Educação I A exaustão...

Mulher, cobertura, olhos

A exaustão de todos numa Escola Pública  de vendas colocadas

Final de Maio e as férias escolares já batem à porta do cansaço de todos. Os professores arrastam como quem suporta grilhões, tróleis onde pilhas de testes, dossiês de turmas, manuais e computadores pessoais se apertam com dificuldade. O fenómeno destas pequenas malas de viagem que passaram a inundar as escolas, surge a par e passo com o aumento insano de ferramentas de trabalho, numa tentativa de dar resposta ao insucesso escolar, a que se soma o volumoso mundo da burocracia reinante. O que há umas décadas se resumia a uma pequena pasta, transformou-se gradualmente em malas que emprestam aos corredores das escolas um aspecto de portas de embarque num qualquer aeroporto. Ironicamente, quando se entra numa sala de aula, embarca-se numa viagem. Porém e lamentavelmente, em cada vez maior número de casos, trata-se de uma imersão ao inferno da indisciplina e insolência, onde o eclodir de episódios disruptivos, boicotadores do ensino e aprendizagem, reveladores sem pudor do desprezo pelo conhecimento, são a norma. 

Apesar de subsistirem casos de excepção, que tornam a experiência lectiva fabulosa, capaz de reacender vontades e esperanças, o quadro geral é cada vez mais grave. Uma aula devia ser sempre uma aventura de descoberta e deslumbramento, um portal de outra dimensão capaz de elevar os espíritos e criar sonhos. Infelizmente, hoje, e mesmo socorrendo-se o professor de criativas estratégias e de ferramentas aliciantes que as novas tecnologias permitem, nada parece seduzir grande parte dos alunos que só encontram satisfação em nada fazer, em nada conhecer, em nada descobrir. 

No final dos períodos lectivos e sobretudo no final do ano, tudo se avoluma com maior acidez.

“O manual? Esqueci-me stora. O caderno? Também. Não, não estou com pastilha, estou a chupar um rebuçado” e ri-se. Ri-se o Osvaldo a quem o professor perguntou, ri-se a colega do lado e depois mais 2, 3, 6 alunos como um rastilho de pólvora e, em escassos segundos, a turma toda irrompe num festival de gargalhada. Com os vestígios de paciência encontrados no fundo da alma, o professor lança a farpa explicando que o sentido de humor é um indicador de inteligência. Os alunos páram, calam-se, aparentam entender a mensagem e a aula recomeça, mas logo a Catarina deixa cair a garrafa de água que é a ignição para nova onda de risinhos, comentários, ordens berradas por alguns para deixarem o professor falar. E o professor recomeça com a voz no fio tentando retomar com o mesmo entusiasmo o que ficara por cumprir.

Por isso, não são apenas malas com rodinhas o que os professores arrastam no final do ano. Arrastam também o desespero nos gestos, a rouquidão nas vozes que já só querem silêncio, a desilusão e a revolta nos olhos sem horizontes. Arrastam a revolta, a exaustão, o desalento. 

Estamos a poucos dias do fim do ano lectivo e há quem já comente que o Setembro está próximo.  Os alunos acentuam o comportamento errático, tornam-se mais desafiantes e insolentes. Os últimos testes, na maioria dos casos, já foram realizados e para muitos alunos isso significa que as aulas terminaram porque a escola representa sobretudo apenas um amplo espaço de convívio e o único esforço dispensado traduz-se em colar na memória etiquetas de informação antes dos testes. Nas salas de professores há quem comente que os alunos estão cansados da escola. Ou seja, o síndrome de férias antecipadas está no ar. Mas será mesmo isso? E cansados de quê se cada vez os alunos trabalham menos porque lhes é exigido cada vez menos quantidade e menos qualidade? Mesmo considerando o cansaço pelo trabalho, será que, se por acaso reconhecessem a escola como um laboratório de descoberta, um lugar de crescimento, se houvesse orgulho no saber, haveria a tal exaustão que muitos assinalam como justificação para o agudizar da indisciplina?  Podia haver cansaço, mas jamais comportamentos inviabilizantes do processo de aprendizagem. Contudo, há que identificar a existência de uma saturação mais profunda e estruturante a ter em linha de conta para a compreensão dos comportamentos porque nela se inscreve parte substancial das causas quer do insucesso quer da indisciplina. Porque quando aos 14 anos já se somam 10 de escolarização, talvez seja de facto difícil manter o interesse por um espaço que limitou precocemente o natural apelo para a liberdade de brincar. 

No passado mês de Maio, na última aula dada na Faculdade de Motricidade Humana, o professor Carlos Neto, um dos maiores especialistas mundiais na área da brincadeira e do jogo e da sua importância para as crianças,começou lembrou a sua experiência enquanto aluno.

"Vim de um mundo diferente, de imaginação, de fantasia, de bem-estar, de busca de prazer, elevação, iluminação e transcendência que é o estado de espírito de uma criança”.

O que acontece actualmente, e até à entrada no 1º ciclo, é que as crianças crescem entre o casulo da casa que as protege das quedas, das esfoladelas de joelho, das chuvadas ou do sol inclemente e os outros casulos, de outras casas, como as dos centros comerciais ao domingo ou as do infantário durante a semana onde lhes é roubada a criatividade, a loucura sadia de se ser criança, e se vão aparando as asas da liberdade. E na transição entre os casulos, as crianças são transportadas em bolhas de 4 rodas.

É cada vez mais consensual a convicção de que a escolarização prematura das crianças está na base da sua posterior rejeição da escola, facto que conduz à indisciplina. A escola deixou de deslumbrar, de ser o lugar sonhado e desejado, o espaço onde se experimentava o extraordinário universo da descoberta. Quando as crianças ingressam a sua escolarização, na infame idade dos 5/6 anos, já se cansaram da escola. Aquele é um mundo que já conhecem e talvez interiormente haja mesmo lugar a um sentimento de frustração porque lhes foi amputada a primeira infância. Por outro lado, o grupo/turma por norma e se a criança continua no mesmo agrupamento de escolas, permanece junto ao longo da sua escolaridade. Desta forma, há turmas que funcionam como grupo desde os 3 anos e por isso, não é apenas a rotina escolar, os rituais de aprendizagem, o espaço físico que já não causam encantamento, é o grupo de colegas que não surpreende. Por que razão o grupo tem, forçosamente, que avançar em bloco?  Onde se treinam as competências sociais para interagir com novos grupos de trabalho? Ao longo da escolaridade nem todos os grupos se mantêm, mas é raro tal não acontecer e quando acontece é já numa fase tardia e por motivos muito especiais.

Desta forma, a sala de aula facilmente se converte na casa particular de um qualquer colega ou no pátio da escola. A cumplicidade e informalidade social transporta-se para a sala de aula confundindo espaço lúdico com espaço de trabalho. Estes dois factos são determinantes para o surgimento de comportamentos inadequados em sala de aula 

Mas as dinâmicas familiares também precisam de mudar a bem de uma melhor educação parental ao nível de princípios e valores. Manter os filhos em espaços de contenção, não apenas lhes nega a preparação para os desafios da vida, como impede o desenvolvimento da autonomia, física e mental contribuindo para desvirtuar conceitos. Por muitos clubes e actividades em que os filhos estejam inscritos, há uma dimensão da vida, o patamar da transcendência e da responsabilidade individual que se cultiva em lugares livres, em comunhão com a natureza que ficará lacunar.

O ano lectivo está a findar e, mais uma vez, o balanço é preocupante com muito cansaço e perplexidades que se avolumam sem que haja sinais de mudança porque a Política Educativa continua a viver em negação e de vendas colocadas. 

Fingir é sempre a estratégia mais cómoda para quem não está no terreno.

Paula Timóteo