março de 1984 integrei o júri que lhe atribuiu pela segunda vez, o prémio “Occhio d’Oro”.

Conheci-o pessoalmente em 1985, através da saudosa Madame Pini da Samco/Svedebergh e de S. A. a Princesa Beatriz de Sabóia (a sua primeira amiga de sangue real).

 

Por esta ocasião, fui recebida no Palácio que Gianni Versace que tinha adquirido recentemente, em Como, sobre o Lago, e que estava decorado ao melhor gosto da antiguidade clássica. Adivinhava-se já, como era natural em si, a sua paixão pelas obras de arte decorativas, escultura e pintura.

 

Com o decorrer do tempo fui compreendendo-o cada vez mais. E foi com alegria que assisti na Marie de Paris à entrega da medalha da capital francesa que Jacques Chirac lhe atribuiu em 1986.

 

Havia rumores sobre a origem do dinheiro de Versace mas, confesso que nunca acreditei nas maledicências. O seu talento fazia tornar em ouro tudo aquilo em que tocava. Era um predestinado da arte.

 

Em 1996, depois de assistir aos seus numerosos desfiles de “Pronto-a-Vestir” e de “Atelier”, fiquei maravilhada com o seu palácio de Milão. Uma beleza resultante da harmonia entre o espaço e a escolha criteriosa das peças, representativa da maior sensibilidade artística.

 

Aliás, Versace recuperou edifícios arruinados devolvendo-lhes as cores dos frescos, a beleza das madeiras, a traça original, deixando viver os mistérios do passado que as salas desertas, fechadas e decadentes, escondiam. Em Como acabou com o bafio das humidades e deu àquela “Villa” o aroma das flores e das frutas.

 

Em Milão, transformou o Palácio Rizzoli da Via Gesú, numa residência sumptuosa decorada com os melhores exemplares da escultura, pintura e das artes decorativas europeias.

 

Em Miami reabilitou a “Casuarina” uma réplica da casa de Cristóvão Colombo de Santo Domingo (1506) a qual era, ultimamente, o seu refúgio preferido. Foi ali que a morte o retirou da corte dos sonhos em que vivia. À parte desta mansão de numerosos quartos e salões decorados com o melhor da pintura impressionista, Versace perdeu a chama da sua vida.

 

Gianni Versace não se detinha em insignificâncias. Em nenhum momento. Escolheu sempre as melhores costureiras, as melhores manequins, os melhores locais e, naturalmente, os melhores fotógrafos entre os quais se conta Richard Avedon e Bruce Webber.

 

Em paralelo com as criações de moda para senhora, Versace foi alargando o seu império ao traje masculino, aos acessórios, (óculos, malas, sapatos, lenços, gravatas…), aos artigos de casa (almofadas, “edredons”, louças…) e aumentando o número de “boutiques” (quase duzentas), sempre luxuosíssimas, modernas, emblematicamente representadas por uma cabeça de Medusa. Sobre este símbolo várias vezes me interroguei. Saberia ele, desde sempre, que o seu talento causava muitas invejas? Teria a esperança de ver, tal como Gorgone de Perseu, “os seus inimigos transformarem-se em pedra”?

 

Com efeito, ouvi muitas vezes alguns jornalistas franceses e outras personagens referirem-se à sua moda com má vontade. Ele não era francês! Mas, a sua entrada em Paris foi triunfal.

 

Nas suas colecções existia um sortilégio especial que toca, por vezes, o limiar da provocação. Mas, havia sempre nas suas roupas uma tal poesia que é impossível vê-las sem pensar que estávamos perante obras de arte. Quando se observava atentamente uma colecção de Versace e se via alguma das saias pintadas ou mesmo as grandes rachas, provocantemente “sexys”, não nos podíamos esquecer que havia ali a intimidade de um homem que nasceu e cresceu numa região de abismos e falésias íngremes, com o Mar lá em baixo, povoado por uma fauna extraordinariamente rica.

 

Nasceu na Calabria, em 1946, e os seus pais foram: uma grande modista e um modesto vendedor de botijas de gás. Trouxe consigo o destino de levar o nome de Itália a todo o mundo, quer através da moda do vestuário, das artes decorativas, dos perfumes, quer repartindo o seu talento pelo teatro, ópera e bailado e até pela joalharia.

 

Foi autor de vários figurinos para obras apresentadas no Teatro Scala de Milão, Ópera de San Francisco, Metropolitan Ópera de New York, Le Châtelet (Paris) e Cirque Royal de Bruxelas, entre outras grandes salas de espectáculos.

 

Foi sempre entusiasticamente aplaudido. Assisti à estreia do ballet “Dionysos” de Maurice Béjart, no Teatro alla Scala, e Gianni Versace veio ao palco, várias vezes, com o mesmo sorriso de homem feliz para quem tudo o que lhe acontecia era natural.

 

Tratava “tu cá, tu lá” os seus êxitos, tal como recebia na sua intimidade os “grandes” do espectáculo (Madonna, Elton John, Prince, Maurice Béjart e, ultimamente, Demi Moore). Privou com Bob Wilson, Glenda Jackson, Lawrence Olivier, Rod Stewart, personalidades que vi em 1985 no seu desfile, no Victoria and Albert Museum de Londres, realizado com o objectivo de angariar fundos necessários à aquisição da “Rodney Searight Collections” (uma recolha de peças de arte do Médio Oriente do séc. XVI ao XIX). Vestiu actrizes do cinema e da alta aristocracia incluindo a princesa Diana de Inglaterra, uma personalidade que muito lamentou a sua trágica morte.

 

Fui a única portuguesa a assistir em Paris, no Hotel Ritz, no passado dia 6 de Julho, ao seu último desfile. No final veio à “passerelle” e atirou beijos a todos. Às suas clientes e às jornalistas. Muitos beijos. Passou por mim, a pouco mais de um metro de distância, sem que ambos soubéssemos que aquele era o derradeiro adeus.

 

Gritei-lhe: “Bravo! Bravo! Bravo!” Era o mínimo para aquele “máximo”.

 

Longe de sonhar o que lhe viria a acontecer; afirmei a várias colegas estrangeiras e a algumas portuguesas, que apesar de Versace ter usado demasiado preto, considerava aquela a sua melhor colecção de sempre. Foi a última! A melhor de todas quantas vi para o Inverno 97/8. Apresentou uma mudança total da silhueta feminina numa criatividade única, quase mágica, de extrema perfeição, com alguma coisa do melhor de Madeleine Vionnet e de Madame Grès e, ainda, as saias muito curtas e os ombros extremamente acentuados. Uma colecção incomparável.

 

Mais ainda, por estranha casualidade, Versace não só usou as peles, as sedas, as musselinas, em negro total, como fez bordar uma cruz em muitos dos seus modelos. Uma cruz que, no momento do desfile, me remeteu para a simbologia das Cruzadas, das campanhas para a propagação de ideais e que, continuo a interpretar como a premonição da sua morte.

 

Foi o mais copiado de todos os criadores e a mais multifacetada personalidade da moda e do espectáculo.

 

Foi galardoado com dezenas de prémios e vivia no maior fausto. Mas, para Gianni Versace, o homem que a partir dos Anos 80 mais revolucionou a moda, nada era nem muito bom, nem muito rico. Estava sempre insatisfeito e à procura da perfeição.

 

A obra de Gianni Versace vai continuar. A sua irmã Donatella e o seu irmão Santo Versace não podem deixar cair o império já construído. Mas as criações da moda dificilmente terão o mesmo pendor.

 

Janie Samet dizia que ele tinha o perfil de César e eu acrescento que ele tinha a grandeza de César. E, tal como ele, morreu assassinado.

 

Nos seus palácios de Como, Milão, Nova Iorque e Miami, repletos de obras de arte, ganhas com o talento genial que Deus lhe concedeu, não mais soarão os passos deste homem que conjugou a sua vida sempre no superlativo.

 

Os cristais não se quebraram, as velas podem acender-se, as flores podem encher as jarras, mas a alegria dos banquetes festivos com vinhos preciosos que transformavam os copos em topázios e rubis não mais será a mesma.

 

É curioso como sempre associei “V” de Versace ao “V” da vida e da vitória. Agora, enquanto peço a Deus pelo seu eterno descanso, sinto que já coloquei o “G” de Gianni na história do maior Génio da moda do séc. XX.

 

ATELIER VERSACE 1997/98

 

A Última Informação do Mestre

Impressões, sugestões. Imagem de vida internacional. Vagabundagem entre Londres e Paris passando, talvez, por Tóquio. Em Nova Iorque, mas trazendo impressos na memória os mosaicos de Bizâncio.

Para esta colecção “Atelier”, Gianni Versace emerge num modo pessoalíssimo e cosmopolita onde tudo se mistura, se reflecte como num espelho, se assume entre fidelidade e ilusão.

 

E o resultado?

“Uma espécie de minimalismo bizantino”. Responde Gianni Versace. “pureza da linha, riqueza de tecidos, bordados, símbolos. Mas também uma espécie de neo-japonismo como aquele ilustrado no livro “Le Japonisme” (Edition de RMN – Paris)”.

 

Não há contradição entre estes temas?

“Paradoxalmente não, porque têm a força do essencial. Unida à sabedoria que mais que o vestido o que conta é a atitude desta mulher que ama a história e faz da cultura um comportamento adquirido.

 

Então o corpo é menos importante que o usual, não conta?

“Pelo contrário, é evidenciado e sublinhado. Mas, de um modo estudado, nada naturalístico, os ombros são a arquitrave da arquitectura do corpo, com casacos que modelam o busto, tecidos drapeados, sedas e viés e marrocain que permitem uma fluidez de movimento “à Vionnet”. Esta técnica de corte e o “savoir-faire” em costura aprendi observando a minha mãe a trabalhar no seu atelier de Reggio Calabria”.

 

É uma colecção muito Costura e em certo sentido de grande técnica?

“Representa o primado do “design” e do corte. A grande tradição aprendida com a minha mãe mas também a modernidade absoluta sintetizada na imagem de uma amazona colorida com detalhes de pele negra”.

 

É uma colecção importante que supera a simplicidade deliberada de outras?

É a colecção da liberdade. Liberdade de expressão, nos bordados e nos tecidos. Liberdade na atitude. Liberdade das referências que aflora tudo que nós fomos e somos, a nossa cultura europeia com a sua riqueza e… um grande desejo de vagabundear através das cidades do futuro”.

 

 

Hotel Ritz, Paris, 6 de Julho de 1997.

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