Rosário em ouro. Finais do séc. XVI. Destaque para o remate com uma coroa, um bola representando o mundo, uma cruz e uma medalha arredondada com figuras polícromas nas duas faces. Peça de extrema raridade.

Rosário em ouro. Finais do séc. XVI. Destaque para o remate com uma coroa, um bola representando o mundo, uma cruz e uma medalha arredondada com figuras polícromas nas duas faces. Peça de extrema raridade.

Rosário em ouro. Finais do séc. XVI. Destaque para o remate com uma coroa, um bola representando o mundo, uma cruz e uma medalha arredondada com figuras polícromas nas duas faces. Peça de extrema raridade.

Terço português, em ouro. Oferta da avó à autora deste texto quando ela ainda era criança. Cerca de 1945

Terço português, em ouro. Oferta da avó à autora deste texto quando ela ainda era criança. Cerca de 1945

Terço de ouro com contas oblongas (filigrana). Trabalho português. Séc. XVII

Pintura Coreana. Séc. XVI Figura de budista com rosário

Buda de porcelana segurando um rosário na mão esquerda. Finais do século XVIII.

Rosário maometano actual.

Painel do Infante, obra atribuída a Nuno Gonçalves. Século XV. Museu Nacional de Arte Antiga.

Albrecht Durer (1471-1528). Pormenor do altar “Natividade” vendo-se a mulher e uma das filhas de Martim Paumgartner. Mónaco – Alta Pinacoteca.

Jean Clouet (1475-1541). Retrato de cerca de 1520 da princesa Carlota, irmã do rei François I, com um rosário entre as duas mãos.

Sanchez Coelho (1531-1588). Retrato de FilipeII de Espanha, Museu do Prado.

Maria Stuart (1542-1587). Rainha da Escócia. Retrato datado de 1610/15 que teve por base uma miniatura de 1578. Viúva (em 1560) de Francisco II de frança, Maria Stuart voltou para Inglaterra onde teve de lutar contra a reforma e as intrigas de Isabel I que a mandou prender e executar após dezoito anos de cativeiro. No retrato Maria Stuart além de ostentar um fio com um crucifixo ao peito tem pendurado um rosário, afinal os símbolos exteriores da sua fé.

Retrato de senhora com rosário de grandes contas (filigrana?) datado no brasão de armas de 1558. Pintura vendida em 1989 na Christie’s de Londres.

Sanchez Coelho (1531-1588). Retrato de Maria Maximiliana com um terço ao pescoço. Palácio de Nelahozeves. Checosllováquia.

Peter Paul Rubens (1577-1640). Senhora com rosário. Colecção Thyssen-Bornemisza.

Pormenor de um biombo Namban. Séc. XVII. M.N.A.A.

Terço de ouro com contas alongadas de marfim. Século XVIII. Peça vendida num leilão na casa Leiria & Nascimento.

Terço de prata com contas redondas (filigrana) . Trabalho espanhol. Século XVII.

Diogo Velasquez (1599-1660). Senhora com leque e rosário. Wallace Colection – Londres.

Rosário de osso. Contas com orifícios achatados. Pai-nossos talhados ao gosto do século XVII.

24r

Rosário de contas venezianas com cruz muito provavelmente de Jerusalém. Séc. XVIII.

Terço de contas poliédricas, de vidro opalino e prata. Trabalho espanhol muito provavelmente de Granada. Séc. XVIII.

Coroa franciscana de madrepérola. Século XVIII.

J. Holland. Seminário do Freixo. Vista panorâmica de duas camponesas.

Terço de azeviche. Espanha. Santiago de Compostela? Inícios do século XIX.

Terço de granadas e ouro. Cruz de ouro com esmaltes. Século XIX.

Rosário com os três terços separados por três cores; marfim, coral e turquesa. Século XIX.

Rosário de contas de madeira de calambuco. Século XIX.

Pintura espanhola do primeiro quartel do século XX.

Terço de Lourdes. ”Souvenir”. Século XX.

Terço de contas de madeira, adquirido em Fátima pouco depois da aparição de 1917.

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Rosário em ouro. Inícios do séc. XVII. Contas redondas com o Padre Nosso um pouco maior que as Avé Marias. Remate com uma figura da Cristo como já era habitual.

Rosário em ouro. Inícios do séc. XVII. Contas redondas com o Padre Nosso um pouco maior que as Avé Marias. Remate com uma figura da Cristo como já era habitual.

Terço português enganchado em ouro e com pedras semi-preciosas de cor verde. Oferta da tia Teresa à autora deste texto. Cerca de 1950.

Terço português enganchado em ouro e com pedras semi-preciosas de cor verde. Oferta da tia Teresa à autora deste texto. Cerca de 1950.

Terço português enganchado em ouro e com pedras semi-preciosas de cor verde. Oferta da tia Teresa à autora deste texto. Cerca de 1950.

Rosários e Terços I Sinais Exteriores de Fé

Já não constitui novidade para nenhum leitor da Moda&Moda que esta revista dedica um largo espaço à História do Traje com grande incidência sobre os acessórios.

 

Assim, continuando a explorar exactamente os temas de mais escassa bibliografia, apresentamos os rosários, enquanto adornos e sinais exteriores de fé.

 

No entanto confessamos que este tema é o de maior complexidade que alguma vez aqui abordámos. Primeiro, será o rosário um adorno? Segundo a aceitá-lo como adorno ou acessório, de que modo o podemos classificar? Em acessório usado sobre o corpo? Não! Em acessório usado na mão como símbolo de fé ou um objecto de necessidade?

 

Não encontramos uma resposta que verdadeiramente nos satisfaça.

 

Se, por um lado, o rosário é um conjunto de contas que se passam entre os dedos e as mãos enquanto se rezam Avé-Marias e Pai-Nossos, por outro foi durante séculos um objecto de adorno, de sinal exterior de fé e também de necessidade, para mais facilmente se cumprirem as devoções religiosas.

 

O Rosário, fieira de contas para auxiliar a memória, tem uma tradição muito anterior ao Cristianismo, pois foi usado pelos povos pagãos e pelos selvagens para os ajudar a saber quantas vezes teriam de repetir as orações.

 

As referências mais antigas dos rosários encontram-se no cânone do jainismo, na India, onde os monges bramânicos os usam nas suas orações. O número de contas diverge conforme a seita religiosa. Assim, o devoto de Siva usa o rosário de 32 ou 64 contas, o rosários de Visnú tem 108 contas (12X9), número cíclico que segundo a obra “ Symboles Fundamentaux de la Science Sacrée” (Paris 1962) se aplicam normalmente à expressão do desenvolvimento da manifestação.

 

De acordo com a Enciclopédia Luso-Brasileira, na religião de Buda, o rosário que se julga de origem bramânica, também tem 108 contas, correspondentes, segundo os Teólogos, a número igual de condições mentais ou tendências pecaminosas, que ficarão vencidas quando passarem todas as contas.

 

O número 108 é sagrado entre os Budistas, por ser o número dos brâmanes chamados a visitar Buda, quando ele nasceu, para predizerem o seu destino.

 

Na Birmânia diz-se que os pagodes de Buda foram 108. No Tibete, os livros sagrados estão reunidos em 108 volumes. Em Pequim (China), o templo branco está rodeado de 108 colunas.

O rosário no Japão varia conforme as seitas e tem um papel importante tanto na vida social como religiosa.

 

O rosário dos maometanos possui, em regra geral 99 contas e uma terminal a que chamam Iman, que significa guia. As 99 contas , número ciclíco, refere-se a igual número de nomes ou atributos de Deus. A centésima conta, não manifestada ou inexistente, exprime o regresso do múltiplo a “Um”, da manifestação ao “Princípio”.

 

Diz-se que os Maometanos conheceram os rosários através dos budistas, em época já adiantada, mas desconhecem-se os documentos que provem esta suposição.

 

Mallmann, autor de “ Les enseigneiments iconographiques de Agni Purêve”, define o rosário como contas metidas num fio que representa o “Atmã” sobre o qual todas as coisas são enfiadas, todos os mundos, todos os estados da manifestação (conhecimento).

 

Atmã significa o espírito universal, que une os mundos entre si; é também o “sopro que lhe dá vida”.

 

Guenon sublinha, a este propósito, que a fórmula pronunciada sobre cada conta do rosário deve, em princípio, estar ligada ao ritmo da respiração.

 

O acto de contar as orações que se repetirão numa prática ritual mediante fiadas de pequenas esferas é, como se vê, muito antiga e pratica-se nas mais diversas religiões do Oriente.

 

Como atrás já referimos ao maometanos usavam os rosários para as suas pregarias e é possível que a eles se deva a introdução no Ocidente destes objectos.

 

 

O rosário da nossa devoção

A devoçã0 do rosário cristão, cuja origem se atribui erradamente a S. Domingos de Gusmão, é um conjunto de orações em nome de Nossa Senhora, formado pela recitação de 15 Pai Nossos e de 150 Avé-Marias. O rosário divide-se em três partes, chamada terço (60 contas) assim repartidas: 10x5 +5 +1 +3 +1.

 

Todavia, o uso dos rosários entre os cristãos é anterior à época em que se propagou a Avé Maria.

 

Os anacoretas incitavam a prática dos povos antigos contando por pedrinhas as suas orações. Consta até que nos primeiros tempos do monacato havia um monge chamado Paulo que tinha a devota prática de rezar trezentas orações e para não se enganar recolhia tal número de pedrinhas que ia deitando fora até que a última lhe indicasse que a sua “obrigação” estava cumprida.

 

Procedimento semelhante empregaria o monge Ayberto, (século XI) de quem se diz “rezava cento e cinquenta Avé-Marias”.

 

A devoção do rosário, que alguns autores dizem ter aparecido no Concílio de Auxerre em 1095, estava perfeitamente conhecido na segunda metade do século XV, período em que os padres dominicanos o difundiram por toda a Europa. Trata-se de uma “coroa de cento e cinquenta rosas” oferecida à Santíssima Virgem.

 

Esta coroa está repartida em grupos de dez, durante os quais se medita um mistério: fogoso, doloroso, ou triunfante, da vida da Virgem ou do seu Divino Filho, e cada um destes grupos inicia-se um Pai-Nosso.

 

A devoção do rosário foi muito difundida graças a Alano da Rocha, um religioso que faleceu, na Holanda, em 1475. Aliás, foi este dominicano que, através das suas visões, atribuiu o rosário a São Domingos de Gusmão.

 

Em Portugal, a primeira confraria do Rosário foi fundada no ano de 1484 no Convento de S. Domingos de Lisboa.

 

As vitórias alcançadas contra os infiéis fomentaram a prática desta devoção. A vitória de Lepanto deu-se no dia 1 de Outubro de 1571. O dia 1 de Outubro era exactamente aquele que a ordem dominicana dedicava à Virgem do rosário. Pio V consagrou esta data à Virgem com o título de Santa Maria da Vitória. Gregório XIII designou o primeiro domingo de Outubro para a celebração da festa do rosário. Leão XIII foi mais longe determinando que o mês de Outubro fosse, em todo o mundo dedicado ao rosário.

 

Rosários e Literatura

Nas descrições do escriba que acompanhou, ao nosso país, o Cardeal Alexandrino (enviado do Papa) e no que se refere à descrição dos trajes pode ler-se: “o trajo da Infanta D. Maria, irmã de D. João III era vestido afogado de veludo preto com orla a oiro e, no braço, tinha uma coroa de rubis e diamantes.

 

Ora, como atrás se disse, o rosário também se designava por coroa e compunha-se de 150 “rosas”, isto é, 150 avé-marias.

 

Ao rosário de contas ou simplesmente contas, objecto para contabilizar as orações, se D. Quixote na famosa aventura de la cueva de Montesinos quando diz: “Não trazia arma alguma, apenas um rosário de contas, na mão, maiores que nozes médias e os “dezes” como ovos de avestruz”.

 

Não obstante, na vizinha Espanha também se empregava a palavra rosário no seu sentido actual. Assim, diz um personagem de Tirso: “se avés quer, podes dar-lhe que muitas tem o teu rosário”.

 

Numa crítica à quantidade de pessoal doméstico que no século XVIII havia em cada casa senhorial e às exigências das criadas, o satírico Santos escreveu: “Era uma destas de manto rendado, luvas cortadas nos dedos, gola de rendas, saia de resilha, mais enrugada que folha de bretão, com o rosário na mão dando voltas ao pulso”.

 

Mas se uma criada mal vestida, como se lê na citação anterior, não dispensava o rosário no pulso, o mesmo acontecia às senhoras das classes altas. Segundo José Deleito y Piñuela “uma dama não podia deixar de exibir ricos brincos de filigrana, nem quantidades de “ajorcas” e rosários nos pulsos, frequentemente de matérias preciosas, assim como vários anéis de azeviche”.

 

Os rosários nas artes e na história

A partir do século XV, a representação do Rosário assume grande importância religiosa, naturalmente nos retratos de personagens da nobreza. É o caso do retrato de D. Filipa de Lencastre ( 1359-1415) (iluminura existente no British Museum atribuída a Simon Bening) segundo desenhos de Francisco d’Holanda (1517-1584). Na cópia que conhecemos através da “História do Trajo em Portugal”, de autoria de Matos Sequeira, vê-se a rainha com a cabeça coroada, largo manto de brocado preso com firmal de pedras preciosas, luvas e um grande rosário de contas na mão esquerda.

 

Outra obra pictórica onde o rosário assume relevo no traje de corte de membros da família real portuguesa é o Painel do Infante ou do Regente atribuído a Nuno Gonçalves. Nesse painel destacamos a figura feminina (Infanta?) que veste um corpete a modelar-lhe o tronco e a saia aberta à frente, assim como a figura de vestes monásticas que fica atrás. Nesta personagem também é visível o rosário de contas, entre as mãos.

Mas se algumas personalidades portuguesas se fizeram retratar com o seu rosário outro tanto aconteceu em toda a Europa cristã.

 

Durer (1471-1528) imortalizou o rosário em algumas das suas obras como por exemplo o Altar Paumgartner da Natividade dos inícios do século XVI, no qual retratou a família do “mecenas” com os seus rosários.

 

Também Jean Clouet no retrato da princesa Carlota (1520), irmã de François I, destacou o rosário representando-o nas duas mãos.

 

Supõe-se que o rosário foi, desde sempre, usado nas mãos, nos pulsos ou pendente do cinto.

 

Os materiais de grande raridade e alto preço assim como o trabalho artístico transformaram o rosário do século XV/XVI em peças de adorno, ostentatórias da fé e da classe social.

 

Nos inventários franceses do tempo do rei Carlos VI, (séc. XV) os rosários já constituíam peças de joalharia de extraordinário valor.

 

No século XVI, eram de ouro lavrado em contas ocas, que se abriam a meio, com esmaltes no interior ou pedras preciosas ou pérolas. Além destes havia também os rosários de cristal de rocha, marfim, madrepérola, ágata e cornalina, ametista, coral, onix e lapislazuli.

 

Os rosários de homens diferenciavam-se por variarem no número de contas.

 

O Imperador Fernando I ofereceu em 1561 a sua filha, a duquesa Leonor de Mântua, um rosário com noventa e seis contas de ouro, para o dia do seu casamento.

 

Para as pessoas de mais humilde condição o rosário era a única jóia ao seu alcance.

 

Entre as classes mais elevadas o rosário usava-se como um acessório de luxo e riqueza. Aliás, o uso excessivo de jóias, entre as quais se inclui o rosário, alcançou o seu paradoxismo nos séc. XVI e XVII. A justificação deste excesso deve-se aos aspectos éticos e higiénicos que a valorização das teorias da Antiguidade Clássica acerca da propriedade das pedras preciosas, proporcionou. Dentro desse critério, para além das propriedades terapêuticas, todas as pedras tinham uma acção moral precisa. Por exemplo, a safira era eficaz contra as picadas do Escorpião e inclinava às boas acções...

 

Grazietta Butazzi diz: “a jóia colocava-se invariavelmente sobre o busto e certos lugares privilegiados: a cabeça, o pescoço, os pulsos e as mãos.”

 

Ora o rosário do século XV, XVI e XVII colocava-se frequentemente entre as mãos ou enrolado nos pulsos. As contas que o constituíam tinham um orifício mais largo que os actuais por onde passava o fio geralmente de linho ou seda.

 

A história da joalharia está repleta de descrições de rosários famosos. De entre eles, ninguém resiste citar o rosário que pertenceu à princesa Isabel de Brandeburgo, por dote de casamento (1502) o qual era de ouro, pérolas, rubis, esmeraldas e diamantes; o rosário de Carlota de Albret, duquesa de Valentinois, viúva de César Borgia, (que faleceu em 1514) em contas de ouro esmaltadas e ocas para encher de perfumes; o rosário da rainha Ana com 159 contas de ouro e 27 de ametista que figura num inventário de 1528.

 

Max von Boehn, um apaixonado dos pequenos nadas que acompanham a moda como atributos característicos de ideias, classes, gostos ou riquezas, afirma que também existiram pequenos rosários de sessenta e três contas (representando os anos de vida da Virgem) com outros sete intercalados.

 

Segundo observamos pelos documentos iconográficos à nossa disposição, os rosários enfiavam-se ao pescoço, como se fossem colares, (uso de que um bom exemplo é o retrato de Maria Maximiliana, pintado por Sanchez Coelho e que se encontra no Palácio de Nolahozeves na Checoslováquia); penduravam-se na cintura; ou enrolavam-se geralmente no braço esquerdo.

 

Na pintura também se pode observar que o número de contas dos rosários era variável. Por exemplo, no quadro “Senhora com um rosário” da Escola Portuguesa do século XVI do Museu Nacional de Arte Antiga, o rosário (coral e ouro?) tem setenta contas.

 

Poder-se-á classificar este rosário como uma coroa franciscana?

 

“Aos franciscanos deve-se a grande difusão das alegrias de Nossa Senhora, devoção a que se chama coroa franciscana.

 

Há, no entanto, variadíssimas fiadas para as contas de outras devoções: triságios em honra da Santíssima Trindade, com três grupos de contas; septenários da Virgem das Dores, sete séries, cada uma das quais com sete Avé Marias e Coroas de sete pai-nossos e setenta e duas avé-marias.

 

Falando uma linguagem tão eloquente como os trajes, os acessórios e, neste caso, os rosários também evidenciam desenvolvimentos o que a Reforma protestante causou no seio da igreja.

Após a reforma religiosa de Lutero (primeiro quartel do século XVI) só os católicos se fizeram retratar com o seu rosário.

 

Do início do século XVII merece especial destaque a extraordinária pintura de Rubens que faz parte da colecção Thyssen-Bornemisza e que retrata uma dama com rosário.

 

A dama cujo traje e compostura revelam grande distinção devia, muito provavelmente pertencer à corte do Arquiduque Alberto e deveria ter sido pintado por volta de 1609/10. No retrato, a senhora tem entre as duas mãos um rosário de contas, redondas e grandes (cristal de rocha?), intercaladas por contas muito pequenas.

 

Rezam as crónicas que Filipe II de Espanha, I de Portugal, conservou até morrer um rosário cujas contas eram de ouro e rubis, tal como a cruz. No entanto, no seu retrato pintado por Sanchez Coelho, obra prima patente no Museu do Prado em Madrid, vê-se um rosário de contas grandes muito provavelmente de madeira.

 

O inventário da rainha Margarida de Espanha, mulher de Filipe II, menciona (no ano de 1611) dois rosários de ouro e diamantes: um deles com cinquenta pérolas finas, outro de marfim, com contas de ouro esmaltado e com diamantes.

 

O século XVIII espanhol, período de uma sociedade muito menos faustosa que a centúria anterior, legou ao mundo as figuras plásticas do realismo e genialidade jamais alcançadas. Falamos, como é obvio, de Velazquez.

 

No caso concreto que estamos a tratar – os rosários – Velazquez dá-nos um contributo valioso com a sua dama do leque, uma personagem que através do rosário, “nos comunica um misto de paixão e indiferença, de mundanidade e devoção, de grandeza e astúcia”.

 

A retratada que certos estudiosos supõem ser Francisca, filha do mestre e mulher de del Mazo, tem na opinião de Curtis “um rosto malicioso e um vestuário de namoradeira”.

 

Talvez convenha aqui recordar a pragmática ordenada por Filipe IV contra o uso de véu que ocultava o rosto e do guarda-infante, assim como do seu efeito na obra de Velazquez.

 

A propósito cabe-nos acrescentar que no respeitante ao destapar do rosto, a citada pragmática teve grande acolhimento por parte dos moralistas, que diziam: “As tapadas, são as que apelam a este artifício para estimular o interesse e o desejo dos homens, fazendo passar por as vulgares meretrizes”.

 

Até Pinelo censura o costume de ocultar o rosto afirmando: “as (tapadas) não estão cobertas nem descobertas e tem inconvenientes das ambas as coisas”.

 

Em Portugal o uso do manto perdurou largo tempo e ainda há muitas décadas era fácil encontrar mulheres de pescadores bioco negro, em Olhão e/ou nos Açores.

 

Para os portugueses, o século XVII ficou marcado até 1640 pela influência espanhola e depois da Restauração pelas dificuldades e penúria da Casa Real. Por mais boa vontade que tenhamos não há paralelo entre a pintura portuguesa e espanhola.

 

Contudo, se Deus não nos dotou de artistas capazes de levar o nome de Portugal a todo o mundo, deu-nos homens de grande valentia que ficaram na história da Humanidade.

 

Alguns deles motivaram pintores que lhes perpetuaram os passos, os gestos, os trajes, e os pequenos detalhes que significam muito. Lembramos os autores dos biombos Namban que no início do século XVII historiaram o aparato das chegadas das naus portuguesas e o encontro dos civis com os religiosos da Companhia de Jesus e franciscanos. Nestes biombos um dos pormenores que se pode observar é o rosário na mão ou preso na cintura.

 

Não quer isto dizer que o rosário fosse uma novidade para os japoneses. Eles já o usavam nas suas orações muito antes de nós.

 

Contudo, a evangelização que levámos para o Oriente, incluindo a Índia, deixou marcas profundas que fazem, ainda hoje, a grande diferença entre Goa e, por exemplo, Jaipur.

 

Materiais e formas

Supõe-se que os primeiros terços do rosário, totalmente em filigrana de ouro ou de prata conhecidos na Índia portuguesa eram trabalho dos nossos filigraneiros do Porto e arredores.

 

No entanto a filigrana não era, nem é, uma indústria restritamente portuguesa. O seu desenvolvimento efectuou-se em diversos lugares da costa mediterrânea, cabendo a Génova a honra de ser o maior centro “filigraneiro” da Idade Média.

 

Em Florença e Veneza também se desenvolveu esta arte que tem Santo Elói por patrono.

 

Granada e Sevilha (Espanha) alcançaram merecido destaque no trabalho da filigrana. E ao citar estas duas cidades ocorre-nos o género decorativo próprio dos árabes com suas transcendentes inspirações na geometria, bem semelhantes à filigrana.

 

Os rosários de filigrana em ouro, e até mesmo de prata, do século XVII, são hoje de grande raridade. Até nós chegaram alguns em ouro; outros em contas de calambuco (madeira odorífica da Índia portuguesa, montadas em filigrana de prata ou ouro e unidas por cadeias ou argolas. A sua produção nunca foi muito grande, mesmo assim, foram destruídos pelo desgaste do tempo outros foram derretidos por quem não pensava em valores históricos.

 

Com a evolução das mentalidades e das modas, o rosário passou a ser peça de aparato, acabando por ficar restringido à função puramente religiosa.

 

Uma das imagens em que o rosário aparece nesse enquadramento deve-se a Murphy, autor de “Travels in Portugal”. Na sua “família burguesa” (século XVIII) vê-se uma senhora de rosário, com mantéu e véu sobre o rosto.

 

Quanto a dimensões, há rosários enormes que usavam pendurados no espaldar do leito, os médios que usavam há cintura ou os enrolados no pulso e os mais pequenos, contidos em pequenos estojos para mulheres e crianças.

 

Nos rosários há três aspectos a considerar: as contas (que podem ser redondas e lisas, redondas e facetadas ou oblongas); o fio de linho ou seda, mais tarde, os enganches e os acrescentos (medalhas).

 

Os rosários que constituem relíquia apreciada são os de caroços de azeitona do Horto das Oliveiras.

 

Em Espanha dá-se muita importância ao rosário de azeviche.

 

Nos rosários há dois tipos distintos de trabalho: os lavrados por ourives profissionais e os que são obra de indústria doméstica ou conventual. Nos primeiros, os exemplares mais ricos são lavrados na técnica mediterrânica da filigrana em contas ou em forma de casquetes a segurar as contas, com pequenos medalhões a separar as dezenas, escudo triangular no final do crucifixo da mesma feitura. Nos segundos, é vulgar o uso de contas de sementes ou de vidro.

 

As peregrinações à Terra Santa, Roma, Santiago de Compostela, Lurdes e por último, Fátima e o prazer das “recordações” desenvolveram a indústria dos rosários, especialmente em madeira, cristal e vidro.

 

Os rosários do século passado e os terços de hoje, dos lugares mais tranquilos do nosso país, apresentam medalhas penduradas a assinalar as dezenas, colocadas, como é natural, segundo o capricho ou devoção do seu proprietário.

 

 

No mundo em que vivemos onde impera o ateísmo, o agnosticismo – ainda versões tão dolorosas como aquelas a que assistimos em Waco no Texas... – ou, em contrapartida, dada a incultura e o analfabetismo em que audiovisualmente nos enredam, talvez nem isso... O Mundo em que vivemos é, em muitos casos apenas uma massa apática, fervilhando na agitação da sobrevivência, maldizente, e tão distante de si como os homens se distanciam da terra e do céu. Por falta de tempo...

 

Para além daqueles que mãos raras desfiam em avé-marias e afeiçoam, os rosários não servem só para pendurar ao lado do ursinho de pelúcia e da bandeirinha do amado clube no espelho do retrovisor do utilitário carrinho do dia a dia. Servirá, se descoberto, para a reflexão, para o dedilhar retemperador, para a marcação de um tempo exacto que retroceda o Homem no caminho do seu âmago. Não apelamos à fé, pelo menos não a pedimos onde falta – Não é nossa tarefa – nem sugerimos que os seus sinais exteriores andem convosco. Mas se em algum leitor ou leitora, finda esta leitura, despertar a devoção mariana para os seus sinais interiores, acreditamos, na nossa boa fé, que de milagre se tratou. E não é que o presente tanto carece de milagres?

 

Marionela Gusmão