Educação I Garantir a veracidade das avaliações

Ambiente de Trabalho Seguro

Novembro é o mês que se veste de sombras e cheiros Outonais. Entre castanhas, dias de sol ameno e árvores que se despem, o tempo parece mais célere com as noites a chegarem cada vez mais cedo. Rapidamente damos por nós a entrar em Dezembro, mês natalício e com sabor a férias escolares. 

Para pais professores e alunos, Novembro é também o mês da 2ª ronda de testes que sendo momentos de avaliação formal se têm vindo a esvaziar de seriedade e significado à medida que a Escola Pública se vai transformando numa realidade estranha onde o que importa é sobretudo números redondos e simpáticos, a subjugação a um verdadeiro “império da estatística”, termo usado por Santana Castilho e que bem reflecte os tempos actuais. Trabalhar para gráficos bondosos passou a ser o foco da agenda política e das direcções das escolas numa insana colagem com os paradigmas empresariais de qualquer dono de fábrica. Por todos os motivos, hoje, talvez mais que nunca, é um tempo que precisa de uma atitude exigente e lúcida por parte dos pais. Hoje, talvez mais que nunca, os pais terão que dizer aos seus filhos para não confiarem plenamente nos bons resultados que, eventualmente, possam surgir no topo de um teste ou na pauta, precisam sentar-se com os filhos e reflectir com seriedade e objectividade sobre o percurso escolar da semana, do mês, do período. Hoje, talvez mais que nunca, os pais precisam de exigir da Escola mais rigor, menos tolerância com a ignorância e com a falta de competência e saber.

Para os professores a primeira quinzena de Dezembro, antes das férias escolares do Natal, são dias intensos em que transitam entre a teia kafkiana de grelhas, plataformas e relatórios para preencher e a pressão no cumprimento de planificações que por norma custam a obedecer a calendários que se tornam por vezes absurdamente rígidos. E tudo, todo o processo insano de preparação das avaliações de final de período culmina em Conselhos de Turma de Avaliação onde pouco ou nada se analisa e se aprofunda e onde o que importa é verificar quadros e colunas e embelezar resultados.

Numa época em que a narrativa institucional repete à náusea conceitos como flexibilização, autonomia, inclusão, sucesso nunca se viveu com tanta escassez de tudo o que as palavras mencionadas significam. A flexibilização é um eufemismo de laxismo, a autonomia só é possível se ela determinar avaliações inflacionadas, a inclusão é o grande argumento para não se criarem respostas adequadas a situações complexas e específicas e o sucesso revela-se em gráficos que ocultam a realidade e maquilham a verdade dos números. 

Todos os conceitos bramidos como bandeiras inquestionavelmente benévolas significam apenas caucionar um ensino público que continua numa queda dramática de qualidade. A gratuidade do ensino prevista na Constituição portuguesa e que ainda não se concretizou, não pode significar menos ensino e pior ensino. E a realidade não pode permanecer ocultada com a panaceia das transições sem critério. Sobre a gravíssima crise vivida na Educação o muito que existe para dizer é proporcional ao estrondoso silêncio que impera por parte dos agentes políticos e da sociedade em geral, salvo honradas excepções.

Esta semana no Público Maria do Carmo Vieira, docente aposentada do Ensino Secundário de Português e cofundadora, em 2015, da Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT) escreveu um artigo de opinião sobre os diversos absurdos que pululam a sociedade portuguesa focando-se com especial detalhe no que acontece no ensino. E lança uma questão vital que tem estado implícita ao longo dos vários artigos aqui publicados: “Afinal, que papel será o da Escola Pública, senão o de garantir boas condições e qualidade de ensino para todos(?)”. 

Importa dizer que quando falamos de qualidade de ensino falamos não apenas do saber pedagógico e académico por parte dos professores, mas também da garantia de condições favoráveis para o processo de ensino/aprendizagem a par de um sistema avaliativo dos alunos que não seja uma anedota de péssimo gosto. Sobre esta questão diz ainda a professora Maria do Carmo Vieira que “sem investimento financeiro e professores motivados” a qualidade do ensino não se realizará. Sem dúvida. As escolas precisam de espaços físicos adequados, climatizados, com condições de gestão da luminosidade, de laboratórios (o que existe na esmagadora maioria das escolas do básico e secundário é constrangedor e ridículo), de salas próprias à leccionação de disciplinas específicas como Educação Musical, Educação Tecnológica, Educação Visual e Educação Física, boas bibliotecas, de professores respeitados e bem remunerados (a remuneração dos professores é indigna e insultuosa) de alunos verdadeiramente apoiados e pais com direitos laborais respeitados para que melhor consigam cumprir com o seu dever de regulação parental.

Enquanto o sistema de ensino se debate com esta espécie de sucedâneo de Escola Pública, sob o signo da política de fachada, vão-se produzindo diplomas em catadupa para legitimar transições a alunos sem competências básicas. A fórmula encontrada pelos sucessivos governos de varrer para debaixo do tapete tristes e preocupantes realidades de um quase analfabetismo que vai grassando até ao ensino superior, vai iludindo pais e alunos que preferem o engano sem perceber as suas consequências. E a sociedade, fora dos muros mágicos das escolas, vai vivendo ludibriada com resultados publicados nas pautas verdadeiramente miraculosos. Não reprovar alunos é a panaceia barata para encobrir as escaras abertas de uma Escola doente. Empurrar alunos em direcção ao fim da escolaridade é a pastilha de cianeto que o futuro engole embrulhada no brilho hipnótico de conceitos sonantes.

Por isso, é na leitura que os pais farão dos momentos de avaliação sumativa que deve começar o apelo ao rigor e à exigência. Os pais, na sua grande maioria, e os próprios filhos, sabem bem se estão diante um elemento de avaliação credível ou, pelo contrário, de um teste elaborado de forma a oferecer de bandeja um resultado simpático.

É necessário coragem não para reivindicar a revisão dos testes com vista a melhores resultados a qualquer custo, mas para exigir a verdade porque só ela permitirá a verdadeira percepção do que falta trabalhar e saber. Sem essa informação é como viver de olhos vendados. E as famílias precisam de filhos com os olhos bem abertos, ouvidos atentos e cérebros ávidos de respostas.

Paula Timóteo