Com entendimentos etimológicos diversos quanto à origem da palavra, no entanto não existem divergências quanto à atmosfera foliona do Carnaval, um tempo de euforia que, em muitos lugares, ainda se liga nos costumes e rotinas de forma mais ou menos consciente com um outro tempo, remoto e diferente do actual, mas semelhante na vontade humana de festejar e ironizar. 

Sabemos que, desde a Antiguidade, o fim do Inverno, associado a um tempo de penúria e escuridão, era celebrado em ritos de passagem para uma nova era. O Inverno, que se acreditava estar dominado por espíritos que necessitavam de ser expulsos para que o Verão pudesse chegar, dava lugar a um tempo de luz e fertilidade. Ou seja, o calendário que hoje corresponde à festa do Carnaval corresponderia a um tempo em que se cumpriam rituais de passagem para a luminosidade e boas colheitas que se previam. 

Os ancestrais contornos pagãos das festividades desta época, justificariam na Idade Média a  rejeição por parte da Igreja Católica que se insurgiu e condenou os excessos do mês de Fevereiro. Porém, gradualmente, foi-se realizando uma certa cristianização das festividades muito em resultado da constatação de que a cultura subjacente era impossível ou muito difícil de anular. Daí que, e apesar da integração no calendário cristão, esta época continua a manter ritos pagãos permitindo a permanência de tradições que remontam a uma época pré cristã.

Independentemente do facto do Carnaval ter um papel de passagem ritual para a Primavera e de se assumir como uma despedida temporária dos excessos antes do período da Quaresma, o entrudo tem representado igualmente uma oportunidade de crítica social, uma ocasião em que os poderosos são caricaturados e, muitas vezes, ridicularizados. Nos tempos modernos, as manifestações públicas, que resultam de uma criteriosa e cada vez mais complexa organização, obedecem a uma narrativa que, em muitas situações, pretende apelar a uma consciência ambiental e cívica. A focagem em temáticas sociais e humanitárias vai conquistando o seu lugar na composição das histórias e espaço nos desfiles a par da sempre cáustica e divertida referência a acontecimentos políticos ou à crítica dos costumes.

A cor, a música, o som, a dança a interação com um público entusiástico que ocorre em peso para asssistir aos corsos carnavalescos, são elementos que obrigatoriamente integram todo o tempo e espaço cénico que se revela pelas ruas de vilas e cidades, mas também nos espaços mais privados onde em casas particulares ou em clubes se organizam bailes e festas. Em todos os lugares e eventos a transformação de um “eu” em qualquer outra personagem, ou outra coisa qualquer, é o fio condutor que, como uma batuta, conduz o ritmo e a forma como se vive o Carnaval. 

É hoje comum convivermos ao longo do ano com um certo grau de extravagância. O burlesco, o excessivamente ostensivo, já não é apanágio exclusivo do Carnaval. Mal ou bem, cruzamo-nos cada vez mais com pessoas que optam, no seu quotidiano, pelo bizarro e por uma exuberância que, bastas vezes, sentimos que toca e se confunde com o rídiculo. Talvez tudo decorra de um desejo incontrolável e mal confessado de exibicionismo ou de um mero prazer na provocação e no choque criado Ou será apenas a vivência de uma permanente acção performativa usando o vestuário e o corpo como tela e lugar da criação artística que está na génese no que de estravagante vamos vendo. Quem sabe?

Porém, o Carnaval de hoje, apesar de ter perdido a exclusividade de vestuários e comportamentos estranhos, continua a ser um palco privilegiado de sátira política, de paródia social e de viagem no tempo. Uma viagem que nos leva às tradições ancestrais como é o caso dos Caretos transmontanos que representam imagens misteriosas que desde tempos antigos saem à rua de forma imprevisível circulando e correndo ao mesmo tempo que se ouvem os seus chocalhos trazidos à cintura (de oito a doze). Os farfalhudos e coloridos fatos em franjas com as duas bandoleiras com campainhas que se cruzam no peito, o pau para amparar as tropelias, a máscara carrancuda angular rematada por um nariz ponteagudo são elementos chave dos Caretos de Podence que povoam o “entrudo chocalheiro”. Convém aqui lembrar o recente reeconhecimento pela UNESCO dos Caretos de Podence como Património Imaterial da Humanidade.

A introdução do Carnaval em terras lusas remonta aos séculos XV/XVI e seria depois exportado para as colónias tendo o Brasil recebido esta festividade no início do século XVIII. Curiosamente encontramos com frequência pelas várias localidades onde se festeja o Carnaval uma clara influência dos desfiles de samba brasileiros como é o caso do Carnaval da Mealhada. Em sinal contrário, encontramos o de  Torres Vedras onde decorre uma das festas mais antigas do país reconhecida como fiel à tradição popular portuguesa e na qual não entram estrangeirismos. Aqui os carros alegóricos e toda a festa em nada se assemelha ao que se vê no país irmão . 

Viajar pelo país cumprindo um roteiro carnavalesco pode ser uma oportunidade muito gratificante se se souber diversificar as experiências entre os eventos que recuperam as tradições ancestrais e os que se baseiam em formatos menos antigos mas nem por isso menos apelativos e interessantes. 

 

 

Ana Paula Timóteo

Carnaval I Origem e Tradições nas Narrativas de Hoje

FESTIVOS

Dia da Mãe

Natal

Páscoa

Dia do Pai

Santo António

ARTE

Exposições

Museus

Colecções

História

Notícias

MODA

Alta Costura

Prêt a Porter

Tendências

Acessórios

Notícias

BELEZA

Perfumes

Tratamento

Novidades

Looks

Cabelos

NOTÍCIAS

Perfumes

Tratamento

Novidades

Looks

Cabelos

  • Instagram ícone social
  • Twitter Social Icon
  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Pinterest Social Icon