Educação I  2019/2020 foi um ano lectivo? 

O ano de 2020 já soma 6 meses e existe uma dúbia sensação. Entre sentir que o ano ainda não começou e o de parecer que estamos a rodar num ciclo vicioso há demasiado tempo, o desconforto é uma certeza. Para alunos, pais e professores este foi um tempo duplamente desesperante mergulhados num estranho e confuso universo de ensino à distância. Uma realidade que foi tecendo uma complexa teia de aulas síncronas e assíncronas, trabalhos de casa e mais trabalhos e uma necessidade imperiosa de adaptação, de encontrar a quadratura do círculo. Quando a casa se transforma num território disputado entre os pais em teletrabalho e os filhos em tele-ensino, a sagrada intimidade do lar fica devassada e, inevitavelmente, ou quase inevitavelmente, os conflitos surgem. E surgem com maior relevo e probabilidade nos redutos familiares onde a fragilidade de recursos se torna mais evidente. 

Esta conjuntura, que serviu para muita coisa, saibamos nós retirar ensinamentos dela, veio trazer à luz do conhecimento para os mais distraídos, as assimetrias sociais e culturais. Não apenas na segurança ou insegurança de postos de trabalho. Não apenas na forma soez como não se garantiu a sobrevivência de quem vive das actividades culturais. As assimetrias e desigualdades fizeram-se igualmente sentir na Educação e no acesso a ela consagrado na Constituição e tantas vezes esquecido. Durante este longo período houve claramente mundos sociais paralelos. O que permitiu a uns terem a privacidade de um quarto dotado de computador pessoal e acesso à net e a outros a apenas contarem com a capacidade precária de um telemóvel, a boa vontade do vizinho, ou a participação em aulas pela plataforma Zoom na cozinha com a mãe a fritar peixe, ou na sala com os irmãos a brincarem, os pais a intervirem directamente nas aulas ou a discutirem, ou no quarto partilhado com o irmão que não se coíbe de graçolas. 

Quanto aos professores, sempre num afã em corresponder ao que lhes mandam, acabam por fazer mais do que deviam e fazer mais do que deviam não é bom ao contrário do que se possa pensar. Porque “mais” é muitas vezes mau, nefasto. Neste caso o contributo oferecido com generosidade acaba por ser perverso abrindo-se uma verdadeira caixa de pandora de possibilidades insanas e prejudiciais. 

Educar é transformar e transformar é um processo que envolve uma enorme responsabilidade porque implica um ponto de partida: transformar em quê? 

Os professores ao terem acedido a este apelo insano de tentar reproduzir virtualmente o ensino presencial, terão conseguido menorizar, em alguns alunos, os efeitos nefastos do fecho das escolas, mas ajudaram a cavar o fosso entre os que possuem bons recursos e os que não os têm. E desengane-se quem possa pensar que nos estamos a referir apenas aos que vivem nos bairros precários, periféricos, as chamadas bolsas de pobreza que nos deviam envergonhar. Não, há muita pobreza e recursos de tangente numa classe média cada vez mais sufocada de problemas financeiros. Porque a classe média está naquele limbo terrível de não ser suficientemente miserável para poder contar com algum apoio e estar muito longe de ter conforto financeiro.

Poderão perguntar: então, mas o que é que se podia fazer com as escolas fechadas? Não estamos a defender soluções óptimas nem fáceis. Num contexto excepcional, como este, nenhuma solução seria boa, mas o formato de conteúdos transmitidos pela televisão, os quais deveriam ser melhor revistos nomeadamente na forma como são dados e com menos preocupações cénicas, representa, uma opção mais abrangente do que a das aulas com recursos a plataformas digitais. A internet pode ser um recurso, mas não devemos partir da premissa errada de que todos a ela têm acesso e todos têm bons computadores. Por isso, entre conteúdos televisivos, maior cuidado na programação nos diversos canais assumindo responsabilidades cívicas e melhorando a qualidade da sua oferta, e canais digitais, seria oferecida uma panóplia de janelas culturais sem estas tivessem uma colagem cega aos programas curriculares. Esta teria sido pois uma oportunidade de excelência para se passarem na televisão boas palestras, filmes de qualidade que poderiam depois ser analisados, peças de teatro, concertos, documentários de vária índole, leitura de narrativas e poemas, reabilitação de formatos como “Se bem me lembro….” que esteve em emissão durante anos com Vitorino Nemésio.

De novo solta-se a pergunta inevitável: e as avaliações? 

A melhor avaliação só o tempo a revela. Se as pessoas se tornarem melhores pessoas então valeu a pena. Conhecemos a célebre frase atribuída a Júlio César “Ai de nós que conquistámos o mundo e nos perdemos a nós mesmos”. O conhecimento de nós mesmos faz-se da soma do conhecimento do mundo e dos outros e conhecer não é apenas aprender. Uma das máximas délficas escritas por sete sábios da Antiga Grécia, aconselha a que nos tornemos filósofos ou seja, amigos da sabedoria e outra recomenda que saibamos o que aprendemos ou seja, devemos conhecer e saber genuinamente o que aprendemos. Daí a necessidade de multiplicar oportunidades de aprendizagem e de práticas do que se aprendeu porque só realizando se sabe verdadeiramente.

Porquê este drama com o cumprimento do programa curricular? E ele foi cumprido? Se acaso tivesse sido adoptada a estratégia que aqui defendemos faria sentido avaliar conhecimentos que teriam fugido aos espartilhos dos programas curriculares, ao fim de 3 meses sem aulas? Para quê? Não, devia ter havido a coragem de dizer e assumir que este ano ninguém seria avaliado nem transitaria de ano escolar, mas que este ano escolar serviria para cada um se enriquecer porque desse crescimento holístico resultariam melhores aprendizagens.

Faltou coragem ao ME, aos professores, sindicatos e famílias. Fingir que está tudo bem e que foi tudo normal, maquilhar a realidade só servirá para encobrir cicatrizes, mas não as eliminará. 

Sim, este ano devia ter sido um ano lectivo zero.

Ana Paula Timóteo

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