Alexandre Soares dos Santos I Um vencedor

Quando na temporada Outono/Inverno de 1995/6 a Moda & Moda saíu para as bancas, então trimestral e em papel, o grande entrevistado foi o empresário Alexandre Soares dos Santos, à época Administrador Delegado da Jerónimo Martins Holding.

Neste país onde habitam pessoas que criticam tudo e falam do que sabem e daquilo que desconhecem, a entrevista foi uma pedrada no charco.

Como sempre, fiz o que entendi estar certo e hoje o Senhor Soares dos Santos é falado e descrito como um herói nacional.

Para a Moda & Moda, ele era a figura de uma empresa florescente  que também se dedicava à venda de produtos selectivos da cosmética e da perfumaria. 

Conheci-o antes do 25 de Abril a almoçar no Grémio Literário, com um ar pacato, sereno, o tempo em que a sua empresa teve uma super-loja de moda de vestuário na Rua Garrett, a qual encerrou porque as possíveis compradoras saíram de Portugal à procura da paz que faltava em Lisboa. 

Quando a Moda & Moda nasceu, já a Jerónimo Martins representava grandes marcas de cosmética, uma delas que eu usava – a Revlon. Depois, passaram a representar a Jeanne Gattineau e, a seu convite, fui a Paris contactar de perto com os técnicos da produção e visitar toda a fábrica. Depois, dessa visita passei a escrever com muito mais conhecimento o que acabou por ser excelente para todos: importadores e clientes.

Nessa ocasião, a “alma mater” do sector era a Srª. D. Maria de Lourdes Ortega, a qual já saíu deste circuito há vários anos, mas não se pode esquecer quem engrandeceu a imagem da casa Jerónimo Martins.

Aliás, foi ela a pioneira das páginas triplas na Moda & Moda, o que teve de ser rateado com o Lloyds Bank que queria o mesmo posicionamento.

 

Entretanto, depois da entrevista ainda almocei algumas vezes no Restaurante PABE com o Sr. Soares dos Santos e seus colaboradores. 

 

Por volta da passagem do milénio, num almoço, foi ele quem me alertou para a venda das minhas acções da Vidago pois a Jerónimo Martins estava em vias de comprar a empresa e se não me desfizesse delas, a tempo, como haveria uma OPA eu poderia perder. Um conselho muito útil.

Posteriormente, a Jerónimo Martins não seguiu no mercado da cosmética e as nossas conversas profissionais foram acabando.

Tomei conhecimento do seu estado de saúde e da sua estadia em Londres, mas a vida de cada um de nós era muito sobrecarregada de afazeres e nos últimos tempos perdermos os contactos.

Porém, guardo deste senhor a melhor recordação pelas atenções que sempre recebi. E este depoimento serve apenas como homenagem a um Homem que me tratou com a maior cordialidade e respeito. Que Deus o tenha em bom lugar.

Agora, leiam a entrevista que se segue.

 

Marionela Gusmão 

Alexandre Soares dos Santos

Um Líder Rigoroso

 

Alexandre Soares dos Santos empresário altamente destacado da vida económica portuguesa, é um líder rigoroso, discreto, seguro e fascinante. Recebeu-nos, afavelmente, no seu escritório das Amoreiras, donde se avista um panorama quase ilimitado como a sua visão do mundo dos negócios. Negócios que lidera como Administrador Delegado da Jerónimo Martins Holding. Alexandre Soares dos Santos, família que há muitas décadas está à frente dos destinos da velha casa Jerónimo Martins. Mas, para si, o passado é apenas um importante ponto de referência.

 

Em sua opinião qual o período mais importante para a “Jerónimo Martins”?

“A década de 80 foi particularmente importante para nós,  porque se tomou, pela primeira vez a consciência “de grupo”, com a empresa constituída em “holding”, estreando-se num novo tipo de comércio – os supermercados. 

Tambémforam nestes anos que a “Jerónimo Martins” constituiu um novo contrato de sociedade com uma empresa belga; adquiriu quinze lojas ao seu principal concorrente; ultrapassou um milhão de contos de lucro; sobreviveu ao incêndio do Chiado; adquiriu uma cadeia “Cash and Carry”; e tornou-se Sociedade Anónima com a compra da quota da Família Vale. Mas é bom que se refira que manteve sempre a sua mais antiga tradição grossista.”

 

Com a “holding” de tão grande expressão no Comércio e Indústria portuguesa, não sente que se pode perder um pouco a “dimensão” real”?

Não e explico porquê. A existência dos duzentos anos da Jerónimo Martins deve-se precisamente ao facto de esta ter sempre sabido ao longo da sua história, qual era a sua exacta dimensão e também por ter mantido nestes anos todos, uma estratégia muito clara e transparente  que se nota, particularmente, nos vários ciclos de vida da sua existência. Existiu um ciclo em que foi unicamente Armazenista; outro, em que foi um Retalhista de luxo; ainda o ciclo da Indústria – ao associar-se com a “Unilever” – e mais uma vez, a repetição do ciclo como  Distribuidora, lançando-se nos supermercados, hipermercados e outros negócios afins.

 

Estamos também a nível Internacional, a estudar lançamentos em mercados estrangeiros , sem no entanto perdermos a noção da nossa real dimensão. É importante que continuemos a mantermo-nos humildes e realistas, sabendo sempre quem somos. Existem inúmeras empresas que se desfocaram por acharem que sua posição era maior e mais importante do que a realidade. Como consequência, partiu-se de falsas premissas para lançamentos de iniciativas  que nada tinham a ver com a cultura das ditas empresas, isto é com a sua origem.”

 

Como consegue ter essa dimensão real?

“Para isso somos obrigados a ter permanentemente quadros motivados e isto só acontece se lhe dermos remuneração condigna, possibilidade de fazer carreira, formação profissional, entre outras coisas. Só desta maneira eles sentirão que fazem parte da Casa. Por tudo isto, creio que a Jerónimo Martins tem sabido gerir com muitíssimo cuidado os passos que vai dando. Estes só se executam quando a empresa se sente preparada e nunca por mero acaso.

 

Tem-se, nesta Casa, a noção justa da sua dimensão Cresce, e sabe como fazê-lo, mas não quer ir para além do seu mundo.”

 

O incêndio do Chiado, naquele fatídico dia de Agosto de 1988, e a posterior venda da vossa Sede, ter-vos-á conferido uma nova mentalidade económica e empresarial, mais virada para o futuro, e menos para valores tradicionais? Ou não se deu qualquer alteração?

 

“Não. O incêndio do Chiado não teve, a nível interno económico-financeiro, qualquer repercussão na nossa empresa. Representou, sobretudo, um grande desgosto. Posso garantir que ainda não nos recuperamos dele. Foi sem dúvida alguma, uma tragédia. Gostaríamos imenso de voltar para a zona do Chiado mas acontece que no programa de reconstrução, esta área, a nível comercial é péssima, não permitindo a instalação de unidades comerciais com uma dimensão razoável de forma a poderem ser consideradas, economicamente, viáveis. Nos vendemos o edifício da Rua Garrett porque na época existiam setenta e sete proprietários dos diferentes espaços do Chiado.  E embora tivéssemos opção de compra de um espaço na zona, este nunca teria o superfície necessária para o género de mercearias da “Jerónimo Martins”. Verificamos também que seria impossível num curto espaço de tempo, proceder a um plano de acordo com os desejos de cada proprietário. Vendemos e não estamos arrependidos pois, passaram-se tantos anos, e ainda hoje a zona comercial do Chiado não está pronta.”

 

Como chegaram à conclusão do que acaba de nos referir?

 

“Na época, fizemos algumas sugestões ao Engº Abecassis, que então concordou com todas elas. Simplesmente os diferentes proprietários do Chiado não pensavam da mesma forma. Cada um tinha os seus próprios interesses, diferentes de dono para dono. Existiam os que eram proprietários de um prédio e outros que somente só eram proprietários de um andar. Eram interesses inconciliáveis. Esta foi também uma das razões porque abandonamos a zona do Chiado.”

 

Mas o curioso da questão, é que após o incêndio, com todas as consequências, a “Jerónimo Martins” sofreu como que um “b0om”, uma ascensão impressionante?

 

 

“É pura coincidência. Existiram outras razões. O que aconteceu é que a empresa passou a ser mais notada e conhecida. Para além da Indústria e da Distribuição passamos também a ter envolvimento com a Bolsa. Aí a “Jerónimo Martins” deixou de ser “aquela mercearia” muito conhecida do Chiado para passar a ser o que realmente era, uma indústria já numa posição fortíssima no nosso país.

Também será bom realçar que esta empresa tem vindo a crescer permanentemente, ao longo destes últimos anos. Ao contrário do que se julgava, somos muito mais fortes a nível industrial que a nível comercial.”

 

Considera a Bolsa portuguesa uma fonte real de liquidez ou estão nela pelo prestígio económico?

 

“A Jerónimo Martins” foi para a Bolsa de Lisboa porque, devido à sua dimensão nacional, não tinha possibilidade de se cotar nas Bolsas internacionais. Enquanto a família Santos controla 635 do capital, na Bolsa só se encontram os restantes 37%. Não se justificava outras Bolsas. Estes 37% estão na posse de investidores ingleses, com quem mantemos um contacto semanal, quer em Lisboa quer em Londres, Nova Iorque e Edimburgo. São estes os centros onde se encontram as nossas acções, e onde fazemos no mínimo, três apresentações de juros por ano, existindo também um relacionamento estreito, quase permanente com os investidores que aqui se deslocam em reuniões.

 

No entanto posso ainda referir, que a Bolsa, para nós podia ser melhor, mas os diferentes agentes económicos tudo têm feito em Portugal para que ela desapareça. Em relação às Bolsas internacionais, seremos cotados quando acharmos que é o momento exacto. Tem havido, especialmente por parte dos E.U.A., uma certa pressão para nos cotarmos na Bolsa de Nova Iorque. Ora, tudo isto tem trazido uma certa notoriedade à Casa.”

 

Prevê probabilidades de crescimento no mercado português?

 

“Na nossa área, ou seja, no sector de produtos de consumo, é muito difícil antever um crescimento muito grande. Daí a nossa interacção de nos expandirmos para mercados estrangeiros.”

 

Realmente tem-se verificado, recentemente, que certos grupos económicos nacionais têm demonstrado grande interesse em entrar nos mercados externos. Será que esse comportamento se deve a uma certa saturação interna contra as margens económicas de rentabilidade e excessos de burocratização, sempre impeditivos do normal crescimento? Ou existirão, a nível do mercado estrangeiro, condições muito mais favoráveis para a captação de capitais externos?

Gostaríamos de saber a sua opinião.

 

“Antes de mais deve colocar-se uma questão: “porque é que se vai para o estrangeiro?”. A nossa responsabilidade é gerir fundos que não são nossos mas sim dos accionistas, que aguardam ter os seus valores acrescentados. Perante a actual fase que o país está a passar, a “Jerónimo Martins” prevê um crescimento mais dois ou três anos, aos quais se seguirá uma fase de estagnação. É forçoso portanto, ao fim destes três anos existirem novas fontes de crescimento, não só em termos de vendas mas sobretudo em relação aos lucros. E esse crescimento terá de ser obtido no estrangeiro.

Para que não existissem falhas preparámos quadros e em conjunto estudámos profundamente vários mercados externos, desde a América latina aos países do antigo Leste Europeu, como por exemplo a Polónia, uma nação que está em pleno esforço para se desenvolver a nível económico. Depois de um estudo apurado, preparamos o “management” e compramos uma companhia. Evidentemente que esta primeira fase de investimento não visa produzir grandes lucros. O que é importante é conhecer os padrões de cultura da Polónia, com especial incidência para o comportamento da dona de casa polaca, sabendo quais as suas necessidades e, sobretudo, qual o seu poder de compra. Só assim poderemos obter garantia de conhecermos bem este mercado, que se encontra em franca expansão. Isto é um exemplo que como resolveremos os problemas que já antes citei – o período de estagnação. Este foi o primeiro passo que a “Jerónimo Martins” que está a dar na expansão internacional, mas certamente que não ficaremos por aqui.”

 

Estamos certos que a Holding lhe deve a sua estabilidade. Ela é, em parte, o reflexo da sua maneira de ser, isto é seguro, sem correr riscos desnecessários. O que pensa sobre isto?

 

“Antes de mais nada, penso que tenho a obrigação de defender o interesse dos accionistas.

Sempre foi assim na nossa família, nós sabemos quem somos e de onde vimos. No dia em que se perder esta noção, acabou-se. E olhe que é fácil isto acontecer. Vou-lhe dar dois exemplos. Há tempos fui contactado por um Ministro das Finanças para saber se estávamos interessados na aquisição de um Banco. Recusei explicando-lhe imediatamente que para além do facto de não ser banqueiro nem entender do assunto, o que nós fazemos bem é a venda de produtos de consumo e sempre com êxito, tais como o chá “Lipton”, entre outros. Agradeci-lhes a amabilidade, e pedi-lhe para não pretenderem mais do que aquilo que podemos dispor. Também, um dia destes telefonaram-me para saber se eu quereria dar apoio a uma candidatura à Presidência da República. Obviamente, recusei! Primeiro, não sou uma personalidade muito conhecida no país, segundo, nunca me misturei na política. Vivemos de acordo com o governo que temos. Hoje estão lá os socialistas, “ontem” estiveram os sociais-democratas. Tenho como qualquer cidadão, alguns deveres que cumpro, por exemplo, o do voto, mas não me peçam mais nada. Sempre senti que não se deviam misturar os negócios com a política. O resultado será o restabelecimento da confusão e do caos.”

 

Quanto a implantação de novas estruturas comerciais, preocupa-o a multiplicidade de centros de decisão e a ligação existente entre o poder local  e o governamental? Por exemplo em relação à decisão tomada para a mudança de horários dos supermercados?

 

“A sua questão vem muito a propósito, pois vai de acordo com um questionário que o jornal “Público” me enviou recentemente e passo a referir. “Neste painel os vinte maiores protagonistas da actividade económica vão aparecer para responder em discurso directo à seguinte questão: Quais são as três medidas mais importantes que o governo deve tomar na área do comércio”. Passo agora a citar o que eu escrevi: “Principais medidas: definir estratégias claras em relação às grandes superfícies, num processo de mobilização do comércio, baseado em considerações de natureza urbanística e ambiental, tomando em consideração as pessoas deficientes; regulamentação dos horários de abertura desses espaços, tendo como principal pressuposto a satisfação do interesse do consumidor no local de concorrência, nomeadamente dos operadores.

 

Ora veja, quem decide estas coisas, tem a tendência para confundir a parte ecológica e ambiental com as licenças, pois todos querem a mesma coisa. Em relação aos horários de abertura ao público, estes terão de tomar em conta, antes de mais nada, o interesse do consumidor. Esquecem-se que cada vez mais as mulheres trabalham toda a semana fora de casa o que as leva a terem menos tempo para fazerem as compras. O Domingo é, sem dúvida alguma, o dia que põem os seus lares em ordem e tem mais horas para, descansadamente, se abastecerem. Portanto, foram elas as injustiçadas.”

 

A ponte entre a “tradição” e a “modernidade”; entre o pequeno comércio tradicional e os grandes espaços comerciais; entre a pequena e a grande indústria nacionais – sujeitas como estão às cotações económicas – com grandes recursos a curto, médio e a longo prazo, constituem alguma preocupação para “Jerónimo Martins Holding”, que em todas as empresas onde se encontra tem 50%?

 

“O passado, como repetidamente tenho mencionado é, por várias razões muito importante para a “Jerónimo Martins”. E isto porque, temos o direito de respeitar o trabalho que os nossos avós e pais tiveram para por esta empresa “ de pé”. Por isso não temos o direito de desbaratar esse potencial. Torna-se, antes de mais uma forma de motivação para melhorar o que já está construído. Não se pode parar nem no passado nem no presente. Temos antes de mais nada, que olhar para o futuro. Ao passado vamos buscar a força e a vontade dos nossos antepassados. Esta é a melhor forma de respeitar e justificar o seu trabalho. No entanto, deveremos ter em conta os erros que se cometeram nesse mesmo passado de modo a não serem repetidos. É fundamental que tenhamos estas noções de respeitabilidade por aquilo que herdámos. Claro que também temos a obrigação de acompanhar a modernidade.  Se a “Jerónimo Martins“ quiser continuar a ser uma empresa cimeira não pode fechar-se aos mercados estrangeiros. Inclusivamente pretendemos, dentro dos próximos vinte anos, transformarmo-nos num Grupo internacional, sem por isso deixarmos de ser portugueses. A nossa ideia está voltada para trabalhar em nações onde Portugal é ainda um país desconhecido em termos comerciais. Somos e seremos sempre uma empresa com os olhos no futuro e um rasgado espírito de abertura. Isto é uma espécie de lema.”

 

Quando perguntámos a Alexandre Soares dos Santos, de que modo está a projectar a “holding” para o século XXI, a educada resistência em falar de si próprio esfumou-se momentaneamente, tal é a paixão que põe neste desenvolvimento e disse-nos:

 

“O fundamental para este Grupo é progredir sem nunca deixar de ser humilde nem perder a noção da sua real dimensão. Outro desejo é apostarmos na contratação de jovens de forma a assegurarem a nossa evolução através de uma boa formação profissional. Se conseguir alcançar estes objectivos, penso que a “Jerónimo Martins” no próximo século crescerá o dobro de hoje, com vendas de, aproximadamente, de dez a doze milhões de dólares. Mas poderá, ainda, sofrer um maior crescimento.”

 

Qual é a vossa estrutura social?

 

“O Grupo é uma sociedade anónima. Na Indústria é constituída pela “FIMA”,  a “LEVER” e a “IGLO”; depois temos a parte dos supermercados “Pingo Doce”, e os hiper-mercados “ Feira Nova”; um “Cash and Carry” Chamado “Recheio”, temos a origem da empresa, a “Jerónimo Martins – J.M.B.”, a qual continua a ser a distribuidora exclusiva das grandes marcas internacionais. Possuímos também uma cadeia de chocolates, denominada “Hussel”, que ainda está em “embrião”. No entanto pensamos transformá-la num grande empreendimento. Também estamos ligados ao “Olivais Shopping”.

 

Acredita que depois da EXPO98 o “Olivais Shopping” terá boas perspectivas de desenvolvimento?

 

“O Centro Comercial dos Olivais nada tem, em absoluto a ver com a EXPO98. Tudo indica que vai ter sucesso, pois segundo informações dadas pelos compradores das lojas, cada dia se nota uma maior evolução. Daí que se a EXPO98 obtiver êxito, no sentido de melhorar aquela zona de Lisboa tão degradada, então será um acréscimo ao já referido. Mas devo-lhe dizer que este Centro terá sempre razões para ser um sucesso pois abrange uma grande área geográfica. Vai de Sacavém a Alverca. Como vê é uma faixa muito importante.”

 

Projecta outras iniciativas iguais semelhantes à do “Centro Comercial dos Olivais”?

 

“Abrimos há pouco tempo um complemento comercial  do Hipermercado “Feira Nova”, no Barreiro. Este tem também quatro salas de cinema. Vamos começar a construção de um Centro, tipo Olivais, em Braga, também como complemento do nosso Hipermercado. Estamos em conversação com a Câmara de Viseu e com a “Mundicenter”, empresa séria e competente – para abrirmos um Hiper. Claro que iremos sempre privilegiar espaços comerciais onde possamos meter unidades nossas.”

 

 

Uma História Secular

 

A empresa, “Jerónimo Martins Holding” de que o senhor é Administrador e Delegado, tornou-se num dos exemplos nacionais de honestidade comercial, quer falar connosco um pouco da história da “Casa-Mãe”?

“A história da “Jerónimo Martins” começa no século XVIII, quando um senhor com o mesmo nome veio da Galiza para se instalar em Lisboa, na Rua Nova de São Francisco, com uma pequena tenda onde vendia produtos de mercearia. Entretanto casou e teve um filho – Domingos dos Santos Martins. É nesta época, por volta de 1802, que o Senhor Jerónimo Martins adquiriu a loja que o tornou famoso na Antiga Rua do Chiado, nº 19, hoje Rua Garrett. Em 1825, Jerónimo Martins, com uma clientela que vinha a aumentar, resolveu dar sociedade ao seu filho, ficando a casa registada como: “Jerónimo Martins & Filho”. Este filho, herdou um negocio próspero, que continuou servindo-se, para isso, da experiência adquirida com o seu pai.

 

Em 1858, a importância deste estabelecimento consagra-se através de um Alvará Régio que a determina fornecedora da Casa Real. Domingos dos Santos Martins teve um filho do primeiro casamento – João Martins – o qual ficou a gerir a sua casa durante vinte e dois anos, sempre na maior prosperidade.

 

Entretanto um certo cansaço, levou-o a conferir a gerência da casa a seu meio irmão – Domingos dos Santos Martins, ia sendo o fim. A pouca capacidade de gerir o negocio, quase deitou abaixo todo o património. A pedido de sua mãe e do irmão, Domingos abandonou a gerência, a qual veio a ser de novo responsabilidade de João Martins. Foi nesta data que ocorreu um episódio que demonstrou uma grande honestidade. Com os credores a pedirem-lhe contas, João Martins fez um inventário da mercadoria existente, elaborou uma relação de deveres à firma, calculou o numero de cobranças duvidosas e convocou os credores. A estes, João Martins, relatou a situação em que se encontrava, e propôs uma Concordata que consistia apenas no pagamento de 80% da dívida, sem juros. Assinada por todos o neto do fundador da Casa, com muito trabalho, conseguiu devolver o anterior prestígio. Quando a firma já se encontrava financeiramente recomposta, João Martins enviou a cada credor um cheque no valor dos 20% perdoados e, sobre estes, os respectivos juros. Esta honestidade e seriedade tem sido uma referência seguida até hoje.

 

Ainda em vida , João Martins, por não ter tido descendentes, deu sociedade a cinco empregados da sua maior confiança, instituindo como herdeiro um advogado seu amigo. Mais tarde a administração dos “Grandes Armazéns Reunidos”, sediada no Porto, comprou a firma, que já pretendia ter uma filial em Lisboa. Depois a empresa é que passou a denominar-se “Jerónimo Martins & Filho”. À sua frente ficaram dois incansáveis accionistas e administradores – Manuel dos Santos e Elísio Pereira do Vale. O primeiro que cito era o meu avô.”

 

Que papel teve a empresa após a aquisição feita pelo Senhor Manuel dos Santos e Elísio Pereira do Vale?

 

“No fim dos Anos 20, com um novo produto – a margarina “Vaqueiro” – iniciaram-se as relações com a “Unilever”. A Vaqueiro, foi rapidamente um sucesso no mercado, acabando a “Unilever” por confiar-nos a representação dos seus outros produtos, os quais passaram a ser vendidos na nossa loja do Chiado e revendidos a outras casas comerciais. A crise da Segunda Grande Guerra trouxe-nos alguns problemas mas estes foram rapidamente resolvidos. Foi nesta época que a “sociedade anónima” passou a “sociedade por quotas”, tendo já como únicos sócios Francisco Manuel dos Santos e Elísio Pereira do Vale. No final da 2ª Guerra formalizaram-se as relações entre a “Jerónimo Martins“ e a “Unilever” através da assinatura de um contrato de sociedade  na “Fima”, na “Lever” e, mais tarde na “Iglo”. Nos Anos 80 a firma ficou totalmente na mãos da nossa família, após a compra da quota familiar do outro sócio.”

 

 

Na época em que Alexandre Herculano vendia a sua produção de azeite à casa “Jerónimo Martins”, muitas personalidades da cultura portuguesa, brincavam com esse negocio.

Existem alguns documentos sobre isso?

 

“Temos documentos muito interessantes, como por exemplo um contrato e até uma autorização para que o azeite da sua produção de Vale de Lobos fosse exposto em Filadélfia. Também possuímos outros elementos curiosos como a reprodução do “Calcanhar de Achilles” de Bordalo Pinheiro.”

 

O que pode referir em relação à vossa actividade como importadores de produtos orientais?

 

“Também não há muitos documentos sobre essa matéria. Existe a correspondência comercial entre as empresas, algumas listas de preços do princípio do século, algumas caixas de laca com pinturas lindíssimas e pouco mais. Infelizmente, não temos um arquivo que nos possa dar respostas a todas as questões ligadas à história da Casa. O que lhe posso referir é que, desde sempre, fomos conhecidos por sermos grandes importadores de chá e café. Este último era famoso pelos seus lotes especiais. Quando eu era rapaz lembro-me de existir um funcionário que fazia uns excepcionais lotes de café. Nunca se soube qual era a composição. Era o seu grande segredo e quando faleceu levou-o consigo.”

 

Que lembranças tem da sua juventude em relação à Casa “Jerónimo Martins”?

 

Lembro-me de alguns episódios engraçados. Por exemplo, há cinquenta anos existia o “rol” onde se apontava mensalmente o que as consumidoras iam pedindo. Quando uma filha desses clientes casava, a “Jerónimo Martins” oferecia um mês de mercearia, completamente grátis, como presente de casamento. Também existiam senhoras que moravam em Benfica e, pelo telefone, pediam duzentos e cinquenta gramas de fiambre para lhes serem entregues ao domicílio. E a “Jerónimo Martins” enviava! Eu era criança mas lembro-me perfeitamente disto.”

 

Já sabemos que a “Jerónimo Martins” fornecia a Casa Real, a nobreza e a alta burguesia. Actualmente quais são os tipos de consumidores?

 

“Bem, a nobreza consome pouco. Os meus actuais consumidores encontram-se sobretudo na média e alta burguesia. Nestes tempos que correm verificam-se episódios muito engraçados ligados ao consumidor do dia-a-dia. Há uns tempos atrás, estava a ver na televisão uma reportagem sobre o Algarve, quando se mencionou o facto de que os turistas russos, quando entram num restaurante nem verificam a ementa. Pedem “o mais caro”. Recordo que em Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril de 74, deu-se uma explosão económica, existindo muitos portugueses que gastavam por gastar, o que era sintomático dessa época.”

 

 

O Quotidiano de um líder

 

Quer-nos dar uma pequena ideia de como se processa o seu dia-a-dia?

 

“Viajo muito mas sempre em serviço. Posso-lhe garantir que são viagens estafantes. Algumas vezes ainda vou fazer umas compras, mas é raro. Durante o dia, a minha vida está totalmente programada. Quando vou a Londres aproveito para assistir a espectáculos que me interessem. Gosto muito de “ballet”, seja ele clássico ou moderno, não perco nenhuma oportunidade. Foi lá que tive a oportunidade de ver a Margot Fonteyn em “Pássaro de Fogo”. A nível de teatro vi todos os grandes actores ingleses com excepção do Sir Laurence Olivier. Um dos grandes prazeres que tenho é de ir ao Festival de Salzburgo assistir a bons concertos e ficar num hotel de montanha bastante confortável. É o meu luxo.”

 

Na sua vida de trabalho tão intensa e “pesada”, ainda consegue algumas “horas” para dedicar ao desporto?

 

“Pratico, esporadicamente, golfe, mas há dez anos atrás jogava quatro vezes mais.” 

 

Porquê?

 

“Não sei se é um problema de tempo se de cansaço. Quando chega o fim de semana, o meu maior desejo é ir para a casa de Ourém. Por vezes levo alguns relatórios ou revistas que não consigo ler durante a semana. Lá fico sossegado. Ando muito a pé. Confesso que nos dias que correm não me apetece um grande convívio. Repare, as pessoas da minha geração, quando se encontram, falam sempre das mesmas coisas, tem os mesmos problemas. Então para quê sobrecarregar as minhas horas livres? Gosto de ler, ouvir música clássica e sobretudo, o que mais me agrada, é estar na companhia dos meus netos. Estes divertem-se e distraem-me. O engraçado é que faço vontades aos meus netos que nunca fiz aos meus filhos. Dedico-lhes a maior atenção.”

 

Qual a razão de uma casa em Ourém?

 

“Foi por puro acaso. Eu estive a trabalhar no Brasil, na “Lever”, como Director de “Marketing”, de 1963 a 1968. Ao regressar nesse mesmo ano, eu e a minha mulher começamos a procurar uma casa que fosse suficientemente grande para cabermos nós e todos os amigos que os meus filhos viessem a ter ( e foram muitos!). Pretendíamos com isso, que fossem eles a convidar e a não serem convidados. Andámos por todo o Alentejo e não encontrámos o que pretendíamos. Um amigo falou-me de uma casa em Ourém que talvez satisfizesse os meus desejos. Quando a fomos ver ficamos impressionados pelo estado de degradação em que ela se encontrava. Era uma casa do século XVIII, em péssimas condições. Acabámos por comprá-la e restaurá-la na sua totalidade. Hoje, é um espaço encantador, propício para o repouso e para se estar em família num bom convívio. Repare que tenho sete filhos e catorze netos e mais dois “chegarão” no próximo ano, daí a dimensão da casa ser à volta de 700 m2.”

 

Mas Ourém não fica muito longe de Lisboa?

 

“Não! De automóvel pela auto-estrada, fica, aproximadamente, a uma hora daqui. Demoro tanto de Ourém a Lisboa como de Lisboa à Ericeira, quando para lá vou em Agosto. É pertíssimo.”

 

Eis um pouco da face da “Jerónimo Martins Holding” revelada por Alexandre Soares dos Santos, um homem cuja paixão é a família e o trabalho, um empresário que segue a filosofia do avô – “Nunca trair a tradição” -, mas vive para os projectos que irão escrever o futuro.

 

 

Texto: Marionela Gusmão

Fotos: Pedro Medina 

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