Educação I A grande ausente da campanha

Eleitor

Como um tornado estranho e confuso, a pré-campanha e campanha eleitoral seguiu o seu curso em velocidade de cruzeiro e confirmou o que já se suspeitava: sobre Educação, parece não haver nada a dizer. E este volumoso “Nada” é um soco na alma de um povo e no coração de uma nação. Falar sobre a Educação é traçar as linhas estruturantes e fundadoras do futuro. Apenas e tão somente é afirmar que o presente importa porque dele se constrói o horizonte.

A Educação pode ter faltado na campanha, mas os actores políticos não se furtam, quando confrontados diante um microfone, a alinhavar, sobre a Escola Pública, umas frases apologéticas sobre a sua vital importância, da relevância do investimento do Estado na Educação e um eloquente elogio aos professores. As palavras são importantes, sem dúvida, mas necessitam que os actos as acompanhem porque sozinhas não erguem escolas e sem consequências de pouco servem. Lamentavelmente nem com palavras a Escola Pública foi lembrada nos inúmeros “debates” contra-relógio que aconteceram.

Foi sobretudo os acordos partidários, as jogadas no xadrez político no após eleições o grande tema que marcou a agenda das entrevistas/debates e a preocupação dominante destes que, em regra, assim se iniciaram. Debates que evidenciaram um retrocesso civilizacional lamentável porque é confrangedor quando se humilha, ignorando-o, o espaço sagrado da construção do conhecimento. Ficámos sem saber que projecto educativo cada força partidária possui, o que para cada uma é prioritário que a Escola seja, que novo desenho curricular defendem, que grau de plasticidade na sua gestão, se repudiam facilitismos, demagogia, labirintos burocráticos complexos e viabilizadores de falsos resultados, ou os apoiam, se preconizam uma nova organização interna, se se comprometem na devolução de dignidade aos profissionais de forma a atrair os melhores. Ficámos sem saber o que cada interveniente entende por rigor e por exigência. Que padrões culturais se defendem e qual o papel que consagram ao ensino artístico.

Os debates mostraram o quanto nos separa dos sábios antigos que traçaram e fundaram as primeiras escolas onde se produzia pensamento, se reflectia sobre a dimensão do Homem e do mundo procurando respostas, alimentando a curiosidade, alargando o conhecimento, contribuindo para a evolução Humana. Escolas cujo fundamento a Europa iria recuperar a partir do Renascimento. mas que já há muito se tornou uma miragem.

Quem é professor há mais de 3 décadas sente de forma brutal a regressão, a vários níveis, nas competências dos alunos. Já aqui abordámos a questão da autonomia cada vez mais débil. Hoje, os alunos chegam ao 3º ciclo a reclamar quando têm 3 momentos de avaliação numa semana, a pedir “quais as páginas do manual para estudarem”, a exigir (desde o 2º ciclo) que antes dos testes se divulguem matrizes que nem sabem o que é apenas porque o que desejam é que se lhes diga de forma muito, mas mesmo muito concreta que questões vão ser colocadas. Os alunos de hoje, e ao contrário do que falsamente se diz, não substituíram competências antigas por actuais no mundo digital. Os professores de TIC (Técnicas de computação e informática) que o digam desesperados com a incapacidade dos discentes em simples tarefas como formatação.

Mas o que a Escola hoje é, resulta de uma capitulação ao primado politico de estatísticas glamorosas, é, afinal, produto da adopção do modelo de gestão empresarial/fabril.

As reuniões pedagógicas de hoje mais não são que leituras de gráficos, sinalização de percentagens de sucesso, sem se deterem no que este conceito na realidade significa. São recriações das que podemos encontrar em qualquer sala de uma empresa comercial onde se exigem compromissos de melhorias percentuais, custe o que custar.

O desinvestimento na Educação séria e significativa, já está a ter custos elevados e nada de apaziguador se espera no futuro se o caminho da automação humana continuar.

 

Paula Timóteo