​​BOTÕES I Memórias e amor de criança

Os botões que em criança distraiam a minha atenção, principalmente pelo jogo desenfreado dos rapazes, levaram-me a considerá-los objectos de estimação.

Os meus familiares não entendiam muito bem o que é que uma criança via num botão, facilitando muito pouco o meu desejo de enriquecer a caixa antiga de xarão onde guardava aqueles que ia obtendo, qual formiguinha persistente.

A princípio, todos os botões me serviam desde que lhes encontrasse alguma beleza. Por exemplo, os botões de quatro furos, do tipo usado nos casacos de homem ou nas gabardinas de ambos os sexos, não tinham lugar na minha caixa, a qual viria, posteriormente, a ser substituída por uma bonita mesa de costura oferecida pela minha grande cúmplice, a adorada tia Teresa Villa-Lobos. Ela entendia-me e contribuiu muito para o aumento da minha colecção, pois pedia às suas amigas para a deixaram rebuscar nas velhas caixas de botões que todas as senhoras possuíam.

Assim, fui dando aqueles, a que não lhes achava nenhuma beleza, para os meus amigos jogarem ao botão, à medida que os ia trocando por outros, cada vez melhores. Tive sempre uma grande atracção pelos botões de marfim, porcelana, metais nobres com pedras semi-preciosas, tais como as minas novas e outras, vidro e os que descobri, posteriormente, no traje masculino dos séc. XVIII e XIX.

Entretanto, com a minha vinda para Lisboa, de modo a poder continuar os meus estudos, tomei contacto com outros familiares e daí surgiu a “febre” dos batões brasonados. Uma festa! Todas as principais casas brasonadas portuguesas estão representadas na minha colecção. A todos os que me ajudaram a construir este espólio, estou eternamente agradecida.

E não é que hoje com décadas de vida sobre décadas, mantenho o gosto pelos botões? Aliás, não sendo a minha colecção mais valiosa é aquela pela qual sinto maior afecto.

Não pensem os leitores que a minha colecção de botões não teve honras de Chefe de Estado, pois em Abril de 1974, na minha exposição na FIL, por ocasião do 7º. Salão de Antiguidades, lá esteve o Presidente da República, o Sr. Almirante Américo Tomás, detido atentamente a observar os botões expostos, manifestando a sua admiração por ver alguns com o brasão da Casa Real Portuguesa. Conversámos durante algum tempo sobre Coleccionismo e recebi as suas felicitações de agrado. Antes de ser Presidente da República, foi Ministro da Marinha no tempo em que essa arma no protocolo do Estado ocupava um lugar importante. Hoje, tristemente, já nem Ministério existe.

Depois dessa Mostra na FIL, ainda adquiri botões lindíssimos no sossego das residências antigas onde os velhos móveis de pau-santo ombreavam com as pratas D. José e D. Maria I e havia lugar para os mini-tesouros, que constituíam, afinal, os botões que generosamente me foram oferecendo.

Os Botões na Moda

Todos, necessitamos destes “pequenos nadas” para aconchegar a roupa ao corpo quando não há molas, colchetes, fivelas ou fechos “éclaires”.

O que não estava à espera, confesso, é que os botões se transformassem no “leit-motiv” de alguns modelos de duas duplas: Dolce & Gabanna e Viktor & Rolf e do grande costureiro Jean Paul Gaultier, o eterno “enfant terrible” da moda e personagem destacada da Alta-Costura francesa.

Jean Paul Gaultier

Começo pelo “enfant terrible” porque aqui se respeita a antiguidade, que é um posto. Além disso, a Alta-Costura está acima do Prêt-a-Porter e Jean Paul Gaultier apenas faz duas colecções por ano, subordinadas aos desígnios das peças únicas.

O casaco comprido, em pelica, que apresentamos, totalmente na linha das florestas, das madeiras castanhas, foi adornado com botões de madre-pérola em tons de terra. Entre Jean-Paul Gaultier e as duplas que entraram no jogo dos botões há a diferença: um é costureiro e os outros dois são estilistas. Um faz peças únicas e os outros fabricam tantos modelos quantos forem necessários e os mercados internacionais os absorverem. É um homem por quem os anos não passam.

Dolce & Gabanna

Já escrevi nem sei quantas vezes sobre o duo formado pelo Domenico Dolce e Stefano Gabanna, pois a sua criatividade fascina-me desde Outubro de 1985, data da sua primeira apresentação na Milano Collezione onde se mostraram, muito modestamente, a nível de acessórios e cenários.

Com uma vida que tem feito o delírio das revistas, ditas de coração, Domenico e Stefano rapidamente conquistaram o complexo mercado da moda. Hoje, apesar de mais separados na vida quotidiana do que outrora, continuam a empolgar as suas fãs, cada vez em maior número. Com efeito, eles são excepcionalmente criativos e têm um sentido estético sem paralelo.

Ao ver o seu desfile para a temporada Outono/Inverno 2016/2017 fiquei com a sensação de que descobriram, de repente, um grande armazém de retrosaria com gavetas cheias de botões, fivelas, flores bordadas para aplicar sobre tecidos e flores em sedas, “organzas” e veludos para usar em toucados ou rematar o decote de um vestido. Uma verdadeira festa.

Os botões e todos os materiais que utilizaram para criar os novos looks femininos, falam-nos de um passado não muito distante, mas com eles rejuvenesceram a sua criativíssima colecção.

Viktor & Rolf

A dupla Viktor & Rolf, que surgiu no mundo da moda em 1993 é mais arrojada no toque vanguardista que dá a cada modelo.

Viktor Horsting e Rolf Snoeren, holandeses de nascimento, elegeram Milão para abrir a sua primeira loja, decorada ao contrário, isto é, o tecto no solo e o solo no tecto, que acabou por ser galardoada com diversos prémios pela inovação.

Ao ver os seus modelos também tive a sensação que o duo que desfila onde quer, umas vezes em Paris, outras em Milão, também encontrou um extraordinário baú, com quilos de botões, nomeadamente em madre-pérola e outros materiais, pregando-os quase em sobreposição.

Com os botões, Viktor e Rolf trouxeram para a moda contemporânea uma inesperada proposta, pois nesta onda actual perderam o fim com que nasceram nas Artes Decorativas, isto é, simplesmente, abotoar peças de vestuário.

Conclusão

Volvidos tantos anos do despertar da minha paixão pelos botões, acessórios que ainda compro nos leilões, por exemplo no Cabral Moncada, porque os antiquários de qualidade não perdem tempo com os botões e nas lojas de “bric-a-brac”, não vale a pena perder tempo porque não aparecem por ali, pelo menos aqueles que continuam a interessar-me.

Ao contrário do que as grandes maiorias pensam, os botões deram-me grandes lições de história. A imaginação do homem não conhece limites nem fronteiras e tal como mostrei uma vez na RTP, num programa sobre os meus botões, a minha colecção abarca os reinos mineral, vegetal, animal, alarga-se nas fábulas, nos motivos de caça e também está sub-dividida em botões brasonados de casas da nobreza de Portugal, de Espanha, de Itália, de França e de outras famílias austro-húngaras. Mas a minha predilecção, desculpem lá, é segredo. Fazem parte das conversas com os meus botões…

 

Marionela Gusmão

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