Educação I O ME e a sua duvidosa narrativa

Tive a grande felicidade de viver o ano de 2020 longe da atmosfera opressiva vivida um pouco por toda a Europa fruto da pandemia. Longe de Portugal, num pequeno país do extremo sudeste asiático, tive a frutuosa experiência de conhecer um povo que não se deixa intimidar nem dominar pelo medo com facilidade e lidei com crianças e jovens estudantes que conjugam o verbo “trabalhar” bem mais vezes do que o “brincar” e para quem a falta de muita coisa é rotina vivida sem birras mimadas.

Convenhamos que quando se vive uma experiência de terror absoluto, testemunhando e sofrendo na pele atrocidades de uma crueldade sádica indescritíveis, a fuga desesperada para as montanhas, a fome dilacerante é muito difícil ceder psicologicamente a um vírus ou à sua estirpe. Os timorenses, porque é deles que estou a falar, sorriem como há muito não se vê aqui em Portugal. Mas não confundamos a resiliência e capacidade de gerir contrariedades, de desdramatizar o que não carece de drama, com subserviência absoluta a tudo e a todos. A capacidade de resistência ao invasor indonésio deixou provada a dignidade de um povo que não desiste. Mesmo quando a comunidade internacional virou as costas e apostou numa vitória certa do gigante, este “David” de fé inabalável em si, em Deus e nas forças mágicas da natureza, não se rendeu e lutou até à vitória.

Vem isto a propósito da overdose narrativa a propósito do impacto que o confinamento produz na saúde dos portugueses em geral e nos estudantes em particular. Bom, deve aqui ser dito que neste último confinamento nunca se sentiu nem as ruas desertas nem ninguém em reclusão absoluta a não ser os que já dela sofriam por limitações de saúde. Ao contrário tem-se testemunhado um aumento significativo de gente a caminhar, correr, andar de patins ou de bicicleta. Jovens e menos jovens, pais e avós a passear à beira rio com os filhos e netos. A andar, correr ou de bicicleta há um evidente aumento do número de pessoas em actividade física o que só pode ser saudado com satisfação. Em suma, tem havido uma reeducação positiva na forma como a população em geral passou a usar o seu tempo livre. O fecho de centros comerciais ajudou, certamente, para a descoberta dos benefícios das atividades e vida ao ar livre.

Estranhamente, nunca se ouviu falar tanto da saúde mental dos portugueses como agora parecendo que o único motivo de preocupação e frustração da população seja o facto de não ter tido uma total liberdade de circulação. Para quem tinha a possibilidade financeira de ter uma vida cultural e social muito activa, sentirá a diferença, mas convenhamos que não são esses que sofrerão verdadeiramente, nem esse facto justificará distúrbios significativos a não ser que já haja a montante algum problema. Quem vive o mês inteiro num desgastante exercício de fazer esticar o orçamento para chegar ao próximo ordenado ou quem foi empurrado para o desemprego é que terá, como sempre teve, porque a escassez financeira não é uma realidade nova, motivos sobrantes para não estar bem do ponto de vista emocional.

Mas temos assistido a um outro enredo: o que gira à volta das crianças e das consequências emocionais e de aprendizagem em consequência das semanas de escola fechada. Uma das questões que talvez faça sentido ser colocada é de saber que tipo de convívio se faz normalmente nas escolas. E, já agora, se fora da escola as crianças costumam conviver muito com os amigos. Ou será que essa realidade tem sido há muito substituída pelas conversas virtuais e jogos em rede online e por isso o confinamento pouco de invulgar introduziu nos modelos de convívio habituais?

O tempo que temos vivido tem sido um tempo complexo, mas coloquemos as coisas nos devidos patamares. As nossas crianças não estão a viver debaixo do uivo de bombas que em segundos podem explodir por cima delas, nem têm que fugir para o mato para que não as decapitem, nem sentem as garras da fome a rasgar as insónias, nem as arrancam dos braços das mães, nem atravessam o Mediterrâneo em barcos frágeis e irremediavelmente separadas dos pais. Os problemas emocionais e psicológicos, alguns cada vez mais de ordem psiquiátrica, existem mas derivam de outros motivos que convinha pesquisar seriamente. Aliás as patologias mentais das crianças parecem ser tema tabu preferindo-se apontar o foco nas problemáticas de aprendizagem.

Regressando ao discurso actual sobre os efeitos do ensino não presencial, tem-se ouvido falar das aprendizagens não adquiridas. Propaladas como um mantra hipnótico, elas não resultam, na prática, de nada irremediável porque não devem estar coladas aos conteúdos não lecionados porque muito mais que estes é o desenvolvimento de competências que deve ser o cerne da questão e, desse ponto de vista, há imensas actividades estimulantes e promotoras da criatividade, autonomia e desenvolvimento cognitivo em geral que se podem e devem ser cumpridas no seio das famílias e a elas já fizemos referência nomeadamente no artigo de Abril de 2020.

Mas há uma situação que nos deve fazer pensar. Quando se fala demasiado sobre o impacto emocional nas crianças fruto do confinamento não estaremos a colocar a nu uma fragilíssima capacidade de resiliência das nossas crianças e adolescentes? E essa extrema fragilidade que parece não suportar um mínimo de contrariedade não será revelador de que estamos a educar mal? A educar maquilhando os lados sombrios da vida, a educar fingindo constantemente que tudo está bem, a educar na convicção que se os resultados escolares são maus a culpa é sempre da escola e os pais tudo vão resolver com alguma pressão em meia dúzia de cartas e encontros? Estarão os pais e as escolas a preparar os filhos para terem capacidade de resistência e adaptação à mudança quando esta não é a seu gosto? A resistirem a situações adversas? A ultrapassar obstáculos?

Recentemente a psicóloga Helena Águeda Marujo afirmou em entrevista ao Público o seguinte: “Já tínhamos alguns sinais de que não estávamos a preparar as novas gerações com ferramentas psicológicas para lidarem com a frustração dor, sofrimento e incompletude”. Parece, pois, cada vez mais urgente uma profunda e descomplexada discussão sobre o que andamos a fazer com as nossas crianças e jovens e para isso é inevitável o debate sobre a profusão legislativa dos últimos anos cujo velado objectivo parece ser o da legitimação das transições a qualquer custo, o da creditação de competências e saberes não alcançados ao invés de ajudar a Escola a cumprir o seu papel. E o papel da Escola é o de dotar os jovens de competências e conhecimento que lhes permitam evoluir com robustez e sabedoria.

Ana Paula Timóteo