Família Palmela I Um leilão marcante

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Fachada principal da Quinta da Serra

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D. Manuel de Souza Holdstain Back, Conde da Póvoa

Salão principal

Tapeçaria francesa

Sala de jantar

Mesa com pratos de Nuremberga

RETRATO DE D. PEDRO IV John Simpson Atribb. (1782-1847)

Retrato de Duprá

Pormenor de uma sala

O leilão da Veritas, ocorrido nos últimos dias, dispersou a colecção de D. Manuel Souza Holstein Beck, Conde da Povoa.

 

O aristocrata, um dos 11 filhos do V Duques de Palmela, herdou um vultuoso património artístico que enriqueceu ao longo de décadas.

 

A colecção espalhada entre as casas de Lisboa e da Arrábida compunha-se de largas milhares de obras.

O Conde da Póvoa desapareceu em 2011. Nos anos seguintes a viúva e os três vendem filhos, venderam na Leiloeira Palácio do Correio-Velho, grande parte do acervo da casa de Lisboa.

 

Uma parte da baixela da Casa Palmela, executada por Paul Storr, foi leiloada em Londres, enquanto as tapeçarias foram transaccionadas em Paris.

 

O actual leilão é constituído pelo recheio da Quinta da Serra, na Arrábida, casa de campo de D. Manuel de Souza Holstein.

 

Os 1500 lotes refletem um tradicional gosto conservador e uma invulgar modernidade.

 

A Quinta da Serra tem maioritariamente obras de arte provenientes dos palácios do Rato e do Calhariz e compras em leilões e antiquários, bem como conjuntos de pinturas e esculturas adquiridas nas últimas décadas a artistas e galerias de Lisboa.

   

Morgadio do Calhariz   

O Morgado do Calhariz, onde enraizou a família Palmela, uma das mais poderosas do reino, foi instituído em 1491 pelo casamento de D. Filipe de Souza com D. Filipa da Silva.

 

Ao longo dos séculos os morgados do Calhariz foram-se unindo às principais casas nobres do País, desempenhando importantes lugares na corte.

Com D. Pedro Souza Holstein Beck é instituída, em 1833, a Sereníssima Casa Palmela, enriquecida com bens adquiridos ao Estado (provenientes das casas conventuais extintas), bem como com o casamento do filho, Domingos Souza Holstein, com Maria Luísa Teixeira de Sampaio, filha e herdeira do Conde da Póvoa, grande capitalista da época.

 

As propriedades passam a espalhar-se por 69 concelhos. Os seus bens totalizam cerca de 25 mil hectares, diversos palácios e inúmeras casas urbanas e rústicas, e uma grande colecção de arte.

 

Os Palmelas tornaram-se detentores da maior fortuna do século XIX.

 

Festas sumptuosas

Enquanto a maioria dos nobres caminham para a ruína, eles mantêm um lugar único na sociedade.

 

A sua vivência quotidiana, animada por festas sumptuosas, suplanta a da própria casa-real, afectada por inúmeras dificuldades económicas.

 

Notável coleccionador de arte, D. Pedro recheia as suas residências de vasos gregos clássicos, de terracotas chinesas, de pinturas primitivas portuguesas e europeias, de esculturas italianas, de móveis portugueses, franceses e ingleses, de pratas inglesas e francesas, de Companhia das Índias, de faianças da Fabrica do Rato, de esmaltes de Limoges, de tapeçarias flamengas, tudo de incalculável valor. Destacavam-se quadros de Rembrandt e Leonardo da Vinci que especialistas, no século XX, revelaram não ser originais mas obras de discípulos daqueles mestres.

 

A sua neta, D. Maria Luísa de Souza Holstein Beck (1841-1909), 3ª Duquesa de Palmela, foi uma escultora e ceramista de mérito.

 

D. Maria Luísa notabiliza-se pelo apoio aos pobres (funda, por exemplo, cozinhas económicas) e pelas recepções oferecidas no Palácio do Rato, em Lisboa. Adquire em Roma importantes obras de Domingos Sequeira e patrocina diversos artistas nacionais.

         

O fim do apogeu

O seu neto Domingos de Souza Holstein Beck (1897-1969), 5º Duque de Palmela, 18º Morgado de Calhariz e Conde de Sanfre, entre outros 14º títulos, afirma-se uma figura importante da sociedade portuguesa do século XX desempenhando cargos de liderança do Ministério dos Negócios Estrangeiros como embaixador em Londres, de governador do Banco de Portugal e de administrador da Fundação Gulbenkian. Representa o nosso País em acontecimentos de grande importância, caso da independência do Paquistão.

 

Secundado pela mulher, Maria do Carmo Pinheiro de Mello (1897-1986), filha do Conde de Arnoso, consegue manter, e em alguns casos reforçar (adquire inúmeras obras de arte em Londres) o património herdado.

     

Divisões e partilhas

Com o seu desaparecimento, em 1969, os bens são divididos entre a mulher e os 11 filhos.

 

Os anos seguintes mostram-se complexos. Após a revolução de 1974, a biblioteca é discretamente vendida a uma universidade americana e grande parte da baixela de Paul Storr vê-se leiloada em Genebra no Hotel Richemond.

 

Os palácios de Cascais e de Lisboa foram vendidos ao Estado. Neles funcionaram, respectivamente, o Tribunal de Cascais e a Procuradoria-Geral da Republica.

 

A duquesa passou a habitar a Quinta do Calhariz onde preservou pinturas de Sequeira, Ribera, Carolus Duran, Kaufman, Duprat, mobiliário D. José, D. João V e império, tapeçarias flamengas, pratas e cristais ingleses, terracotas e porcelanas chinesas. Desaparece nesse ambiente requintado em 1986.

 

No ano seguinte acontecem novas partilhas entre os 11 herdeiros.

 

Durante as últimas décadas parte da colecção Palmela tem vindo a ser transaccionada. Quase todos os ramos da família têm encaminhado para o mercado, português e europeu, um acervo secular. O Estado adquiriu algumas obras para os museus de Arte Antiga, Nacional de Arqueologia e o Arquivo da Torre do Tombo. A Fundação da Casa de Bragança, comprou, por sua vez, pinturas, móveis, esculturas e porcelanas da China de grande valor.

        

Quinta da Serra

A Quinta da Serra foi adquirida no início de 1800 por Henrique Teixeira de Sampaio, I Conde da Póvoa. O empresário mandou construir um vasto solar destinado a residência de campo. Com o seu desaparecimento a quinta ficou a cargo de feitores.

 

O seu tretraneto, D. Manuel de Souza Holstein, acaba por herdá-la, tornando-a uma casa de férias. Em 2000 são efectuadas grandes obras. Na ala esquerda são criadas oito suítes; na central, os salões, enquanto a ala direita degradada aguarda por restauro que nunca aconteceu.

 

As obras de arte ocupavam todos os espaços. O grande corredor assemelhava-se a uma galeria de pintura, enquanto os salões tinham um ambiente vivido.

 

A colecção de pintura portuguesa e europeia é vasta e eclética, cobre um período desde o século XVI ao XX, como obras de Jean Ranc (atribuído), Andrea Del Sarto (circulo), Duprá, Pillement e Jonh Simpson. Sobressaem os retratos de família e da Casa de Bragança, as pinturas religiosas e as naturezas – mortas.

 

Na arte moderna e contemporânea destacam-se pinturas de Cristino da Silva, Souza Pinto, Alves Cardoso, Túlio Vitorino, Almada, Júlio Resende, Escada, Costa Pinheiro, Carlos Botelho, João Vieira, José de Guimarães, Nadir Afonso, Cargaleiro, Cesariny, Cruzeiro Seixas e Sófia Areal.

 

Na escultura sobressaem Teixeira Lopes, III Duquesa de Palmela, Canto da Maia, Calmels e Soares dos Reis com “A artista na Infância”, obra-prima do artista, em mármore, datada de 1877.

 

Na arte sacra evidenciam-se duas esculturas, uma Nossa Senhora da Conceição, seiscentista, proveniente da capela da Quinta de El Carmen, e um Santo em terracota, século XVII, outrora no Convento da Arrábida, bem como um conjunto de ex-votos.

 

O núcleo de obras sobre papel revela-se uma surpresa, dada a pouca valorização entre nós, com peças assinadas por Pedro Alexandrino, Sequeira, José António Correia, António Manuel da Fonseca, Bordalo Pinheiro, Lupi, Visconde de Meneses, D. Carlos, Roque Gameiro, Lazlo, Bernardo Marques, Pavia, Mily Possoz, Francis Smith, Vespeira, Costa Pinto e Pedro Leitão.

 

As artes decorativas exemplificam o gosto das casas nobres portuguesas, onde predominam móveis dos séculos XVII ao XX, porcelanas da Companhia das Índias, têxteis com tapetes orientais e uma grande tapeçaria francesa do século XVIII. O acervo, quase 1500 lotes, tem, ainda,  gravuras, fotografias, cristais, jóias, pratas e objectos de vitrina como miniaturas e condecorações.

 

Escultura de Canova

Numa atitude filantrópica, o Conde da Póvoa ofereceu parte do  guarda-roupa oitocentista da Casa Palmela ao Museu do Traje. A biblioteca do Convento da Arrábida, vendido em 1990, passou para a Fundação Oriente, e o imponente jazigo da família (um dos maiores da Europa) foi doado ao município de Lisboa. No seu interior, no Cemitério dos Prazeres, preserva-se um baixo-relevo representando uma mulher a chorar sobre o busto de um homem, da autoria de celébre escultor António Canova. Trata-se de uma obra de grande expressividade e beleza, executada em mármore de Carrara, avaliada em dois milhões de euros.

 

A colecção da Quinta da Serra reflecte um gosto esclarecido e criterioso, um espírito conservador e moderno, não muito habitual entre nós. O leilão marca o epílogo da Casa Póvoa, primeiro transacionam-se as obras de arte, depois as quintas e casas, uma dinâmica comum entre as grandes casas de Portugal assentes numa problemática agricultura e algum decadente património urbano.

TOPS NO LEILÃO

Retrato de D. Pedro IV, John Simpson. Proveniência colecção Palmela, apartamento da V Duquesa, Lisboa

 

Retrato do infante D. Francisco, Duprá. Quinta do Calhariz, Sesimbra

 

São Miguel Arcanjo, círculo de Andrea Del Sarto. Prov. Princesa Maria Ana Leopoldina Von Schleswig-Holstein Beck, avó do I Duque de Palmela

 

O artista na infância, escultura de Soares dos Reis. Original em mármore, 1877. Col. III Duquesa de Palmela

 

Tapeçaria francesa do século XVIII. Leilão Drout

 

Lustre em cristal irlandês. Col. Duque de Newcastle, palácios do Rato e Calhariz por aquisição do V Duque

 

15 cadeiras D. Maria. Palácio do Rato

 

Grande tapeçaria francesa setecentista

 

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, século XVII. Proveniência Quinta de El Carmen, Arrábida

 

Santo em terracota, século XVII. Prov. Convento da Arrábida

 

Seis ex-votos do Convento da Arrábida

 

Diógenes, escultura da III Duquesa de Palmela

 

Pormenor de sala

 

Par de consolas, cerca de 1750, Europa

 

António Brás