Ícones de Estilo I Um Século da Fotografia de Moda, 1911-2011

A exposição: Ícones de Estilo, Um Século da Fotografia de Moda, 1911-2011 patente no Paul Getty Museum, Getty Center em Los Angeles,  representa um passeio por cem anos da fotografia de moda.

Glamorosa, provocante e informativa, a fotografia de moda esteve sempre associada a alguns dos maiores fotógrafos do século XX e é parte dessa cultura visual que se pode admirar na mostra em Los Angeles.

No início do século XX, a fotografia ainda não tinha chegado às páginas das revistas de moda. O mundo da beleza e do glamour era visto através das ilustrações coloridas. Foi Edward Steichen que mostrou ao mundo, em 1911, que a fotografia podia rivalizar com os desenhos. A sua série de fotografias de modelos criados por Paul Poiret para a revista Art et Décoration é considerada o nascimento da fotografia de moda moderna.

A ideia da exposição Ícones de Estilo, Um Século de Fotografia de Moda, 1911-2011, nasceu quando o curador Paul Martineau e o director do J. Paul Getty Museum, Timothy Potts procuravam material para criar um livro sobre o fotógrafo Steichen nos arquivos da editora Condé Nast, responsável pelas revistas, Vanity Fair e Vogue. Eles encontraram milhares de fotografias de Steichen e uma quantidade imensa de material de fotógrafos célebres no início das suas carreiras.

Na abertura da mostra em Los Angeles, Paul Martineau, curador associado de fotografias no Getty Museum e o curador da exposição, afirmou o seguinte: "Os arquivos da Condé Nast são essenciais para a história da moda. A editora foi a primeira, em 1914, a contratar um fotógrafo exclusivamente para moda".

Os arquivos da Condé Nast estão localizados em Nova Iorque entre os maiores da América e a sua história começou em 1892, com o primeiro número da revista Vogue. Só recentemente foram abertos para investigação.

O evento em Los Angeles é o maior já realizado com esse material. Por ordem cronológica, a exposição destaca a evolução da fotografia de moda e dos conceitos de beleza. "É interessante ver a criatividade dos fotógrafos nas publicações semanais a tratar deste tema. Mulheres lindas, com vestidos fabulosos, em lugares deslumbrantes", afirmou o curador.

Na sua essência, as fotografias de moda são realizadas para consumo em revistas e publicidade. Elas têm a intenção de despertar o desejo dos leitores, seja pela beleza, estilo ou mesmo pelo mais moderno tom ou corte de cabelo. Para chamar a atenção, as imagens de moda perpetuamente, mudam de estilo ou de abordagem diante das mudanças sociais, políticas e económicas. Ícones de estilo: Um século de fotografia de moda, 1911-2011, patente até 21 de Outubro de 2018 no J. Paul Getty Museum, Getty Center, é o estudo mais abrangente deste fenómeno jamais realizado, com mais de 160 fotografias de moda ao lado de uma selecção de fotografias, ilustrações, capas de revistas, vídeos e anúncios.

Extraída da colecção de fotografias do Getty Museum, assim como, doações significativas, a exposição apresenta o trabalho de mais de oitenta fotógrafos, mostrando as inovadoras mudanças tecnológicas e estéticas no campo.

“Outrora ignorada por coleccionadores e museus por causa das suas origens comerciais, a fotografia de moda é agora reconhecida como tendo produzido alguns dos trabalhos mais criativos do século XX, transcendendo a sua função ilustrativa para produzir imagens de grande qualidade e sofisticação artística”, disse Timothy Potts. director do J. Paul Getty Museum. “Os museus, no entanto, demoraram a abraçar esse gênero. Actualmente temos o maior prazer em apresentar uma visão geral dos melhores exemplos de fotografia de moda produzidos no século passado”.

A exposição mostra o trabalho de fotógrafos célebres de moda, como Richard Avedon, Lillian Bassman, Guy Bourdin, Erwin Blumenfeld, Louise Dahl-Wolfe, Hiro, Inez e Vinoodh, Peter Lindbergh, Man Ray, Helmut Newton, Nick Knight, Gordon Parks e Irving. Penn, Herb Ritts, Edward Steichen e Tim Walker, além de fotógrafos menos conhecidos, mas influentes, como Corinne Day, Gleb Derujinsky, Toni Frissell e Kourken Pakchanian.

“Em 2010, começamos a trabalhar para fortalecer a colecção de fotografias de moda do museu, na esperança de criar uma fundação sobre a qual pudéssemos construir uma exposição inovadora”, disse Paul Martineau, curador associado de fotografias no Getty Museum e o curador da exposição. "Continuo fascinado com a capacidade de algumas fotografias de moda transcenderem a sua função comercial original para serem consideradas verdadeiras obras de arte."

A exposição abre com um momento-chave no surgimento da fotografia de moda quando, em 1911, o editor francês Lucien Vogel desafiou o fotógrafo Edward Steichen a criar as primeiras imagens de moda artística. Antes disso, as fotografias muitas vezes eram demasiado realistas para atrair um público familiarizado com as ilustrações altamente idealizadas, popularizadas por ilustradores como Erté e Paul Iribe. Durante as duas primeiras décadas do século XX houve uma mudança considerável na moda feminina, afastando-se dos vestidos apertados para as roupas mais confortáveis, naturais e mais folgadas dos inovadores costureiros, como Paul Poiret e Coco Chanel. Na mostra podem-se admirar as primeiras fotografias de Steichen e Baron Adolf de Meyer, dois fotógrafos que foram responsáveis ​​pela criação das primeiras fotografias de moda encomendadas por Condé Nast, proprietária da revista Vogue.

As fotografias que foram realizadas durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial revelando como as mudanças políticas e económicas influenciaram a indústria da moda. Durante a Depressão, revistas conceituadas de moda continuaram a destacar o luxo e o glamour, omitindo a dura realidade da época. Durante a Segunda Guerra Mundial,  já que as revistas de moda tentaram permanecer relevantes adoptando uma abordagem positiva da vida quotidiana. Em sintonia com o racionamento do tempo de guerra, a moda tornou-se mais simples e usou menos tecido, e os fotógrafos adoptaram uma abordagem mais contida. A exposição inclui vários exemplos do “patriótico chique”, um estilo de vestuário ou representação que ressaltou os valores nacionais. A fotografia: Mantenha o Fogo Doméstico Flamejante (1941), de Louise Dahl-Wolfe, apresenta um manequim com uma imagem simples voltada para longe da máquina fotográfica e olhando para a lareira, esperando que o marido regresse rapidamente da guerra.

Os Anos 50 marcaram o que muitos consideram a Era de Ouro da fotografia de moda, com um retorno ao glamour através dos costureiros, como Cristóbal Balenciaga, Christian Dior e Jacques Griffe. Richard Avedon e Irving Penn deram vida aos vestidos elegantes desses criadores com abordagens diferentes, mas visualmente atraentes, para o seu trabalho. Penn dominou a fotografia de moda baseada num estúdio

Avedon destacou-se em mostrar modelos no local e acção. Essa imagens com tratamentos visuais arrojados eram editadas em revistas. Estes e outros artistas entregaram-se à fotografia de moda para um público que tinha a necessidade de aspirar imagens mais sedutoras, porque estava subordinado a décadas de guerra e dificuldades.

Os anos de 1960 e 1970 referem-se a uma época em que a cultura jovem, a revolução sexual e, mais tarde, o movimento de libertação das mulheres, foram catalizadores de novas possibilidades na fotografia de moda. William Klein fotografou os seus modelos em ambientes urbanos usando uma máquina fotográfica de 35mm, aperfeiçoando um estilo de rua que era celebrado pela sua vitalidade surpreendente. Os principais designers da década de 1960 inauguraram uma variedade de novos visuais fantasiosos, como o hippie, o cigano e a era espacial. A fotografia de Dianne Newman, de Neal Barr, em 1966, captou o “zeitgeist” num mini-vestido com collants estampados, óculos de sol e um corte de cabelo curto - tudo realizado, através de um ângulo baixo para dar à fotografia uma imagem psicadélica levemente desequilibrada.

Na década de 1970, as linhas das roupas prêt-à-porter de Halston, Anne Klein e Yves Saint Laurent eram ambicionadas por mulheres que tinham entrado recentemente no mercado de trabalho e tentavam equilibrar os seus empregos e as suas famílias. Fotógrafos como Arthur Elgort esforçavam-se para mostrar às mulheres as suas rotinas diárias e contratavam modelos que eram relacionáveis, naturais e tinham ar saudáveis. Outros, como Helmut Newton e Chris von Wagenheim, desafiaram as revistas com imagens agressivas e sensuais. As décadas de 1960 e 1970 também viram um aumento na diversidade, com modelos afro-americanos como Donyale Luna e Beverly Johnson, que eram escolhidos para compor as capas das revistas mais importantes de moda. A histórica capa da Vogue de 1974 com Beverly Johnson está exposta na mostra.

A fotografia de moda dos Anos 80 e 90 abraçou o corpo feminino atlético, a imagem da sensualidade masculina, o nascimento da supermodelo e a introdução de pormenores mais sombrios no género. A década de 1980 assistiu ao aumento do poder corporativo, à tendência da forma física do modelo, à ascensão de designers italianos como Gianni Versace e Giorgio Armani.

 Herb Ritts e Bruce Weber retrataram modelos masculinos bem construídos com formas que destacavam a sua sensualidade, mudando para sempre a forma como os homens eram representados na moda e na publicidade. Beleza e poder também foram exemplificados por um novo grupo de "supermodelos", que receberam enormes salários pelas passarelas por todo o mundo. Ritts é conhecido por criar uma das fotografias mais célebres da época, através da nudez das supermodelos Naomi Campbell, Cindy Crawford, Tatjana Patitz, Stephanie Seymour e Christy Turlington.

Na década de 1990, surge uma crise económica, um aumento no uso de drogas e a incorporação do movimento grunge da indústria da moda em Seattle, que deu origem à “heroína chique”, que apresentava modelos magros, como Kate Moss com uma maquilhagem de aparência doentia.  O estilo cru e superexposta de Corinne Day, que lançou modelos desleixados em ambientes desgastados, não foi apenas uma fonte de inspiração para esse novo estilo, mas também a antítese do glamour e do excessos exagerados da década anterior.

A exposição conclui apresentando uma selecção diversificada de fotografias contemporâneas que revelam algumas das possibilidades actuais da imagem de moda e as ferramentas digitais que reformularam a noção de que a técnica e o conceito - é uma fotografia de moda. O crescimento de blogs de moda, como The Sartorialist de Scott Schuman (2005) e imagens na Internet como Instagram (2010) e Snapchat (2011) estão a modificar uma indústria em rápida evolução, fornecendo aos fotógrafos de moda novas saídas para o seu trabalho.

“A minha esperança é que essa introdução abrangente à fotografia de moda não apenas eduque e encante os nossos visitantes, mas também inspire novas investigações académicas”, acrescenta Martineau. "Há muito negligenciada, a integração gradual das fotografias de moda em colecções de museus tornará mais fácil que essas imagens sejam avaliadas em termos da maior história do meio da fotografia."

A exposição é composta por 5 secções: Composição da Imagem, Força no glamour, Feminismo nas Ruas, Retorno à Normalidade e Muito Além da Fotografia.

Composição da Imagem

O trabalho de Edward Steichen marca a primeira parte da exposição, na qual o cinema impulsionou o uso da fotografia nas revistas de moda. Steichen definiu a era da fotografia na Vogue, onde ficou de 1923 até 1937 e trabalhou ao lado de colegas como Cecil Beaton, Horst P. Horst e George Hoyningen-Huene.

Para o curador, essa primeira geração de fotógrafos estava interessada na composição da imagem e encarava o trabalho para a revista como uma extensão do seu trabalho artístico. Os editores, responsáveis por transformar aquelas composições artísticas em imagens para uma revista de moda, também desempenhavam um papel notável.

"É importante olharmos também para as revistas. Essas fotografias não foram realizadas para serem exibidas como obras de arte penduradas na parede, mas para serem impressas e reproduzidas nas revistas, com texto e tratamento gráfico", completa Paul Martineau. A exposição mostra revistas com as célebres ilustrações de moda, depois substituídas pelas fotografias, e como cortes, diagramação e textos que definiam o significado das imagens.

 

Força no glamour

"O segredo da fotografia não está em captar o acaso acidental, mas sim em estilizar a realidade. Essa é a única forma de alcançar a grandeza." Essas foram palavras de Alexander Libbermann, director artístico da Vogue que definiu o imaginário da moda no pós-Guerra. O fotógrafo passou a ser essencial para criar ícones da moda e da beleza. Libbermann foi responsável por levar para a Vogue nomes como Erwin Blumenfeld e Irving Penn.

Assim a mulher do pós-Guerra era uma mulher do mundo, mas sem perder o glamour. Elas guiavam carros, eram sedutoras e atraentes em frente das suas casas ou em férias no sul da França. A atitude também era outra e está reflectida na forma como elas encaravam a máquina fotográfica e o fotógrafo, com força, feminilidade e confiança.

O formato da revista começou também a influenciar os fotógrafos, que faziam certas ousadias nas imagens pensando como as enquadravam e como seriam impressas. Isso está evidente no trabalho de Guy Bourdin, pintor que começou a fotografar para a Vogue Francesa nos anos 1950. As suas imagens alcançaram uma inesperada beleza, com linhas claras e harmoniosas que pareciam já ser tiradas pensando na formatação gráfica da revista – os fotógrafos começavam a entender o produto final que resultaria do seu trabalho.

 

Feminismo nas Ruas

As ruas e o feminismo tiveram uma força enorme na fotografia de moda dos anos 1960 e 1970. O movimento Swinging London atravessou o Atlântico e chocou com o icónico ensaio que David Bailey fez com Jean Shrimpton para a Vogue britânica nas ruas de Nova Iorque. As loucuras das ruas e a nova fase do belo são ilustradas de forma casual e irónica, com a modelo quase sempre carregando um ursinho de peluche.

As ruas também ganharam força no trabalho do então artista plástico William Klein. As suas fotografias eram frequentemente realizadas em instalações, com pessoas comuns em vez de modelos. O seu trabalho na Vogue era parte do seu processo de pesquisa em construção da imagem. As suas experiências com a exposição, a utilização de diferentes lentes e a iluminação trouxeram um novo olhar para a fotografia de moda.

Outro exemplo exibido é o caso da fotografia de Geraldine Chaplin realizada por Bailey que é mostrada antes e depois do retoque. Muito antes do Photoshop, as fotografias eram manualmente alteradas para deixar os modelos e as roupas perto da perfeição.

Entre a ilusão da moda e a verdade das ruas, o movimento feminista começou a ganhar as páginas das revistas. Temas como direitos e saúde da mulher eram abordados, enquanto a fotografia tentava reflectir essa nova realidade.

 

Retorno à Normalidade

Os anos 1980 foram marcados pelo excesso e pelo glamour. A fotografia de moda ultrapassou os limites das revistas e as campanhas publicitárias tornaram-se cada vez mais populares. O poder dos fotógrafos como Herb Ritts – e principalmente das modelos – começou a crescer. Nos anos 1990, modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista e Cindy Crawford tornaram-se estrelas pop e o naturalismo voltou com força total. Fotógrafos como Peter Lindbergh começaram a brilhar, principalmente nas revistas europeias, que permitiam maior liberdade artística.

Hoje não é surpreendente ver o trabalho de Corinne Day nas páginas de revistas de moda, mas as fotografias do seu icónico ensaio feito com Linda Evangelista e Kate Moss para a Vogue britânica causaram alvoroço em 1993.

Oriunda de revistas com uma maior ousadia, como The Face, Day fotografou as modelos sem nenhum glamour e com alto grau de normalidade, fugindo aos padrões de beleza e felicidade. As fotografias dividiram a editoria da revista, que decidiu ousar e as publicou. A grande repercussão das imagens rivaliza a moda na década e marca o início do estrelato de Kate Moss.

 

Muito Além da Fotografia

Nos últimos anos a fotografia de moda ganhou ainda mais poder, graças a uma indústria que se torna cada vez mais global e os ícones de estilo e glamour cada vez mais importantes. Estes criam uma certa identificação com o público ou ganham ares oníricos e fantasiosos através da manipulação digital da imagem, como no trabalho de Solve Sundsbo e Sebastian Kim.

"Hoje os fotógrafos são os chefes, ou apenas mais uma peça, em grandes equipas. O retoque e a manipulação da imagem chegaram a um outro nível, que muitas vezes foge do controle do fotógrafo", disse Paul Martineau. Outro factor importante é que hoje as fotografias não são apenas vistas nas revistas, mas também na tela dos computadores e tablets. "O vídeo passou a ser parte importante. Tudo está a tornar-se cada vez mais multimídia", concluiu o curador.

Moda & Moda marcou a sua habitual presença em certames deste nível e é com gosto que partilhamos a nossa vivência com os mais fiéis leitores.

 

Theresa Bêco de Lobo

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