Educação I Estará a Escola Pública à beira do abismo?

Ultimamente as notícias sobre a Escola Pública em Portugal têm desvendado uma realidade há muito conhecida de todos os que trabalham nas escolas deste país, sejam professores, funcionários ou alunos (sim, os alunos é suposto trabalharem). Estamos naturalmente a falar dos episódios de extrema violência em que pais e alunos ofendem, ameaçam e agridem alardemente professores e funcionários.

Infelizmente, apesar dos relatos provocarem o assombro de quem os lê, ainda assim nem os jornais nem os telejornais conseguem desenhar com rigor a real dimensão do chocante cenário que se vive há já algum tempo na generalidade das escolas em Portugal. Dentro e fora dos portões, e tendo como alvo professores, funcionários e até alunos, desenrola-se um condenável e extenso repertório de comportamentos por parte de famílias milicianas que actuam com descaro e sob a complacência judicial e a indiferença dos sucessivos governos. Famílias que legitimam comportamentos inadmissíveis dos seus educandos e que por isso estão a educar os filhos num conceito de ajuste de contas constante com quem os incomoda seja um professor que interpela, um colega ou funcionário. No futuro será o chefe, a mulher, o marido, um vizinho Os filhos acreditarão que são soberanos em tudo e em todas as circunstâncias. Chama-se a isto má educação. No sentido mais literal possível do termo.

Que não haja lugar a subterfúgios como os avançados pelo ME, e corroborados pela associação de directores, que falam em situações residuais. Há já alguns anos que um clima de violência física e verbal entrou pelos portões das escolas deste país e tem vindo dramaticamente a crescer. Primeiro surgiu a medo, tateando o terreno, testando resistências, mas logo percebeu que tinha terreno fértil por onde vingar e então escancarou portas, sentou-se nas secretárias e passou a berrar bem alto pelos corredores, salas e pátios, a ameaçar, a provocar, a desobedecer com dolo, a pontapear física e verbalmente todos os que resistem. Os milhares de processos disciplinares levantados todos os anos a alunos não deixam espaço para dúvidas. Empurrões, agressões, rasteiras, ofensas verbais gravíssimas, provocações de vária índole, boicote de aulas sucessivas...de tudo se compõe o cardápio.

A violência é uma personagem terrífica com ambições de estrelato e transfigura-se em muitos rostos. Traz o ódio numa mão e o telemóvel na outra sempre pronto para um “directo”. Chega à escola de olhar zombeteiro e provocador e é filha de ciganos e não ciganos, de gente com dinheiro e gente com parcos recursos. De pais separados e de pais não separados. A violência não tem cartão de identidade nem ficha clínica. Não tem género nem idade definida.

A violência tem todas as cores, veste-se de voz rude, gestos vis, ameaças pulhas e acena a bandeira da impunidade como salvo conduto para tudo. E tudo vale e tudo acontece dentro e fora dos muros da escola. 

A violência reina e apunhala sem hesitar a dignidade de professores, alunos e funcionários, aniquila o corpo e a alma de quem vive dentro das escolas, destrói a paz, conspurca o conhecimento.

A violência, e a ameaça constante dela, também gosta particularmente de surgir junto aos portões das escolas, entre os pequenos grupos de pais que, na presença dos filhos, cruzam informação distorcida, ouvem os queixumes dos jovens, dando-lhes palco e prometendo-lhes justiça, partilham testes, fichas e apontamentos em cadernos que são observados com a lupa de uma boçal ignorância convencida que é esperta (nada pior do que juntar maldade e ignorância). 

São felizmente ainda uma minoria os pais que agem de forma insana e criminosa, mas os suficientes para destruir uma escola. Os pais inquisidores procuram diariamente uma oportunidade para saciarem o desejo de se vingarem. Vingança de quando eram alunos e a história não correu bem? Vingança pela amargura do tempo presente? Vingança pela aflição do desemprego? Vingança pelo chefe que não gostam e a quem têm que mostrar boa cara? Vingança pela falta de dinheiro? 

As famílias que potenciam o pior que nelas existe e, dessa forma, alimentam o lado impulsivo, inconsciente e desonesto dos filhos, são manchas de crude que alastram e matam. Matam o respeito, a honestidade, o trabalho. Os filhos aprendem com os seus modelos e se estes tratam os professores como sendo sacos de boxe e escarradores para onde cospem o ódio e o ressabiamento de vidas que não os satisfazem, por que não podem os próprios alunos fazer o mesmo? E os jovens, profícuos na congeminação de planos maquiavélicos, logo se põem a pensar: “por que não fingir, com a ajuda dos meus colegas, uma situação que trame o professor da disciplina “...” onde tenho más notas ou provocar o da disciplina “...” que implica comigo porque estou com o telemóvel ligado?”. E, já agora que as hormonas andam aos saltos e vontade em bater em tudo o que mexe é muita, por que não agredir o professor se de facto nada vai acontecer a quem o faz para além de umas idas chatas ao Serviço de Psicologia e Orientação da escola onde uma psicóloga relatará que o jovem sofre de ansiedade, perturbação de oposição, setresse, enfim, ainda com sorte terá testes adaptados para lhe facilitarem a vida...

 

A Escola Pública está a rebentar. Porque a somar à crise de indisciplina e violência, há um mundo kafkiano que entope a vida e inviabiliza boas práticas e a sanidade mental necessária para as colocar em prática.

A Escola Pública está a rebentar, repetimos, mas atenção que quando rebentar não se vai ouvir nenhum estrondo bombástico. O que já está a acontecer é que ela se vai esvaziando aos poucos. Primeiro esvazia-se de clima seguro, calmo e estimulante depois esvazia-se de vontade e por fim de profissionais. Um dia quem ali restar serão aqueles que, mesmo sem habilitação académica capaz, serão os únicos a dar o corpo às balas porque a sala de aula, campo de batalha feroz, será a sua única oportunidade de trabalho. Deixará de haver professores, apenas algumas pessoas que se prestarão a correr risco de vida e de sanidade mental porque não têm outra saída, irão tentar partilhar algum conhecimento com os “alunos”. Quem tiver muito dinheiro irá optar por uma escola de elite, os outros, a maioria, esperarão todos os dias que os filhos cheguem a casa inteiros. Sim, porque convém sublinhar, a violência não é apenas contra professore e funcionários. Os alunos que assumem a escola de forma séria são também alvos a abater física e psicologicamente.

 

Actualmente já existe uma notória carência de professores e a situação agrava-se todos os anos. Salários indignos, trabalho em excesso, pressão, medo, revolta, doenças profissionais são alguns dos factores suficientemente repulsivos a que se soma uma profunda e transversal falta de respeito e o confronto diário com situações que levaria o mais pacífico dos cidadãos à loucura.

A maioria dos alunos que frequenta a Escola Pública em Portugal merece mais e melhor. Mais paz, mais tranquilidade, mais horas efectivas de aulas sem que os tempos lectivos sejam maioritariamente ocupados com repreensões e gestão de conflitos, em suma, melhores condições de estudo. Os pais, felizmente a maioria, que são bons educadores e têm legítimas expectativas e exigências para com a Escola Pública, têm todo o direito em exigir ambientes dignos de ensino para que haja um processo de ensino/aprendizagem saudável, eficiente e eficaz. E naturalmente todos têm o direito a ser esclarecidos sobre tudo o que lhes oferecer dúvidas. Não podem é transformar a escola num ringue onde os professores são acorrentados a um poste para serem alvo de todas as humilhações e agressões. Não podem é colocar levianamente em causa a ética dos professores e o seu profissionalismo. Não podem é amplificar os desabafos dos filhos assumindo-os como absolutamente fundamentados sem que antes esclareçam o que deve ser esclarecido.

A solução é complexa e levará tempo a surtir efeito porque os danos são profundos. Se recuarmos dez anos, vem-nos à memória o tom com que a ministra da educação da altura marcou a postura governamental. As grandes máximas como “perdi os professores mas ganhei os pais” abriram o caminho do ódio que teve nesse tempo o rastilho perfeito. Desde então nada melhorou. 

É urgente uma clara mudança de atitude vinda a partir dos gabinetes da 5 de Outubro, mas igualmente é fundamental que as famílias que revelam um claro desnorte educacional sejam ajudadas a entender o mal que estão a fazer não apenas aos seus filhos mas a toda uma sociedade onde os filhos passarão, em adultos, a estar integrados com deveres bem mais sérios. Não pode ser aceitável que se eduquem crianças para virem a ser cidadãos com espírito de milícia, incapazes de reconhecer responsabilidades, assumir erros e cultivar a solidariedade.

A Escola é o baluarte do futuro. Saibamos pois respeitá-la nas pessoas que dedicam a sua vida à causa pública e por isso estamos todos convocados para este desígnio de não permitir que a escola seja atirada para um abismo de difícil retorno.  

Ana Paula Timoteo

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