Burnay I O palácio das colecções

Fachada principal

Escadaria principal

Tecto com pintura de Ordonez

Janela com vitrais

Grande átrio

Escadaria secundária com ferros trabalhados

Escada de sobre sobre o jardim

Salão de Baile

Biblioteca

Tecto com estuques e pinturas de 1800

O palco e pinturas do teatro

Teatro oitocentista

Estuques oitocentistas

Antiga sala de jantar, tecto de Malhoa parcialmente caído

Tecto de Malhoa, parcialmente caído, da sala de jantar

Tecto e claraboia com estuques

Pinturas e estuques de 1800

Sala do torreão

Meninos a tocar instrumentos, estuques do Salão de Música

Talhas de finais do século XIX

Pintura de Ordonez

A claraboia da estufa

O destroçado jardim com o lago

Estátua no jardim, imagem de declínio

A cascata, uma desolação

Retrato do Conde de Burnay, Ernest Bordes

Escadaria no tempo da família Burnay

Salão com tapeçaria flamengas, hoje no Museu de Arte Antiga, 1936

A galeria, potes da porcelana da China, 1936

Altar da capela, hoje na Fundação Medeiros e Almeida

A Sala de Jantar em 1936, tecto de Malhoa, pinturas flamengas dos Cinco Sentidas, hoje no Palácio de Belém, e cómoda Rêgence (lado direito), guardada no Museu de Arte Antiga

Catálogo do leilão da Colecção Burnay, datado de 1934, mas foi adiado para 1936

A página da internet GG Photography revela-nos o histórico Palácio Burnay, em Lisboa, ao longo dos últimos anos esta página tem divulgado dezenas de importantes locais abandonados quer em Portugal quer no mundo.

O Palácio em causa é um imóvel localizado na zona da Junqueira, em Lisboa. Ao longo dos últimos três séculos ele assistiu a acontecimentos marcantes.

O seu detentor mais célebre foi o Conde de Burnay, banqueiro, empresário e político, que o adquiriu, restaurou e decorou com inúmeras preciosidades.

Ao longo de 25 anos, de1883 a 1909, o aristocrata comprou (essencialmente) em França pinturas, esculturas, cerâmicas, têxteis, mobiliários e ourivesaria. 

A sua morte, em 1909, e a da mulher, em 1924, provocaram complexas partilhas entre filhos e netos. 

O Estado não autorizou o leilão da colecção em Londres ou em Paris. A família, descontente, viu-se obrigada a leiloar o acervo em 1936. Foi um grande evento que atraiu inúmeros marchands e colecionadores da Europa, engalanan-do durante meses a fachada da leiloeira. 

No interior, multidões pagaram bilhetes para observar o palácio e as colecções, como era hábito na época.

A voz do pregoeiro fez-se ouvir entre Janeiro e Fevereiro desse ano. O catálogo tinha 2500 lotes, tendo sido elaborado por Marcel Nicole, perito do Museu do Louvre, Henry Flloyd da leiloeira Christie`s de Londres, e Hamburguer Jeune, antiquário de Paris.

Foi um dos maiores leilões realizados em Portugal, apenas comparável ao das colecções do Marquês da Foz e do Conde Daupiaz.

 

Preciosidades

O governo português concedeu a verba especial de 2.165 contos (o equivalente a 3 milhões de euros) para adquirir as principais obras de arte. A selecção deveu-se a José de Figueiredo, historiador e director do Museu de Arte Antiga. O Estado optou por 100 lotes, perante a desilusão de antiquários e colecionadores, que distribuiu por museus e palácios nacionais.

Destacam-se, entre eles, pinturas da escola italiana, espanhola, flamenga, francesa e alemã dos séculos XIV ao XVIII.

Entre as obras cimeiras encontram-se o painel de Santo Agostinho, obra-prima de Pierro della Francesca, na época atribuído a Cima de Conegliano. Em 1945, Sir Kenneth Clark, director da National Gallery de Londres, identificou-o como parte de políptico pintado para uma igreja.

Nos móveis destaca-se um raríssimo contador indo-português de influência mogol, séculos XVI-XVII, em teca, sissó e marfim. A decoração apresenta figuras humanas em cenas de corte ou caçadas, animais como leões, falcões e pássaros míticos e as árvores da vida e da sabedoria.

Nos têxteis evidenciam-se diversas colchas indo-portuguesas, chinesas e de Castelo Branco, tapetes persas de Herat e tapeçarias flamengas.

Muitas destas obras integram a exposição permanente do Museu de Arte Antiga.

Outras peças, caso de mobiliário Império, expõem-se no Palácio de Queluz, caso de um conjunto de canapé e cadeiras Luís XV que decora a Sala do Corpo Diplomático do Palácio da Ajuda; pinturas flamengas dos cinco sentidos engrandecem a sala de jantar do Palácio de Belém.

Algumas obras adquiridas por particulares acabaram, ao longo dos anos, por integrar colecções públicas, como um conjunto de canapés Luís XVI, na Casa-Museu Anastácio Gonçalves, do óleo Regência de Maria de Médicis integrado no legado de Enrique Mantero à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa; da tela Banho de Betsabé de Boucher, doada por Diley Moutinho ao Museu de Arte Antiga.

Por iniciativa de Maria Antónia de Matos, a colecção Burnay foi objecto de uma grande exposição, em 2003, na Casa-Museu Anastácio Gonçalves. A quase totalidade das obras eram do Estado, o resto pertencia à família.

No mercado leiloeiro continuam a aparecer obras da colecção Burnay, como um retrato da Rainha Dona Isabel de Bourbon, óleo da escola espanhola seiscentista. 

 

Vazio

Após o leilão, o Palácio Burnay ficou desabitado e vazio durante anos. Os tempos haviam mudado, e a família deixara de ter meios para o conservar.

Em 1940 foi adquirido pelo Estado, seguindo-se obras de restauro e adaptação a serviços públicos.

Da primitiva edificação de D. César de Meneses, construída entre 1700 a 1727, restou (quase intacto) o corpo do edifício com quatro torreões nos ângulos. Após o terramoto, acolheu no Verão os cardeais patriarcas de Lisboa. No início do século seguinte albergou o Seminário de São João Baptista.

 

Em meados de 1800, o palácio encontrava-se na posse do negociante Manuel António da Fonseca, conhecido por Monte Cristo, que o ampliou com o torreão central.

O infante de Espanha D. Sebastião de Bourbon, neto de D. João VI, ocupou-o em 1865, mas cedeu-o a D. Alejandro de Castro, representante de Madrid em Lisboa.

O Conde de Burnay adquiriu-o por fim em 1882, empreendendo obras dirigidas por Nicola Bigaglia.

As salas foram engrandecidas com estuques de Rodrigues Pita e tectos pintados por Ordoñez e José Malhoa.

O conforto era acentuado por aquecimento central em todas as divisões.

A decoração, típica da época, ostentava um gosto vitoriano onde o horror ao vazio predominava.

As obras de arte encontravam-se em salas e quartos cujas paredes eram revestidas por pesados damascos, veludos e sedas.

O palácio da Junqueira representava o prestígio económico e social do Conde de Burnay. Ele era um dos homens mais poderosos do nosso País. 

Os negócios abrangiam, entre outros, contractos do tabaco, da banca, do imobiliário, de indústrias e de caminhos-de-ferro.

Ao morrer em 1909, Henry Burnay era adulado pelos poderosos e respeitado pelos mais desfavorecidos.

O vasto império que deixou entrou, no entanto, rapidamente em declínio. Os tempos mostravam-se complexos e a viúva não gostava de mundanidades.

Em 1924, a família tomou a decisão de leiloar a colecção de arte, cuja totalidade estava na Junqueira. 

O núcleo de jóias foi dividido entre as filhas, noras e netas. 

O objectivo seguinte visou vender os palácios de Lisboa (Burnay na Junqueira e Farrobo em Sete Rios) e a Casa da Granja, no Porto. Revelou-se um processo longo e complexo durando, entre o inventário, negociações com o Estado e questões familiares, cerca de 20 anos.

 

Actualidade

O Palácio Burnay está nos nossos dias ao abandono. Nas últimas décadas albergou o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Pelos seus interiores passaram milhares de professores e alunos, fizeram-se milhares de licenciaturas, mestrados e doutoramentos.

O imóvel preserva a estrutura arquitectónica do tempo de Henry Burnay intacta, com excepção da capela que foi demolida.

A antiga Sala de Jantar ostenta um magnífico tecto naturalista de Malhoa sobre estuque, infelizmente parte caiu; a Sala de Música apresenta um exuberante tecto de estuque com meninos a tocar instrumentos musicais; o Salão de Baile tem pinturas paisagísticas de grande interesse, e o seu teatro é dominado por pinturas ingénuas e por portadas barrocas e colunas ao gosto seiscentista.

Outros espaços secundários foram adaptadas a  zonas de trabalho e de aulas.

Os jardins perderam a imponência de outros tempos, bem como a antiga estufa que submerge em declínio.

O olhar que estas fotografias sintetizam o fim da fase pública da velha mansão. Na sua decadência revela que entre nós, existiu uma rara grandeza entre nós.   

 

António Brás

 

Fotografias gentilmente cedidas por GG Photography