Saúde I Actividade Física ou Desporto?

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“Nunca se viu tanta gente a caminhar, a correr e a andar de bicicleta!”

Quem é que ainda não ouviu este comentário ou não teve este pensamento nos últimos tempos? Se houve alguma coisa de positivo resultante da pandemia, podemos com grande convicção dizer que foi o aumento da prática de exercício físico ao ar livre. Com ginásios fechados, a saturação de se ter passado mais tempo em casa e a consciência de que um corpo saudável é menos vulnerável a contágios e tem menor risco de complicações caso adoeça, o certo é que as ruas passaram a conhecer um outro movimento, os jardins encheram-se de famílias que caminham, correm ou pedalam e os equipamentos desportivos exteriores passaram a ser mais requisitados. Há um novo cenário urbano de gente que povoa os espaços ao ar livre, adultos e crianças que brindam o desconfinamento com uma voracidade própria de quem se viu privado durante algum tempo da liberdade de saír de casa e ir aonde se desejava. De facto, nada como a privação de algo para que sintamos a sua importância vital mesmo que sejam coisas simples e rotineiras a que não damos importância nem dedicamos atenção. 

Já era consensual a convicção que a actividade física é essencial para manter corpo e mente sã. Ao longo das últimas décadas, principalmente a partir das conquistas, que tanto nos encheram de orgulho, de Carlos Lopes, Rosa Mota, Aurora Cunha, Fernando Mamede, só para mencionar alguns dos nossos melhores atletas, tem vindo a crescer um entusiasmo pelo desporto individual e uma preocupação generalizada em adoptar hábitos consistentes de maior actividade física a que se veio juntar as rotinas de exercício físico mais específico realizado em ginásios, ou fora deles, como estratégia complementar de fortalecimento muscular. Com o espectro da pandemia e a consciência do quanto pode fazer a diferença o impacto da doença num corpo mais ou menos saudável, acentuou-se a preocupação de, através da actividade física, mantermos ou conquistarmos uma maior capacidade de resistência.

Mas saberemos com exactidão os benefícios conquistados? E haverá distinção entre actividade física, exercício físico e desporto? 

 

As vantagens de uma vida activa

É do conhecimento geral que a manutenção de actividade física regular melhora significativamente a saúde física e mental. De acordo com os investigadores Sandra Matsudo e Victor Matsudo, os principais benefícios resultantes da prática de atividade física podem ser divididos em 4 níveis: antropométrico, neuromuscular, metabólico e psicológico. Os efeitos antropométricos e neuromusculares ocorrem com a diminuição da gordura corporal, o aumento da força, da massa muscular, da densidade óssea e da flexibilidade. Quanto aos efeitos metabólicos apontados pelos autores eles são visíveis no aumento do volume sistólico, da potência aeróbica e da ventilação pulmonar a par de uma diminuição da pressão arterial, melhoria da sensibilidade à insulina e diminuição da frequência cardíaca. Na vertente psicológica, os mesmos autores afirmam que a atividade física actua na melhoria da auto-estima e das funções cognitivas e de socialização. A este nível é interessante perceber que existem ainda estudos que apontam claramente para uma relação directa entre a prática de exercício físico/desporto e a estimulação do hipocampo, o centro de processamento da memória a longo prazo, havendo mesmo a registar um aumento do seu volume. Por outro lado, os ganhos alcançados com a diminuição da ansiedade tem levado a uma incontestada diminuição do consumo de fármacos. Os investigadores Dartagnan Pinto Guedes e Joana Guedes defendem ainda que a prática de exercícios físicos habituais, além de promover a saúde, influencia favoravelmente na reabilitação de determinadas patologias associadas ao aumento dos índices de morbidade e mortalidade.

 

Actividade Física, Exercício Físico e Desporto: as diferenças

Mas haverá diferença substancial entre actividade física, exercício e desporto? Por vezes falamos alternadamente destes três conceitos como se falássemos do mesmo e não é bem assim.

Por actividade física entende-se, de acordo com a definição de Carl J. Caspersen citado num artigo da universidade católica de Brasília “qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético maior do que o conseguido com os níveis de repouso”. Neste sentido, actividade física pode ser encontrada tanto na execução das tarefas diárias de casa como numa caminhada, brincar com crianças ou animais, dançar ou tocar um instrumento musical. É evidente que existem diferentes graus de actividade e cada pessoa terá que aprender a reconhecer os seus limites, mas se paramos logo que começamos a sentir os primeiros sinais de cansaço então não estamos a conseguir ter uma actividade física que nos traga ganhos substanciais porque não estamos a conseguir um gasto celórico além do que o corpo naturalmente consome. Desta forma não conquistaremos os benefícios físicos e mentais anteriormente descritos.

Já os exercícios físicos pressupõem um conjunto de acções planeadas, repetidas e orientadas com determinados objectivos. Existe uma imensidão de exercícios que visam trabalhar músculos diferenciados e diferentes partes do corpo e eles devem fazer parte da rotina de cada indivíduo independentemente da actividade física ou modalidade desportiva que se pratica e seja qual for a intensidade com que as mesmas são realizadas. Os exercícios dirigidos optimizam a capacidade aeróbica e muscular aumentam a flexibilidade e destreza motora e por isso são “receita” fundamental na nossa vida.

Quanto ao desporto, este diz respeito a uma prática continuada de uma determinada modalidade regulamentada de carácter individual ou colectiva cuja finalidade para cada indivíduo, em princípio, é o de alcançar melhores resultados ou mesmo participar em competições. A vontade de progresso está habitualmente sempre presente e por isso o espírito competitivo inerente não significa necessariamente que estejamos a “medir forças” com um adversário. Podemos apenas estar a testar os nossos limites tentando melhorar as nossas prestações. 

Praticar um desporto significa vivenciarmos uma experiência evolutiva alimentada pelo desejo de fazer sempre mais e melhor resistindo à preguiça e inércia de muitos dias em que não apetece largar o sofá. Em todo o caso, e tal como numa actividade física mais frugal, também a prática desportiva não pode descurar a execução de exercícios físicos com vista a um melhor desempenho aeróbico e optimização muscular.

Posto isto, é importante que cada um opte pela melhor opção de rotina de vida activa e sem qualquer tipo de recriminação ou desistência por não gostar de desporto. O importante é manter uma prática saudável de actividade física tenha ela um maior ou menor foco desportivo ou de intensidade e sempre adaptada à condição e limites físicos de cada pessoa. Jardinar, cozinhar, sovar a massa do pão, pintar, esculpir o barro, tocar um instrumento, brincar, dançar, fazer yoga ou caminhar, são alguns exemplos de actividades que nos podem manter saudáveis e não necessitam nem de equipamento desportivo nem representam nenhum tipo de pressão com a conquista de resultados desportivos. No entanto, seja qual for a nossa escolha não devemos esquecer que o cumprimento regular de exercícios físicos específicos, como alongamentos, reforço muscular e de equilíbrio ajudam a melhorar a plasticidade muscular e flexibilidade articular além de evitar lesões.

Com a chegada do Verão outras práticas nos seduzem como a natação além de haver um maior apelo a actividades ao ar livre. Mas o tempo quente obriga também a outro tipo de cuidados. A hidratação, antes, durante e depois do exercício é de extrema importância e não nos podemos basear apenas na sede que sentimos. Para quem não gosta de beber água ou até se sente indisposto com a sua ingestão durante a actividade desportiva, existe sempre a possibilidade de sumos ou fruta ingeridos antes e depois, ou mesmo uma sopa fresca. Porém deve ter sempre água disponível para ter a possibilidade de beber mesmo que em pequenas quantidades principalmente se for realizar uma grande caminhada. 

Escolher a roupa mais indicada ao clima, que facilite o processo de transpiração, calçado adequado e no caso de actividade no exterior, a inevitável proteção para o sol são cuidados que não devem ficar esquecidos. 

Planear uma caminhada pode ainda combinar aspectos culturais fazendo um trajecto onde se passe por lugares icónicos. 

Enfim, o Verão convida e a vontade de ter mais saúde obriga a que coloquemos na nossa agenda tempo para cuidarmos do corpo e da mente.

 

Paula Timóteo