Educação I A Política de Avestruz 

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São 8h10 e estamos em Janeiro. A sala tem 3 conjuntos de grandes janelas deslizantes que se encontram abertas como aberta ficará a porta da sala. À frente da sala de aula nº13 a sala 7 apresenta também janelas e portas abertas tal como as restantes 5 salas do 1º piso do pavilhão onde me encontro. Eu e os meus 26 alunos. São 26 porque faltam cinco: “o José está em casa de quarentena e o Gabriel está com covid. A Ana tem o pai com Covid e os irmãos Simões não sabemos” explicam os alunos que se atropelam na ânsia de serem os primeiros a contar as novidades.

São agora 8h15 e deslizo o olhar pela sala: uns de gorro, outros de capuz, todos de casacos vestidos e abotoados, luvas e cachecóis. Reparo que a Lara se embrulha numa manta, o Rui também tem uma pelos ombros e a Rute prefere aquecer as pernas com o que me parece ser quase um cobertor tirado da cama. O desconforto térmico das salas não é novidade. A escola está mal construída e se os Verões são de sauna com um rio de suor a escorregar pelas costas, os invernos são passados como se estivéssemos num frigorífico. Porém, as janelas abertas e as correntes de ar gelam o que antes era apenas frio. Justificam a abertura das janelas com a exigência de arejamento. Então e o tão propalado distanciamento? Ali os alunos estão dois a dois nas carteiras, trocam de livros, transportam materiais uns dos outros, emprestam material, nos intervalos juntam-se, trocam de telemóveis…

Tiro as minhas luvas porque não consigo funcionar com elas, mas sem as usar os dedos quase paralisam de frio. Começo a falar e os maxilares parecem congelados, algures numa fronteira entre a rigidez total e a sua antecipação. Faço um esforço para que o discurso saia o mais normal possível, mas sinto que pareço estar sob o efeito de uma anestesia do dentista. Das bravas…

No final da aula esperam-me, bem como aos alunos, 5 minutos de intervalo. Faço os meus cálculos e não vale a pena tentar ir à sala de professores falar com o director de turma ao mesmo tempo que tentaria aquecer-me naquela sala que por acaso é ligeiramente menos fria que os restantes espaços, fruto de um pequeno ar condicionado que não dando conta de todo o espaço ainda assim atenua os sinais de frio. Decido ficar na sala. Eu e mais meia dúzia de alunos que se afadigam num entusiasmo preocupante de volta dos telemóveis. Tomo rapidamente notas da aula que acabou e sigo para a próxima etapa.

Durante as aulas a temperatura desagradável não é o único problema sério que tenho de enfrentar. Avaliando os meus alunos, fica clara uma constrangedora falta de autonomia, dificuldades abissais em se manterem concentrados mais do que 1 ou 2 minutos, sérios comprometimentos ao nível até da alfabetização apesar de estarem no 2º ciclo, frágeis competências de interpretação e mobilização de conhecimentos. Dizem-me que o confinamento do ano anterior teve sério impacto e que estes são efeitos daquele. Não, não se trata disso, apesar das transições “administrativas” terem permitido um maior desajuste de competências correlativamente adequadas ao ano para onde o aluno transita, mas sobre isso falaremos mais tarde.

As primeiras semanas do 2º período foram assim passadas numa agonia de frio intercalada com a angústia de nos sujeitarmos à roleta russa da Covid. Num ambiente escolar das nossas escolas, escapar ao vírus é um bilhete de lotaria que só alguns terão a sorte de ganhar.  Durante estas primeiras semanas de Janeiro, a opção governativa de não prolongar a interrupção lectiva a seguir ao Ano Novo soou a irresponsabilidade. Tratou-se de uma teimosia da tutela que, ao contrário do que transmite quando diz que a vida não tem preço, considera que fechar as escolas sai financeiramente caro porque obriga os pais dos alunos até aos 12 anos a ficarem em casa desvalorizando dessa forma o primado da vida. 

Na minha escola não havia turma em que não houvesse alunos ou familiares próximos de alunos infectados. O mantra repetido à náusea de que as escolas eram lugares seguros confrontava-se grosseiramente com a realidade. A somar ao absurdo de medidas bipolares e divergentes, e que em muito contribuíram para o descrédito das mesmas e para a sua sabotagem por parte de uma população cansada de incoerências, há a registar ainda os “dois pesos e duas medidas” por parte dos delegados de saúde. Se alguém pensa que há uma só voz e um só critério a determinar a quarentena obrigatória, tenho aqui que alertar para o grande equívoco. Houve escolas onde os irmãos de um aluno infectado ou os filhos de pais infectados ficavam obrigatoriamente em casa, mas houve outras em que, dando cumprimento às ordens emanadas do delegado de saúde, tal não aconteceu e os jovens eram enviados para a escola.

 

Finalmente no dia 21 de Janeiro o governo decidiu pela interrupção lectiva durante 15 dias.  Quanto ao que acontecerá depois do dia 8 de Fevereiro, ainda não sabemos. Regressaremos ao ensino presencial? Passarão as aulas a ser realizadas via plataformas digitais? E serão todos os níveis abrangidos com as aulas on-line ou serão só alguns e, neste caso, quais?

Sejamos claros. Ninguém deseja um ensino que não seja presencial, mas existem prioridades. Desde Setembro que as escolas têm assistido a surtos e variadíssimos casos que não são difíceis de perceber dado que a dimensão das turmas não se alterou (só nos casos em que os pais têm optado por manter os filhos longe das escolas) e por isso há uma proximidade física entre alunos que não corresponde ao discurso das medidas preventivas. Defender por um lado o distanciamento e por outro afirmar que 10 cms de distância entre alunos é uma garantia de segurança é no mínimo insólito se não mesmo provocatório. O ME, na sua douta ignorância e estratégia de avestruz, não preparou o cenário mais que previsível de um aumento sério de infectados principalmente com a chegada do Inverno. A estratégia de negar repetidamente o evidente é uma manifestação de insanidade e as escolas não eram nem são um lugar seguro. Só quem não vive nelas as horas que docentes, não docentes e alunos vivem pode ter a desfaçatez de fingir que ali é possível fazer cumprir as regras impostas pela DGS. Distanciamento social? Só num qualquer canto de um universo imaginário.

Portanto sejamos honestos: a única razão para as escolas se terem mantido abertas foi o critério financeiro. Claro que nunca se ouviu nenhum responsável político afirmar que ficava caro ao país o fecho das escolas porque a honestidade não é o ingrediente base do cozinhado governativo, seja o deste governo ou de outros anteriores. É bastante mais simpático fundamentarem a decisão com a importância do Ensino presencial, da preocupação para com os efeitos negativos nas crianças e jovens de um ensino à distância do que simplesmente dizer que afinal a vida pode sim, ter um preço. Aliás se houvesse uma genuína preocupação com a formação dos jovens muita coisa teria de mudar a começar pelo currículo, modelos de avaliação e grau de exigência.

Quanto ao ensino à distância, houve tempo para se dotarem as famílias com os recursos suficientes para garantir esta modalidade de forma equitativa. Uma política de distribuição de equipamentos que teria, obviamente, que cumprir critérios rigorosos no apuramento sério das reais necessidades. A este propósito talvez valha a pena lembrar que os professores sempre disponibilizaram os seus recursos particulares em prol da escola, mesmo auferindo vencimentos que a todos deveriam envergonhar e é lamentável que, ao contrário do que se passa noutras esferas de teletrabalho, não seja garantido o fornecimento de ferramentas de trabalho onerosas. 

Em jeito de conclusão, nesta altura e qualquer que seja a opção tomada pelo Ministério da Educação quanto à forma como irá decorrer o resto do ano lectivo a partir do dia 8 de Fevereiro, era salutar que fossem ouvidas as organizações que representam os professores porque estes têm que ser auscultados e levadas a sério as suas apreciações e preocupações  já que são eles e não os ministros que estão no terreno e melhor que ninguém sabem da capacidade real de aplicação de medidas protocolares de prevenção.

Fica entretanto um conselho e sugestão ao universo estudantil e famílias que vivem estes tempos complexos: não dramatizem este afastamento físico com a escola e aproveitem para ler e ler bem, ouvir boa música, ver bons filmes, conversar, conversar bastante e aventurem-se no mundo da culinária, da pintura, da moldagem, da escrita, do teatro porque a criatividade pode ser desenvolvida em múltiplos contextos e ela é verdadeiramente fundamental para o progresso da humanidade.

Ana Paula Timóteo

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