Os Entremeios na colecção de Alberta Ferretti

Um dia a minha avó pegou na minha mão olhou-me com um olhar especialmente doce e cúmplice e perguntou se eu queria ver coisas bonitas. Saltei de imediato da cadeirinha onde me sentara com a boneca Clotilde ao colo e nem hesitei. Quando a minha avó me fazia estes convites eu sabia que isso significava a entrada no mundo mágico da grande arca. A grande arca era um lugar onde nós as duas viajávamos no tempo e onde eu descobria de que cores se vestia o passado e o quanto podiam ser belas as coisas simples da vida. Ali eu percebia que as lendas e os contos de fadas eram reais porque só as princesas poderiam usar a roupa que a minha avó ali guardava. Eram peças do tempo do seu enxoval e até do da mãe dela, minha bisavó portanto. Enxoval era uma palavra que aprendera a amar. Tinha cheiro de alfazema e cores imaculadamente brancas, tecidos acetinados, de cambraia, de linho e de algodão. E depois havia as rendas e bordados. “Isto que aqui vês são entremeios....”

Foi assim que algumas das palavras e expressões que não ouvia senão pela voz da minha avó, entraram na minha vida e nos meus sonhos de criança. Passear os dedos pelas rendas que se costuravam na roupa e que eram uma espécie de adorno trazia-me um conforto cálido e por vezes adormecia entre lençóis, tolhas, camisas de dormir, cueiros que haviam vestidos bebés que já nem existiam...E eu achava que aqueles bordados e rendas adornavam as roupas como as jóias nos dedos femininos.

 

Hoje os entremeios regressaram à ribalta e já não se escondem nem se esquecem no fundo das arcas, nem na intimidade exclusiva das peças de roupa de casa ou vestuário interior. A extraordinária beleza das rendas aliada às suas infinitas possibilidades de aplicação e desenho, fizeram dos entremeios protagonistas no momento sublime de criação de Alberta Ferretti. Na sua nova colecção reconhecemos as possibilidades poéticas das rendas e bordados que entram num jogo delicado com os tecidos fluidos. As silhuetas surgem elegantemente alongadas num conjunto de criações que são um tributo à feminilidade e ao romantismo.

No estilo Ferretti não está em causa uma recriação de beleza antiga. A sua visão é delicada, luxuosa sem o peso de uma ostentação excessiva e é conhecida pelas suas criações doces e vaporosas onde as transparências se fundem em diálogo delicioso com os detalhes numa dança que nos faz lembrar a das ramagens no Outono. Tecidos acetinados deslizando pelo corpo em sintonia com o movimento feminino, leve, suave, quase bailado e acompanhado pelos entremeios de renda que nascem numa perfeita conjugação narrativa, fazem da colecção uma auréola de romantismo que identificamos facilmente principalmente nos vestidos esvoaçantes de subtil plissado e fluidez sedutora. A colecção de Alberta Ferretti é um tributo ao universo feminino, ao património de memórias, à infinitude de possibilidades, à liberdade de sermos hoje protagonistas de um conto mágico.

 

Ana Paula Timóteo

 

 

Alberta Ferretti

Apontamento Biográfico

 

Alberta Ferretti nasceu, em 1950, em Cattolica, na província italiana de Rimini, a zona onde Santo António pregou aos peixes porque os homens não o escutavam.

Que melhor ano que 1950? Vivia-se o início da era da formica, da reconstrução da Itália onde os compatriotas da recém-nascida Alberta, realizaram os seus próprios milagres. A Itália foi um dos países europeus muito sacrificado na 2ª. Guerra Mundial mas soube participar no triunfo do “design” sob valores estéticos, impondo-os mesmo a nível industrial.

Enquanto Alberta Ferretti dava os primeiros passos, aprendia as primeiras letras, a moda italiana ia-se afirmando com designações apelativas como as linhas “ânfora” e as letras do alfabeto H e A, assim como as linhas trapézio e fuso.

Alberta Ferretti tinha 15 anos quando nasceu a mini-saia que permaneceu no topo da moda até 1968, data em que a jovem italiana abriu, em Cattolica, a sua primeira boutique à qual deu o nome de Jolly no tempo em que a rebeldia dos Beatles deu lugar aos blusões de cabedal preto e aos blue-jeans, modas que permanecem, mas que o romantismo de Alberta Ferretti rege por outros valores que a tornaram admirada das melhores actrizes norte-americanas tais como Uma Thurman, Julia Roberts, Nicole Kidman, Scarlett Johsnsson, Meryl Streep, entre outras personalidades, tais como Diane Kruger e Charlote Casiraghi.

Alberta Ferretti é uma mulher de pequena estatura em oposição à sua grandeza criativa que já a levou a conceber uma segunda linha que dirige às camadas mais jovens, a qual completa o mercado, sob a etiqueta Philosophy.

De salientar que a linha Alberta Ferretti só foi lançada em 1974.

Em 1981, fez a sua estreia na passarela da Semana da Moda de Milão e a directora da Moda & Moda assistiu, já que ao tempo era enviada da TV Guia e estava nos lugares cimeiros destinados à imprensa, por integrar o Júri do Occhio d´Oro.

 

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