Educação I O que temos a aprender com os pais do Noah

Recentemente o país mobilizou-se com o desaparecimento de uma criança de pouco mais de 2 anos em Proença a Velha. Após mais de 30 horas de deriva e com um crescendo de preocupação a temer o pior, eis que a criança é encontrada e outro nível de narrativa surge nas redes sociais e meios de comunicação, afastada que foi a hipótese de crime. A tónica era agora avaliar a responsabilidade parental nesta fuga impulsionando um outro nível de discussão sobre as fronteiras que dividem a educação para a autonomia e a de uma educação negligente. Como as definir e identificar? Onde acaba a supervisão e começa o superproteccionismo? Onde acaba o estímulo à independência e começa o desleixo? E será que o ambiente conta? Parece existir algum consenso de que fora das cidades há melhores hipóteses das crianças se tornarem mais precocemente desenvoltas e desenvolverem maior agilidade motora em relação às que vivem nas cidades.

“Não se pode comparar uma criança habituada ao meio rural com uma, da mesma idade, que habita um 5.º andar de uma cidade”, considera o professor Carlos Neto, um dos maiores especialistas mundiais acerca da importância da brincadeira e do jogo no desenvolvimento infantil, citado numa publicação do Publico digital afirmação que vem ao encontro da ideia de que ambientes que ofereçam maior exposição ao ar livre em comunhão com a natureza potenciam destrezas. Claro que no caso em concreto muitos argumentarão que uma criança com dois anos e meio não passa de um quase bebé que ainda não conseguiu desenvolver competências cognitivas para poder evitar perigos ou resolver problemas. 

Em todo o caso, há no episódio da fuga desta criança algo que inevitavelmente nos deve fazer pensar. Noah sobreviveu não apenas porque teve sorte, apesar de sabermos que esta não lhe faltou. Pelas informações que foram sendo divulgadas esta criança estava habituada a sair na companhia da cadela para ir ter com o pai o que parece demonstrar um nível de desenvolvimento motor e de autonomia precoce se pensarmos nas crianças que crescem em andares, mas menos inusitado nas que vivem em ambientes abertos, em íntima relação com a natureza e com uma maior liberdade de movimentos. Nestes contextos, o crescimento faz-se com as esfoladelas e arranhões próprios de quem trepa umas árvores ou descobre a felicidade de correr a céu aberto. Crianças que crescem assim ficarão mais preparadas para se desenvencilharem de situações difíceis, reencontrar regressos, optar por segundas soluções, improvisar estratégias e mais dificilmente entrarão em pânico, o pior dos inimigos em caso de perigo.

Quando se é professor numa escola numa grande cidade, convive-se diariamente com a falta de autonomia motora dos jovens que com demasiada frequência torcem os pés nas aulas de Educação Física, se cansam com uma corrida de 300 metros, exigem aos brados e num choro convulsivo gelo para o joelho, porque o arranharam. Os jovens de hoje telefonam com frequência para os pais os virem buscar à escola porque lhes dói a barriga, a cabeça, o dedo, o pé ou o braço. Quem frequentou décadas atrás o ciclo preparatório e liceu e se acaso teve algum colega de muletas, certamente se lembra bem do caso porque canadianas só eram usadas em casos de pernas engessadas e eram assim o passaporte para o estrelato na escola. Pés torcidos…quem se lembra de algum? Hoje, já ninguém repara em auxiliares de marcha tal é a frequência com que são vistos nas escolas. 

Mas, como resolver esta questão se não vivemos no campo? Como potenciar a agilidade física? A prática de uma modalidade desportiva deveria ser encarada não como prémio ou, retirando-a, como castigo, mas como uma vertente vital no desenvolvimento equilibrado de uma criança e jovem. A inclusão da actividade física ou desporto na agenda semanal das crianças não exige grande investimento financeiro. Uns ténis e roupa confortável é quanto basta para umas caminhadas nos arredores, subindo colinas, descendo declives, ultrapassando obstáculos, somando quilómetros, ou uma iniciação à corrida em zonas pedonais ou um jogo de futebol com amigos. O importante mesmo é o estabelecimento de rotinas de actividade física porque esta trará benefícios quer ao nível do desenvolvimento da agilidade motora, quer na manutenção de níveis de flexibilidade que tendem a se perder com o tempo. Mas tão importante como os aspectos físicos estão os não tão visíveis como seja educar a capacidade de resistência ao esforço, gerir a frustração, ultrapassar a preguiça, aumentar os níveis de concentração, melhorar a capacidade de análise e raciocínio, optimizar competências sociais.

Para além do desporto era igualmente fundamental que os pais começassem a perceber que os filhos não são de cristal, que devem ser mobilizados nas tarefas domésticas incluindo as compras e que a resistência física também se promove nas deslocações para escola que devem ser feitas a pé. Os alunos frequentam habitualmente a escola da sua área de residência, mas por norma os pais levam-nos de carro até ao portão mesmo que esteja em causa um percurso de menos de 2kms. Não devemos, pois, descurar as pequenas rotinas porque é com elas que também se constrói a autonomia. 

Regressando ao Noah, o que se deve concluir com este episódio de final feliz não é apenas que a família desta criança deverá passar a trancar as portas para impedir novas fugas, mas o facto maravilhoso do Noah ter sobrevivido porque os pais não o mantiveram numa redoma de excessiva protecção nem o limitaram a um ambiente totalmente protegido. Ao lhe terem oferecido uma integração saudável com a natureza os pais do Noah prepararam-no para enfrentar um dia e uma noite a vaguear sozinho por caminhos que o campo oferece.

 

Paula Timóteo

Criança fazendo ioga