Educação I Os Mundos Paralelos 

Quando se visita uma nação que nos revela uma realidade surpreendente e que pode mesmo ser chocante, essa experiência marca-nos porque nos abre janelas do pensamento que nunca tínhamos pensado que existissem. No momento em que regressamos ao nosso país, trazemos a alma mais pulsante, os olhos vêm mais abertos e há qualquer coisa que mudou em nós para sempre.

O impacto tsunâmico ficará, no entanto, dependente da forma como mergulhamos na experiência de descoberta. Quando se tem a oportunidade de viver num lugar um período mais lato de tempo, não é apenas o imediato, a imagem mais superficial que se cola na retina da nossa alma. Ficar mais tempo ou fugir dos roteiros certinhos dos pacotes turísticos, dispensar o conforto das camionetas que da porta do hotel até à porta do hotel transportam gente em cápsulas de ar condicionado e alheias ao ruído da rua optando, em alternativa, pelos transportes públicos e por acomodações integradas na população, pode fazer uma grande diferença. Especialmente em países subdesenvolvidos onde o mergulho na realidade nos tornará inevitavelmente diferentes.

Vem isto a propósito da Educação porque ela realiza-se em vários contextos e momentos e é tão mais invasiva e “transformadora” quanto menos sentida como tal. Porque o que não se entende como acto educativo e se julga apenas mera rotina sem grande significado, tem muitas vezes um efeito bem mais relevante e de raízes mais profundas que os que são definidos como tal. Por isso, cada decisão e comportamento de todos os agentes educativos, família e escola, deve ser encarado nesse entendimento.

E existem de facto outros mundos neste mundo de tantos lados contraditórios que importa conhecer para melhor nos definirmos e construirmos o nosso património emocional. Para os nossos filhos, crianças, adolescentes e jovens, conhecer o mundo das crianças esquecidas e perdidas da infância, crianças que ouvem e veem em casa o que jamais alguma criança devia assistir é dar-lhes a oportunidade de lhes fazer crescer a indignação por tudo o que nos deve indignar. Existem demasiados lugares neste pequeno grão do universo a que chamamos Terra, em que os dias mundiais da Criança pouca diferença fazem porque todos os dias as crianças carregam o peso de ser adulto antes do tempo. 

No mundo do avesso que conhecemos em que os pais pedem licença aos filhos para os admoestar e vão ralhar à porta da escola com os professores na presença dos seus pupilos, as crianças andam a ser mal educadas. Literalmente. E o futuro vai-se ressentir disso.

Há mesmo mundos coincidentes no tempo e no espaço planetar, mas antagónicos na forma como se encara a educação e a vida das crianças. A coexistência no mesmo lugar do cosmos e no mesmo tempo, de crianças sem o básico e o das que basta espirrarem e atiram-lhes com a prateleira do desnecessário a seus pés, não pode ser aceitável com um encolher de ombros. O mundo dos ditadorzinhos de calções e boné que conseguem definir as escolhas da família inteira contrasta claramente com o dos que nem sabem que podem haver escolhas. Mas neste universo dos opostos há ainda espaço para o mundo equilibrado dos que são educados em ambientes sadios de debate e educação sem remorso. Famílias que não temem a palavra “não!”. E estas famílias encontramos em todo o lado porque nem a carência extrema de bens nem a abundância significam ou produzem, por si próprias, falta de entendimento. Existem sociedades que se debatem diariamente com a escassez, mas onde as crianças desde cedo são de facto integradas nos ritmos familiares sejam eles de pura descontração sejam eles de trabalho árduo ou sejam de luto e de doença. Nessas comunidades, as crianças são amadas e protegidas, mas não com a obsessão disfuncional que um certo universo, extenso, por sinal, possui e não são poupadas às responsabilidades que as famílias, por norma muito numerosas, possuem. Seja cuidar dos mais novos, seja ajudar em tarefas domésticas como lavar roupa, cozinhar o arroz, dar água aos animais ou tomar conta da banca de venda, as crianças de tudo fazem e sobra-lhes ainda tempo para a brincadeira livre, descalços sobre a terra de calhaus a que os pés já se habituaram, correndo como flechas e trepando árvores como quem sobe uma escada. 

É evidente que em nenhum lugar do planeta se viverá em completo deslumbramento, mas em sociedades culturalmente distantes da nossa podemos ter a feliz experiência de confirmar o que já suspeitávamos em relação ao nosso pequeno grande mundo: andamos a educar as crianças para a frieza social, para o egoísmo. Uma realidade que se revela nos mecanismos de interação social e solidariedade. 

Neste tempo em que viajar para outros mundos surge como pouco possível, os livros,  filmes e documentários serão sempre uma alternativa e uma oportunidade de se projectarem viagens futuras. Enquanto não escalamos fronteiras transcontinentais, viajemos de olhos bem despertos dentro do nosso país e iremos descobrir que os mundos paralelos também existem no nosso pequeno mundo chamado Portugal.

Ana Paula Timóteo

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