Educação I O Adilson...

O Adilson é engraxador, tem 14 anos e não sabe quando é que deixou de ir à escola “a minha tia não tem dinheiro para pagar” explica sem abandonar o seu sorriso bonito, rasgado num rosto que não revela ressentimentos. O Adilson acredita que um dia há-de ser bombeiro. 

Levanta-se todos os dias às 4h da manhã para vir do Musseque onde vive, um bairro periférico de Luanda, para a cidade onde percorre as ruas até que no final do dia regressa com o equivalente a 4 ou 5 euros, se tiver tido sorte. A sua casa é um cubo com duas aberturas uma a fazer de porta e outra de janela e é composta de dois pequenos espaços separados por um pano onde coabitam 7 crianças, um jovem de 17 anos e dois jovens adultos. Duas cadeiras e uma mesa de plástico compõem o ambiente escuro e sujo. O Adilson ainda não sabe bem a dimensão da miséria em que vive porque não conhece outro destino e habituou-se a acreditar que os sapatos são para os senhores que lhe esticam os pés, e para ele, os prédios de luxo, que na baía se impõem numa manifestação infame de vaidade, fazem parte da cidade e até sente orgulho deles. Por isso, está tudo como sempre esteve e é tudo normal.

O Adilson e os dois irmãos são órfãos de pai e mãe e vivem com uma tia que apesar da sua juventude já soma 5 filhos. O jovem engraxador de sapatos é inexistente para o Estado angolano simplesmente porque não tem nenhuma documentação nem mesmo o registo de nascimento “custa dinheiro tratar dos papéis e nós não temos” diz ele com a naturalidade que a normalização dos absurdos confere. A ausência da sua identificação, interdita a frequência na escola do Estado.

O Adilson é real, não é uma personagem de ficção, nem um boneco de pano e foi pessoalmente à escola pública, mas é transparente para as entidades estatais como certamente um número impossível de contabilizar de angolanos indocumentados que mal sobrevivem num país de contrastes aviltantes. 

De madrugada, o Adilson sai em jejum para apanhar um candongueiro [i]até às ruas de Luanda. A meio do dia come o que 300 kz (30 cêntimos) conseguem pagar e à noite é o funge[ii] embrulhado em molho, por vezes com peixe, outras sem ele, que lhe disfarça a fome. “Frango? Não, madrinha, não como. Ovos? Às vezes, sim”. 

No passado dia 27 de Junho, dois professores portugueses pagaram as propinas de um ano letivo numa escola privada que existe no musseque onde vive o Adilson. O Colégio Bravo é obra de um homem do bairro que com as suas mãos e as de alguns amigos ergueu um edifício modesto de construção rudimentar e organização de espaços obediente a uma lógica que parece resultar de improviso, remediação e de sucessivas adaptações. Duas salas revelam-se despojadas de quase tudo à excepção do que parece ter sido rejeitado por outras: quadros martelados, mesas e cadeiras danificadas. Noutras duas salas de aula, só o espaço subsiste porque recentemente houve um roubo e afinal até a pobreza pode ser cobiçada. Tudo se apresenta num estado próximo do inexplicável. 

A construção da escola respondeu a uma sugestão do Estado quando apelou à iniciativa privada para colmatar o que oficialmente não conseguia suprir e talvez por isso o colégio dispense a documentação na expectativa de receber mais um aluno. Ali, o “teste de diagnóstico” para saber o ano que o Adilson irá integrar, resumiu-se à leitura de um pequeno texto que ele mal conseguiu decifrar, mas foi o suficiente para o colocar no 6º ano. O Colégio Bravo, que será a escola do Adilson no próximo ano, espelha a extrema pobreza do musseque onde nos encontramos.

No país do Adilson, existem outras escolas privadas mas com propinas que podem ser 100 a 300 vezes mais elevadas que as cobradas pelo Colégio Bravo. Nessas escolas, os alunos têm salas com projector, computador, ar condicionado, mesas e cadeiras em condições, placards onde se afixam trabalhos elaborados com material dispendioso. Nesses estabelecimento privados, os alunos usufruem de bibliotecas, laboratórios, refeitórios e bares, ginásios e campos de jogos, espaços exteriores agradáveis, professores altamente qualificados, apoio psicológico. Os alunos não trazem nos pés chinelos presos por atilhos nem a poeira colada ao corpo, mas reclamam do lanche que a empregada lhes preparou e chegam à escola no banco de trás de um carro conduzido pelo motorista da família a quem imputam responsabilidades quando se esquecem de algum material. Também comem funge, como o Adilson, mas só de vez em quando e porque gostam e não porque não têm outra hipótese e nunca saem de casa sem o aconchego de um bom pequeno almoço.

O que une e separa os Adilsons dos musseques dos Adilsons dos sapatos limpos, não é apenas a caixa de engraxador com as pomadas e a graxa que os primeiros transportam e a mochila recheada de estojos, canetas, lápis, livros e cadernos dos segundos, nem o que lhes cobre os pés. O que de mais importante os separa é a representação da escola que possuem. Para os primeiros, a escola é o melhor que o mundo tem, a possibilidade de se poderem libertar das amarras da pobreza extrema, o lugar que lhes é muitas vezes negado porque lhe é negada a identidade, a oportunidade de pousarem a caixa de engraxador e se sentam a ouvir o professor. Para boa parte dos segundos, a escola é sobretudo um pretexto de encontro social com os amigos e tudo o resto um aborrecimento que se revela no bocejo ou no tombar da cabeça na mesa durante as aulas. O desprezo pela escolaridade destes últimos, resulta da convicção de que o conforto em que vivem está garantido para sempre. Nada lhes é negado e o facto de habitarem em bolhas douradas de desconhecimento cria ilusões inevitáveis.

Uns e outros desconhecem o outro lado dos seus mundos e acreditam que pertencerão sempre ao lado em que se encontram. Nisso reside o laço que os une e só a educação pode contrariar este cenário.

As famílias dos mais afortunados têm uma responsabilidade vital neste processo porque lhes compete proporcionar aos seus filhos experiências edificantes que criem neles uma verdadeira percepção da realidade. Uma realidade que deve ser apresentada com cheiro, som e presença física, sem a proteção dos filtros ficcionais. Educar não deve apenas passar por proporcionar encontros sublimes com lugares deslumbrantes, participar em eventos culturais, ter contacto com a arte e o desporto. Passa necessariamente por retirar vendas e guiar os filhos pelos caminhos pouco almofadados em que vive grande parte da população porque a aprendizagem de um indivíduo tem que se compor de múltiplas cores e a empatia com o outro é o patamar primeiro que deve ser consolidado. E por isso, agora que estamos a iniciar o tradicional período de férias, talvez valesse a pena passar a integrar nos planos para estes meses programas de voluntariado e, nas viagens que se façam a países com praias paradisíacas, talvez fosse sensato desviar a cortina dos resorts de luxo e descobrir o lado de lá desse mundo. Da consciência social de uns dependerá o derrube das margens tenebrosas da indigência em que muitos sobrevivem.

Paula Timóteo

Paula