MEMÓRIA   

A Avó das Crianças de Portugal

Fernanda de Castro (foto tirada nos Anos 50)

Fernanda de Castro e António Ferro numa homenagem a Erico Braga

Fernanda de Castro e senhoras com as Crianças dos Parques Infantis no Palácio de S. Bento de visita a Salazar

Fernanda de Castro, de seu nome completo Maria Fernanda Teles de Castro de Quadros Ferro, nasceu em Lisboa a 8 de Dezembro de 1900 e faleceu na mesma cidade a 19 de Dezembro de 1994. Casou com António, um dos homens fortes de Salazar

Fernanda de Castro deixou uma vasta obra de poesia, teatro, romance, literatura infantil e traduções de obras de mestres da literatura como Rainier Marie Rilke, Pirandello e Ionesco.

Foi autora do argumento do bailado “Lenda das Amendoeiras” (Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1940) e do argumento do filme Rapsódia Portuguesa (1959), realizado por João Mendes, documentário que esteve em competição oficial no Festival de Cannes.

O seu primeiro livro “Ante-manhã” foi lançado em 1919, ainda em solteira, já que contraiu as suas primeiras e únicas núpcias com António Ferro, em 1922.

Até ao fim da sua vida deu à estampa cerca de 30 0bras.

De salientar que foi juntamente com o seu marido e outros, fundadora da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actualmente designada por Sociedade Portuguesa de Autores.

Fernanda de Castro foi uma das mulheres mais intervenientes no século XX - tendo inovado a assistência às crianças menos favorecidas entre nós ao fundar a Associação Nacional de Parques Infantis, que se espalharam por Lisboa, da qual teve o cargo de Presidente.

Com o apoio de políticos, banqueiros e artistas, Fernanda de Castro lançou em 1932 as estruturas do que foi um dos mais arrojados sistemas assistenciais e educativos a favor das crianças. Sarah Afonso, Estrela Faria, Inês Guerreiro, Carmen Dolores, Eunice Munõz, Amália foram alguns dos que a ajudaram, mais prontamente, ao longo dos anos.

O banqueiro Ricardo Espírito Santo foi um apoiante incansável. Inicialmente ofereceu um cheque de 150 euros (uma substancial quantia na época) a Fernanda de Castro, dizendo-lhe: "Foi muita bonita a sua ideia. Acho-a poética, e eu gosto de poetas”.

Um subsídio do governo permitiu-lhe alargar o número de parques e a qualidade do trabalho desenvolvido. No espaço de pouco tempo, Fernanda de Castro dirigia cinco jardins infantis em Lisboa. O exemplo depressa se espalhou por todo o País.

Mais de 700 crianças chegaram a frequentar as suas instalações. Entre elas destaca-se o cantor Paulo de Carvalho.

Professores universitários, administradores, empresários, militares conheceram igualmente a sua acção.

Ao longo dos anos, a Associação Nacional de Parques Infantis deu-lhe: “Muito trabalho, mas muita alegria por permitir a crianças pobres um bom nível de educação, que certamente as marcou para sempre”, disse pouco antes de morrer.

Através desses espaços desenvolveu nas crianças o gosto pelas artes, pela cultura, pelo civismo, pela solidariedade.

A escritora recusou sempre, apesar da sua frágil situação económica, após a morte do marido, qualquer remuneração dos jardins.

FIM DO SONHO

Quando deflagrou a guerra colonial, no início da década de 60, Salazar retirou-lhe um subsídio anual de 50 contos. A verba fazia falta para o exército, justificou o então Presidente do Conselho.

Com dificuldades, Fernanda de Castro manteve os parques infantis até 1972, altura em que os entregou à Misericórdia de Lisboa, por incapacidade de os manter. Tinham passado 40 anos sobre a sua fundação.

“Foi uma decisão bastante dolorosa, pois ela estava profundamente ligada a essa instituição, mas já tinha 72 anos e os apoios eram escassos”, revelou-nos a poetisa Edith Arvelos, que dedicadamente acompanhou a escritora nos últimos 20 anos de vida.

Até ao final da sua vida, Fernanda de Castro manteve-se interessada pelas actividades que os parques desenvolviam, apesar de ter estado acamada durante 13 anos.

Espírito multifacetado, a escritora dedicou sempre uma enorme paixão às crianças. Além de dirigir os parques, escreveu e publicou inúmeras obras infanto-juvenis. A série “Mariazinha em África”, “Novas Aventuras da Mariazinha” e “Maria da Lua” são, nessa área, os seus trabalhos mais conhecidos. Nas suas memórias, a poetisa dedicou grande espaço ao papel dos parques, talvez a sua realização mais afectiva.

Falecida em Dezembro de 1994, após ver desaparecer no ano anterior o filho António Quadros e a grande amiga Natália Correia, Fernanda de Castro foi ao lado de Amélia Rey Colaço, Ester Leão, Virgínia Victorino, Maria Archer, Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida, Sesina Bermudes, Maria Adelaide Lima Cruz, Guilhermina Suggia, Florbela Espanca, Natália Correia, um dos maiores vultos femininos do nosso tempo. Alguns amigos chamavam-lhe, com carinho e ironia, a “Avó das Crianças de Portugal”.

O escritor David Mourão Ferreira, durante as comemorações dos cinquenta anos de actividade literária de Fernanda de Castro disse: “Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”.

Nesta revista transcrevemos o poema de Fernanda de Castro – ROMARIA – do livro “Ante-Manhã” de 1919, por considerarmos que ele retrata o espírito desta grande senhora que tivemos o gosto de conhecer e com ela privar na sua própria casa onde avultavam as “Esculturas de Pano” do pintor e poeta Júlio de Sousa.

 

ROMARIA

- Portugal, Portugal, ó meu berço doirado

- Que fada te fadou tão bem fadado!

 

Portugal, Portugal, meu berço de alegrias

Senhor dos arraiais, senhor das romarias.

Foguetes,

Estalos,

Regalos,

Sem fim.

- Alface fresca, sem talos,

- Pinhão novo, amendoim!

 

Andam no ar desgarrados

Cantares da minha Terra,

Nossa Senhora da Serra

Dê saúde aos namorados.

 

Moças apetitosas,

Mais formosas,

Do que rosas,

Trança infinda,

Boca linda

De encantar,

Aos gemidos da viola

Respondem ao desafio,

E as suas vozes de rôla

Dão sentimento ao cantar.

 

 

- Uma flauta e um assobio

- Quem merca, quem quer comprar?

 

Lá ao longe no eirado

O baile vai animado:

Brincai, brincai, raparigas

Continuem seus folguedos

São só dois dias a vida

Não parem nos seus brinquedos…

Que não cessem as cantigas!

 

Amanhã começa a lida

Brincai, brincai raparigas.

 

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Andam no ar os foguetes,

Nos corações alegrias,

Nos sorrisos ramalhetes

De graças e de harmonias.

 

Mais além,

Ranchos d´oiro – os pequenitos

Cada qual pedindo à Mãe,

Para mercarem bonitos

A delícia de um vintém!

 

E as avós, doces velhinhas,

Procuram pelo mercado

Um par de meias quentinhas

Para o neto que é soldado;

Um lenço muito engomado,

Todo amarelo às risquinhas,

Para a maior das netinhas,

E para as mais criancinhas

Cartuchos de rebuçados.

 

Portugal, Portugal, meu berço de alegrias

Senhor dos arraiais, senhor das romarias.

 

------------------------------------

Olhos negros, mãos morenas,

As moças de Portugal

Não são meigas açucenas,

São papoilas num trigal.

 

São baladas ao Sol-Pôr

Misticismo dum Poente

São qualquer sonho de amor

Ou qualquer Porvir ridente.

 

São rezas, são alegrias

Carícias de namorados,

São toques de Avé-Marias

No centro dos povoados.

 

São delícias,

Carícias,

Rezas, canções e amores

 

São o culto de harmonia

E marés cheias de luz,

São as bênçãos de Maria,

Amparo da nossa Terra,

Triunfo de Portugal.

 

------------------------------------

 

Nossa Senhora da Serra,

Madrinha da romaria,

Livrai-me de todo o mal!

 

Foguetes,

Estalos,

Regalos,

Sem fim!

- - Alface fresca, sem talos,

- - Pinhão novo, amendoim!

 

Com a idade de 19 anos, o livro “Ante-Manhã” de Fernanda de Castro, foi uma promessa que se cumpriu.

Não admira que em 1940 tenha sido distinguida como “Oficial da Ordem Militar de Sant ‘ Iago da Espada.

Todos os nossos amigos que tiveram a sorte de a conhecer como nós, quando falamos com o seu neto António, regozijamos a recordá-la como uma figura única na vida cultural portuguesa. Deus a tenha em Paz.

 

António da Franca de Mello

 

Poesia dedicada a Fernanda de Castro

 

Ensina-me, Irmã,

O segredo da tua sã poesia

Tão cheia de rebentos de primavera

Renovados ano após ano, dia a dia,

Nos teus versos cheios de seiva!

Ensina-me a fugir como tu do desengano,

Do cinismo e da maldade;

Ensina-me a tua serenidade,

A tua força, a tua esperança!

Ensina-me como fazes

Para renovar a criança

Que em ti nunca morreu de desencanto,

A criança maravilhada

Que olha a um tempo o mundo

Com um saber profundo.

 

Edith Arvelos

(extraído do livro “Um Longo e Lúcido Olhar”)

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