Educação I Escolas diferentes num mundo assimétrico

Há lugares no mundo onde as crianças pegam na mão dos professores como o fazem com os pais e com os anciãos e depois de a levarem aos lábios elevam-nas à testa em sinal de respeito e admiração.

Há lugares no mundo onde um dos dez mandamentos do aluno que se leem na escola afirma que “o bom aluno estima os professores que são, ao lado dos pais, os seus melhores amigos”.

Há lugares no mundo onde os cadernos se desfazem, os lápis morrem num ponto, o melhor brinquedo é um conjunto de elásticos que se atirar como bola e o recreio é um amontoado de pedras e lama argilosa. Mas estas crianças riem e brincam como se tivessem tudo e caminhassem sobre tapetes de veludo.

Há lugares no mundo onde as crianças andam descalças quando as chuvas diluvianas encharcam caminhos para poupar os sapatos que levam nas mãos.

Há lugares no mundo onde os meninos cuidam dos irmãos como se fossem pais de metro e dez de altura, quase adultos em corpos infantis.

Nestes lugares quase esquecidos de um mundo assimétrico, os filhos são parceiros de trabalho dos pais, amparam os avós velhos e sempre que podem percorrem quilómetros de pedra e lama para ir à escola, de uniforme, o mais limpo que lhes é possível porque só existe um, banho tomado e os materiais de escola, mesmo que no fio da miséria, vão chegados ao corpo porque a chuva estraga o que resta deles...

Chegam às escolas com o respeito nos gestos, a doçura nos sorrisos que se abrem, a vontade em saber nos olhos abertos, gulosos de respostas, num mar de dúvidas e interrogações.  

Nestes lugares esquecidos pelo mundo, a escola é quase um santuário onde o saber vai entrando nas almas de quem lá consegue ir e luta para ali continuar. Nem sempre se consegue ir à escola nestes lugares. A Natureza gosta de se manifestar impetuosa e em força e os pés de quem caminha não conseguem atravessar ribeiras que transbordam. Por isso há meninos que faltam à escola porque não há pontes que os levem nem bonança num céu que se desfaz em água.

Há lugares no mundo onde as aulas começam e acabam com uma prece e onde o hastear da bandeira é ao som de um hino cantado em vozes pequenas que ficam grandes como a esperança que existe num futuro diferente.

Há lugares que são paraísos de montanhas poderosas e árvores prenhas de fruto. Lugares de povos heróis. E lugares assim só não são esquecidos do mundo quando o mundo deles necessita.

Mas há outros lugares. Nesses, os meninos entram na escola de telemóvel em punho finalizando um jogo enquanto os pais carregam o material da escola. Nesses lugares, os pais entram na escola e ralham com o professor e o filho testemunha, pois então, já que um tem que perceber que regressámos a um tempo em que o professor era o escravo que obedecia e o outro, o estudante, deve ver no pai o socorrista que o salva de crescer. Nestes lugares bipolares de excesso e de ausência, a escola é um espaço que tem perdido alma. Um lugar devassado pela desconfiança, pelo engano, pelo medo, pelo fingimento e onde os padrões de exigência ética vão tomando cores insanas.

É pois nestes lugares de uma humanidade imperfeita que se torna imperativa a reflexão sobre o papel da Escola na construção do futuro. E o futuro será o que nós conseguirmos fazer com as nossas crianças e os nosso jovens. Deformá-los ou formá-los? Torná-los cidadãos conscientes das responsabilidades? Gente que pensa e participa na vida comunitária e nas decisões? Indivíduos que olham em redor e sentem como suas as dores dos outros? Ou outra coisa qualquer que os fará serem de facto mais coisas que gente?

Portugal é um país onde os paradigmas da Educação escolar e parental têm assentado em equívocos perversos que passam de reforma em reforma com acentuados tiques de estupidez institucional. Equívocos que alimentam um eterno colo desresponsabilizante e acusatório, uma destruição da Escola como o garante de uma sociedade informada, culta, competente e honesta.

Sejamos claros, não se está aqui a defender o beijar a mão do professor, nem a oração no início e final do dia, mas a simbologia do gesto no primeiro caso e no segundo da representação sacralizante de um lugar de conhecimento. Um lugar onde quem abre os portais do conhecimento recebe dos alunos demonstrações de respeito porque em casa os alunos são assim ensinados e jamais ouvem falar mal de quem os ensina na escola. Nas ruas destes lugares o “Bom dia professor(a)” ouve-se mesmo que não se cruzem olhares. Basta que de dentro de uma casa ou no meio de uma safra se vislumbre na estrada aquele que é o senhor professor ou a senhora professora. E logo um sorriso se rasga na paisagem, um sorriso de agradecimento por se saber que um professor dará sempre o melhor de si para o melhor dos seus alunos. 

O reconhecimento da importância daquele que é, a par da família, um educador social e académico, é uma semente estruturante que falta há muito na sociedade portuguesa.

Entre lugares tão distintos de um mundo afinal tão pequeno, será assim tão difícil criar uma Escola que possa nascer do melhor que cada um tem?

 

 

Ana Paula Timóteo

(enviada especial ao ensino de Timor e simultaneamente analista do mundo que falta nas escolas do país que tem filhos portugueses

e que amam a sua pátria do nosso país)

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