Nos 100 anos do nascimento de Mariana Rey Monteiro   

Mariana Rey Monteiro em entrevista à RTP 1

Atriz Mariana Rey Monteiro I Museu do teatro

Mariana Rey Monteiro (ao centro)

Segunda parte da entrevista, conduzida pela jornalista Maria João Avillez

Considerada uma das maiores actrizes portuguesas de sempre, Mariana Rey Monteiro estreou-se na peça Antigona, em 1946, como protagonista, conquistando de imediato o público e os críticos. Tinha 24 anos, nascera em Dezembro de 1922, no seio de uma familia culta e cosmopolita.

Pouco depois é convidada para interpretar um filme em Hollywood, mas recusa. “Tinha cá a minha família e as minhas raízes, nunca me arrependi dessa decisão”, dir-nos-numa entrevista em 2004.

Integrada no elenco do Teatro Nacional, então concessionado a  seus país, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, a actriz atingiu um virtuosismo singular. Alguns dos momentos mais altos da arte de representar entre nós pertencem-lhe. Como Sonho de Uma Noite de Verão, Santa Joana e A Castro.

A sua longa carreira tornou-se uma linha de inteligência, elegância, modernidade e adaptabilidade.

 

Uma fuga

“O teatro é uma profissão muito absorvente, uma evasão, uma fuga”, destacou-nos. “Quando o pano se levanta sinto uma enorme responsabilidade para com o público, e no fim um grande alívio”.

Ao contrário de outros colegas, Mariana Rey Monteiro soube sempre separar a sua personalidade das figuras que foi interpretando. 

Recusou, durante décadas, fazer televisão por não gostar da sua imagem no pequeno ecrã. “O Nicolau Breyner convenceu-me a participar em Vila Faia e adorei. O pequeno ecrã permitiu-me representar com mais naturalidade, pois no palco temos que levantar a voz e carregar um pouco nas entoações”, sublinhava. “Passei em poucos meses a ser reconhecida na rua. As pessoas vinham perguntar-me: `Como está a sua mãe, como vão os seus netos?` Foi muito agradável”.

 

Vida cheia

Aos 24 anos, Mariana Rey Monteiro casa com o arquitecto Emílio Lino. “O meu marido sempre me apoiou, tendo mesmo chegado a desenhar vários cenários”.

A sua morte súbita, em 1958, deixa-a com três filhos e uma enteada. Nesse ano o pai, Robles Monteiro, também desaparece. Mariana e a mãe ficam sozinhas à frente do Teatro Nacional D. Maria II. 

Na noite de 1 para 2 de Dezembro de 1964, este arde completamente quando tinha em cena Macbeth, de Skakespeare, peça que, segundo a lenda, faz destruir os palcos onde sobe. Todo o património da Companhia Rey Colaço Robles Monteiro se perde: cenários, adereços e o guarda-roupa, considerado o melhor da Península Ibérica. “Perdemos cerca de 5 mil contos na época, foi muito duro recomeçar de novo”, confidenciou-nos.

A companhia refaz-se no Teatro Avenida. Mariana e Amélia conhecem com Equilíbrio Instável um grande êxito. E conhecem, uma vez mais, em 1967, a maldição das chamas. Em poucas horas o edifício fica em destroços.

Persistente, a equipa atravessa a Avenida da Liberdade, entra no velho Parque Mayer e levanta as cortinas do Teatro Capitólio.

O Tango, texto então revelado faz-se um ângulo cultural entre nós. 

Um mês depois do 25 de Abril, a companhia, fundada em 1921, cessa a sua actividade.  Mariana Rey Monteiro deseja apenas “mergulhar, de olhos de olhos fechados, no mar do esquecimento”. Durante um tempo dedicar-se-à aos netos, especialmente a Manuel que vive consigo, aos filhos e à mãe – com quem manteve sempre uma relação de grande proximidade.

Não resistirá, porém, a regressar aos palcos. Anos depois dá vida a uma ex-prostituta em Filomena Marturano, a que se segue Filhos de um Deus Menor. Sem o saber, esta será a sua última presença em palco. Durante duas décadas fará exclusivamente televisão, as telenovelas Chuva na Areia, Roseira Brava e Estátua de Sal, bem como a série Gente Fina é Outra Coisa. Protagonizará para as câmaras A Visita da Velha Senhora, uma das coroas de glória da mãe. 

Mariana resolve terminar, em 1996, a carreira. Recolhe-se ao seu apartamento, um agradável duplex na Avenida Infante Santo, em Lisboa, imergindo para sempre na sua intimidade, ponteada por leituras, música,  televisão e convívios restritos.  Problemas de ossos e de visão limitam-na.

“Não voltarei a trabalhar, embora sinta muitas saudades dos palcos”, exclamara.

“Estou contente com a vida, adaptei-me às circunstâncias, embora algumas me tenham feito sofrer imenso. Só enfrentando as dificuldades é que cumprimos a nossa existência. Eu cumpri a minha”, afirma-nos-à.

Mariana Rey Monteiro morre serenamente como, aliás, vivera, a 8 de Outubro de 2010, quase com 88 anos.

 

Figura marcante

Amélia Rey Colaço foi a figura mais marcante do teatro português do século XX. 

Com uma vida é uma carreira cheias de acontecimentos exultantes uns, trágicos outros, a actriz relançou com o marido, Robles Monteiro, o grande teatro entre nós. Prestigiou, por outro lado, o papel dos actores, dos cenógrafos e dos dramaturgos que atingiram, então, um estatuto único entre nós. Grandes autores, encenadores e cenógrafos foram, com efeito, por ela revelados entre nós.

Pintores como Almada, Domingos Rebello, Eduardo Malta e Alice Rey Colaço estreiam-se como cenógrafos no Teatro Nacional.  

A actriz descobre o talento de Lucien Donnat, tornando-o o cenógrafo da sua companhia durante mais de três décadas. Chega mesmo a convidá-lo para lhe decorar a casa no final dos anos 60.

Nas suas quase sete décadas de actividade cénica, Amélia Rey Colaço não parou de inovar, de engrandecer, de surpreender.

Nascida em 1898 no seio de uma família aristocrática, casou em 1920 com o actor Robles Monteiro. Da união nasce a filha Mariana Rey Monteiro. Em 1921 funda com o marido, no Teatro São Carlos, a Companhia Rey Colaço Robles Monteiro que dura 53 anos, Foi a mais antiga empresa teatral da Europa. Escolhe para a sua estreia a peça Zilda de Alfredo Cortez. Obtém um dos seus maiores êxitos. Amélia impõe-se como uma grande encenadora e empresária. Os clássicos e os jovens autores nacionais sobem à cena. O seu prestígio leva o Estado a entregar-lhe o Teatro Nacional. É a consagração. Novos valores da literatura dramática afirmam-se por seu intermédio. Caso de, por exemplo, Virgínia Victorino, José Régio, Luiz Francisco Rebello, Romeu Correia, Bernardo Santareno, Miguel Franco. A inteligência com que se move nos meios políticos e intelectuais confere-lhe a confiança do regime. Salazar assiste com regularidade aos ensaios da companhia.

 

Espectáculos marcantes

Destemida consegue apresentar obras de grande ousadia para a época. O Processo de Jesus, A Visita da Velha Senhora, Os Incendiários afirmam-se espectáculos marcantes. A censura, porém, não a perde de vista. Textos de Brecht, Santareno, Sttau Monteiro, entre tantos outros, veem-se impedidos de ser encenados.

O Teatro Nacional torna-se um conservatório. João Villaret, Eunice Munoz, Mariana Rey Monteiro, Laura Alves, Maria Barroso, Carmen Dolores, Madalena Sotto, Lourdes Norberto Cecília Guimarães, são alguns dos muitos que passaram por ele. 

Os anos 60 trazem duras dificuldades, incêndios, críticas injustas, afastamento de público provocam danos.

Amélia Rey Colaço conhece o papel da sua vida em A Visita da Velha Senhora, enquanto Palmira Bastos reaparece em As Árvores Morrem de Pé – a sua coroa de glória.

A perseverança, o talento de Amélia não conhece a derrota. Nos últimos anos põe em cena O Tango e Adriano VII, espectáculos de referência. 

Após a revolução de 1974, Amélia Rey Colaço suspende a actividade da companhia e retira-se para a sua moradia do Dafundo. Dizia que era a sua fortaleza, saía pouco, ocupava o tempo a ler, a ouvir musica e a receber os que a visitavam. Acompanha toda a actividade teatral e sonha em voltar aos palcos. 

Em 1980 pensa regressar em Ensina-me a Viver. Os ensaios são, porém, incompreensivelmente interrompidos.

Dois anos depois, Amélia Rey Colaço aceita participar no elenco de Gente Fina é Outra Coisa, série televisiva de grande êxito.

Finalmente conhece uma enorme popularidade que, no entanto, a desgostar - a paixão da sua vida era o teatro.

Em 1985, aos 87 anos, com o apoio do Ministério da Cultura,  despede-se dos palcos no papel de D. Catarina em El-Rei Sebastião, uma peça inédita de José Régio. A estreia acontece em Portalegre, onde o escritor vivera.

Amélia não consegue realizar, por motivos físicos, o sonho de despedir-se do público em Lisboa no Teatro São Luís, onde se estreara no papel de Marionela.

O ano de 1987 é de glória. O Museu do Teatro inaugura a exposição A Companhia Rey Colaço Robles Monteiro 1921-1974. Na noite de 17 Novembro desse aano, embora debilitada fisicamente, ela comparece à inauguração:  completava 70 anos sobre a sua estreia. A multidão, que ocorreu à cerimónia, obriga-a a dirigir-se-lhe da varanda principal do museu. Teve uma grande ovação. Foi uma das suas últimas aparições públicas. 

«A bisavó tinha a paixão do palco, até os próprios sonhos eram com o teatro, até ao fim fez projectos de realizações teatrais. Ia visitá-la dia sim, dia não, e ela dizia “um dia quando eu fizer…, hoje sonhei…”. Teve sempre uma enorme curiosidade natural, uma força e uma palpitação únicas pelo teatro. Ela tinha um amor infindável pelo palco, ao morrer sonhava levar para a frente um festival camoniano. O teatro foi a vida dela. Se pudesse até voltava numa cadeira de rodas«, destaca Mónica Garnel.

 

A actriz doa todo o seu espólio ao Museu do Teatro. Trata-se de um acervo vastíssimo composto por álbuns, recortes, fotografias, trajes, adereços, correspondência, livros,  prémios e condecorações. 

Amélia Rey Colaço recolhe-se, entretanto, a casa da filha – que interrompe o seu trabalho para a acompanhar. Sonha até ao fim em concretizar projectos teatrais. Lúcida e pragmática resolve, em 1988, abandonar a moradia no Dafundo (cedida pela marquesa Olga de Cadaval) e leiloar todos os seus bens móveis para melhor assegurar o futuro da filha. Apenas a Casa das Fontainhas, em Fontanelas, construída por Robles Monteiro, ponto de férias da família, resiste. 

A 8 de Julho de 1990, Amélia Rey Colaço morre às três horas da madrugada -  hora a que, muitos anos antes, fora informada do incêndio no Teatro Nacional. As cerimónias fúnebres são marcadas pela presença do mundo cultural e político.

 

Famílias de artistas

A família Rey Colaço é umas das prestigiadas da nossa cultura. Entre os seus membros destacam-se os país Alexandre Rey Colaço professor e compositor e Alice Lafourcade tradutora. Outras figuras relevantes são Jorge Colaço pintor e renovador do azulejo português, Branca de Gonta Colaço poetisa, Tomás Ribeiro dramaturgo, Ana Gonta Colaço escultora, Concessa Colaço artista plástica, Cecília Menano professora de artes plásticas, José Daniel Colaço pintor muito marcado pelo arte oriental.

As suas irmãs Jeanne Castro Freire e Maria Rey Colaço evidenciaram-se como pianistas, e Alice Menano como pintora, ilustradora e desenhadora teatral.

Na actualidade, Rita Garnel, falecia em Julho, aos 70 anos,  destacou-se como historiadora e comissária de exposições de grande impacto, enquanto o pintor Tomás Colaço, primo de Amélia Rey Colaço,  evidencia-se nas nossas artes artes plásticas.

 

Bisneta actriz

No ano de 1978, Amélia Rey Colaço revelou, numa entrevista: “Tenho dois netos que bem queda têm para o teatro. Cada vez que a Mónica vem cá a casa põe-me isto tudo em reboliço, porque quer pôr os chapéus da bisavó, os vestidos que eram da bisavó, representar como a bisavó. Ela tem um grande amor pelo teatro”. A sua visão acertou em pleno. 

Mónica Garnel resolve, em 1992, continuar a tradição teatral da família. Frequenta o Conservatório, estreando-se na peça As Fúrias, no Teatro Nacional, sob a direcção de Carlos Avillez, a quem a bisavó aconselhara, nos anos 50, a seguir a carreira de encenador.

Na televisão participou nas séries Alves dos Reis, Conta-me como Foi, nos Boys (ainda não estreada), e na telenovela Anjo Selvagem. No cinema integrou o elenco do filme Antes que o Tempo Mude, do realizador Luís Fonseca.

Com uma carreira de mais de duas décadas, Mónica Garnel está hoje ligada à companhia Casa Conveniente, considerando Mónica Calle a sua mestre.

 

“A  avó apoiou-me sempre. Estava muito entusiasmada, mas dizia-me “oh meu Deus, como vai ser a tua vida, eu tive a sorte de ter um pai e uma mãe  que foram meus mestres, tinham uma companhia, mas como te posso ajudar???”. Ela queria ter um papel comigo como os pais tiveram com ela, mas tudo mudara.Todas as semanas almoçava com ela. Eu estudava um texto durante a semana e passava a tarde com ela a ensinar-me, a lermos e a contracenarmos. A Electra e os Fantasmas, textos de Tennesse Willians, Skahespeare, entre outros.Era a minha avozinha, tínhamos uma grande proximidade, adorava-a’.

António Brás