Fotoclubismo I Fotografia Modernista Brasileira, 1946–1964

Capa do catálogo da exposição Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira e o Foto-Cine Clube Bandeirante, 1946/1964, Publicado por The Museum of Modern Art, (MOMA) New York, 2021. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Circo, (Circense) 1951. Julio Agostinelli. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Julio Agostinelli. ColecçãoThe Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por Richard O. Rieger. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Filigrana, 1953. Gertrudes Altschul. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Gertrudes Altschul. ColecçãoThe Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por Amie Rath Nuttall. Cortesia The Museum of Modern Art,(MOMA) New York

Fotoforma, 1952/53. Geraldo de Barros. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Arquivo Geraldo de Barros. Cortesia Luciana Brito Galeria Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por John e Lisa Pritzker. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Trilhos, 1951. André Carneiro. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of André Carneiro. Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por José Olympio da Veiga Pereira, através the Latin American and Caribbean Fund. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Ministério da Educação, Rio de Janeiro, (cerca 1945). Thomaz Farkas. Impressão em gelatina de prata. Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York, oferta do fotógrafo. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Sem Título, (cerca 1960). Palmira Puig-Giró. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Palmira Puig-Giró. Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por Agnes Rindge Claflin Fund. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Vertigem, 1949. Aldo Augusto de Souza Lima. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Aldo Augusto de Souza Lima. Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por James e Ysabella Gara, em homenagem a Donald H. Elliott. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

Arranha-céus, 1959. Roberto Yoshida. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Roberto Yoshida. Colecção Fernanda Feitosa e. Heitor Martins. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

O vidro Partido, (cerca 1952). Maria Helena Valente da Cruz. Impressão em gelatina de prata. Créditos da imagem: © 2020 Estate of Maria Helena Valente da Cruz. Colecção The Museum of Modern Art, (MOMA) New York. Adquirido por Donna Redel. Cortesia The Museum of Modern Art, (MOMA) New York.

"Há temas que só podem ser pintados e nunca fotografados, pois convencem exclusivamente pelas suas cores, e há outros que só podem ser fotografados, e nunca pintados, pois convencem pelas suas formas geométricas e as linhas que perfazem."

                                                                                                                                                             José Yalenti 

 

O Museum of Modern Art, (MoMA) em Nova Iorque apresenta de 21 de Março a 19 de Junho de 2021, a exposição Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira, 1946–1964, a primeira grande mostra da fotografia modernista brasileira fora do Brasil. Este acontecimento destaca as inesquecíveis realizações criativas do Foto Cine Clube Bandeirante de São Paulo, um grupo de fotógrafos amadores célebres no Brasil, mas desconhecidos na Europa e na América do Norte. O evento é composto por mais de 140 fotografias que fazem parte do acervo do MoMA, e apresentam uma extraordinária variedade de registos deste grupo, além de fornecerem percepções valiosas sobre a estética fotográfica da década de 1950 e reflexões sobre a importância do status actual do fotógrafo amador. A exposição é organizada pela curadora Sarah Meister e por Dana Ostrander, assistente de curadora do Departamento de Fotografia do MOMA. 

O movimento Fotoclubista teve o seu apogeu nas décadas de 40/60, com diversas manifestações, como: exposições, concursos, salões e mostras internacionais. Este movimento também organizou todos anos o Salão Internacional de Arte Fotográfica e duas Bienais P/B, em 1972, e a Colorida em 2003.

A década de 40 foi o auge do fotoclubismo, movimento que reunia profissionais de diferentes áreas interessados na prática da fotografia como uma forma de expressão artística. Os primeiros fotoclubes surgiram no início do século XX, mas é a partir dos anos 30 que passam a ter papel de destaque na formação e no aperfeiçoamento técnico dos fotógrafos brasileiros.

O Photo Club Brasileiro (uma das principais agremiações do género, responsável pelo incremento da fotografia como meio de expressão pessoal), fundado no Rio de Janeiro, em 1923, e o Foto Cine Clube Bandeirante, criado em São Paulo em 1939, cuja actuação foi fundamental para o desenvolvimento da fotografia de autor no país.

A Fotografia Moderna surge também a partir dos Foto Clubes e dos Salões de Arte Fotográfica promovidos por esses grupos. Uma nova estética fotográfica, que procurava conferir a essas imagens o estatuto de arte, começou a surgir como alternativa às intervenções preconizadas pelo Pictorialismo.

Os fotógrafos modernos optaram por utilizar recursos próprios da fotografia para transformá-la numa produção artística, afastando-se da estética da pintura académica.

Fotoclubismo e o Bandeirante

O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos mais antigos e importantes fotoclubes brasileiros, localizado na cidade de São Paulo. Fundado em 1939, teve diversas actividades e ajudou o conceito de fotografia artística no Brasil, com o reconhecimento dos clubes internacionais.

Do Foto Cine Clube Bandeirante sairam fotógrafos brasileiros célebres, tais como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz, José Yalenti, entre outros.

O clube organizou por anos o Salão Brasileiro de Arte Fotográfica e duas vezes a Bienal Brasileira de Fotografia entre clubes, e salões digitais como Web Art Photos e Tecnologia na Arte.

Sendo um dos pioneiros na fotografia de arte brasileira, o FCCB introduziu a partir da década de 40 novos conceitos para esta arte, com os seus salões concorridíssimos, exposições e museus antes só para pinturas e esculturas, também foi responsável pela "Escola Paulista" de fotógrafos que mudaram os conceitos de composição, estilo, recortes, etc.. na fotografia vista até então como académica e pictorialista.

Foto Cine Clube Bandeirante participou em diversos salões pelo mundo fora com trabalhos inovadores e foi premiado diversas vezes com o primeiro lugar, graças aos seus autores inovadores, em Salões nos Estados Unidos. da América e Europa.

Este Clube publicou ainda um boletim informativo a partir de 1946, que ao decorrer do tempo foi mudando de nome e formato, até chegar à publicação da revista Foto-Cine Som na ´decada de 70. (extinta no começo dos anos 80). 

O Foto Cine Clube Bandeirante organizava os seus passeios fotográficos, que eram realizados periodicamente em diversos locais em São Paulo e outras localidades dentro e fora do Brasil. Entre as suas actividades, além da formação de novos fotógrafos, existia também a organização de estúdios e laboratórios fotográficos para os seus associados.

O Foto Cine Clube Bandeirante está activo até hoje, ministra cursos, workshops, faz passeios fotográficos, exposições, conferências e salões de fotografia, entre outras actividades, possui ainda um acervo fotográfico notável, além de uma biblioteca com livros desde a década de 1910.

A grande maioria dos associados do Foto Cine Clube Bandeirante eram amadores, isto é, exerciam a actividade fotográfica sem propósito ou afiliação profissional. Eduardo Salvatore, foi presidente de longa data do clube, era advogado, e a lista de profissões dos sócios incluiu também donos de empresas, jornalistas, engenheiros, biólogos e banqueiros. Embora a fotografia fosse uma actividade realizada fora dos seus empregos diários, os membros do FCCB levavam a sério o seu lado artístico, produzindo fotografias muitas vezes dinâmicas e inovadoras. Obras como Fotoforma, de Geraldo de Barros, São Paulo (1952/ 53), Fachada do Ministério da Educação e Saúde, de Thomaz Farkas, Rio Janeiro(cerca 1945), ou Filigrana, de Gertrudes Altschul (cerca 1952), estas imagens representam algumas experimentações radicais, destacando a descoberta de composições criativas na vida quotidiana. Os sócios do FCCB registaram com  grande originalidade as obras dos arquitectos contemporâneos brasileiros, e a sua atenção à fertilidade da abstracção, como estratégia criativa, que surgiu ao lado dos seus colegas de design, pintura e literatura. O conjunto dessas obras forneceu um contexto interessante para explorar o complexo status do fotógrafo amador, as tendências crescentes do gosto ou dojulgamento e os dinâmicos locais de raça e género. 

Além das fotografias, o clube também promovia Concursos Internos e Seminários mensais, nos quais as imagens eram submetidas à análise dos colegas e discutidas em fóruns públicos e privados. Com isso, os associados envolviam-se de forma social e intelectual com o universo da fotografia, garantindo a eles uma oportunidade para exibir e compartilhar o seu trabalho com outros sócios e de forma mais ampla. O salão anual que eles organizavam e o Boletim, uma revista mensal publicada pelo FCCB, mostravam a amplitude das actividades desenvolvidas pelo clube e destacam as conquistas do clube para o circuito internacional de salões dos quais participaram, incluindo Otto Steinert e o seu colegas adeptos da “fotografia subjectiva” na Alemanha, e a Société Française de la Photographie em Paris. 

A exposição Fotoclubismo é apresentada em duas partes complementares e entrelaçadas nas galerias: a monográfica e a temática. Cada uma das seis secções da mostra tem uma apresentação monográfica de um fotógrafo, como Geraldo De Barros, German Lorca, Gertrudes Altschul, José Yalenti, Marcel Giró e Thomaz Farkas. Essas secções começam e terminam com agrupamentos temáticos que sugerem a amplitude da comunidade fotográfica actuante em São Paulo naquela época e oferecem um contexto adicional das realizações individuais. Cada tema foi extraído dos Concursos Internos mensais realizados no FCCB, que levavam os sócios a fazer registos sobre um determinado tema, muitas vezes premiando o vencedor com reproduções de página inteira ou na capa do Boletim. 

A exposição é acompanhada por um catálogo ricamente ilustrado, apresentando pela primeira vez a fotografia modernista brasileira a um público internacional; desta forma, colocando essas realizações no cenário mais amplo da arte contemporânea do Brasil e numa rede dinâmica de fotógrafos globais, e oferecendo uma nova visão sobre o status do fotógrafo amador no período pós-guerra. 

As experimentações na arte vanguardista não apenas incluíam o uso da imagem fotográfica como elemento das suas obras como também na construção de novas poéticas da fotografia pura. Esse foi um movimento simultâneo em várias partes do Brasil, que procurou explorar as potencialidades do meio fotográfico – assim como foi feito nas várias artes. A questão das inevitáveis escolhas do operador foram ficando gradualmente mais claras e a fotografia pôde privilegiar-se de um reconhecimento mais amplo da sua vocação para a expressão artística. Independente do material, o homem sempre trabalha com escolhas e signos que se tornam marcas deixadas nas suas criações. Então, a máquina fotográfica, símbolo da uma nova era para a humanidade, deixou de ser vista com ingenuidade e foi admitida no círculo da criação pela imaginação e da tradução do visível.