Dulce Roselló I Uma Guerreira ou a Força da Natureza

VERTIGO I Improvável e Imparável Força da Natureza

 

Se escrevêssemos “uma força da natureza” poderíamos levar os leitores a imaginarem que Dulce Roselló é um mulher invulgar, com talento a sair dos poros, mas ela é muito mais do que isso. É muito raro encontrar alguém com uma personalidade tão forte e um espírito tão determinado capaz de vencer todas as adversidades.

Os leitores que sintam o apelo a visitar a exposição denominada VERTIGO -  ARTE TEXTIL da autoria de Dulce Roselló, ao saberem que todo aquele imenso trabalho levou três anos a realizar, ficarão incrédulos, tal como nós, se desconhecêssemos a sua enorme garra, o seu espírito vencedor e o seu talento e, mais ainda, ao saberem que esta grande artista cumpre no ano em curso a bonita idade de 90 anos. A vida, a juventude que se desprende de cada obra sua, leva-nos a imaginar que foram realizados por quem sonha com o futuro. Dulce Roselló, dizemos nós que a conhecemos bem, criou as suas obras com o espírito de renovação e preservação de um património que por ser numa matéria-prima de certa fragilidade, tem tendência para desaparecer com os séculos.

E de que trata então a sua exposição VERTIGO? Dulce apresenta uma inovação nos trabalhos de “Patchwork”, uma arte têxtil que os americanos muito apreciam e que nasceu nos E.U.A. através dos emigrantes que idos de Inglaterra no séc. XIX para a terra onde acreditavam que todos os sonhos se poderiam realizar, não tiveram mais remédio que aproveitar os restos do vestuário já gasto e com eles comporem coberturas para as suas camas, em substituição das colchas, sendo que ao executarem esse trabalho com pequenos retalhos e tão grande sentido estético, conseguiram criar obras que hoje, são disputadas por altos preços nos leilões, muitas delas estão patentes ao público em Museus importantes de várias cidades, como o MET de New York.

Esta exposição individual, sob o título de VERTIGO, é também o nome atribuído a uma das obras que mais apreciámos, executada em 2016, com 120x 89 cm. inspirada em trabalhos de Jacquie Guering (USA) e de Yinka Shonibare (Nigéria).

A obra foi criada com seda selvagem, shantung, organza e linhas decorativas. A composição resulta numa peça de arte abstracta, absolutamente inesperada e de tão grande beleza visual como decorativa.

Na impossibilidade de descrever todas as peças desta Exposição que recomendamos vivamente aos nossos leitores, lembramos-lhe que têm de se apressar antes que encerre no dia 25 do corrente mês de Fevereiro. A Exposição, está patente ao público na Rua Castilho, nº. 5 – r/c., em Lisboa, no Espaço Atmosfera e não se pode deixar de contemplar.

Monárquicos como somos, o nosso olhar caiu em cheio na obra “Flor de Liz” , inspirada em Yvonne Brown (UK) – azulejaria medieval. Entre os materiais utilizados para a sua realização destacamos: Feltro, Batiks, Shantung de seda e linhas decorativas. Mede: 44,5 x44,5 cm.

Embora, a nossa querida amiga Dulce Roselló, desde os tempos da sua Marlicel, nos tenha surpreendido, pela positiva, sempre e sempre, desta vez quase ficámos com a respiração suspensa. As suas obras não têm idade: são para jovens que estão agora a decorar as suas casas e gostam de uma peça apelativa que faça toda a diferença ornamental; destinam-se a casas luxuosas de férias ou da cidade; em suma, atraem pessoas de todas as idades, de gosto requintado, a um preço, muito acessível, se levarmos em conta o valor e os dias e dias gastos. Porque ali a criatividade nem sequer está a ser cobrada. Grande Dulce!

Apreciámos o seu uso, um pouco recorrente, dos “Amonites” e, em especial, a obra com o seu nome, em feltro, tintas dispersivas, linhas decorativas, organizas… que mede 30 x 122 cm.

Ora, sendo esta senhora, toda a sua vida uma profunda interessada nos produtos de estética e beleza, é de salientar o seu interesse por amonites, moluscos cefalópodos que surgiram no período Devoniano, há 400 milhões de anos e foram extintos juntamente com os dinossauros, no fim dos cretáceos, há 65 milhões de anos. A Dulce espanta-nos pela sua invulgaridade.

Não é costume existirem peças de arte com inspiração na era Mesozoica, tempo em que os amonites se diversificaram numa grande variedade de formas abundantes em todos os mares.

E já que falamos em amonites recordamos que eles viviam no interior de uma concha em espiral de natureza carbonatada.

Na mostra de Dulce Roselló, há uma outra peça, absolutamente artística e deslumbrante que dá pelo nome de “Strata” e que mede 32 x 137 cm.

A exposição não deixa lugar a dúvidas que os sonhos de Dulce permaneceram, requintaram-se levando-nos à magnífica obra “Serengeti” onde há balões de hidrogénio, campos e uma grande árvore e, também, à obra “Ilusão Nipónica”, a primeira com 51,6 x 48 cm. e, a segunda com 54 x 58 cm.

Para os apaixonados por cavalos, entre os quais nos encontramos, os nossos aplausos recaem na nossa escolha da obra “Olhares do Oeste” e “Liberdade” que é, como quem diz, cavalos à solta. Lindas estas duas obras de Dulce Roselló, sendo que a 1ª. mede 74 x 42 cm. e a 2ª. 132x145 cm.

Para não sermos cansativos não repetimos a palavra “parabéns” de cada vez que citamos uma das obras expostas, mas sentimos muitas vezes a vontade de a abraçar. Grande mulher! Grande senhora!

Porém há uma peça, muito trabalhosa que mostra como a autora foi às raízes de muitos tecidos, especialmente aquela que baptizou de “Mountmellick” pois, tendo os “patchworks” origem na Inglaterra e este país uma forte ligação à Índia, interrompida no séc. XX, o motivo central remete-nos para a Índia, mais propriamente para a região de Jaipur. É impressionante! São 153 x 154 cm de uma obra invulgarmente artística capaz de adornar uma sala onde os moradores e as visitas se sentirão bem aconchegados, desfrutando de um colorido festival que os remete para mundo que todos conhecemos das narrativas históricas dos tempos dos Descobrimentos portugueses.

Como não posso descrever a exposição, peça a peça, deixei para o final as obras “Colmar”, “Diamantes para Matilde”; Z (de ziguezague); Voos no azul; “A a Z”; “The Rajah Quilt”, as quais se inserem, com mais profundidade, nos velhos “patchworks” dos emigrantes do passado que a sorte não favoreceu.

Obviamente que estas cinco obras têm dimensões muito maiores do que as anteriormente citadas, mais de 2 metros de comprimento e largura.

 

Quem é Dulce Roselló?

Difícil resposta porque uma pequena parte da sua vida não cabe num volume de mais de mil páginas.

Numa entrevista que nos deu, em 1998, Dulce Roselló assumiu-se como uma sonhadora, embora os pés não se desprendam do chão.

Decorridas quase duas décadas, Dulce Roselló continua a ser uma mulher de fé inabalável num futuro melhor para toda a gente e acima de tudo no ser humano.

 

APONTAMENTO BIOGRÁFICO

 

ANGOLAAntes e depois da independência

Contrariando os hábitos vigentes de quando era rapariga, Dulce Roselló assim que acabou o curso no Colégio das Irmãs Doroteias, em Benguela, começou, de imediato, a trabalhar numa farmácia, escutando durante onze anos, por detrás do balcão, os lamentos dos que padeciam de mil e uma enfermidades num tempo em que poucos médicos estavam na disposição de ir para as cidades das províncias de Portugal continental, quanto mais de ir para África.

Na continuidade da sua vida na farmácia onde trabalhou, relatamos o seu discurso de 1998 para a revista MODA & MODA, onde Dulce Roselló nos disse: “ Foi uma aprendizagem espantosa e representou o meu primeiro contacto com as pessoas e com o sofrimento. Ao fim de quatro anos de serviço, o farmacêutico sobrecarregou-me com uma enorme responsabilidade ao chamar-me “a cabeça da farmácia” enquanto os meus colegas representavam os “membros”.

Casou e acompanhou o marido para o mato, onde teve de conviver com cobras venenosas, na proximidade de um rio infestado de jacarés, mais ou menos a 100 metros da sua habitação, além da visita indesejada, de quando em vez de uma ou outra onça. E, foi aí, num lugar selvagem como esse, que constatou que mesmo aí, as mulheres procuravam cuidados de beleza, tais como pintar os lábios e usar uma pomada caseira para atenuar as rugas.

E recordando o que Dulce Roselló disse à Moda & Moda há quase vinte anos: “se eu não tivesse ido parar ao mato talvez não tivesse um percurso que tanto me satisfaz. Os conhecimentos adquiridos no tempo em que trabalhei na Farmácia foram determinantes para o meu futuro”.

“Com o apoio do meu marido, numa época em que a estética era considerada por muitos, uma futilidade, resolvi ir tirar um Curso na Escola de Altos Estudos de Estética, em Paris, então uma escola de prestígio de que sempre me orgulhei.”

E regressou à sua Angola, com mais bagagem, instalando-se em Luanda onde abriu o seu primeiro Instituto de Beleza.

Angola era a sua terra e a do seu filho, (o farmacêutico Dr. Luís Roselló), e era sua intenção batalhar ali no campo da estética. Apesar dos graves problemas que existiam em Angola de norte a sul, Dulce fundou um Instituto, que abriu no final de 1974, sendo forçada a deixá-lo em 1977, após a independência, tal como já o tinha feito com o primeiro, totalmente equipado e em plena laboração.

Haverá alguém que duvide que Dulce Roselló é uma mulher com uma força anímica invulgaríssima? Uma guerreira valente! Um grande exemplo a seguir, por quem tiver muita coragem.

Ao chegar a Lisboa Dulce trouxe consigo a sua numerosa família e uma fé inabalável.

Para se saber um pouco melhor como foi difícil bater às portas das instituições de crédito e trazer um não sempre que falava em Estética ou Perfumaria. O juro bancário rondava os 35%. Mas, lá conseguiu montar o seu primeiro instituto em Lisboa, na Rua Nova do Almada, a chamada Marlicel, onde havia um pequeno gabinete de estética na sobreloja.

E a nossa querida Dulce torna-se a Phénix a ressurgir das cinzas com a esperança cada vez mais renovada.

E como se todo o percurso percorrido tivesse sido fácil, ainda veio o incêndio do Chiado atear mais destruição para uma vida com tanto sofrimento.

Segura de si e acreditando sempre nas suas capacidades, Dulce Roselló caíu aqui, levantou-se acolá e foi sempre vencendo as etapas difíceis que o Portugal metropolitano lhe colocava sem deixar de contribuir para a beleza das mulheres que entravam nos seus gabinetes de estética.

O seu sorriso demonstra que é uma vencedora. Esteve no nascimento da Thalgo, uma marca de grande prestígio e baseada nos poderes marinhos em que sempre acreditou.

Nesta revista ficamos à espera da próxima exposição com a sua criatividade a brotar a Primavera que lhe está na alma.

Como sempre teve um grande gosto pela formação na área da estética, agora, transferiu esse dom para a arte têxtil que já a seguem nas suas aulas.

Sabemos que os seus desejos se basearam na harmonia do bem-estar da mente e do corpo. Continue! Os bons produtos cosméticos prolongam a juventude, uma obra das que nos apresentou na sua exposição “Vertigo” pode causar uma loucura de prazer momentâneo, uma vertigem poética para quem coloca os cavalos em liberdade.

Viva a nossa Dulce Roselló. Força! Coragem! Parabéns!

Marionela Gusmão

http://www.modaemoda.pt/copia-dulce-rosello-1

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