Cidade Global I Lisboa do Renascimento

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Inaugurada no passado dia 23 de Fevereiro, no Museu Nacional de Arte Antiga, a exposição “Cidade Global – Lisboa do Renascimento” é dos melhores trabalhos de uma exaustiva investigação histórica que resultou numa excepcional exposição, que foi posta em causa.

Dúvidas? Mas, dúvidas de quê e porquê? 

Segundo o “Comunicado à Imprensa” do MNAA que recebemos na nossa redacção, onde se lê: “Em finais de 2015, é editado em Londres (com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian) o livro de Annemarie Jordan Gschwend e K. J. P. Lowe, The Global City:On the Streets of Renaissance Lisbon, recentemente galardoado pela Academia da Marinha e amplamente celebrado pela crítica internacional”, onde no 2º. parágrafo se especifica que as autoras fizeram uma reconstituição do ambiente da cidade de Lisboa no longo ciclo dos Descobrimentos, a partir de dois quadros que haviam identificado como uma representação da Rua Nova dos Mercadores, a principal artéria comercial no período do Renascimento. 

Um artigo publicado no jornal Expresso coloca dúvidas sobre a autenticidade do quadro A Rua Nova dos Mercadores. 

Conheço a Alexandra Carita, (uma ex-colaboradora da revista Moda & Moda e jornalista esforçada nos trabalhos que realizava, por quem tenho apreço), mas o artigo do Expresso através dos jornalistas Miguel Cadete e Hugo Franco, puseram em causa o trabalho de investigadoras reconhecidas, como são as autoras do livro. Convenhamos que isso causa, ao visitante menos conhecedor, um certo desconforto.

Há muitos, mas muitos anos que nos interessamos por museologia, por investigação histórica, por coleccionismo e é difícil para os nossos princípios morais, acreditar que as principais obras da Exposição – dois quadros ou um só cortado ao meio – que pertenceu ao pintor Dante Gabriel Rossetti – 1828-1882 -, um dos membros mais destacados da “Irmandade” Pré-Rafaelita que designa um grupo de pintores ingleses constituída em 1848, Movimento virado para a recuperação da pureza e da luz que caracterizavam algumas pinturas medievais, naturalmente anteriores ao pintor Rafael, um mestre incontestado do Renascimento, tivesse sido capaz de falsificar uma obra.

Acredito nos múltiplos ideais dos Pre-Rafaelitas e apesar da revista Moda & Moda ter nascido em 1984, (há 33 anos) acreditamos que foram a signatária com a colaboração da Prof. Doutora Theresa Bêco de Lobo, quem primeiro escreveu e publicou extensos artigos sobre as obras dos Pre-Rafaelitas. Apesar de muito bons, por cá, estavam completamente esquecidos. Na Moda & Moda como existe uma paixão pela Irmandade Pre-Rafaelita, ligada ao movimento Arts and Crafts, dinamizado por William Morris – 1834-1896), foi sempre com muita alegria que dedicámos o nosso espaço aos Pre-Rafaelitas por reconhecemos a sua importante influência na Confraria Pré-Rafaelita desde os seus inícios, através das obras de Dante Gabriel Rossetti, John Everett Millais e William Holman Hunt, incluindo os adeptos associados tais como Ford Madox Brown, Arthur Hughes e outros discípulos que se lhe foram juntando a partir de 1850, dando lugar ao desenvolvimento do Simbolismo nos finais de séc. XIX.

Sabemos que o inglês Dante Gabriel Rossetti  (1828-1882) e William Morris, que repartiram a casa de habitação durante pouco tempo, mas o suficiente para numa saída intempestiva de Rossetti, lá ter deixado várias obras do seu património que vieram, mais tarde, a ser herdadas por uma sobrinha de Morris, deixando os dois artistas absolutamente inocentes. Acreditamos na versão que é relatada pelas senhoras acima citadas.

Não é muita novidade para ninguém que os mestres da pintura espanhola têm uma alta qualidade e que no séc. XIX, os principais coleccionadores de pintura, quer na Inglaterra, França e outros países como os E.U.A., começaram à procura de obras de bons autores da vizinha Espanha. Foi, dentro desse espírito, muito provavelmente, que Dante Gabriel Rossetti adquiriu a pintura que tudo indica ser a Rua dos Mercadores, em Lisboa, pensando que era uma pintura espanhola.

Quem é o autor da pintura, desconhecemos. Nem sequer temos dados para lançar acerca da sua paternidade, mas por aquilo que temos lido ao longo da nossa vida tudo leva a crer que o quadro representa a principal artéria da cidade de Lisboa no período do Renascimento, antes do maldito camartelo do Marquês de Pombal a ter mandado demolir a pretexto do terramoto de 1755.

Pelos elementos que consultámos nos arquivos da C.M.L. o maior terramoto foi o Marquês. Recordamos a prepotência desse homem horrível ao dar ordem de pena capital aos infelizes proprietários dos prédios da Rua dos Mercadores,  cujo motivo da condenação era, por exemplo, o arranjo de uma empena da chaminé ou o arco de uma porta.

A signatária estudou a fundo, a cidade de Lisboa, para escrever com propriedade, o livro sobre Santo António, editado em 1982, e que teve 16.000 exemplares de tiragem.

Tal como é do conhecimento de muita gente, o Santo nasceu numa casa construída no sítio da Pedreira, entre a porta principal da Sé e o Arco de Ferro (há muito desaparecido), no mesmo local onde se encontra erigida a sua Igreja (Lisboa).

A cidade de Lisboa vivia aconchegada ao seu castelo e, onde hoje se condensa o casario que desce até à Baixa, apenas existiam pomares, hortinhas e trigais. Queremos com isto dizer que o aglomerado de casas pintadas no quadro que esteve na posse de Dante Gabriel Rossetti, terá sido obra de um mestre que sabia captar imagens em movimento, animá-las, dar-lhes vida e que tanto podia ser um português, um espanhol ou um holandês…

Em causa, está um quadro que representa a Rua dos Mercadores, em Lisboa e foi essa rua que desencadeou toda a atmosfera que se vive na Exposição Cidade Global – Lisboa no Renascimento, patente no Museu Nacional de Arte Antiga até ao dia 9 de Abril do corrente ano.

Pela nossa parte, recomendamos vivamente a todos os nossos leitores que retirem ao seu tempo de lazer as horas suficientes para deambularem por entre as vitrinas, imaginando Lisboa nos tempos em que os valores da pátria eram mais fortes do que a própria vida.

Como é bem de ver, a Mostra tem peças que “falam” por si próprias.

Ali, nada está exposto ao acaso. 

Os Descobrimentos portugueses com as primeiras expedições ao Atlântico, as quais foram seguidas à chegada ao norte de África, de onde tinham vindo os mouros que se haviam estabelecido na Península Ibérica. Avançando progressivamente pelo Atlântico ao longo das costas do continente africano, passaram o cabo da Boa Esperança e entraram no Oceano Índico com o desejo de alcançarem rotas alternativas ao comércio Mediterrânico. Chegaram à Índia em 1498, simultaneamente exploraram o Atlântico Sul e aportaram em 1500 nas costas do Brasil. Posteriormente, navegando no extremo da Ásia chegaram à China em 1513 e ao Japão em 1543.

As novas rotas fizeram de Portugal um Império.

A Rota da Seda, via terrestre que ligava a China ao Mar Mediterrâneo, era um inferno para quem tinha que percorrer tão perigosos caminhos. Esta Rota foi muito utilizada desde os primórdios da nossa era, até ao início da Idade Moderna. Para os Doges, a nossa entrada na China foi-lhes absolutamente ruinosa.

Dizem-nos no Catálogo da Exposição, Annemarie Jordan Gachwend e Kate Lowe, destacadas personalidades desta Mostra, o seguinte: “Esta exposição destaca o estatuto único de Lisboa no Renascimento enquanto entreposto para produtos exóticos e bens de luxo de África, Brasil, Ásia e Extremo Oriente. A Lisboa global transformou-se rapidamente num centro cosmopolita de redes de comércio que ultrapassavam fronteiras culturais, geográficas e políticas. A Carreira da Índia facilitou o fluxo de povos estrangeiros, animais selvagens e objectos de outras culturas. A frota portuguesa ligava o mundo do início da Idade Moderna como nunca acontecera antes. Mobilidade e interacção tiveram um papel central nesta trajectória de cargas e bens comerciáveis. 

Lisboa desenvolveu-se tornando-se uma cidade portuária atlântica dinâmica, com uma florescente construção naval, cartografia e a manufactura de instrumentos de navegação.

O grande porto localizado no vasto estuário do Tejo era perfeito para que as ancoragens fossem seguras. Mesmo a oeste do novo palácio de D. Manuel I, o Paço da Ribeira, situava-se o estaleiro naval, a Ribeira das Naus”.

E adiante, pode ler-se: “Tal como um veneziano observou em 1568, a Casa da Índia estava cheia de pérolas orientais de Ormuz, diamantes de Bisnaga, rubis do Pegu (Birmânia), almíscar, cânfora, seda e porcelana da China, âmbar cinza de Moçambique, pau-brasil, tecidos e gengibre de Calecute, canela do Ceilão, noz-moscada de Banda (Aceh, na Indonésia), cravo-da-Índia das Molucas e ricos têxteis de Bengala.

No Renascimento, os primeiros bens exóticos de além-mar trazidos para Lisboa provinham da África Ocidental, mas pouco depois o interesse por tesouros e produtos de luxo focou-se na Ásia. Os primeiros marfins, cristais de rocha e jóias do Ceilão (Sri Lanka) a chegar à Europa na década de 1540 foram produzidos para a Corte de Lisboa, mas no final do séc. XVI a maior parte dos produtos de luxo cingaleses eram produzidos para o mercado europeu mais vasto. De Goa, a cidade irmã de Lisboa e capital da Ásia portuguesa, vinha joalharia, diamantes das minas de Golconda, objectos de Guzarate (feitos em carapaça de tartaruga e de madrepérola), mobiliário embutido em marchetaria, caixas com pedras de Goa, terços feitos com contas de cristal de rocha, cocos-do-mar das Maldivas e uma grande variedade de tecidos indianos. 

Com o desenrolar do séc. XVI, o comércio com o Sul da China, o Japão e com as misteriosas Ilhas Ryukyu intensificou-se para responder à procura de lacas e bens de luxo pelos consumidores em Goa e Lisboa. Malaca tornou-se o ponto fulcral para os portugueses após 1511. Sedas chinesas, porcelana azul e branca Ming, pedras bezoar montadas, chifres de rinoceronte chineses trabalhados, diversos tipos de leques asiáticos, mobiliário em laca e biombos japoneses inundavam as lojas de Lisboa, vendendo-se com um enorme lucro. Em 1599, os visitantes estrangeiros glorificavam a posição de Lisboa como “a principal cidade do mundo”.

Subscrevo o vosso texto por inteiro, mas o pior foi a perseguição que os holandeses nos moveram no Japão, na Índia, em toda a parte onde havíamos chegado. 

A propósito lembramos um texto sobre as pérolas que se vendiam no séc. XVI num edifício, mesmo ao lado da Casa dos Bicos, às medidas semelhantes aos púcaros de um litro. Nessa mesma casa, as pérolas passavam por uma espécie de crivos. Quanto mais largos eram os furos, maior era o seu preço. Bons tempos!

Sobre as pedras bezoar ainda tivemos a sorte de assistir nas farmácias de familiares à elaboração de medicamentos com o pó dessas pedras que a tradição também diz servir para manter os maridos mais apaixonados.

São de mencionar as pedras de bezoar e as suas deslumbrantes montagens em filigrana em ouro e com pedras finas, em museus da nossa velha Europa.

De Lisboa já foi tudo. Foi no passado. Se esta exposição der uma ajuda para revitalizar a cidade das sete colinas, a cidade da mestiçagem, da fidalguia graças às ligações por casamentos, a cidade do Tejo e do Sol deslumbrante do nosso querido Portugal, tem um  grande “Happy end”.

Oxalá essa revitalização venha a tempo!

 

Marionela Gusmão 

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