Um novo jardim da Gulbenkian

O Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian foi impulsionado por José de Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian de 1956 a 1993, e sua mulher, Madalena Biscaia, inspiradora do serviço de Música, do Centro de Arte Moderna e do Acarte. Eles tiveram o cuidado de criar um ambiente sereno e intimista no perímetro da fundação, um amplo parque oitocentista outrora dos Condes de Vill`Alva, sublinhado pelas árvores, flores, relvados, lagos, caramanchões, cascatas e por inúmeras espécies de aves. Os arquitectos Ribeiro Telles e António Barreto, seus autores, iniciaram o trabalho no inicio da década de 60. Na época, os sete hectares do local estavam decrépitos, pois nele haviam funcionado, durante anos, o Jardim Zoológico e a Feira Popular. O resultado foi a criação do primeiro jardim modernista entre nós, uma referência entre nós.

O desaparecimento de Maria Teresa Burnay Eugénio de Almeida, derradeira Condessa de Vilalva, em 2018, aos 95 anos, veio possibilitar ampliar em 8560 metros os sete hectares dos terrenos da Fundação Gulbenkian. 

O projeto “Um Parque para a Cidade”, é da autoria do arquiteto japonês Kengo Kuma, 

As alterações, revelou o autor, passam pela expansão do lado sul da Fundação, criando um novo espaço expositivo em ligação com o jardim, num espaço onde a luz natural, a ligação com a natureza e a água, e a sensação de quietude são as principais características.

Desta forma, o antigo Parque de Santa Gestrudes retoma a área original oitocentista, que os Condes de Vilalva venderam, em 1958, na quase totalidade, à Fundação Gulbenkian.

A aquisição da restante área foi negociada em 2005 com a Condessa de Vilalva, que ficou com o usufruto e a residir num palacete anexo, antigas cocheiras adaptadas nos anos 50 pelo arquitecto Leonardo Castro Freire. O imóvel reverteu para a Fundação Eugénio de Almeida, destinando-se a ser alugado, dado a instituição só ter actividades no distrito de Évora.

“A compra foi acordada tendo em vista a criação de um prémio em memória do marido, dedicado ao restauro do património”, revela Rui Vilar, na época presidente da Fundação Calouste Gulbenkian e hoje seu administrador não executivo.

Rui Vilar sublinha que a Condessa de Vilalva era uma “grande figura da sociedade portuguesa. Tratava-se de uma pessoa culta e viajada, sempre atenta ao que estava a acontecer. Era elegante consigo própria e elegante nas relações com os outros”.

A Fundação Eugénio de Almeida, instituída em 1963 pelos Condes de Vilalva, é detentora em Évora de um importante património histórico, bem como de várias herdade totalizando 6500 hectares. 

A morte do Vasco Maria Eugénio de Almeida, Conde de Vilalva,  em 1975, coincidiu com a ocupação das terras. O papel da viúva foi determinante na posterior salvaguarda e desenvolvimento da Fundação, tendo sido administradora até 2000.

“Era uma pessoa com uma energia muito grande e um pensamento marcante. Quer como viúva do fundador, quer como administradora, colocou muita intensidade nos seus desempenhos. Teve acesso a experiências raras para a sua geração, como a do Vaticano II, o que fez dela uma pessoa singular”, afirma Maria do Céu Ramos, secretária-geral da Fundação Eugénio de Almeida.

“O marido morreu muito cedo e ela teve um papel determinante na manutenção do património e no seu desenvolvimento”, sublinhou Joaquim Caetano, ex-director do Museu de Évora e actual conservador do Museu de Arte Antiga.

 

A última entrevista

Em 2005, Maria Teresa Eugénio de Almeida deu-me uma entrevista, a última, que decorreu no seu palacete de Lisboa, uma casa requintadamente portuguesa, com amplas salas iluminadas por janelas sobre um parque cuidadosamente tratado. Com 84 anos e muitos projectos. dedicava o tempo, quase exclusivamente, a obras sociais e à preservação do Páteo de São Miguel em Évora – que incorpora o Paço dos Condes de Basto, a Capela de São Miguel, diversos anexos e um jardim de buxos.

O imóvel, adquirido em 1957, sofreu durante quinze anos extensos restauros supervisionados pelo arquitecto Leonardo Castro Freire da DGEMN.

“O meu marido gostava muito de ruínas, de recuperar, de reconstruir. Em Évora vivemos na Cartuxa, na Quinta de Valbom e, por fim, no paço. O Vasco era um homem único, tinha um grande gosto pelo património e pela beleza, era no fundo um construtor. Tivemos um casamento feliz. Ele consultava-me sempre, ainda tenho nos ouvidos a sua voz a chamar-me: `Òh Teresa, oh Teresa`, não podia estar um minuto sem mim, os meus conselhos eram fundamentais quer nas obras, quer nos negócios”, pormenoriza-me Maria Teresa Burnay.

“Durante o restauro do paço de Évora descobriram-se elementos góticos no andar térreo, e no primeiro andar revelaram-se janelas manuelinas. Os frescos dos tectos nunca foram restaurados, apenas as sancas sofreram retoques”.

O paço, que já existia em 1165, tem os tectos das salas da Mitologia, das Armas, e da Tomada de La Goleta pintados com frescos mitológicos executados por Francisco de Campos entre 1578 a 1580.

A decoração do velho imóvel foi decidida pela Condessa: “Aproveitei os recheios do Palácio Vilalva, em Lisboa, vendido em 1947 ao Estado, da Quinta de Valbom em Évora, bem como peças da minha família”.

Na actualidade as diversas salas ostentam canapés e cadeiras românticas, móveis Napoleão III, tapetes de Arraiolos e orientais, tapeçarias flamengas setecentistas, retratos de família, cobres das casas Burnay e Vilalva, entre inúmeras peças. Ao percorrermos os cinco salões principais recuamos aos ambientes da grande nobreza portuguesa, “respirando o ambiente de uma casa vivida, onde a carga histórica dos objectos não se impõe, o que acaba por realçar os frescos”, afirma Maria Teresa Burnay.

“O meu marido”, acrescenta, “gostava de mudar os sítios dos móveis. Estava sempre com projectos. Nós deslocávamo-nos a Évora frequentemente, recebíamos amigos e familiares. O Vsco gostava de tudo e  de nada, era muito emotivo, vibrante, criador. As pessoas ouviam-no, pois marcava semore a sua posição apesar de ser discreto”. 

Os anexos do paço acolheram a biblioteca e o valioso arquivo da Casa Vilalva, essencial para o estudo da economia portuguesa oitocentista.

A colecção de carruagens está exposta nas antigas cavalariças junto do Templo de Diana.

Por iniciativa da Condessa foram editados, por exemplo, em 1997, o roteiro do Páteo de São Miguel, bem como o primeiro estudo sobre os frescos quinhentistas do Palácio dos Condes de Bastos, com textos de Joaquim Caetano e José Alberto Seabra Carvalho.

“Gosto muita da casa de Évora, à qual ficarei para sempre ligada. Ela deu-me muito trabalho no seu restauro, na sua decoração, na sua conservação, mas fiz tudo com muito entusiasmo e alegria e, porque não dizê-lo, amizade”, realça-me.

“O meu marido era muito ponderado e ao longo da vida manteve e aumentou o património herdade. A venda de grande parte do parque de Lisboa à Fundação Gulbenkian teve como objectivo rentabilizar os bens e aplicar verbas noutros projectos – como a compra e recuperação do Páteo de São Miguel, em Évora”, destaca.

“Tive um casamento harmonioso, todos os dias dou graças a Deus por ter casado com um homem bom, trabalhador e generoso. Não havia mãos mais generosas que as dele”, sublinhará.

A instituição da Fundação Eugénio de Almeida foi uma decisão longamente pensada pelo casal. “Não tivemos filhos e havia que preservar o património, apoiar os mais necessitados, bem como desenvolver actividades culturais e espirituais”, evendenciou.

Eugénio de Almeida adoeceu gravemente em Janeiro de 1975, acabando por morrer a 11 de Agosto do mesmo ano, em pleno verão quente – que marcou o inicio de uma fase delicada para a fundação. As herdades foram ocupadas, a instituição ficou praticamente paralisada. “Se o meu marido tivesse assistido às ocupações ficaria certamente devastado e provavelmente morreria de desgosto. Tivemos uma vida cheia, repleta de muitas alegrias e também tristezas, mas valeu a pena o trabalho, a dedicação aos outros, a fé”. 

António Brás