André Kertész Postais de Paris

Casa Mondrian, 1926. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção The Art Institute of Chicago, Julien Levy Collection, Oferta de Jean e Julien Levy. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Bailarina Satirica, 1927. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Herança de Familia de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Garfo, 1928. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção National Gallery of Canada, Ottawa, adquirido, em 1978. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Auto-Retrato, 1927. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Propriedade de André Kertész. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Paul Dermée, 1927. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção The Art Institute of Chicago, oferta de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Hilda Daus, 1927. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Jane Corkin, Toronto. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Cachimbo e Óculos de Mondrian, 1926. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Herança de Familia de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Pernas, 1925. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Herança de Familia de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Torre Eiffel, 1925. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção Herança de Familia de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Quarteto, 1926. André Kertész (Americano, nascido na Hungria 1894–1985). Crédito da imagem: © Estate of André Kertész 2021. Colecção The Art Institute of Chicago, oferta de Nicholas e Susan Pritzker. Cortesia High Museum of Art, em Atlanta.

Para homenagear a carreira de André Kertész, (1894-1985) considerado um dos grandes fotógrafos americanos de origem húngara, o High Museum of Art, em Atlanta, apresenta uma retrospectiva surpreendente dos seus “Postais de Paris” até 29 de Maio de 2022. São mais de cem fotografias que documentam toda a fase deste extraordinário artista, em Paris.

 

O seu trabalho estava consoante a sua vida e os seus sentimentos: desde o início na Hungria até ao florescimento do seu talento em França, assim como dos anos de isolamento em Nova Iorque até ao reconhecimento internacional.

Um dos principais actores da cena artística parisiense durante o período entre guerras, André Kertész, cuja carreira se estendeu por mais de setenta anos, é agora reconhecido como um dos fotógrafos mais importantes do século XX. Esta exibição refaz o elo que Kertész teceu durante a sua estadia em Paris entre suas as práticas fotográficas e editoriais.

 

Em 1925, o fotógrafo André Kertész (americano, nascido na Hungria, 1894-1985) chegou a Paris com pouco mais do que uma máquina fotográfica e escassas poupanças. Nos três anos seguintes, o jovem artista conseguiu uma prática fotográfica que lhe permitiu mover-se entre os reinos do amador e profissional, fotojornalista e artista de vanguarda e documentarista. O High Museum of Art apresenta "André Kertész: Postais de Paris" (18 de Fevereiro a 29 de Maio de 2022), a primeira exposição a focar exclusivamente os seus postais raros, impressões precisas em papel postal barato, mas exuberante.

A mostra foi organizada pelo Art Institute of Chicago, e reúne mpressões de colecções de toda a Europa e América do Norte e oferece uma visão dos primeiros anos experimentais de Kertész, durante os quais produziu algumas das suas imagens agora icónicas e traçou um novo caminho para a fotografia moderna. A exposição vai também revelar a importância de Paris como um vibrante ponto de encontro para artistas internacionais, que se inspiraram uns nos outros para criar novas formas de ver e representar o mundo.

"Estamos encantados pela oportunidade de partilhar estas raras imagens de um dos mais intrigantes e inovadores fotógrafos do século XX", disse Rand Suffolk, director do High Museum of Art.

"Kertész foi um dos fotógrafos mais consequentes do século XX, e esta exposição centra-se no seu período mais inovador e prolífico. Foi um pioneiro que dominava o retrato íntimo, a fotografia de rua dinâmica e estudos interiores precisos, movendo-se sem esforço entre o seu trabalho pessoal e comercial. Estes distintivos postais são alguns dos melhores exemplos das suas icónicas primeiras fotografias," disse Gregory Harris, o curador de fotografia do High Museum of Art.

André Kertész era autodidata e recebeu a sua primeira máquina fotográfica em 1912 e foi mobilizado em 1914, onde fotografou o quotidiano dos soldados, tanto nas trincheiras, como nas longas caminhadas. Após a guerra, Kertész tentou fazer da fotografia o seu trabalho publicando as suas primeiras imagens, na imprensa, em 1925.

Quando chegou a Paris começou a frequentar os círculos artísticos de vanguarda. Em 1926, publicou as suas imagens em muitas revistas francesas e alemãs, como VU, Art et Medicine ou Uhu. As suas fotografias impressionavam com a emoção, o enquadramento imaginativo, através de imagens que captou dos seus amigos húngaros, dos estúdios de artistas de Montparnasse e das cenas de rua. Em 1932/1933, fez a sua célebre série de Distorções, onde os corpos nus de dois modelos são reflectidos num espelho distorcido.

​Kertész mudou-se para Paris devido às oportunidades limitadas na sua Hungria natal, e no final de 1928, estava a contribuir regularmente para revistas e a expor o seu trabalho internacionalmente ao lado de artistas conhecidos como Man Ray e Berenice Abbott. Os três anos entre a sua chegada a Paris e a sua emergência como uma figura importante na fotografia de arte moderna marcaram um período de experimentação e exploração dedicada a Kertész. Durante esse período, produziu a maior parte das suas gravuras em cartão, transformando este formato popular em fins artísticos, compondo rigorosamente imagens na câmara escura e fazendo um novo género de fotografia objecto. A mostra destaca uma atenção especial às obras como imagens e objectos, salientando a sua composição experimental e formatos ousadamente recortados.

A exposição

Uma série de fotografias da exposição foram organizadas em 1995 por Yvon Le Marlec, um fotógrafo com quem Kertész colaborou em Paris, centra-se em torno destas principais obras que Kertész publicou nesta cidade.

A mostra o inclui impressões antigas de imagens que viriam a definir a carreira de Kertész, incluindo "Casa Mondrian" (1926), uma cena requintadamente composta do estúdio de Piet Mondrian, destacando a geometria contida do pintor; outra imagem"Bailarina Satírica” (1927), une a fotografia com a dança e a escultura de colegas húngaros em Paris; e a fotografia do "Garfo" (1928), mostra que a imagem poderia transformar até o mais humilde dos objectos em arte.

"Postais de Paris" tem a curadoria de Elizabeth Siegel, curadora de fotografia e meios de comunicação no Art Institute of Chicago. A exibição é apresentada nas Galerias de Fotografia Lucinda Weil Bunnen, no Pavilhão Wieland do High Museum of Art.

O início de Kertész no seu país natal foi um passo importante para a sua aprendizagem numa abordagem realista, distinguindo-se da fotografia artística, com influências pictóricas tão apreciadas pelos fotógrafos húngaros da sua geração. Inscrito no exército austro-húngaro durante a Primeira Guerra Mundial, retratou a vida dos soldados e desenvolveu a poesia do momento, longe dos actos heróicos ou dramáticos das armas.

​Após a guerra, tentou fazer da fotografia o seu trabalho.

​Em Outubro de 1925, chegou a Paris, onde participou nos círculos literários e artísticos de vanguarda e fotografou os seus amigos do meio húngaro, cenas de rua e jardins parisienses. Em França, tal como na Alemanha, a imprensa, especialmente a revista VU, publicou as suas reportagens e ilustrações.

​Em Paris, encontrou sucesso crítico e comercial. Em 1927, Kertész foi o primeiro fotógrafo a ter uma exposição individual, em que Jan Slivinsky apresentou 30 das suas fotografias na "Galeria Sacre du Printemps". Nesta época Kertész tinha-se ligado com membros do crescente movimento Dada. Nos anos seguintes, Kertész foi convidado para exposições individuais e em grupos. Em 1932, na Galeria Julien Levy, em Nova Iorque, Kertész ganhou bastante dinheiro, porque cada uma das provas de Kertész foi fixada em US $ 20, uma quantia elevada durante a Grande da Depressão.

​ Em 1933, realiza a sua célebre série de Distorções, que mostra corpos nus reflectidos num espelho distorcido. Essa actividade intensa levou-o a criar os seus próprios livros; ao longo da sua vida, publicando dezanove, incluindo “Paris Vista por André Kertész” (1934), precedida pelo escritor Pierre Mac Orlan.

​Kertész e outros artistas húngaros formaram um círculo sinérgico, onde ele sobressaiu nas exposições (com alguns deles mais tarde). Visitando os seus amigos escultores, ficou fascinado pelo movimento cubista. Kertész criou retratos fotográficos dos pintores Piet Mondrian e Marc Chagall, a escritora Colette e o cineasta Sergei Eisenstein. Em 1928, Kertész passou de usar máquinas fotográficas de vidro plano para uma Leica. Este período de trabalho foi um dos mais produtivos, já que fotografava diariamente, trabalhos divididos entre encomendas de revistas e as suas peças pessoais, até ao final da década de 1920. Em 1930, na Exposição Colonial de Paris, Kertész recebeu uma medalha de prata pela sua obra fotográfica.

​As obras de Kertész foram publicadas em revistas francesas como Vu e Art et Médecine, para as quais o seu trabalho foi usado para inúmeras capas. A sua maior colaboração jornalística foi com Lucien Vogel, o editor francês da Vu. Vogel publicou o seu trabalho como ensaio fotográfico, deixando Kertész relatar vários assuntos através de imagens.

O trabalho de Kertész, representa o olhar do fotógrafo que transforma uma imagem numa obra de arte e não a sua utilização; será talvez por isso que as fotografias de André Kertész, feitas há 70 anos, têm ainda hoje uma força incrível que lhes advém da entrega nelas colocada pelo seu autor. André Kertész foi sempre conhecido pelo seu virtuosismo técnico, mas também pelo seu rigor e dedicação, para ele uma imagem era algo único e que deveria retratar toda a alma de um local. Nunca poupou esforços para procurar o melhor ângulo e a melhor luz, e se por alguma razão sentia que não conseguiria fazer a fotografia que levava na ideia, voltava noutro dia. A mensagem que passa da “leitura” da sua obra é que não basta o talento, é preciso trabalhá-lo.

 

Theresa Bêco de Lobo