Ernesto Vilhena I Um coleccionador faraónico

O português que mais colecções constítuiu e diversificou foi Ernesto de Vilhena, oficial da Armada e presidente da Companhia dos Diamantes de Angola. A sua colecção tornou-se lendária no mundo das antiguidades.

Um livro agora lançado da autoria de Maria João Vilhena de Carvalho, historiadora e conservadora da colecção de escultura do Museu de Arte Antiga, fornece-nos dados fundamentais sobre o comandante Vilhena.

A autora investigou durante anos a sua complexa personalidade. Uma tarefa morosa e complexa. A maioria das pessoas que privaram com ele já desapareceram, quer a nível familiar, quer a nível de antiquários e angariadores de obras de arte.

O neto de Ernesto de Vilhena, Manuel, e a nora Maria dos Prazeres, apoiaram a iniciativa com depoimentos orais e com o empréstimo do espólio do coleccionador. Neste, completamente desconhecido, encontram-se fotografias, um exaustivo diário, cadernos de viagem e notas de compras a antiquários e a intermediários de norte a sul de Portugal. A historiadora pode relacionar as esculturas hoje no MNAA e os locais das suas proveniências.

Foto do famoso coleccionador Comandante Ernesto de Vilhena, então ainda relativamente jovem.

Comandante Ernesto Vilhena e Presidente da Cª. dos Diamantes de Angola, numa fase da sua vida em que já é um notável coleccionador.

Aspectos parciais da habitação de Comandante Vilhena, na Rua de S. Bento, após o falecimento do coleccionador.

Escultura representando Nossa Senhora do Ó. Pedra policromada. Séc. XV

Virgem com o Menino e com uma romã na mão. Pedra policromada. Séc. XV

Arcanjo S. Gabriel – Pedra policromada. Séc. XV

Santa Ana e a Virgem Alabastro. Séc. XV

Salva em prata. Trabalho português. Séc. XVI. Foi vendida enm leilão, desconhecendo-se o actual proprietário.

Tríptico – representando cenas do Calvário - da autoria de Frei Carlos – Séc. XVI. Aquisição do M.N.A-A.

Fragmento de tapeçaria do séc. XVII

Pintura representando Santo António. Esocola portuguesa. Séc. XVII. Esta obra já participou numa exposição Antoniana, mas desconhece-se o actual paradeiro.

Colcha indo-portuguesas. Séc. XVII. Adquirida em leilão e desconhece-se o actual paradeiro

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Colcha indo-portuguesas. Séc. XVII. Adquirida em leilão e desconhece-se o actual paradeiro

Colcha indo-portuguesas. Séc. XVII. Adquirida em leilão e desconhece-se o actual paradeiro

Par de potes de porcelana da China. Séc. XVII. Também se desconhecem os proprietários.

Peça em Majólica emoldurada, representando S. Pedro? Itália. Não se conhece a quem pertence.

Painel de azulejos, alusivos a Santo António. Séc. XVII. Trabalho português.

Botão de "strass" e esmalte verde. Século XVIII. Oferecido pelo Comandante Ernesto Vilhena, a Marionela Gusmão

Catálogo da Exposição Leques da Ásia e da Europa no século XVIII, no Museu de Artes Decorativas Portuguesas. Colecção de Marionela Gusmão.

Colcha de Castelo Branco. com 1,85 x 2,70 bordada a matiz (seda) sobre linho com motivos florais e frutos. Séc. XVII - Ex-colecção de Ernesto Vilhena. Destaque para o medalhão central da referida colcha. Esta peça que já esteve exposta no Casino Estoril através de um empréstimo que Marionela de Gusmão fez ao Museu Nacional do Traje, está englobada na colecção da conhecida directora da revista Moda & Moda.

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Pormenor da Colcha de Castelo Branco. com 1,85 x 2,70 bordada a matiz (seda) sobre linho com motivos florais e frutos. Séc. XVII - Ex-colecção de Ernesto Vilhena. Destaque para o medalhão central da referida colcha.

Pormenor da Colcha de Castelo Branco. com 1,85 x 2,70 bordada a matiz (seda) sobre linho com motivos florais e frutos. Séc. XVII - Ex-colecção de Ernesto Vilhena.

Traje popular do Minho oferecido em 1964, pelo Comandante Ernesto Vilhena, a Marionela Gusmão, então uma jovem principiante no mundo do coleccionismo.

Pormenor do traje popular do Minho oferecido em 1964, pelo Comandante Ernesto Vilhena, a Marionela Gusmão-

Etiqueta do fato do Minho onde é fácil deduzir que foi escrita a tinta-da-China, pelo punho do Comandante Vilhena, e que este era o conjunto Verde nº. 45 da sua colecção de Traje Popular Português.

Etiqueta do fato do Minho onde é fácil deduzir que foi escrita a tinta-da-China, pelo punho do Comandante Vilhena, e que este era o conjunto Verde nº. 45 da sua colecção de Traje Popular Português.

Etiqueta do fato do Minho onde é fácil deduzir que foi escrita a tinta-da-China, pelo punho do Comandante Vilhena, e que este era o conjunto Verde nº. 45 da sua colecção de Traje Popular Português.

Desde 1922, Ernesto de Vilhena começou a coleccionar vastíssimos e riquíssimos espólios. O seu acervo artístico compunha-se de 60. 515 peças – artes decorativas, plásticas e biblioteca -  sendo totalmente preservado no palacete da Rua de São Bento, em Lisboa. O conjunto tinha 5837 cerâmicas, 3443 têxteis, 1059 metais, 182 leques, 2419 esculturas, 530 marfins, 526 pratas, 1039 móveis, 9639 azulejos, 191 cruzes, 2065 vidros, 236 pinturas e 354 diversos. Trata-se da maior colecção jamais constituída em Portugal. O MNAA, principal instituição do género entre nós, detém actualmente 45 mil peças.          

                                           

O chamado Palacete Vilhena, constituído por cerca de 50 divisões, estava completamente cheio. A biblioteca encontrava-se no piso térreo, e as restantes obras de arte espalhavam-se por todo o espaço.

Ernesto de Vilhena apreciava especialmente as secções de escultura portuguesa e de têxteis – colchas de Castelo Branco e indo-portuguesas – guardadas em arcas.

No jardim do imóvel preservavam-se valiosos azulejos e rústicas esculturas em granito, parte delas fragmentadas.

Ao falecer em 1967, com 91 anos, deixou uma enorme colecção aos herdeiros, mas pouco capital. Conta-se que pretendera fazer uma fundação. Antes de morrer, recebeu a visita de Salazar que lhe insinuou ser tempo de abandonar a presidência da Companhia dos Diamantes de Angola. Furibundo, o coleccionador  rasgou o testamento.

A família realizou os primeiros leilões em 1969 e adquiriu, com essa verba, um prédio na Avenida de Roma.

A maioria das esculturas, 1503 peças nacionais e de Malines dos séculos XIII a XVIII, encontra-se actualmente, e por doação da mulher e do filho, no Museu Nacional de Arte Antiga. Esse acervo foi conseguido de norte a sul de Portugal através de viagens, antiquários  e de inúmeros intermediários. Na época da entrega ao Estado as esculturas foram avaliadas em 24.147 contos, o que deve equivaler a verbas elevadas.

A Biblioteca dos Descobrimentos, uma das melhores em mãos privadas, constituída por 2574 volumes, foi vendida em 1969 a Jorge de Brito por 26 mil contos. O banqueiro e os herdeiros dispersaram-na em leilões realizados na Alemanha em 1989, e em Portugal entre 2008 e 2009. A Biblioteca Nacional conseguiu adquirir alguns dos principais volumes.

A colecção de arte que Ernesto Vilhena deixou acabou por ser leiloada entre 1969 e 2001. A biblioteca corrente (18288 volumes) foi transaccionada entre 1998 e 1999.

Os primeiros leilões não tiveram sequer um catálogo, neles foram dispersos colecções de vidros, marfins indo-portugueses, pratas, metais, cerâmicas e têxteis. A família negociou, ainda, com importantes antiquários milhares de lotes. O Estado adquiriu  por 300 contos 26 tecidos Coptas dos séculos V a IX e 468 fragmentos dos séculos XIII a XIX. O conjunto estava em risco de dispersão, sendo salvaguardado por iniciativa de Maria José de Mendonça, então directora do MNAA.

Em anos recentes o Instituto Português de Museus adquiriu em sucessivos leilões realizados em Lisboa o tríptico “Calvário” de Frei Carlos e uma imagem setecentista de Nossa Senhora da Conceição para o MNAA, bem como painéis cerâmicos para o Museu Nacional do Azulejo.

A Fundação da Casa de Bragança comprou um par de cómodas francesas assinadas por Mondon e uma arca indo-portuguesa, obras expostas no Paço Ducal de Vila Viçosa.

O Vitória and Albert Museum adquiriu, privadamente, a quase totalidade das colchas de Castelo Branco e as melhores esculturas indo-portuguesas em marfim.

As mais raras porcelanas orientais foram leiloadas em Londres.

A viúva do coleccionador doou móveis sacros ao Museu do Caramulo,  a arca dos Gamas ao Museu de Marinha, e um conjunto de 12 colchas de Castelo Branco ao Museu Francisco Tavares Proença. A nora doou recentemente uma imagem policromada setecentista representando Santa Maria ao Museu Grão Vasco.

O palacete de São Bento, precioso pelo recheio e recordações, acabou por ser transaccionado no início do século XXI, decisão tomada pelo neto e pela nora que vivem entre Portugal e a Áustria. O interior do imóvel foi demolido e transformado num condomínio. Hoje nada recorda a passagem de Ernesto de Vilhena pelo local.

Do Comandante Vilhena, o homem que mais coleccionou, o faraó das colecções, afinal o que resta hoje?

Simples. Algumas memórias da coleccionadora Marionela de Gusmão de quando frequentava os antiquários de S. Bento, ainda nos Anos 60, muito jovem, período em que estabeleceu uma relação de amizade e reciprocidade de espírito, com as devidas distâncias, tal como ela o afirma.

O Comandante Vilhena convidou-a a desfrutar das colecções especialmente dos têxteis, algo que o fazia raramente, sempre acompanhado de dois empregados que carregavam e recarregavam os tecidos, as colchas, as rendas, os aventais que apreciam capas… Contudo, o relacionamento era tão amistoso que Marionela de Gusmão deve ser das poucas pessoas que tem um trajo do Minho, de cor verde oferecido por Vilhena com uma etiqueta escrita a tinta–da-China pelo próprio punho do coleccionador, além de alguns botões de casacas do séc. XVIII oferecidos pelo homem que foi uma grande figura dos Diamantes de Angola, nada menos que Presidente.

Mais tarde, a coleccionadora acima referida adquiriu em leilão alguns leques da Colecção Vilhena e o seu marido, Dr. Firmino Fernandes comprou à viúva, nos Anos 70, uma imagem em pedra de Ançã representando S. Pedro, da Escola de Coimbra.

Haja o que houver o nome de Ernesto Vilhena está na História do Coleccionismo em Portugal que mais não seja pela excelente colecção de Escultura que se pode ver no Museu Nacional de Arte Antiga.

 

António Brás

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