Educação I A Importância da Memória

Colibere é a personagem do livro com o mesmo nome escrito por Domingos de Sousa e publicado em 2007 e personifica o povo timorense que durante décadas lutou e resistiu a um domínio indonésio crivado de chacinas, tortura e terror. Este é pois um livro que conta simultaneamente a história de um homem, de uma família, de um povo e de uma jovem nação. Uma obra que nasce da necessidade em preservar a memória histórica como Domingos de Sousa explicita no texto introdutório onde deixa claramente um recado sobre a importância da transmissão do passado. Um passado que, sendo testemunhado em família, deve encontrar neste núcleo a primeira voz testemunhal, a primeira garantia da perpetuação do saber. Diz a dada altura o autor que “os avós e os pais devem contar aos seus filhos as suas histórias da participação na luta que tiveram. Cada pai deve contar aos seus filhos o sofrimento e as dificuldades pelos quais passaram.” para “que a geração dos vindouros de Timor-Leste não se esqueça de que a paz e a dignidade que hoje Timor-Leste usufrui não foi uma oferta gratuita dos deuses”.

O que Domingos de Sousa diz relativamente a Timor-Leste vale para qualquer país e qualquer tempo.

É precisamente isto, a importância de um passado que todos devem conhecer que hoje gostaríamos de abordar brevemente. Na formação dos jovens a partilha de informação que os ajude a perceber que o que possuem não é fruto de “uma oferta gratuita dos deuses”, que as conquistas se alcançam a pulso e com sacrifícios, torna-se fundamental para que saibam ser dignos dos que os precederam e assim honrarem a missão de construir um futuro melhor, fortalecendo em simultâneo a resiliência e a capacidade em superar contrariedades.

Bom, e de que passado estaremos a falar? De que tipo exacto de conhecimento é que está em causa e é importante conhecer? Diríamos que tudo é importante, mas sobretudo o que é vital é que aos jovens não se furte nem a História da família nem a História da sua região, nem a do seu país. Falando da História do país falar-se-á necessariamente dos caminhos históricos do continente a que a nação pertence e de um mundo de multifacetadas realidades. Um mundo de várias latitudes e civilizações longínquas no tempo e no espaço mas que nos surpreendem tantas e tantas vezes em similitudes com a actualidade e por isso nos podem fornecer mecanismos de entendimento potenciadores de melhores escolhas.

Mas saber a história da família é o primeiro patamar de um crescimento que deve ser forjado na curiosidade em saber “como cheguei aqui?” e “quem me trouxe até aqui?”. Somos a soma de todos e de tudo o que nos antecedeu e por isso o conhecimento desse passado familiar, de que todos são geneticamente herdeiros,

tecido de momentos bons e maus, de erros e sucessos, vitórias e derrotas, permite ao jovem melhorar o auto-conhecimento e criar as suas estratégias e ferramentas emocionais de forma a conseguir enfrentar com sucesso desafios e provações. E não esconder os lados sombrios da(s) história(s) é um critério essencial porque se aprende mais com eles, quando alvo de reflexão e entendimento, do que com as margens risonhas e felizes dos caminhos percorridos.

Enquanto que a história da família exercerá um papel essencial na construção do auto-conhecimento enquanto indivíduo, a História da região onde vive, do país onde nasceu e do mundo a que a humanidade pertence, permitirá ao jovem entender o povo e a sociedade em que se insere. Num jovem em formação, esse conhecimento representa um elemento vital para a construção lúcida, fundamentada, moral e eticamente consciente de um paradigma de cidadania que deverá contemplar deveres e direitos. O dever de honrar quem antes dele lutou por ele, o dever de exercer e fazer cumprir os direitos que tantos sacrifícios no passado, mais ou menos recente, custaram, o dever da solidariedade, do respeito pela vida e pela Natureza, o assumir que a Terra lhe é dada de empréstimo pelos seus filhos.

Infelizmente o currículo nacional do ensino básico dedica escasso tempo ao ensino da História menorizando escandalosamente esta área científica. As razões para uma obsessão pelos resultados em Matemática a par de um evidente desprezo pelos da História terá razões que a razão suspeita. Que não haja dúvidas sobre a importância do raciocínio matemática mas o que é operado nas ciências sociais exige uma plasticidade mental, acuidade na observação, mobilização do conhecimento, capacidade de reflexão e construção do pensamento crítico que em poucas áreas se desenvolve como em História.

Infelizmente vivemos a época da ditadura do numérico, das estatísticas e das folhas em Exel desprovidas de humanidade e nada melhor que um povo desconhecedor de si próprio para se tornar matéria de fácil manipulação.

Por isso as famílias devem assumir a preocupação em colmatar as lacunas existentes. Relativamente à História da família, o tal primordial patamar do conhecimento histórico, atendendo a que hoje dificilmente se concretiza um agregado familiar alargado a 3 gerações permitindo oportunidades de narrativas, a situação pode ser revertida através de um projecto familiar de recolha, realizada pelos mais jovens, de depoimentos junto dos mais velhos. A produção de um Livro da Família resultante deste processo operacionalizará competências transversais de grande impacto no desenvolvimento intelectual do jovem.

Quanto à História social e política do país e do mundo ela pode ir entrando na vida da família e no léxico dos jovens pela literatura juvenil inspirada em factos históricos, visitas temáticas, visionamento de reportagens ou filmes, lançamento de desafios e resolução de enigmas. Mesmo que por vezes haja um ou outro erro científico em algum filme ou livro é preferível uma narrativa galvanizadora de interesse do que nada. O importante é semear a curiosidade histórica e científica porque quando se aprende sobre o passado, aprende-se a questionar o presente e a valorizar as conquistas alcançadas. Para que o jovem não sinta como garantido o que pode ser movediço e aprenda a olhar e pensar com preocupação e responsabilidade social.

Só assim, se poderá evitar a repetição de erros e atrocidades cometidos no passado. Só assim poderá haver esperança.

Ana Paula Timóteo

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