Azul Turquesa na Alta Costura

Quem disse que a Alta-Costura tinha os dias contados? Eu não fui… De certeza!

Quando, nos Anos 60, surgiu o movimento conhecido por Estilismo, liderado por franceses e ingleses, com a preocupação de oferecer às massas um novo Pronto-a-Vestir, democratizando a moda inspirado nas colecções que a Alta-Costura criava em modelos únicos, de imediato, começaram as aves agoirentas, com os mais demolidores prognósticos sobre a continuidade da Alta-Costura.

 

Nesse tempo, recordo-me apenas de ler essas notícias, esporádicas, em jornais portugueses mas de escutar a opinião muito avalizada da Baronesa de Resende, uma mulher de vanguarda das mais fabulosas que conheci. Dizia ela, (que foi a primeira locutora da Emissora Nacional), que todos os dias lia jornais estrangeiros e portugueses: “esta gente não sabe nada”. Esta gente não lê, nem sabe filosofia”. E essa afirmação de que não sabiam filosofia, levava-me, a rir perdidamente. Por fim, ríamos as duas.

 

Passaram os anos e no meu percurso laboral, muito provavelmente pela minha conhecida paixão pela História de Moda que me levou a expor, em Abril de 1974, (pouco antes da Revolução, dita dos Cravos) no Salão de Antiguidades, (sector dos coleccionadores particulares), uma parte da minha colecção de traje e acessórios de moda dos séc. XVIII e XIX e, também por ter trabalhado muito na fundação/instalação do Museu Nacional do Trajo, passei a ter a meu cargo na Revista TV Guia (fundada nos finais dos Anos 70) a rubrica Mulher Guia, a qual incluía moda actual, beleza e outros temas do chamado Mundo Feminino.

 

Posteriormente, esse espaço deu lugar à rubrica Moda, igualmente, na supra citada revista. Vem isto a propósito, para recordar que desde o início dos Anos 80, antes da Moda&Moda nascer em 1984, passei a deslocar-me a Paris, Milão, Roma e algumas vezes a Londres, para assistir a todos os desfiles de Pronto-a-Vestir e de Alta-Costura. A experiência mostrou-me à saciedade que a Alta-Costura é o motor de arranque das colecções de Pronto-a-Vestir, à excepção daqueles que desde os Anos 70 são denominados Criadores, cujo exemplo português é a Ana Salazar.

 

Ora bem, depois de somar aos meus conhecimentos de História de Moda, os visionamentos que fiz de centenas e centenas de colecções de Pronto-a-Vestir e de Alta-Costura, acompanhada pelos fotógrafos António Pedro Ferreira, Fernando Peres Rodrigues, José Luís Teixeira e hoje, por Ugo Camera, sinto-me em perfeitas condições para afirmar que a Alta-Costura, mesmo com crise económica, não pode deixar de existir.

 

A subvalorização do melhor que se faz em moda nem sequer é um assunto polémico. A Alta-Costura existe e vai continuar a existir. Sofre, com certeza, problemas idênticos às outras áreas de negócio, tais como as da joalharia, da imobiliária, dos automóveis…

 

É caso para dizer como a Baronesa de Resende: “esta gente não lê, nem sabe filosofia”.

 

A provar a existência da Alta-Costura, os costureiros, cada um por si, criaram colecções para a actual temporada com tanto respeito pela feminilidade, pela beleza, pelo estilo, pela execução perfeita que a sua mensagem parece um grito: “Estamos bem vivos!”

 

Nesta revista, infelizmente sabemos que já desapareceram muitos mestres que contribuíam para a excelência da moda feminina. Mesmo sabendo que ninguém é eterno, posso lá esquecer-me de Louis Féraud, de Guy Laroche, de Marc Bohan que assinava as colecções da Dior antes de serem entregues a Galliano, de Gérard Pipart que criava as colecções de Nina Ricci ou dos meus muito amados Yves Saint Laurent e Versace. E de Valentino, que graças a Deus continua vivo e só trabalha para as suas deusas?

 

As suas colecções faziam parte das minhas favoritas. E não é que este ano a colecção com a sua “griffe”, até me fez lembrar os tempos áureos daquele grande senhor, que vinha à “passerelle” saudar as suas fiéis clientes com a sua postura de “rei”?

 

Por aqui, entre a revista online e a revista em papel, daremos conta das propostas que nos deslumbraram e que são, por ordem alfabética, as seguintes: Armani Prive; Basil Soda (uma boa surpresa); Chanel; Elie Saab; Georges Chakra; Givenchy; Jean-Paul Gaultier; Valentino e Zuhair Murad.

 

Os que viram o rigor da colecção de Basil Soda e o pormenor dos estreitos rolos sobrepostos em formas artísticas levadas até ao infinito e o modo como se desdramatizam com os movimentos do corpo poderão duvidar que a Alta-Costura existe?

 

Não vou incensar nem as colecções de Armani nem da casa Chanel. Numa temporada em que se pretende muita cor, paira um certo cinzentismo nas propostas de Lagerfeld. Mas o talento está ali, o “saber fazer” também não falta. “Tudo está no seu lugar, graças a Deus”, como dizia a canção brasileira de Benito di Paula.

 

A colecção Dior, a última criada pelo excêntrico John Galliano para a casa Dior, também tem lugar no espaço desta revista. Considerei sempre que se o Galliano não tivesse na Dior as mestras do atelier de costura teria feito sempre os trajes de Carnaval a que estava habituado a executar para os desfiles de Gibraltar. Tinha uma boa retaguarda. Era o que lhe valia. Mas lá que perdi a cabeça quando vi a sua colecção “Clochards” que mais não era que uma troça de mau gosto a quem estava ali a assistir, perdi mesmo. Abandonei a sala e não fiquei nem para gritar: fora!

 

Porém, ultimamente, as suas propostas estavam muito baseadas nos desenhos de Christian Dior e no seu “new-look”, o que me levava a uma certa reconciliação já que os seus modelos demasiado estapafúrdios para o gosto de qualquer pessoa com boa sanidade mental, vinham dando lugar à recriação de modelos clássicos do fundador da marca.

 

Admirava-me, confesso, como é que o Sr. Bernard Arnaud, um empresário de tanto sucesso, permitiu tantos disparates. Bem sabemos que os príncipes da renascença não prescindiam de um bobo na sua “entourage”.

 

Mas, este homem que começou a sua actividade numa empresa familiar no séc. XX e que ao longo dos anos foi criando e comprando diversas marcas de artigos de luxo, nunca me pareceu, no seu aspecto sisudo, alguém que brinca em serviço.

 

A primeira vez que o vi foi num desfile, talvez o primeiro de Christian Lacroix, (talentoso costureiro, natural de Arles, que me foi apresentado por François Crahay, ao tempo director artístico da casa Lanvin).

 

Bernard Arnaud era o financeiro de Lacroix, mas foi comprando muitas marcas de costura e outras ligadas à moda como a Louis Vuitton, à joalharia, mas sempre com a estratégia descentralizada para que não se perca a identidade de cada empresa. Quando avaliava as colecções de John Galliano, achava sempre Carnaval a mais e moda a menos.

Mas, o Sr Arnaud lá sabia dos números e das vendas e, pelo menos, nem que fosse pela negativa, a marca era muito falada e notícia de primeira página nos melhores jornais do mundo, nas televisões de toda a parte e nas revistas de todo o globo terrestre. Desconheço os interesses que terão levado Anna Wintour, directora da Vogue americana, a achar que o Sr. Galliano era fantástico. Será por não saber filosofia? Ou sabe? Creio que certas opiniões favoráveis e desfavoráveis terão contribuído para o aumento das vendas na marroquinaria, na cosmética e nos perfumantes da marca Dior. Na roupa, duvido.

 

Quem podia vestir certos modelos que faziam das mulheres umas estátuas sem possibilidade de se locomoverem? Tinham que ficar em casa? E sempre de pé?

 

A verdade é que segundo a Forbes, o cidadão francês Bernard Arnaud, Presidente da LVMH detém a maior fortuna de França e da União Europeia e é o 4º. Homem mais rico do mundo, o que nos leva a crer que este senhor lê muito e sabe filosofia…

 

Voltando à Alta-Costura propriamente dita, entre aqueles que não me cansarei de louvar e não vou esquecer, está o Sr. Philippe Venet, um costureiro que foi assistente de Elsa Schiaparelli e posteriormente de Givenchy até abrir a sua casa no nº. 62 da Rue François Ier, em 1962, em Paris. Há muitos mestres da Alta-Costura a quem estou grata pelos altos momentos de beleza que me proporcionaram. São eles: Emmanuel Ungaro; Madame Torrente; Per Spook; Jean-Louis Scherrer; Paco Rabanne; Hanae Mori; Serge Lepage; Ted Lapidus; a dupla Didier Lecoanet e Hemant Sagar; Mme Grès; Hubert de Givenchy; André Courréges; a minha adorada Mme Carven e Pierre Cardin. Que me perdoem aqueles que neste momento não recorde.

 

Estou consciente de que a grande maioria dos leitores da Moda & Moda online ou em papel, não compram modelos de Alta-Costura, embora entre os muitos estrangeiros que são meus amigos no Facebook haja quem tenha capacidade económica para adquirir algumas propostas das melhores colecções.

 

Estou a pensar, por exemplo, em Liala Fuad, filha do rei Faruk do Egipto, entre muitas outras. No entanto, ainda há dias esteve na minha residência, uma amiga vestida com um conjunto completo da colecção Armani Prive. Afinal, sempre há quem compre. São excepções, mas existem.

 

Ao apresentar alguns modelos das colecções da Alta-Costura Primavera/Verão 2011, faço-o com a certeza de que estas são as melhores mensagens da moda. As mensagens da antecipação do próximo Pronto-a-Vestir mas, também, as do figurino possível onde se escolhem as paletas de cores, as alturas de saias, as linhas, os tecidos no propósito de ajudar a escolher o que se vende nas lojas, levando ainda em conta que, na crise em que vivemos, estão a ressurgir as modistas, já quase esquecidas, para executar aqueles modelos especiais que se vestem para cerimónias de casamentos, baptizados e outras ocasiões. Convosco ficam os requintes da Alta-Costura, aqueles que “acendem a beleza que urge repor e fazem o “charme”, no momento em que a alegria, em Portugal, e o bom gosto necessitam de incentivos. Como se vê, a Alta-Costura responde à crise que varre a Europa com uma subida vertiginosa.

 

Marionela Gusmão 

O texto que acabaram de ler foi dado a estampa na revista em suporte de papel no ano 2011 – revista nº 104 – VERÃO - e está tão actualizado que o subscrevo novamente. Em 1984 escrevi num artigo o seguinte: “A Alta-Costura a chave-mestra da síntese poética do vestuário”, frase que o meu marido mandou escrever em letras garrafais, acrescentando pelo seu punho:

MARIONELA – DIXIT! Esse texto só saíu da Sala de Redacção quando entendi que a brincadeira já tinha demasiado tempo.

E, não é que passados tantos anos, essa frase define a Alta-Costura?

Quanto aos que estão hoje na primeira linha dos desfiles contam-se muitos novos como a russa Uliana Sergeenko, grande amiga de Natália Vodianova que voltou a ser manequim no seu desfile e os seguintes personagens por ordem alfabética: Alexandre Vauthier; Alexis Mabile; Armani; Chanel; Dior; Elie Saab; Francesco Sconamiglio; Georges Hobeika; Giambattista Valli; Givenchy; Iris Van Harpen; Jean Paul Gaultier; Julien Fournier; Margiela; Ralph Russo; Schiaparelli; Valentino; Viktor & Rolf e o grande mestre Zulair Murad.

Viva a Alta-Costura!

M.G.

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