Ilda Aleixo I A última despedida aos 100 Anos

                                                

Durante quatro décadas, Ilda Aleixo foi a autora dos vestidos que Amália usou em palco. Rapidamente as duas estabeleceram uma fortíssima e discreta amizade.

 

A costureira de Amália comemorou a 6 de Março os 100 anos. Encontrava-se bem de saúde, muito autónoma e independente. Todos os dias acordava cedo, arranjava-se sozinha e tratava dos seus assuntos.

Lúcida e atenta comentava com ironia; “Um dia vou ficar “tan-tan” e pronto, acabou-se. O que eu acho é que daqui a alguns anos ficarei sem saber o que é existir e pronto, acabou”.

O segredo para o centenário era simples; “Sempre tive muito cuidado com a alimentação. Embora goste do cheiro a café, não bebo. Nem café, nem leite. Só bebo chá. Evito os doces e as comidas fortes”.

Os anos correram serenos. Uma vida muito cheia. Trabalhou desde jovem em ateliers de alta-costura, passou uns anos em Angola, um casamento longo que nas suas palavras; “Não teve muito resultado, mas até o meu marido morrer tratei muito dele”.

Os filhos, netos e bisnetos eram o seu orgulho. A morte do filho adoptivo, ocorrida em 2016 na Suíça, foi um enorme desgosto. Restavam a filha, professora catedrática, o filho, arquitecto, oito netos e inúmeros bisnetos.

Em 2016, Ilda Aleixou abandonou a casa da filha em São João do Estoril e fixou-se em Sinde, nos arredores de Oliveira do Hospital. Tinha 95 anos. Vivia numa moradia, luminosa e confortável, em pleno campo. Este campo seria pouco depois devorado por um terrível incêndio. A costureira abandonou a casa em plena noite ante as chamas. Dois anos depois entrou, por vontade própria, na Sant`Ana Residência Sénior.

A costureira de Amália afirmava não ter grandes sonhos. Gostava de ler e de aprender. Apreciava especialmente Stefan Zweig “Eu sempre gostei muito de ler. Lia tudo e mais alguma coisa. Isso instruiu-me bastante. Li muito, mesmo muito, e isso fez-me muito bem”.

Em Abril passado, Ilda Aleixo deu uma queda, partiu o colo do fémur, e foi internada nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Transferida para o Hospital dos Covões o seu estado agravou-se devido a uma bactéria.

Em Maio regressou ao lar, instalaram-na na enfermaria dado necessitar de cuidados permanentes. Começou uma longa e dolorosa despedida. Da última vez que falamos, Ilda Aleixo disse, numa voz dorida, que “estava muito doente”. Perdera a vontade de seguir os dias. Partiu na manhã de 3 de Agosto.

Confeccionou 200 vestidos

A magia que a fadista emanava no palco era evidenciada por vestidos longos, quase sempre pretos, produtos de alta-costura e de excelentes tecidos (musselinas, sedas e organzas) adquiridos quer em Portugal, na Casa Souza, no Chiado, ou na Itália e França.

Amália tinha, como se sabe, uma presença única no meio do fado. Todas as inovações que ela introduziu foram cuidadosamente estudadas e encenadas. Pode dizer-se que se auto-criou expoente máximo de um género único no mundo. A fadista impôs o preto como cor oficial do fado, e o vestido comprido como modelo da sua essência, revolucionando-o, engrandecendo-o, universalizando-o.

Por detrás dessas transformações esteve Ilda Aleixo. “Conhecia-a na casa de Anna Maravilhas, por onde a alta sociedade passava invariavelmente. Amália frequentava-a e eu era a mestra do atelier. Nessa época fiz-lhe o primeiro vestido, que usou no Teatro Olímpia de Paris”, revelou-nos Ilda Aleixo com a serenidade dos seus 94 anos.

A fadista, a partir desse momento, tornou-se assídua da referida casa de costura. Ilda Aleixo fez-lhe mais de 200 vestidos, alguns dos quais estão na colecção do Museu Nacional do Teatro.

No dia-a-dia, Amália vestia qualquer coisa. Ilda Alexo confeccionou-lhe diversos vestidos de rua e de jantar.

Passados sete anos, abriu o seu próprio atelier e Amália acompanhou-a. “Primeiro vinha a minha casa, no Estoril, depois passei eu ir a casa dela em São Bento”, destaca. “Geralmente as provas duravam uma hora, mas tanto podiam ser às três da tarde, como às três da manhã, dependia da sua disposição”.

Os tecidos eram de excelente qualidade e o corte clássico.

Quando fez 50 anos de carreira, em 1989, havia 18 pessoas a dar-lhe opiniões. “Felizmente a minha opinião prevaleceu”. Amália usou na primeira parte um deslumbrante modelo em brocado preto, na segunda um vestido e seda preta com um pequeno casaco de veludo, com gola de raposa, a condizer, e na terceira parte uma “duchesse” vermelha, saia e blusa de cetim e uma écharpe de seda com grandes franjas.

“Existe apenas um vestido vermelho e verde por concluir. Foi o único que ficou incompleto. Cheguei a fazer-lhe um traje todo branco para receber a condecoração atribuída em 1990 por Mário Soares. Ao vê-lo exclamou-me: vão dizer que sou uma noiva, e nunca o usou”.

Ao longo dos anos, os estilos alteraram-se subtilmente. Os folhos foram desaparecendo e os xailes viram-se substituídos por elegantes écharpes. “Um problema era o da sua baixa estatura: apenas um metro e 57 centímetros. Para disfarçar, usava, em palco, sapatos de saltos altíssimos que não se viam devido ao comprimento dos vestidos”, destacou Ilda Aleixo.

 

Último vestido em 1999

O último vestido feito pela costureira foi um preto de noite, usado por Amália em Maio de 1999 numa homenagem que a Cinemateca de Paris lhe prestou.

“No sábado anterior à sua morte, Amália fez-me a surpresa de um jantar no Brejão, oferendo-me um dedal de ouro, dizendo-me; Isto é pelas dedaladas que tem dado`, sublinhou Ilda Aleixo.

Cinco meses depois, Amália era amortalhada num impressionante conjunto de cena, estreado nos anos 80 em Toquio, com 53 metros de folhos em musseline preta.

“Na sua casa havia, permanentemente, cerca de 30 vestidos prontos a serem usados a qualquer momento. Nunca os repetia nas mesmas localidades, para não dar um ar de decadência – o que a horrorizava. Fazia-se acompanhar, para cada espetáculo, de três colecções, apesar de usar apenas dois. Um funcionava como reserva”, contou Ilda Aleixo.

O guarda-roupa de cena era transportado em malas especiais, embrulhado em fino papel de seda. Ela chegava sempre aos teatros onde actuava com horas de antecedência. Ficava no camarim e supervisionava o arranjar das roupas e adereços.

Em São Bento as provas decorriam no quarto de vestir, e os trajes eram confeccionados e guardados no último piso da casa. Havia o maior dos cuidados em preservá-los, como ar condicionado e manutenção permanente. Posso mesmo afirmar, como mestrando em Museologia, que esses cuidados de conservação preventiva eram como nos museus.

“Ela estava-lhes muito ligada, possuía um dos melhores guarda-roupas de cena do País”, comentou Ilda Aleixo, que ao longo de mais de 60 anos trabalhou para grandes figuras – caso da Condessa de Barcelona, dos Palmela, dos Passanha, dos Noronha, da Condessa de Galveias, de Mary Espírito Santo, entre muitas outras.

 

Miniaturas de Amália

Ao longo dos anos as minhas conversas com Ilda Aleixo foram estreitando-se. A primeira foi, em Outubro de 1999, para a revista Visão.

Um dia, acabei por lhe sugerir fazer miniaturas das roupas de Amália. Estávamos em 2002 e a ideia entusiasmou-a. Rapidamente encontrou bonecas e, com o habitual profissionalismo e entusiasmo, comprou tecidos de grande qualidade na Casa Souza, adereços, e fez, sozinha, um conjunto de 12 miniaturas de Amália.

No ano seguinte falei desse projecto a Madalena Braz Teixeira, directora do Museu Nacional do Traje. A minha proposta de uma exposição com as miniaturas de Amália foi aceite e no Dia Mundial dos Museus de 2004 o museu encheu-se de centenas de pessoas para a inauguração da mostra “Evocar Amália; Bonecas de Ilda Aleixo”, tendo sido editado um catálogo.

Ilda Aleixo encontrou nessa maneira uma forma de homenagear, de recordar a memória de Amália. A magia que ela gerava estava contida nessas 12 obras. “Para as concretizar comprei tecidos idênticos aos originais, bem como miniaturas de joias e condecorações. As miniaturas foram, por sua vez, penteadas e maquilhadas tal como ela o fazia”, pormenorizou-nos a sua autora.

Ao longo dos anos, Ilda Aleixo fez mais de 200 vestidos de palco para Amália, hoje espalhados pelo Museu Nacional do Teatro e pela Casa-Museu Amália Rodrigues. Muitos desses vestidos têm vindo ao longo dos anos a ser apresentados em inúmeras exposições de norte a sul de Portugal, como no Museu Nacional do Teatro em 1989, no Panteão Nacional e no Museu da electricidade em 2009, no Museu do Design e da Moda em 2012.

Nesse espaço, o esplendoroso conjunto de miniaturas de Amália iluminava a sala e surpreendia o público. O sortilégio que ela gerava estava contido nessas 12 obras.

Ilda Aleixo encontrava uma nova forma de homenagear, de recordar a memória de Amália.

 

Livro Vestir Amália

Em 2015, Ilda Aleixo lançou o fantástico livro “Amália em palco”, uma edição de autor, com fotografias de actuações de Amália pelo mundo, sempre vestida por Ilda Aleixo.

A publicação tem textos de Fernando Dacosta, Nuno Vieira de Almeida, Madalena Braz Teixeira, Vítor Pavão dos Santos e António Brás.

Ao lançamento, na Casa do Artista por amável cedência da actriz Manuela Maria, ocorreu uma multidão que testemunhou todo o carinho, amizade e admiração por Ilda Aleixo.

A costureira da Diva do Fado agradeceu reconhecida e sublinhou que o livro era uma prova de gratidão a Amália.

No final de 2015 a minha querida amiga, Marionela Gusmão, convidou-me para entrevistar Ilda Aleixo para a excelente revista Moda & Moda. Eu acedi de imediato. Eu nem sonhava que era o princípio de uma fortíssima colaboração com essa publicação.

A entrevista ocorreu num dia encalorado na casa de Ilda Aleixo na Alapraia, São João do Estoril, e como sempre a Senhora dizia que eu era mais um neto.

A sessão fotográfica, naturalmente longa com o grande talento de José Luís Teixeira, decorreu nesse Verão, encenando-se uma mostra de algumas miniaturas que a costureira tão dedicadamente executara.

Quando a revista Moda&Moda saiu, no frio mês de Dezembro, eu levei-lhe imediatamente uns exemplares. A antiga costureira ficou emocionada.

 

 

 

Entrevista a Ilda Aleixo publicada na revista Moda&Moda de Dezembro de 2015

 

AB: Como era a vida nos últimos tempos de Amália Rodrigues?

IA: De uma forma geral, era calma. Dois anos antes de falecer, confessou-nos a mim e a um grupo de amigos: “Vocês não acreditam, mas eu estou muito doente, vão ver…”. Pensámos que exagerava. Os exames e as análises que tinha efectuado em Julho de 1999, nos Estados Unidos, revelaram que a doença estava controlada,

AB: Esse desabafo foi em Lisboa?

IA: Não, foi no Alentejo, Amália gostava muito do Brejão, mas tinha receio de sentir-se mal. O marido morreu lá.

Passámos onze dias na pequena quinta, com amigos franceses e portugueses. Viemos para Lisboa ao anoitecer, parou-se para jantar no caminho e ela respondeu: “Vão vocês, eu fico no carro. Acabei de tomar chá não tenho vontade de comer”. Convencemo-la a ir ao restaurante. Mal se sentou, sentiu-se mal. Viemos logo para Lisboa e chegámos às onze e meia. A enfermeira estava em São Bento, viu-a, mediu-lhe a tensão, estava tudo bem. Deitou-se e eu perguntei-lhe se estava melhor. Respondeu: “Estou mais descansada”. Dei-lhe os medicamentos habituais e ela adormeceu. Normalmente dormia alguém na sala ao lado do quarto. Nessa noite, fiquei eu.

AB: Foi a senhora que a encontrou na manhã seguinte?

IA: Acordei às sete e quarenta minutos. Fui ao quarto e não a vi na cama. Entrei na casa de banho anexa ao quarto: estava desmaiada, caída de lado. Tinha o lado direito do rosto negro, pensei que tivesse tido algum derrame. Chamámos os médicos que tentaram reanimá-la durante meia hora, mas sem resultado.

AB: Ela continuava a ter a existência de sempre?

IA: Ultimamente não. Perdera a vontade de sair, de se divertir. Tínhamos que insistir para o fazer. Quando não estava na cama, passava o tempo na sala. Gostava de conviver de falar. E de escrever. Escrevia muito, deixou ficar inúmeros poemas inéditos. Alguns são de críticas a certas pessoas, muito engraçados.

AB: Como era o dia-a-dia?

IA: Anteriormente nunca se deitava antes das duas da manhã.

Em 1999 começou, porém, a sentir-se muito cansada. Deitava-se à meia-noite. Antes acordava pelas duas da tarde, mas depois passou a acordar pelas dez horas, tomava o pequeno-almoço na cama, constituído por chá, pão com queijo e vitaminas. A seguir via qualquer coisa na televisão e adormecia até mais tarde. Acordava por volta da uma hora, e arranjava-se. Às vezes descia para almoçar, de roupão. Se acordava cedo, comia na cozinha, com o pessoal. Durante a tarde, ia dar uma volta para Monsanto, para a zona da carreira de tiro. Cheguei a ir com ela, às dez da noite, para lá. Ao ver-me assustada, dizia: “Ninguém nos faz mal”. O carro ia sempre atrás. A natureza, as flores fascinavam-na. Uma vez foi apanhada pelo guarda-florestal a apanhar flores. Ele disse-lhe: “Oh, Senhora Dona Amália!” e nada mais. Ela começou a rir-se e respondeu: “Vocês ainda deviam agradecer-me por eu limpar as bermas dos caminhos”. As flores acabavam num jarrão da sala.

AB: Preferia comer fora ou em casa?

IA: Em casa. Gostava muito de sardinhas assadas com os respectivos condimentos; carapaus de escabeche, angulas e pão com queijo e chá. Nas recepções oficiais, fingia que comia. Nunca apreciou vinho, nem outras bebidas alcólicas, apesar da fama que lhe puseram.

AB: Viviam muitas pessoas com ela?

IA: Amália não aguentava estar sozinha. Havia a enfermeira Maria Cortizo, que dormia lá quando a senhora estava doente; a Eugénia, que fazia compras e cozinhava, e também o marido e a filha; a Leonilde, sua secretária, que lhe tratava das questões administrativas e guiava a carrinha, a Maria Antónia, que fazia o trabalho doméstico, mas não dormia. Ultimamente, havia também a Giselle, uma amiga francesa.

AB: E a família aparecia?

IA: Tinha o irmão Vicente, de 84 anos, ex-empregado numa firma de cafés, que a visitava semanalmente com a mulher Filipina. Os sobrinhos também apareciam. A Celeste, que vivia nos Estados Unidos, só vinha a Portugal anualmente.

A irmã Odete, já falecida, vivia na Irlanda com o marido e dois filhos, não vinha a Portugal há 10 anos. O outro irmão já havia desaparecido.

AB: Era fácil o seu convívio?

IA: Muito! Tinha um charme magnético que captava a amizade de quem a via. Foi sempre assim. No sábado anterior à sua morte, Amália fez uma pequena festa em minha honra, no Brejão, e ofereceu-me um dedal de ouro e disse-me: “Isto é pelas dedaladas que lhe tenho dado”.

AB: De que vivia Amália?

IA: Recebia os direitos de autor e os rendimentos do dinheiro aplicado. Tinha o palacete de São Bento, assim como um prédio na Rua Presidente Wilson, que lhe rendia 12 contos mensais. Nos últimos anos vendeu dois andares aos inquilinos. Tinha a quinta do Brejão, mas essa só dava despesa, pensou mesmo vendê-la por um milhão de euros. Do Estado recebia uma pensão de 1000 euros.

AB: Amália tinha grande preocupação com a preservação da suas casas?

IA: Sem dúvida. Uns anos antes de morrer visitámos a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco. Ao chegar a São Bento, disse-me: “Um dia tudo isto se vai desfazer, um leva uma coisa, outro outra coisa”. Eu ouvi-a e disse-lhe: “Porque não deixa disposições para a casa se tornar um museu?”. Quando ela comprou o imóvel, em 1953, era um prédío de rendimento. Fez obras e transformou-o num palacete. Adquiriu azulejos pombalinos para completar os existentes, a sala de jantar foi engrandecida com frescos de José Bazaliza, o salão resultou de duas salas, abriu uma escada interior marmoreada.

AB: A decoração era muito cuidada, um certo gosto aristocrático?

Sim. Na decoração utilizou mobiliário português, inglês e italiano dos séculos XVIII e XIX, Companhias das Índias, pintura flamenga, holandesa, Suíça e francesa, carpetes persas e de Arraiolos, diversos óleos e imagens religiosas antigas. O fundador do Museu de Caramulo, Abel de Lacerda, ofereceu-lhe duas magníficas cómodas setecentistas, Anahory um crucifixo em marfim, uma admiradora anónima (idosa) um oratório português do século XVII. Os retratos de Amália imponham-se. Ela foi retratada por Eduardo Malta, Pedro Leitão, Jacinto Luís, Maluda e Luís Pinto Coelho. Neste usava o vestido estreado no Coliseu aquando dos 50 anos de carreira. O retrato era para ser emendando nos lábios, mas o artista morreu.

AB: E a casa do Brejão?

IA: Havia duas casas, uma típica, outra de Conceição e Silva, onde colaborou Taveira. Esta era uma casa ampla e luminosa, com vista soberba, sobre uma falésia. A decoração moderna e confortável, era pontuada por pinturas de Jacinto Luís e Vespeira e por vidros de Murano.

AB: Passaram 15 anos da morte Amália…

IA: Amália Rodrigues é imortal. Será sempre o expoente máximo do fado. Daí este meu livro “Vestir Amália”, produto de muita amizade por Amália, ser uma maneira de a homenagear.

 

António Brás