A PROCISSÃO DE CORPO DE DEUS I CORPUS CHRISTI EM LISBOA

Custódia do Palácio da Bemposta. Museu Nacional de Arte Antiga

Custódia do Palácio da Bemposta. Museu Nacional de Arte Antiga

O Doutor Júlio Dantas (1876-1962), foi um notável académico, escritor dramático português e grande médico, autor do livro “Lisboa dos nossos avós” - uma obra de grande envergadura que nos mostra como foi a capital do nosso país “in illo tempore”.

Para escrever sobre a mais antiga procissão – Corpus Christi – mergulhamos nas doutas palavras de Júlio Dantas, um senhor muito mal tratado por um pintor conhecido, o que não significa que seja bom autor de muitas obras encomendadas pelo Estado Novo. 

Ficou na gíria, meio patética o que ele afirmou sobre Júlio Dantas, referindo-se-lhe como se fosse um seu igual, ao escrever: se o Dantas é português, eu quero ser espanhol. Pois é.

Estava equivocado porque o Doutor Júlio Dantas foi um grande senhor, investigador incansável e os espanhóis nem sequer gostam do Picasso, quanto mais desse.

Numa narração muito consolidada, lê-se a pág. 30 do livro “Lisboa dos nossos avós” o seguinte: “ A mais antiga das procissões era a de Corpus Christi. D. Rodrigo da Cunha, na História Eclesiástica de Lisboa, diz que ela remonta ao séc. XIII; mas segundo parece, só principiou a exibir-se nas ruas das cidades católicas em 1316, quando João XXII ratificou a bula de Urbano IV. Nos primeiros tempos, semelhante préstito, rico de elementos mundanos, reflectiu a barbaridade medieval. Acontecimentos pouco edificantes levaram o rei D. Manuel a reformar a procissão de Corpus Christi publicando o Regimento de 1517”.

Até ao reinado de D. João V muitos disparates aconteceram, perturbando a pureza da oração e o que há de sagrado no Corpo de Deus.

E é com a devida vénia que transcrevo o que Doutor Júlio Dantas deixou escrito sobre a alteração efectuada desde 1719 sob as ordens do Rei Magnânimo. 

“De todas as janelas das grandes ruas pendiam cobertas de damasco e de veludo de Génova, panos de brocado nas mais ricas colgaduras armoriadas do Patriarca e do Senado da Câmara nas casas principais; o alecrim, a areia vermelha, o Sol, os coches, as mulheres, criavam na cidade o ambiente propício às festas ruidosas. Às sete da manhã – (bons tempos em que Lisboa se levantava cedo!) – saía a procissão. Não havia um só lisboeta que não se orgulhasse da imagem equestre de S. Jorge, cujas armas de prata lampejavam, preito da nação a D. João I e aos ingleses de Aljubarrota; do homem de ferro; das trombetas a cavalo; da vivacidade dos negrinhos, nossos amigos da colonização e da expansão”.

Estou mesmo a ouvir vociferar os que acham que agora na Guiné se vive melhor do que antes de nos meterem no inferno, que Timor também está melhor, etc. e, curiosamente, da minha família não há uma única pessoa que tivesse vivido nas colónias ou que negociasse com quem quer que seja fora da Europa. E continuo a achar que a descolonização foi uma vergonha, já que prejudicou ferozmente que nada teve a ver com África.

Voltando à descrição do Doutor Júlio Dantas que conheci em 1960, na sua casa na Rua Sidónio Pais, nº. 16 – 1º., em Lisboa, mesmo em frente ao Pavilhão dos Desportos, recordo-me do seu impecável trajar, da amabilidade com que me recebeu e à Baronesa de Resende e acima de tudo da delicadeza e da sabedoria que saía de si próprio. 

Espero que um dia se faça justiça e que o nome deste grande senhor não fique manchado com as palhetadas de um louco que tinha algum talento, mas menos do que pensava, enquanto o Doutor Júlio Dantas era um estudioso profundo e académico fora de série.

Voltando à procissão, de Corpo de Deus, escreveu ele: “da heráldica sumptuosidade das bandeiras da Casa dos Vinte e Quatro, atrás das quais caminhavam o juiz do povo, os procuradores, os ofícios, as confrarias, as irmandades intermináveis, coloridas de opas e armadas de brandões acesos, os capelães, os cantores, os subdiáconos patriarcais, os acólitos, a cruz bizantina do Patriarca, as “virgas rubras”, símbolos da Igreja conciliatória e absolutória, o Cabido com seus cónegos de mitra e de dalmática, os familiares, os frades, os fidalgos – e, enfim, sob o pálio flamejante de nove panos de ouro, o Patriarca de Lisboa envolto no seu pluvial, o rei, os infantes, nuvens de incenso dos turiferários, flabelos, cerofalas, cruzes, e os regimentos da Côrte, de Peniche e de Setúbal, rufando tambores, faiscando armas. Era um cortejo digno de D. João V . Era – numa síntese animada e colorida – a expressão das duas majestades, espiritual e temporal. Era o próprio Deus – diz um panegirista do século – caminhando sob pálio, em meio da nação contricta e reconhecida à sua infinita misericórdia”.

Obviamente que não concordo com a comparação entre a vida terrena e a vida espiritual, mas seja como for, esta é a melhor descrição das Procissões do Dia de Corpo de Deus que jamais li.

E, por aqui se percebe que sou uma fã incondicional das belíssimas peças de teatro que o Doutor Júlio Dantas, algarvio de Lagos, escreveu e que até já vi muito bem representadas, assim como dos seus profundos trabalhos de investigação histórica.

Júlio Dantas só houve um. Nem pim, nem pum, Júlio Dantas só houve mesmo um, cuja argúcia e capacidade de entendimento do ser humano se pode ver na peça de teatro: “A Ceia dos Cardeais”. 

 

Marionela Gusmão

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