Japão I  Uma História de Estilo

Deidades Xintoístas Masculinas e Femininas. Japão, período Heian (cerca 900/1185), século X. Cipreste japonês com vestígios de cor. Colecção Metropolitan Museum, Mary Griggs Burke Collection, Oferta de Mary and Jackson Burke Foundation, 2015. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York.

Shaka (Shakyamuni), o Buda Histórico, com Dois Bodhisattvas Assistentes e Dezasseis Arhats. Japão, período Kamakura (1185/1333) -Nanbokuchō (1336/92), século XIV. Pergaminho suspenso; tinta, cor e ouro sobre seda. Colecção Metropolitan Museum, Mary Griggs Burke Collection, Oferta de Mary and Jackson Burke Foundation, 2015. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York

Tríade Shakyamuni com os Dezasseis Protectores do Grande Sutra da Sabedoria. Artista japonês desconhecido. Japão, período Nanbokuchō (1336/92), final do século XIV. Pergaminho pendurado; tinta, cor, ouro, e corte de ouro sobre seda. Colecção Metropolitan Museum, Mary Griggs Burke Collection, Oferta de Mary and Jackson Burke Foundation, 2015. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York.

"Em Lado Nenhum, Surge uma mente determinada." Musō Soseki,( japonês, 1275-1351). Japão, período Nanbokuchō (1336/1392), início do século XIV. Pergaminho suspenso; tinta sobre papel. Colecção The Metropolitan Museum, Oferta de Mary and James G. Wallach Foundation, 2018. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Falcões Amarrados, (antes de 1606). Caligrafia por Ittō Jōteki (Shōteki), (japonês, 1533-1606) e Soga Chokuan, (Japonês, activo cerca, 1596–1615). Japão, período Momoyama (157/1615), antes de 1606. Doze pinturas montadas como um par de telas dobráveis de seis painéis; tinta e cor sobre papel. Colecção The Metropolitan Museum, Oferta de Mary and James G. Wallach Foundation, 2018. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York.

Sábios Chineses. Atribuído a Kano Sanraku, (japonês, 1559-1635). Japão, período Momoyama (1573/1615), final do século XVI e início do século XVII. Par de ecrãs dobráveis de seis painéis; tinta sobre papel. Colecção Metropolitan Museum of Art, Oferta de Mary Livingston Griggs e Mary Griggs Burke Foundation Fund, Oferta de Florence e Herbert Irving por doação a Brooke Russell Astor, 2020. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York.

Flores da Primavera e do Outono, (pouco depois de 1701). Ogata Kōrin, (japonês, 1658-1716). Japão, período Edo (1615/1868), pouco depois de 1701. Par de painéis; tinta colorida sobre a madeira de criptoméria. Colecção Metropolitan Museum, Mary Griggs Burke Collection, Oferta de Mary and Jackson Burke Foundation, 2015. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York.

Cerejeiras e Árvores de Ácer, (início da década de 1820). Sakai Hōitsu, (Japonês, 1761-1828). Japão, período Edo (1615-1868), início da década de 1820. Par de telas dobráveis de seis painéis; tinta a cores e folha de ouro sobre papel. Colecção Wallach Foundation. Oferta de Rogers e Mary Livingston Griggs e Mary Griggs Burke Foundation Funds, e doação de Brooke Russell Asto, 2018. Imagem: Cortesia do Metropolitan Museum of Art, New York

Chaleira de Chá (Kama) com Listas, 2020. Hata Shunsai III, (japonês, nasceu em 1974). Japão, Reiwa (2019/presente), 2020. Ferro e cobre. Colecção Metropolitan Museum of Art, Oferta de Hayashi Kaoru, em comemoraçãp do 150º Aniversário do Museu, 2020. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Recipiente de Flores com Corte duplo (Nijū-giri), denominado "Cool Summer Morning" (Shinryō), Acompanhado pela Caligrafia do Japão, (início do século XVII). Kōgetsu Sōgan, (Japonês, 1574–1643). Período Momoyama (1573/1615)- Edo período (1615/1868), início do século XVII. Colecção The Metropolitan Museum, Oferta de Diane and Arthur Abbey, 2019. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Caixa redonda com Crista de Daimyo, com desenhos de Penas de Falcão e um Espelho Heian, 1615/1868. Japão, período Edo (1615/1868). Maki-e de ouro sobre laca preta. Colecção Metropolitan Museum, Oferta de Florence and Herbert Irving, 2015. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Monju Bosatsu com oito nós sentados (Hakkei Monju Bosatsu), (finais do século XIII). Japão, período Kamakura (1185/1333). Colecção The Metropolitan Museum, Oferta de Sue Cassidy Clark, em homenagem a Barbara Brennan Ford, 2019. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Garça numa Lagoa de Lótus, 1852. Yamamoto Baiitsu, (japonês, 1783-1856). Japão, período Edo (1615/1868), 1852. Pergaminho suspenso; tinta colorida na seda. Colecção Metropolitan Museum, Fishbein-Bender Collection, Oferta de T. Richard Fishbein e Estelle P. Bender, 2015. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Pavões e Cerejeiras, (início do século XX). Imazu Tatsuyuki, (japonês, activo). Japão, período Taishō (1912/26), (cerca Década de 1925). Biombo de dois painéis; tinta, cor, ouro e prata sobre papel. Colecção Metropolitan Museum, Adquirido, Mary and James G. Wallach Foundation Gift, 2015. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York.

Tigresa e Filho, 1892. Kishi Chikudō, (Japonês, 1826–1897). Japão, período Meiji (1868/1912). Par de ecrãs dobráveis de seis painéis; tinta e cor sobre seda- Colecção Metropolitan Museum, Oferta de Lawrence Goodman, 2018. Imagem: Cortesia Metropolitan Museum of Art, New York

O Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque apresenta, até 24 de Abril de 2022, uma exposição notável, onde se destaca a herança cultural do Japão, através de obras de Artes Decorativas entre as quais objectos de laca, cerâmica e tecidos, criadas a partir do século VIII até à actualidade.

A mostra intitulada: “Japão: Uma História de Estilo”, comissariada por Monika Bincsik, Diane e Arthur Abbey, Curadores pelas Artes Decorativas Japonesas, apresenta mais de mil anos de um período dinâmico e culturalmente fértil do país do Sol Nascente.

Exibindo mais de 300 obra, a exposição destaca, como as ofertas e aquisições recentes foram importantes para contar a história da arte japonesa, tanto através da expansão como do aprofundamento da sua colecção. Cada uma das 10 galerias que compõem as Artes do Japão, explora um género, escola, ou estilo distinto, através de uma gama de obras de arte representando quase todas as técnicas, desde os tempos antigos até à actualidade.

 

Visão Geral da Exposição

A mostra apresenta objectos, da colecção do Metropolitan Museum of Art, do início da história cultural do Japão, onde se destaca como as mudanças políticas e transições na estrutura social das cidades influenciaram a sua arte. A rica herança cultural do Japão foi profundamente moldada pela presença do imperador e dos aristocratas, assim como por guerreiros de alto nível, grupos variados de artistas e escritores trabalhando na órbita do palácio.

Entre as obras em exibição destacam-se: um conjunto de cinco taças em forma de camélia, em cores vivas, da oficina do célebre oleiro e pintor Ogata Kenzan (1663–1743); um raro quimono de cetim pintado à mão do século XVIII por Gion Nankai (1677–1751), usado por um actor principal que interpretava um senhor da guerra, um deus, um demónio ou um papel semelhante.

Em 794, Heian-kyō, actual Quioto tornou-se a sede da corte imperial, e permaneceu como a capital do Japão até 1868, quando a corte foi transferida para Tóquio.

No período Heian (794–1185) a cultura da corte floresceu, levando as artes decorativas a novos desenvolvimentos, mas em 1185 foi formado um novo governo militar, marcando a ascensão da classe samurai.

Na exposição, essa transição política é apresentada através da tela dobrável do início do século XVII, como As Rebeliões das Eras de Hōgen e Heiji. Durante o período Muromachi (1338–1573), os shoguns Ashikaga alimentaram a formação da cultura do chá, o teatro Noh, o ikebana e a pintura a tinta, estabelecendo a cultura Higashiyama.

Uma das obras-primas, que representa esta época é um par de telas dobráveis ​de Sami (1525), que serviu como consultor artístico dos shoguns de Ashikaga.

O período Momoyama (de 1573 a 1615) costuma ser chamado: Era de Ouro do Japão, evocando um estilo sumptuoso e dinâmico, com ouro aplicado à arquitectura, aos móveis de laca, biombos e têxteis.

A revitalização do Japão, após anos de guerra, criara um ambiente florescente para todos os tipos de formas de arte e, além do contínuo comércio com a China e a Coreia, a chegada de mercadores portugueses e holandeses e missionários católicos, trouxe novas tecnologias e bens ao Japão.

A exposição incluiu peças requintadas e lacas de luxo feitas para o mercado doméstico, como um grande cofre de laca Nanbam criado para o mercado europeu, e um impressionante casaco de batalha (jinbaori) projectado para um samurai de alta patente com materiais de importação europeia. A mostra também destaca a prática do chá (chanoyu) apresentando utensílios preciosos de chá e caligrafias.

Após o estabelecimento do xogunato Tokugawa em 1603 em Edo (actual Tóquio), o papel de Quioto concentrou-se em actividades cerimoniais e culturais. O novo regime político teve um efeito profundo em todas as formas de arte e no estilo de vida urbana desta cidade.

A renovação e o estímulo das redes artísticas de Quioto serviram para demonstrar o lugar da cidade como capital cultural. O crescente poder económico da classe comerciante contribuiu para que surgisse um vasto público atraído para as artes, além da base tradicional da nobreza e das elites militares. O Japão destacou-se na produção de lacas e certos tipos de cerâmica vidrada com uma decoração colorida e as cidades transformaram-se ainda centros importantes de produção têxtil. Na exposição, cerâmicas e lacas em estilo Rinpa, roupagem requintada Noh e quimonos ricamente adornados estão expostos ao lado dos pergaminhos pendurados e telas dobráveis​representando algumas paisagens e os seus cidadãos do século XVII ao XVIII.

Um dos ceramistas mais talentosos do final do período Edo foi Nin’ami Dōhachi (1783–1855), o qual tem patente nesta exposição uma tigela, excepcionalmente grande, embelezada com flores de cerejeira e folhas de ácer.

Nas últimas décadas do período Edo, quiçá com a intenção de criar novos estilos, surgiu um interesse renovado pelas tradições culturais e literárias da época Heian.

Em 1869, quando a residência permanente do imperador foi transferida para Tóquio, que se tornou a nova capital do Japão, o papel cultural e economicista de Quioto teve que ser reinventado.

A exposição também destaca o entusiasmo dos coleccionadores americanos em estudar o complexo legado artístico do Japão, tornando-se numa lição para todos os visitantes.

As artes do Japão tornaram-se portadoras de continuidade e autenticidade cultural, e as cidades são vistas hoje como um repositório nacional de uma infinidade de formas de arte, incluindo chá, teatro Noh, várias escolas de pintura e artes decorativas.

A mostra abrange uma série de temas, explorando a grande diversidade das artes sagradas do budismo e xintoísmo, dos grandes desenvolvimentos na história da pintura japonesa, tais como a criação da escola de pintura Kano, a renovação do ousado e abstracto estilo Rinpa, e as inovações artísticas no início da era moderna, e ainda, a pintura contemporânea e as artes decorativas.

As várias galerias exibem a arte religiosa japonesa, com destaque para várias pinturas devocionais budistas primitivas, em grande escala, cuja fragilidade inerente das peças impede uma exposição regular, e paralelamente estão expostos exemplos extraordinários de caligrafia de inspiração Zen por três dos monges mais célebres do Japão medieval: Musō Soseki (1275-1351), Sesson Yūbai (1290-1346), e Zekkai Chūshin (1336-1405). De destacar ainda um par de ecrãs dobráveis de Soga Chokuan (activo cerca 1596-1615) mostrando Falcões Amarrados acompanhados de poemas chineses inscritos por um calígrafo zen Ittō Jōteki (1533-1606) - uma das várias obras que representam colaborações artísticas entre monges budistas, patronos e artistas leigos.

Várias das grandes aquisições recentes são exibidas ao lado de grupos de obras que raramente foram expostas, e têm estado no Metropolitan Museum of Art durante muitas décadas, demonstrando a forma como elas foram recentemente adquiridas e se expandem e enriquecem as histórias que podem ser contadas através da colecção. Estes objectos incluem Sages chineses, como um extraordinário par de telas com pinturas a tinta criadas por um mestre anónimo da escola de Kano no início da era moderna, e as Cerejeiras e Áceres de Sakai Hōitsu (1761-1828), e ainda um par de telas coloridas e folhas de ouro representando uma Cerejeira em flor e um Ácer vermelho, mostrando como a estética japonesa deu uma volta em direcção à estilização e abstracção.

A exposição procura também destacar as novas vias de investigação da arte japonesa no Museu, resultado dos esforços dedicados de curadores que trabalham com doadores e coleccionadores para aumentar a colecção nos últimos anos. Foi dada especial atenção em ampliar a capacidade do Museu para narrar a história posterior da arte japonesa, expandindo o seu acervo dos séculos XIX, XX e XXI, e alargando o âmbito da colecção, acrescentando novos géneros de artes decorativas, como a arte em bambu, exemplificada pelo cesto finamente entrançado de flores de Tanabe Chikuunsai I (1877-1937), e o vidro, representado pela recente escultura “Essência Livre-131” de Ikuta Niyoko. As obras-primas recentemente adquiridas de pintura japonesa posterior incluem o par de telas “Tigre, Tigresa, e Filho” de Kishi Chikudō (1826-1897), que abraçaram tanto o realismo ocidental como as técnicas tradicionais japonesas, e os Pavões e Cerejeiras de Imazu Tatsuyuki (activo no início do século XX).

Também é apresentada a primeira instalação de uma oferta de 18 obras de metal excepcionais de um grupo de metalúrgicas japonesas contemporâneas no Museu- um presente do coleccionador Hayashi Kaoru, com sede em Tóquio, em homenagem ao  150º aniversário do Metropolitan Museum of Art. A deslumbrante selecção inclui uma grande variedade de objectos, desde chaleiras de ferro fundido a vasos de flores e formas esculturais. Nove dos objectos foram feitos por artistas designados como “Living National Treasures”, incluindo Ōsumi Yukie (b. 1945) e Nakagawa Mamoru (b. 1947).

Este património ampliou significativamente o âmbito da colecção das artes decorativas japonesas do Museu de Nova Iorque.

"Estamos extremamente gratos a Hayashi Kaoru por esta generosa oferta, que enriquece e expande consideravelmente o acervo da arte japonesa do Museu", disse Marina Kellen, Directora do Metropolitan Museum of Art. "Este notável grupo de objectos proporciona uma introdução perfeita à arte contemporânea japonesa do metal, reunindo tradição e modernidade através das obras requintadas dos dezoito artistas de renome".

Monika Bincsik, Diane e Arthur Abbey Associate Curadores pelas Artes Decorativas Japonesas, acrescentaram, "Cada uma destas obras de metal sofisticadas têm o seu próprio carácter individual. Tanto as formas cuidadosamente planeadas, como as diversas texturas transmitem a formação de décadas dos artistas, assim como da sua profunda paixão pelos materiais, e do seu complexo processo criativo".

Hayashi Kaoru, Fundador e CEO do Grupo da Digital Garage, Inc., uma empresa de TI com sede em Tóquio, é um coleccionador e patrono das artes decorativas japonesas. Partilhou o seguinte, "Estou encantado por apoiar estes artistas talentosos e por apresentar o seu trabalho convincente às audiências do Metropolitan Museum of Art. Espero que as aquisições de tais obras de arte por museus ocidentais ajudem a aprofundar a compreensão e apreciação do artesanato japonês de alto nível".

As novas aquisições, cuidadosamente seleccionadas por Bincsik, exemplificam as principais técnicas de metalurgia utilizadas pelos artistas japoneses contemporâneos e representam uma enorme série de géneros e formas - desde os tradicionais objectos para o chá, tais como chaleiras de ferro fundido e as subtis bacias de água, até vasos de flores, taças, e obras esculturais. Muitos dos motivos e formas decorativas são inspirados pela natureza, particularmente a luz e a água. Todos mostram uma grande atenção aos pormenores, precisão, e dedicação à apresentação das qualidades únicas do metal. A metalurgia japonesa contemporânea tem raízes profundas na prática tradicional. O ouro e a prata foram há muito tempo utilizados tanto na Ásia como no Ocidente para criar objectos sagrados e artigos de luxo apreciados pela sua raridade, valor e elegância. No Japão, as técnicas de martelagem, fundição e cinzelagem têm sido utilizadas ao longo dos séculos para produzir espadas, armaduras e objectos rituais, utilizando principalmente ouro, prata, cobre, estanho e ferro, assim como as suas ligas. Estas tradições foram transmitidas na segunda metade do século XIX a uma nova geração de artistas que produziram vasos de flores e objectos decorativos, principalmente para o mercado ocidental.

Uma parte da exposição apresenta 35 gravuras ukiyo-e da colecção de Lee E. Dirks. Estas gravuras japonesas (1680s a 1850s), centram-se em representações gráficas da figura humana, especialmente actores do palco Kabuki e cortesãs dos bairros de prazer de Yoshiwara em Edo (actualmente Tóquio). Esta instalação está dedicada às magníficas ofertas de Lee E. Dirks para celebrar o 150º aniversário do Museu.

Nos Estados Unidos, o fascínio pela arte japonesa estendeu-se aos coleccionadores e aos museus, criando colecções significativas que ainda hoje existem e influenciaram muitas gerações de artistas. O Metropolitan Museum de Nova Iorque, é um caso desses exemplos e, actualmente, reúne a melhor colecção de arte japonesa fora do Japão.

 

Theresa  Bêco de Lobo