Fivelas I Na História do Traje Civil

Há neste mundo em que vivemos duas grandes forças opostas: o bem e o mal. Da primeira, fazem parte as pessoas que tudo acarinham, perdoam, criam, vivem em paz consigo próprias. Da segunda, os desajustados da vida, os maldizentes, os destruidores, aqueles que desconhecem, entre outras coisas, a beleza e a poesia, o carinho, até pelos pequenos nadas do passado. E  é pena.

Todas as peças,mesmo um bocadinho de seda ou algodão,têm lições para transmitir.

Um fragemento de uma renda pode fazer-nos pensar na leveza dos dedos de quem lhes deu transparência e graça. Um resto de tecido consegue exemplificar o estilo e as técnicas do fabrico. Uma fivela pode dar-nos uma lição de história. Os valores espirituais existem nas mais infímas coisas do universo.

 

As fivelas, peças de metal (ferro, cobre, ouro, prata) e materiais sintéticos, de formas rectangulares, redondas e ovais, destinavam-se, enquanto acessórios do traje, a prender os cintos, segurar as jarreteir as ou ligas, adornar chapéus e sapatos.

Mas esses pequenos objectos com um ou mais fusilhões, em que se enfia e prende a presilha de algumas peças de vestuário, também têm sido usados nos arreios. Recorde-se Antero de Figueiredo in "Jornadas em Portugal": "que lindos são os alforges moiros... e as largas coleiras de campainhas, com muitas fivelas de latão e pendentes, dos pesados e pretos bois durienses".

Fivelas de latão que seguram os guizos tilintantes, quebrando o silêncio dos campos desertos, despertando vidas entediadas pelos dias invernosos ou suspensos de alegria pela sua suavidade da primavera em flor.

Deixando para outrém o estudo das fivelas usadas fora do traje, recordamos, ainda, que a sua carga simbólica é muito vasta. Jean Chevalier afirma que "uma fivela fechada significa auto-defesa e uma fivela aberta anuncia a liberação..."

AS FIVELAS E A MODA

 

As fivelas, acessórios do vestuário e do calçado, constituem um importante testemunho da história do traje e por vezes das artes de ourives e joalheiros.

Eclipsadas pela velocidade da própria moda, as fivelas do passado são documentos que demonstram como, em todos os tempos, o útil e o agradável andaram associados à beleza.

 A fivela, que em França se denomina "boucle", em Itália "Fibbia", em Espannha "hebilla", tem uma origem controversa. Para os franceses, ela foi buscar o seu nome à parte abaulada do escudo (bouclier), dito em latim "buccul", enquanto para os italianos, espanhóis e portugueses a fivela deriva da palavra "fubula", isto é, firmal, espécie de broche com que se prendiam os drapeados das clamides, túnicas e mantos.

A difusão da fivela em França deu-se no período merovíngio. Na Idade Média, segundo o "Livre des Métiers", de Etienne Boileau, os "patenotriers" (fabricantes de rosários) que trabalhavam em ferro, cobre,ouro e prata (sobretudo para cavaleiros), mencionavam nos seus inventários fivelas para cintos e outros fins.

No séc. XV as fivelas começaram a enfeitar os chapéus e na época de Luís XIV alargaram o seu poder de adorno.

​FIVELAS  DE SAPATOS

O LUXO NOS PÉS

 

Provavelmente originárias das pequenas fivelas rectangulares das botas do período de Luís XIII, as fivelas de sapatos surgiram poe volta de 1660, entrando em concorrência imediata com os atacadores.

Tornadas como objectos de ostentação e luxo, as fivelas de sapatos cedo foram alvo de critícas, invejas e deslumbramento.

Em 1671, Luís XIV encomendou, por 14.474 libras, a Laurent Tessier de Montarsy, ourives, um par de fivelas de sapatos, enrequecidas de diamantes e vinte e quatro brilhantes.

Pequenas, em forma de rectangulo, as fivelas colocavam-se inicialmente sobre uma presilha e prendiam-se, por meio de uma mola, na face lateral extrema dos sapatos.

Seguidamente, as variantes da moda colocaram as fivelas no peito do pé.

​FIVELAS UNISEXO

 

Por volta de 1670, as fivelas pequenas entraram na moda unisexo, destronando as fitas que prendiam os calções masculinos, as laçadas e os nós das ligas femininas.

Abandonadas no início do reinado de Luís XV, quando a moda ditava o uso dos calções enrolados nas meias, as fivelas reapareceram por volta de de 1750, segurando os calções por meio de uma presilha.

Quanto às ligas ou jarreteiras, as fivelas eram escondidas sob uma roseta ou outro tipo de enfeite.

No séc. XIX as fivelas das ligas foram frequentemente substituídas por botões.

Entre nós, no início do séc. XVIII e acerca do vestuário masculino, Matos Sequeira diz in "História do Traje em Portugal":"os calções justos atavam-se sob o joelho, firmando-se lateralmente, primeiro por  rosetas de fitas e depois por agulhetas. A meia era de seda branca ou de cor, e o sapato de pestana (primeiro com roseta, a seguir com fivela de pedras) era de cordovão preto.

No período de Luís XV as fivelas aumentaram em tamanho e por volta de 1750 passaram a ser decoradas com vidros lapidados, aos quais Strass veio a dar o seu nome. Neste tipo de decoração, em Portugal, deu-se uma grande reviravolta posto que do Brasil vinham muitas pedras, entre elas as chamadas "minas novas" ou cristais de rocha.

Madame de Pompadour também usou estas fivelas que passaaram a reinar nos acessórios da moda feminina.

Durante o período de Luís XVI, as fivelas à D'Artois, em arco de círculo, apresentaram-se desmesuradas e ornamentavam o calçado, quer feminino quer masculino.

Inspiradas na guerra da Independência Americana, as fivelas ostentaram barcos e até o busto de La Fayette.

Segundo Madeleine Delpierre, a moda das fivelas em aço polido é originária da Inglaterra (1775).

A divulgação das fivelas foi tão grande que o "Cabinet des Modes" de 1786 relata o seguinte: "os homens mudam as fivelas tal como as mulheres trocam de toucas e chapéus, usando-as com nomes pitorescos: "à pequeno pagem", "à nobre", "à concha", "à tártaro", "aos arabescos". Três anos mais tarde, as fivelas passaram a chamar-se "Terceiro Estado", "Bastilha" e "Nação", mas o movimento a favor da fundição de moeda foi-lhe fatal. Acabaram por ser derretidas.

Em Portugal, Pina Manique vivia obcecado com os ventos revolucionários que sopravam de França e proíbiu quase todas as modas.

Júlio Dantas, em "Lisboa dos Nossos Avós", sintetiza esse tempo da seguinte forma:

"entretanto, fixava-se  o tipo admirável do ché-ché, que depois atravessaría um século, com o seu bicorne, a sua casaca de seda, o seu sapato de fivela...".

Ainda a propósito das modas que apavoraram Pina Manique e os conservadores, Matos Sequeira escreveu: "O tipo clássico de casaca de seda, colete de cetim de raminhos, calção, meia e sapato de fivela, de tricórnio e rabicho empoado, de luneta de oiro e bastão" perpetuou-se por todo o séc. XIX e passou à história como o "Portugal Velho", o "Velho Entrudo" ou o "Ché-Ché".

Como moda adoptada por aqueles que gostam de  acompanhar a evolução dos tempos, as fivelas de sapatos reapareceram em França durante o Consulado e o Império, depois entraram em concorrência com os laços e o seu período mais notório correspondente aos reinados de Luís XVIII e Carlos X.

Em forma de de rectângulo, com as pontas arredondadas, as fivelas eram então de aço, prata cinzelada ou dourada, por vezes em ouro, mas sem pedrarias.

Na opinião de Madeleine Delpierre, fundadora do Museu da Moda de Paris (Palais Galliera), durante o reinado de Luís Filipe, o uso das calças admitia, à noite, sapatos com fivelas.

Na moda masculina o uso de fivelas nos sapatos mantém-se apenas nos librés que alguns criados ainda envergavam.

Na moda feminina as fivelas aparecem e desaparecem com velocidade meteórica, mas raramente são executadas em metais nobres.

Durante os Anos 20, rezam as crónicas mundanas que certas milionárias transferiram os requintes das fivelas para os saltos dos sapatos.

Ferragamo, o maior sapateiro de todos os tempos, criou em Itália, seu país natal, modelos de sapatos para celebridades do espectáculo, da aristocracia e da alta finança (1940/50), adornados com fivelas de ouro e pedras finas. Mas, neste caso, como em tudo, a excepção não fez a regra.

AS FIVELAS DO VESTUÁRIO

 

Elemento da maior importância da moda feminina e masculina, o cinto é, a seguir ao broche, muito provavelmente o acessório mais antigo, pois existe desde a Idade do Cobre.

Nas necrópoles itálicas da Idade do Bronze e da primeira metade da Idade do Ferro, são frequentes os cinturões de forma elíptica ou rectangular com elementos grafitados e figuras esquemáticas.

Durante as civilizações grega e romana, os cintos foram uma moda que se popularizou. O seu papel ornamental deve-se, em particular, às fivelas.

No decurso da Idade Média os cintos eram um sinal de respeitabilidade e posição social. As mulhres de reputação duvidosa não estavam autorizadas a usar cinto.

Quando oferecidos pelos noivos à prometida, como presente de compromisso, os cintos eram de prata, seda,e as fivelas de esmalte com o retrato do futuro marido.

Durante os séculos XVI e XVII os cintos femininos passaram a suspender as esmoleiras e os saquinhos do espelho e dos cosméticos.

Os vestidos conhecidos pelo nome de "corps à baleine" (séc.XVIII) não favoreciam o uso do cinto. Foi necessário aguardar o final do reinado de Luís XVI e as "camisas à rainha", (de linha direita), o Consulado e o Império, para se assistir ao reaparecimento de largos cintos cujas fivelas passaram à história com o nome de Pomponne (palavra que designava o edifício parisiense do seu fabricante), isto é, em "doublé" ou "plaqué" de ouro ou prata sobre ferro ou cobre.

Algum tempo depois, o romantismo pôs em moda as fivelas arredondadas, ornamentadas de esmalte, inspiradas no Renascimento.

Mais tarde, o ecletismo dos estilos da última década do séc. XIX e uma certa desordem de ideias relançaram as fivelas "Pomponne" do Consulado e do Império e as fivelas arredondadas dos Românticos. Contudo, foi o virtuosismo estético que reinou na mudança do século XX e o estilo Arte Nova que deram nova face às fivelas. Flores, insectos, serpentes, mulheres de longos cabelos participaram na decoração destes acessórios. Depois, a Arte Nova e as suas linhas curvas, repletas de contra-curvas,exauriu-se, a guerra de 1914/18 modificou os mapas geográficos e as fivelas foram manifestando valores importados do Oriente. Com os Anos 20 nasceram novos movimentos artísticos. Contrutivismo, cubismo, futurismo e surrealismo deixaram as suas marcas nas artes plásticas e decorativas e, muito naturalmente, nas fivelas. De então para cá, década a década, ano a ano, mês a mês, dia a dia, hora a hora, a moda depara com novos materiais, novos mitos, novos interesses.

Os fermentos da liberdade de ousar e usar são irreversíveis!

Vive-se hoje o triunfo do "design" e das ideias, multiplicam-se as descobertas. A fantasia é livre de entrar no quotidiano de toda a gente. O sonho é possível !

 O sonho é possivel mesmo quando se contempla a mais pequena fivela. É uma questão de saber imaginar, por exemplo, a vila de Adriano e os esplendores dos seus festins. Os esplendores das bandoletes e das fivelas douradas. É uma questão de juntar conhecimentos e de os descodificar. É uma maneira de estar e de amar a vida sem prejudicar segundos ou terceiros. É, quiçá,ter um espírito coleccionador e ser capaz de adoptar com verdade as peças órfãs, dispersas  aqui e além, esquecidas num sotão carcomido, reuni-las na mesma família, por parentescos, (leia-se materiais, temas, épocas), cuidá-las e procurar saber-lhes os segredos. É ocupar o tempo com o gozo espiritual de olhar o passado com o pensamento no futuro....

         

MARIONELA GUSMÃO

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