Educação I Regras de vestuário nas escolas: Sim ou não?

Recentemente as regras de vestuário impostas por uma escola da Amadora e exibidas num cartaz à entrada do estabelecimento de ensino, foram alvo de polémica que envolveu duras críticas de uma conhecida cantora portuguesa que usou a sua conta de Instagram para partilhar a sua incredulidade perante a atitude da escola. Decorridos alguns dias o estabelecimento de ensino resolveu retirar o cartaz o que provocou na artista uma manifestação de júbilo pelo que considerou ser uma vitória alcançada.

Este episódio vem juntar-se a outros que ao longo dos últimos anos se têm verificado e que deveriam conduzir a uma reflexão séria e ponderada, sustentada num olhar lúcido e honesto sobre o papel da Escola na educação do saber “Estar” em concordância com os contextos. Há neste episódio em apreço várias questões que justificam uma análise a começar pela decisão da escola em regular de forma mais clara o vestuário dos alunos e acabando na posterior decisão de desistir desse objectivo. Talvez faça sentido aqui referir que na generalidade dos Regulamentos Internos das escolas existe uma disposição específica quanto a este tema. Porém, dificilmente conseguiremos identificar em algum R.II. o esmiuçamento das determinações. Por norma, a narrativa legal soa a algo inócuo como por exemplo: “os alunos devem apresentar-se vestidos de forma adequada” sem que se concretize e se explicite o conceito associado a “adequado”.

A verdade é que um pouco por todo o país os alunos entram nas escolas sem que alguém faça algum tipo de reparo independentemente da forma como estão vestidos. Desta forma, tanto se pode ver os rapazes com as calças descidas abaixo das nádegas deixando a descoberto a roupa interior, como raparigas a ostentar calções do tamanho de cuecas, “tops” que rivalizam em tamanho e função com os soutiens, blusas de decotes acentuados, unhas de gel de comprimento digno de nota (mesmo no 2º ciclo) o que, neste último caso, levanta grandes dúvidas sobre o impacto na realização com segurança de actividades escolares nomeadamente em Educação Visual, Educação Tecnológica e Educação Física. Algumas das adolescentes saem já vestidas como entram na escola enquanto que outras trazem de casa a indumentária para a vestirem no WC do estabelecimento de ensino.

Para o debate desta temática interessa perceber o que motiva um jovem a entrar na escola com um determinado vestuário sem deixar que o radicalismo de algumas culturas possa trazer desconforto na discussão. Uma cultura assente na articulação equilibrada entre respeito e liberdade não deve temer o debate. Neste caso, a reflexão deverá ser transversal na sociedade sem descurar um aprofundamento científico sem preconceitos nem constrangimentos e muito menos vinculado a qualquer corrente em voga.

Confessamos a nossa perplexidade quanto ao conceito de roupa adequada aceite pela escola. Será exactamente o quê? Por que razão as escolas temem o esmiuçamento desta regra? Não deverá a Escola explicitar exactamente o que entende por adequado? Será usar lenço na cabeça e gravata ao pescoço? Será andar chinelos e calções de praia? Será andar em roupa interior? Será andar enrolado numa manta? Quem define o conceito “adequado”? Quem, se não a própria escola, o poderá fazer? Dentro de cada casa os proprietários têm o direito de definir que quem ali entra deve descalçar-se à porta. Dentro dos lugares santos, independentemente da religião em causa, há regras que quem neles entra tem que acatar. Há restaurantes onde são impostos códigos de vestuário precisos e locais de trabalho onde os mesmos não são negociáveis. A Escola, ao não definir e optar por assumir um “Nim” confuso, abstracto, lodoso, está a contribuir para alimentar um equívoco (mais um). Explicar, compreender e defender acerrimamente princípios de democraticidade e respeito não se incompatibiliza, por vezes pelo contrário, com regras impostas. As regras devem ser a garantia do respeito mútuo, um desígnio que tem que ser preservado.

A escola da Amadora, o recente alvo de mediatismo, ao publicar com clareza as regras de vestuário, fez o impensável. Nesta época em que só se admite a postura de nada proibir e nada regular em termos de comportamentos, a escola da Amadora quis clarificar o conceito de vestuário adequado e zás: caíram-lhe em cima como abutres diante um corpo isolado. Podemos discordar com as regras ou com algumas delas, mas temos que reconhecer que estamos rodeados de narrativas opacas, porosas, desfocadas, imprecisas e que se sustentam precisamente nesse marasmo de dizer o que não se quer afirmar e de tecer um padrão confuso de conceitos em que se afirma uma coisa e o seu contrário para fugir cobardemente à responsabilidade de assumir posições claras.

Discutir se a escola deve ou não regular o vestuário e exactamente em que moldes o deve fazer, é algo que pode e sobretudo deve ser discutido. Essa discussão deve envolver mais do que estados de alma porque da sua pertinência depende os alicerces em que se baseia. Não se trata apenas do que se sente que é correcto, mas das implicações presentes e futuras que o aparentemente insignificante vestuário poderá representar. Vestuário que é bem mais do que aparência, porque assume a importância de uma linguagem corporal, um código comportamental com significado.

Numa apresentação ao XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação em 2005 um conjunto de investigadores da Universidade do Minho (professores Mário de Araújo, António Cardoso e Eduardo Coquet) considerou que “com a entrada para o meio escolar, surge a influência de novos referenciais: os grupos de pares e os grupos de referência” este grupo de investigadores referiu ainda estudos efectuados por Ross e Harradine (2004) que reconhecem a importância que as crianças atribuem às marcas de vestuário e ao estilo desportivo e por Lindstrom (2003) que considerou ser um factor determinante para a auto-estima das crianças e adolescentes e aceitação entre os seus pares. A falta de estudos sobre a matéria também é assinalada na comunicação feita no referido congresso.

Posto isto, a escola da Amadora não deveria alterar a sua postura inicial porque ao fazê-lo revelou claramente uma de duas coisas: ou afixou o aviso sem ter reflectido maduramente sobre o mesmo e sem que este tivesse sido aprovado no CP o que revela amadorismo inaceitável, ou fez tudo isto, mas não teve confiança nas suas decisões e preferiu capitular à primeira investida de uma figura pública. Uma escola que dança de acordo com a música que alguém que não pertence à sua estrutura pedagógica nem é especialista em nenhuma matéria relacionada com a Educação, determina, é uma escola que lida com um problema grave de insegurança e é uma escola que se descredibiliza.

Convenhamos que talvez seja necessário começar por perceber qual o papel da Escola e reflectir se a Escola Pública estará de facto a preparar os alunos para a vida activa adulta quando, por exemplo, e no que diz respeito ao vestuário, no mercado de trabalho existem regras muito claras de indumentária.

 

Há um provérbio chinês que diz “Diz-me e eu esquecerei. Ensina-me e eu lembrar-me-ei. Envolve-me e eu aprenderei." Seria por isso sensato envolver toda a comunidade, incluindo os alunos na reflexão desta temática. Julgamos que a posição da maioria dos adolescentes iria surpreender porque essa maioria não se revê em contextos onde parece tudo valer e os regulamentos parecem não funcionar.

 

 

Paula Timóteo