Dia da Espiga I Dia da Ascensão

O povo, humilde no seu trajar e modo de viver, tem uma filosofia que vem da Antiguidade e a sua sabedoria assenta em conhecimentos que passaram de geração em geração.

Quando eu era criança ouvia, admirada, esta expressão: “da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão.”

E vão mesmo, basta apenas saber fazer contas.

Ora, a Quinta-Feira da Ascensão é o dia em que se comemora, no calendário litúrgico, a ascensão de Jesus Cristo ao céu, encerrando um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. E é a data em que se celebra o Dia da Espiga. E porquê? A resposta parece-nos simples. A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas pagãs da maior ancestralidade como, por exemplo, o Carnaval, cristianizou a data e, esta, através dos tempos foi sobrevivendo duplamente, ou seja Quinta-Feira da Ascensão para os cristãos, marcando a ascensão de Jesus Cristo ao céu e Dia da Espiga ou Quinta-Feira da Espiga, com um pendor extra religião, um exclusivo da esfera agrícola e familiar.

O Dia da Espiga em Portugal

O tradicional ramo de Espiga, deve ser apanhado a partir das 12.00 horas do dia da 5ª. Feira de Ascensão, até às 13.00 horas. Estes ramos devem ser guardados, segundo a tradição oral, até ao próximo dia da espiga do ano seguinte e mantido atrás da porta da cozinha ou da entrada da casa.

Para as famílias que sempre viveram no campo, o Dia da Espiga foi e é vivido em festa e para aqueles que sempre viveram na cidade prestava-se e presta-se a piqueniques, danças e cantares ao ar livre.

A apanha das espigas e de outras ofertas da natureza, para fazer os ramos, tinha horário próprio, ou seja deveria realizar-se entre as 12.00 e as 13.00 (hora sagrada). Acreditamos que, salvo raras excepções, ainda assim seja.

Em Lisboa, cidade onde habitamos, pela manhã cedo encontram-se vendedeiras de ramos de espigas e, hoje, até os floristas já os vendem. Ora, é fácil deduzir que estes ramos foram apanhados na véspera ou seja quarta-feira. O que interessa é a intenção e a vontade de seguir os rituais dos nossos antepassados. A tradição não pode morrer.
 

A evolução tecnológica acabou com muitas crenças. Duvido que, por exemplo, em Lisboa haja muita gente que coloque o ramo das espigas com os malmequeres e as papoilas mais as hastes de oliveiras e romeiras, atrás da porta da cozinha como algo que garante a abundância, a alegria, a saúde e a sorte, até ao próximo Dia da Espiga de 2019.

E em que consiste o Dia da Espiga perguntarão os mais novos, que podem ver, por acaso, nas ruas das maiores cidades, alguém a vender uns molhinhos de espigas e malmequeres, papoilas, raminhos de oliveira… para darem sorte. Antigamente não era assim, mas em muitos lugares do interior ainda há quem vá ao campo apanhar cinco espigas de trigo as quais, serão acompanhadas de duas variedades de flores silvestres (papoilas e malmequeres) e de ramos de duas variedades de árvores, muito sagradas, como a oliveira e a romeira. Já vi escrito que em certas regiões incluem videira e alecrim, mas como não tenho fontes documentais fidedignas e nos ramos de espiga do Algarve, da minha infância e juventude, nunca vi essa mistura, deixo a outros o encargo de confirmarem esta informação.

Os meus parentes de Lisboa com quem convivi muitos anos até que Deus os levou para junto de si, falavam-me de piqueniques e de festas numa quinta que possuíram em Benfica. As cestas dos piqueniques, foi o que restou e o que tive oportunidade de conhecer. Não eram muito bonitas e ainda guardo, por recordação, uma espécie de marmita em porcelana grosseira com tampa de estanho. O que entrava no ramo da espiga nunca me foi descrito porque também não tive grande curiosidade em saber. Se fosse hoje…

Com a dúvida do alecrim e da videira, consultei uma senhora, da maior credibilidade, natural de Lisboa, que se recorda da sua família comprar um raminho de 5 espigas de trigo rodeado de 5 pés de cada uma das seguintes variedades: malmequeres, papoilas, oliveira e romeira, num total de 25 pés. Essa compra era feita aos aguadeiros de Caneças que, diariamente, traziam as bilhas de barro com a água que se mantinha fresquinha e, nesse dia especial, os raminhos da espiga.

Indaguei, ainda, na nossa redacção, se alguém se lembrava dos raminhos de espiga e fiquei a saber que o director artístico, natural de Lisboa que, em criança, viveu na zona de Campolide ia apanhar o raminho na companhia da mãe e da sua irmã gémea. Depois de um certo esforço de memória concluiu que ia a uma quinta onde hoje existe uma praceta na zona das Furnas, nas vizinhanças do Palácio do Marquês de Fronteira, e aí autorizavam a que apanhassem as flores campestres (conhecidas por ervas) e umas pernadinhas de oliveira e romeira, mas as espigas de trigo era o pai que trazia oferecidas por um colega que morava na zona de Mafra.

Ora bem, falei da região de Lisboa até ao Algarve. Desconheço o que se passa nas regiões do norte e do centro onde as espigas provavelmente serão compostas por pés de outros cereais, tais como centeio, cevada ou aveia e até admito que seja aí, que incluam, no ramo, a videira e o alecrim.

Há como vimos uma associação basilar ao pão (cereais) e ao azeite (oliveira). Mas, a espiga também surge conotada com o leite, as proibições ao trabalho e ao Poder da Hora, isto é, ao respeito absoluto entre as 12.00 e as 13.00 horas da Quinta-Feira de Ascensão. Diz a voz popular que nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam”. Neste cruzar de folhas há a realçar que é nesta dia a partir das 12.00 horas que as amêndoas coalham dentro da casca e que as pinhas deitam o suco que dará lugar ao miolo dos pinhões. 

Destas quatro afirmações só posso falar do cruzamento das folhas. Vi, com os meus olhos, as folhas cruzarem-se, provavelmente pela brisa especial que passou pelos lugares onde eu estava. E garanto, por várias experiências, que só nesse dia é que o miolo das amêndoas coalha totalmente.

Nunca vivi no campo. A minha vida decorreu sempre em mais do que uma cidade algarvia mas a curiosidade levava-me às fazendas dos meus familiares e aí confirmava que nem tudo o que aprendia nas aulas era absolutamente verdade. Seriam acasos? Talvez! Mas há fenómenos difíceis de explicar através da química ou da física.

A minha avó, pouca dada a festividades campestres e pouco religiosa, respeitava este dia. As suas tias, senhoras ainda muito mais idosas, mas católicas convictas e praticantes da sua religião, diziam-me: “este é o dia mais santo do ano”.

Com elas aprendi a simbologia das plantas que compõem o “Ramo de espiga”:

Espiga – pão;

Malmequer – ouro e prata;

Papoila – amor e vida:

Oliveira – azeite e paz

Romeira – fecundidade.

Já falei do Poder da Hora, mas em relação ao dia da espiga, ainda há a considerar que ele é, em certas regiões, o Dia do Leite. Na aldeia da Esperança (Arronches), neste dia os produtores de queijo ordenham o gado e oferecem o leite a quem o quiser e, em Santa Eulália, no concelho de Elvas, o leite é oferecido aos pobres. No norte de Portugal, em Guimarães e em muitas freguesias do concelho de Pinhel, o leite ordenhado é oferecido ao pároco que lhe dará o destino que entender.

O Dia da Espiga e a história

Há quem afirme que este costume da celebração do Dia da Espiga tem as suas raízes num antigo ritual cristão onde se benziam os primeiros frutos, mas as suas características levam-nos até às antigas tradições pagãs associadas às festas em homenagem à deusa Flora que ocorriam mais ou menos nos meses de Maio ou inícios de Junho.

Nas civilizações agrárias, a espiga, (de trigo nos mistérios de Elêusis, de milho nos mistérios dos Índios da América do Norte) é, segundo Alexander Alec in “Le cercle du monde”, o filho nascido da hierogamia fundamental Céu-Terra. É por isso que, enquanto síntese, a espiga de milho sagrado tem simultaneamente a cor feminina da terra vermelha e a cor masculina do céu azul.

Falámos acima da deusa Flora e das tradições pagãs, mas quanto às espigas é de sublinhar a obra de Guy de Ters Tervarent (Genebra 1959) “Attributs et symboles dans l’art profane, 1450 a 1600” em que o autor ao citar as grandes obras do Renascimento, onde avultam as espigas de trigo como um atributo do Verão, refere Ceres, a deusa da agricultura, que deu o trigo aos homens e que geralmente é representada com um punhado de espigas na mão; da Caridade e da Abundância, que distribuem profusamente as espigas e todos os alimentos que elas simbolizam.

De sublinhar que a espiga de trigo também era o emblema de Osíris, o deus-sol morto e ressuscitado e simbolizava, na Antiguidade egípcia, o ciclo natural dos mortos e dos renascimentos. A espiga contém os grãos que morrem, sejam para alimentar ou para germinar.

​Conclusão

Pelo sim, pelo não, se conseguir comprar um ramo da espiga como mandam os velhos preceitos (5 espigas, 5 papoilas, 5 malmequeres, 5 ramos de oliveira, 5 ramos de romeira) não se esqueça de o pendurar de cabeça para baixo, atrás da porta da sua cozinha. Senão fizer muito bem, mal também não faz…Andamos todos a precisar de SORTE. DE MUITA SORTE! Abençoados por Sua Santidade o Papa Francisco já estamos. Haja Deus!


 

Marionela Gusmão

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