Educação I A condescendência com a ignorância

Junho é o mês em que se celebra Camões, Portugal, as Comunidades Portuguesas e a Língua Portuguesa e talvez faça sentido que se vá mais além do que as habituais celebrações e discursos inflamados sobre os pergaminhos da nossa identidade nacional. Será que somos de facto um país que se orgulha de si próprio? Se assim é, por que razão a Escola Pública caminha há tanto tempo em terreno pantanoso rumo ao desastre apenas porque não se confia nos portugueses que a constroem diariamente e opta-se constantemente por opções importadas? 

Este deveria ser o mês de reflectirmos de forma descomplexada e profunda o sistema educativo português, a Escola Pública e o que se passa para lá dos rankings e das estatísticas. Porque tanto uns como outros podem servir para muita coisa, mas nunca explicarão a realidade vivenciada por quem vive no terreno nem ajudarão a sobreviver uma Escola intelectual e conceptualmente honesta e comprometida com o futuro. 

Quando nos tornamos pais, muitas incógnitas, dúvidas, incertezas entram nas nossas vidas agarradas às mantas protectoras do nosso bebé, da nossa criança, do nosso jovem filho. Ser mãe ou pai é uma condição de vida, uma nova pele e novo olhar, uma nova luz e uma nova respiração passam a fazer parte do nosso ADN. O que julgávamos certo e inquestionável, torna-se nebuloso enquanto descobrimos num processo de deslumbramento sentimentos que desconhecíamos. Dia após dia damos por nós a colocar em causa muitas das nossas antigas convicções e bandeiras, a temer estarmos errados e a dizer mais vezes a palavra “não” e a lembrarmo-nos dos “nãos” dos nossos pais e finalmente compreendermos o quanto eles nos amam. 

Ser pai ou mãe é ultrapassar em definitivo a fronteira que nos colocava do lado exclusivo de sermos filhos, a tal margem serena e tranquila que só descobrimos que o era depois da parentalidade. Gerir as emoções com a racionalidade, as relações interfamiliares, dominar o medo da perda alimentando a autonomia que se deseja ver nos filhos, tudo é complexo e percebemos que a grande aventura das nossas vidas não tem apenas planaltos e planícies de sol ameno e sombras refrescantes, mas subidas íngremes e pedregosas, dias de chuva intensa e muito cansaço no corpo e na alma.

Uma das questões mais forte no capítulo das preocupações parentais é, e neste momento talvez mais do que nunca, a que se prende com a escolarização. A escolha da creche, infantário, escola de ensino básico, secundária e finalmente a universidade revela-se cada vez mais inquietante. Que escola? Que cultura de escola desejamos? Que projecto educativo esperamos encontrar numa escola? Devemos confiar no que nos dizem? Quando devemos colocar o nosso filho numa creche? Será que fazemos bem em autorizar o início da escolaridade aos 5 ou 6 anos? E que grau de exigência a instituição de ensino (seja do 1º ciclo ou ensino superior) nos garante? Que fórmulas de regulação são adoptadas? 

Vamo-nos focar no ensino básico onde há muitos anos demasiados equívocos têm sido alimentados por importações acríticas de modelos educativos externos, de pareceres subscritos por académicos sem nenhuma tarimba no terreno, de estudos de “especialistas” de gabinete, de jogos e interesses de política governamental.

Santana Castilho, dos poucos académicos que pensa de forma inteligente sobre Educação e muito provavelmente o autor com mais obra realizada sobre o tema, publicou no passado dia 26 de Maio na sua habitual coluna no Público que “a indisciplina, a violência (física e psicológica) de uns quantos sobre muitos, cobardemente ignorada ou escondida pelos responsáveis, a começar pelo Ministro da Educação, é o fenómeno que mais prejudica a qualidade do ensino público” E é um facto, que foge por vezes ao conhecimento de muitos pais, que as aulas têm por vezes interrupções de 30 em 30 segundos quebrando de forma irremediável o fio condutor de um processo.  Convenhamos que as interrupções acontecem quando o professor não é permissivo caso contrário pode haver contextos onde não há interrupções mas onde os que desejam ouvir o que lhes é dito e ensinado e desejam participar, são engolidos na onda do ruído mais ou menos subtil mais ou menos histriónico dos colegas de turma.

Diz ainda Castilho que “a delirante propaganda dos actuais responsáveis acerca de uma inclusão que não existe agravou a tendência para abafar a indisciplina endémica. (…) No jogo de enganos em que se transformou o nosso sistema de ensino, os professores têm fome de sentido para a sua verdadeira profissionalidade.”  Convenhamos que quando a profissionalidade está em causa está tudo em causa porque aquela assenta em princípios éticos e de honestidade intelectual e se estes não se cumprem então o professor não pode exercer a sua função.

Actualmente, e sob a falsa bandeira da inclusão, aos alunos com comportamentos desajustados e perturbadores, que inviabilizam de forma inequívoca o processo de ensino-aprendizagem, quase tudo é permitido e a expulsão de sala tem que ser extensamente justificada sem que posteriormente ocorra alguma consequência eficaz. Todo o processo ocupa tempo, muito. Primeiro são as sucessivas chamadas de atenção, depois a procura de um funcionário que acompanhe o aluno, a resistência deste em acompanhar o funcionário, a indicação de tarefa, o preenchimento de um documento e mais tarde a elaboração da respectiva participação disciplinar. Se houver mais do que um elemento perturbador (e normalmente as turmas têm mais do que um) e demorarmos cerca de 5 minutos (num cenário optimista) por cada aluno na última fase de saída de aula ou seja, sem contar com interrupções, é fácil contabilizar e avaliar o prejuízo alcançado sem nos determos no impacto negativo exercido no professor que interrompe constantemente o seu raciocínio, que precisa de readaptar o plano de aula e manter níveis de calma e concentração que garantam aos restantes alunos o melhor de si próprio. 

A somar à questão grave e galopante da indisciplina em sala de aula, validada por alguns pais que acusam abertamente o professor ou professores queixosos de perseguição ao seu educando e prática de injustiça, temos a escandalosa condescendência com a ignorância. Mais uma vez o conceito velhacamente esgrimido da escola inclusiva mais não serve do que, não para incluir num sistema educativo de qualidade e de forma igualitária todos os que a ele têm direito, para fazer baixar os níveis de exigência para padrões aviltantes.

“O corolário do saber espontâneo, onde o professor cuida, mas não ensina nem exige, e sofre, é o da criança que aprende o que pode, é o dos professores que não se chateiam, a culpa é dos miúdos, deixaram de a forçar (com pedagogias de ensino e não de mediação) a aprender porque isso é uma "violência". Passámos da reguada - política de um ensino ditatorial sem pedagogia, à "liberdade" de ser ignorante, livres para não saberem nada. É isso que espelham também os rankings”. Quem o afirma é a historiadora Raquel Varela autora de um estudo sobre o desgaste da profissão docente e de inúmeras publicações sobre a Educação em Portugal e é ainda Raquel Varela que lembra que “a escola é um lugar para ensinar conhecimento. Não é um jardim de infância nem um armazém de crianças.” Conceitos que têm vindo sendo adulterados com os jardins de infância a iniciarem precocemente a escolarização e a escola a infantilizar quem deve ser escolarizado.

Por isso é urgente repensar a escola e equacionar esta desconstrução de um modelo que se tornou aberrante e acaba por ser uma caricatura do que gostaria de ser e nunca o será.

A Escola está doente e a responsabilidade, como aponta o professor Galopim de Cavalho reside na “inexistência de uma política de educação consertada entre governos e oposições, pensada a duas, três ou mais legislaturas, que envolva a escolha criteriosa dos titulares da respectiva pasta.” Porque é um sinal preocupante o acto desastroso de entregar a pasta de um ministério desta importância estratégica para o futuro a um qualquer rapaz que nem bem-falante é. 

Para disfarçar a ineficácia de um Ministério da Educação que soma incompetência há décadas surge então o discurso politicamente correcto da “inclusão” pretexto para que todos transitem de ano, mesmo sem aquisição de saberes e competências prévias, e para se apontarem armas contra os professores sempre que os objectivos traçados para o “sucesso” numérico da escola não sejam alcançados.

Parafraseando Almada quando dizia que quando ele nascera “as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade", atrevemo-nos a dizer que para salvar a Escola já tudo foi dito por quem sabe do assunto, falta só fazê-lo, falta apenas a vontade, integridade e coragem política para o fazer. Sem narrativas demagógicas.

 

Paula Timóteo